O ponto de saturação da ordem do capital: a violência contra o ser social

 
André Mayer
(Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)/  Liga dos Comunistas, Núcleo de Estudos Marxistas (CNPQ)
andremayer@terra.com.br
 
Introdução
Tendo como tema central as relações sociais capitalistas, o objeto deste artigo aborda as relações sociais "reificadas". A investigação procurou reproduzir como se desenvolve a determinação dominante nas relações sociais contemporâneas - a reificação - e explicitar a determinação destas relações sociais na constituição da barbárie - material e espiritual - que violenta, que mata a vida do ser social.
Esta determinação é imperativa para a consolidação da ordem do capital. A permanência do capital enquanto "sistema de controle do metabolismo social" deve-se a centralidade da reificação na constituição da atual sociabilidade. A superação deste sistema torna-se muito mais difícil com a reificação das relações sociais, pois esta tende a se expandir.
1. A reificação das relações sociais
Em um texto singular - "O método da economia política" - Marx busca, em sua talentosa aproximação com a literatura, a inspiração para demonstrar o quanto o capital domina tudo. "É uma luz universal de que se embebem todas as cores, e que as modifica em sua particularidade. É um éter especial, que determina o peso específico de todas as coisas emprestando relevo ao seu modo de ser". (Marx, 1982:16).
Segundo Georg Lukács os enunciados concretos de Marx, devem ser compreendidos como enunciados diretos sobre certo tipo de ser, são, portanto, afirmações ontológicas. As categorias da produção material da vida são determinantes, possibilitando assim uma reprodução ontológica do ser social sobre bases materialistas e a realidade social apresenta-se enquanto critério último do ser ou não-ser social de um fenômeno.
A ontologia marxiana do ser social exclui a transposição simples e vulgar, das leis naturais para a compreensão da sociedade. Ao reportar está reflexão para o âmbito das "análises econômicas", Lukács aponta que, para a concepção burguesa, a economia é uma "mera ciência particular", na qual a dinâmica econômica, com seus respectivos fatos econômicos, é isolada de todo um complexo que forma e constitui o ser social e as relações sociais como totalidade. Estes fenômenos econômicos passam a ser analisados de forma isolada, fragmentada, como se cada parte tivesse "estatuto próprio", relacionando-os com outros setores também observados isoladamente e de modo igualmente artificial - direito, sociologia, política, etc. A perspectiva da totalidade é eliminada da investigação científica e a investigação das partes isoladas deve ser a referência primordial para se compreender a realidade social, e o resultado desta investigação é apresentado como lei eterna e natural para toda a sociedade.
Ao contrário, a teoria social construída por Marx tem por base a reprodução ideal do movimento real do objeto, tendo sempre em vista a totalidade das relações sociais do ser social.
Marx atentou para a relação entre o homem e a natureza, levando sempre em consideração que o ser social e a sociedade por ele construída é historicamente determinada. Para a compreensão da "totalidade" da sociedade, Marx parte da produção material da vida e descobre que esta produção consiste em uma relação permanente dos homens com a natureza, e que pra esta relação, o trabalho é a categoria central. 
Através do trabalho, afirma Marx, o próprio homem que trabalha é transformado pelo seu trabalho e ao mesmo tempo, ao atuar sobre a natureza, modificando-a, modifica também a sua própria natureza. A natureza fonte dos objetos fundamentais que serão transformados para a realização do trabalho. Essa mesma natureza também é fonte dos meios - meios de trabalho - que juntamente com os objetos, constituem os meios de produção. Os meios de produção e o trabalho - o trabalhador - apontam o conjunto das forças produtivas.
Para Lukács, o homem torna-se um "ser que dá respostas". Na medida em que o homem trabalha, ele transforma em perguntas suas próprias necessidades e projeta quais as possibilidades de efetivá-las. Esse processo de ser e de conceber, buscando atender as suas necessidades, às suas perguntas, é traço fundante do ser social e enriquece a sua própria atividade ao se relacionar com a natureza, mediada pelo trabalho.
Com o trabalho, e o seu processo historicamente determinado, potencializa-se a possibilidade do desenvolvimento dos homens que trabalham. Mas estes não conseguem perceber todas as circunstâncias que envolvem o processo de trabalho, nem de todas as suas conseqüências.
Mas na sociedade, não existe só a atividade do trabalho. Existe também um conjunto, de objetivações, de ações humanas, que envolve uma série de atividades que coroam o "existir social" - a práxis. O trabalho, por ser uma categoria social, é o elemento determinante da práxis, mas não o único. Ele existe como um dos atores deste complexo dialético que constitui o conjunto das relações sociais. Além do trabalho, a vida social contém uma enorme variedade de atividades - espirituais, afetivas, culturais, sexuais - voltadas para atender às necessidades que brotam do desenvolvimento das relações sociais e as mesmas sempre se articulam ao trabalho, como categoria determinante.
Para Marx há uma distinção fundamental no processo de trabalho na ordem do capital.  Se o trabalho, presente em todas as formas de sociedade, é a categoria fundante e central que constitui o ser social, como criador de valor de uso para atender as necessidades vitais deste ser; como atividade de transformação do real pela qual o homem constrói, concomitantemente, a si próprio como indivíduo e a totalidade social da qual é protagonista; e portanto, a categoria decisiva da elevação dos homens para níveis cada vez mais elevados de sociabilidade; na ordem do capital, o trabalho (trabalho abstrato) torna-se uma atividade social mensurada pelo tempo de trabalho socialmente necessário e produtor de mercadoria - mais-valia, submetendo os valores de uso à valorização do valor; potencializa  a submissão do ser social à ordem burguesa e ao "sistema de mercado" capitalista, complexo social que transforma as nossas relações sociais em relações sociais reificadas - coisificadas - articulando nossas vidas pelo processo de alienação específico da ordem do capital -  pelo fetichismo da mercadoria.     
É preciso desmistificar a ilusão fetichista da ordem do capital, cuja função consiste em mascarar a realidade que envolve todos os fenômenos da sociedade, porque nesta ordem societária, as determinações das formas fetichistas das objetividades humanas (construções sociais e historicamente determinadas) têm a função de dar aos fenômenos a aparência de serem supra-históricos e de que não existe nada além desta superficialidade.
Na luta contra o fetichismo e contra a coisificação das relações sociais, é importante que o ser social assuma a consciência de si mesmo como sujeito histórico. Uma vez percebido o funcionamento essencial da realidade, os fenômenos próprios da alienação presentes na ordem do capital - o fetichismo da mercadoria e a reificação das relações sociais - aparecerão não mais como expressões misteriosas e exteriores ao ser social, mas antes como construtos humanos passíveis de transformação. Para Lukács, o proletariado é o agente singular nesta transformação e a referência fundamental para o conhecimento da totalidade da sociedade.
Para István Mészáros a idéia central do sistema de Marx é sua crítica da reificação capitalista das relações sociais de produção, a alienação do trabalho através das mediações reificadas do trabalho assalariado, propriedade privada e troca. Segundo Marx (1983:70), "(...) a mercadoria (...) é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas (...). O caráter místico da mercadoria não provém do seu valor de uso". O caráter místico da mercadoria provém desta forma mesma do produto do trabalho humano, não mais produzido somente como valor para o uso necessário à sobrevivência humana, mas como valor para a troca mercantil, necessária para a sobrevivência do sistema de mercado.
O misterioso da forma mercadoria consiste (...) no fato de que ela reflete aos homens as características do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos do trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. (...) Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de relação entre coisas (...) (Marx, 1983:71).
Para Marx, na ordem do capital, com a consolidação da produção para o mercado, as relações sociais - a sociabilidade - acontecem neste espaço em que as pessoas (os produtores) entram em contato social sob o manto protetor da "mão invisível" do sistema de mercado.
Como os produtores somente entram em contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca (...) os trabalhos privados só atuam, de fato, como membros do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre os produtores. Por isso, aos últimos aparecem as relações sociais entre seus trabalhos privados como o que são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pessoas e relações sociais ente as coisas. (Idem)
Segundo Lukács, por várias vezes se realçou a essência da estrutura do capital, que assenta no fato de que a relação entre as pessoas toma o caráter de "coisa", e ser, por isso, de uma "pseudoconcreticidade", que dissimula todo e qualquer traço de sua essência fundamental: a relação entre o ser social. Lukács quer chamar a atenção para as questões essenciais que decorrem, por um lado, do caráter fetichista da mercadoria como forma de objetividade, por outro, do comportamento do ser social que está sob o controle de todo o processo de alienação.
A questão do fetichismo para Lukács é uma questão específica do capitalismo moderno. Para ele, trata-se de saber em que medida as relações mercantis suas consequências estruturais são capazes de influenciar toda a vida da sociedade, pois na ordem do capital, as relações mercantis dominam e exercem uma influencia decisiva sobre todas as manifestações da vida.          
A forma mercantil deve (...) penetrar o conjunto das manifestações vitais da sociedade e transformá-las á sua imagem, em vez de estabelecer apenas uma ligação exterior entre os processos, por si mesmos independentes dela e orientados para a produção de valores de uso. (Lukács, 1974:99)
Só como totalidade, enquanto categoria autêntica da realidade, é que a mercadoria e as relações mercantis podem ser compreendidas na sua essência autêntica. Só neste contexto, a reificação, surgida das relações postas pelo sistema de mercado na ordem do capital, adquire um significado decisivo, tanto para o desenvolvimento da sociedade como para a ação dos homens em relação à mesma[1].
A universalidade da forma mercantil condiciona, pois, tanto no plano subjetivo como no plano objetivo, uma abstração do trabalho humano que se objetiva nas mercadorias (...). Objetivamente a forma mercantil só se torna possível como forma de igualdade, de permutabilidade de objetos qualitativamente diferentes  se se considerarem esses objetos como formalmente iguais nesta relação, a única sob a qual, como é óbvio, adquirem  a sua objetividade de mercadorias. Assim, o princípio da sua igualdade formal só pode fundamentar-se na sua essência como produtos do trabalho humano abstrato (formalmente igual). Subjetivamente, esta igualdade formal do trabalho humano abstrato não é apenas o denominador comum a que se reduzem os diferentes objetos na relação mercantil, torna-se também o principio real do processo efetivo de produção das mercadorias. (Idem: 101)
O importante é a compreensão racional de todo o processo de trabalho na ordem do capital. A compreensão racional deve, pois, desmistificar por um lado, o processo fragmentado de trabalho, que está sob o domínio privado, e desmistificar o processo de alienação imposta às experiências concretas do trabalho e aos produtos deste trabalho. Em segundo lugar, esta fragmentação do objeto da produção é também necessariamente a fragmentação do ser social, que não aparece como condutor do processo de trabalho e sim como parte atomizada de um sistema mecânico apto a funcionar com total independência do ser social, a cujas leis têm que se submeter.
A separação entre o produtor e os seus meios de produção, própria ao processo de trabalho na ordem do capital. A separação entre o produtor e os seus meios de produção, própria ao processo de trabalho na ordem do capital, implica que os valores de uso estejam aptos a satisfazer as necessidades da sociedade e que se desenrole sob a forma de relações mercantis.
Para a consciência reificada, as formas assumidas do capital (em especial hoje o capital financeiro), frutos da exploração, da extração da mais-valia, transformam-se nas verdadeiras referências das relações sociais desse "sistema de controle do metabolismo social" como formas autônomas e autênticas e não como pseudoconcretas do sistema do capital.
A anatomia da mercadoria e do sistema de mercado aparece na sua forma necessária como uma representação que a consciência reificada não tenta superar, antes ao contrário, se esforça por fixar e eternizar. Como a ordem do capital se produz e reproduz econômica, social e espiritualmente a uma escala cada vez mais global, a estrutura da reificação penetra cada vez mais contínua e profundamente na consciência do ser social.
A separação entre os fenômenos da reificação, da coisificação, do fetichismo e da alienação e os fundamentos materiais e espirituais da sua existência é ainda franqueada porque este processo deve englobar necessariamente o conjunto das relações sociais, em todos os lugares e em todas as formas de manifestação da vida social para que se achem preenchidas as condições de uma produção capitalista de pleno rendimento. Assim, a evolução capitalista criou um direito estruturalmente adaptado à sua estrutura e um Estado correspondente.
Para José Paulo Netto, em Capitalismo e Reificação.
Enquanto a organização capitalista da vida social não invade e ocupa todos os espaços da existência individual, como ocorre nos períodos de emergência e consolidação do capitalismo (capitalismo comercial e industrial-concorrencial), ao indivíduo sempre resta um campo de manobra ou jogo, onde ele pode exercitar minimamente a sua autonomia e o seu poder de decisão, onde lhe é acessível um âmbito de retotalização humana que compensa e reduz as mutilações e o prosaísmo da divisão social do trabalho, do automatismo que ela exige e impõe, etc. Na idade avançada do monopólio, a organização capitalista da vida social preenche todos os espaços e permeia todos os interstícios da existência individual: a manipulação desborda a esfera da produção, domina a circulação e o consumo e articula uma indução comportamental que penetra a existência dos agentes sociais particulares - é o inteiro cotidiano dos indivíduos que se torna administrado, um difuso terrorismo psico-social se destila de todos os poros da vida e se instila em todas as manifestações anímicas e todas as instâncias que outrora o indivíduo podia reservar-se como áreas de autonomia (a constelação familiar, a organização doméstica, a fruição estética, o erotismo, a criação de imaginário, a gratuidade do ócio, etc.) converte-se em limbos programáveis. (...) A osmose generalizada desta lógica institucionaliza até os ‘mundos paralelos’ – ela os instrumentaliza a todos, inclusive aqueles que se arrogam o projeto de um romântico escapismo.  (Netto, 1981: 81-82).
O termo “osmose generalizada” (da lógica do capital), apresentado por Netto, apesar de sua correção analógica, parece-me não simbolizar as terríveis conseqüências advindas desse processo, tão bem sintetizado no texto acima.  Penso que se trata mais de uma metástase - "disseminação de focos de um tumor" - que devora a vida material, cultural e espiritual de seus hospedeiros, matando-os definitivamente ou deixando-os em "estado vegetativo". Apresenta-se enquanto uma possibilidade real e concreta de crescimento sócio-econômico para todos, mas possui um mecanismo interno estruturalmente excludente, mecanismo este, que não leva em conta as necessidades fundamentais do ser social. Para conseguir tal façanha impinge um processo brutal de alienação à sociedade, através do fetichismo da mercadoria; um processo que não se localiza somente na esfera da produção, mas que permeia todas as relações sociais, através da "coisificação" dessas relações.
           
Netto define assim o processo da alienação:
(...) complexo simultaneamente de causalidades e resultantes histórico-sociais, desenvolve-se quando os agentes sociais particulares não conseguem discernir e reconhecer nas formas sociais o conteúdo e o efeito de sua ação e intervenção; assim, aquelas formas e, no limite, a sua própria motivação à ação aparecem-lhes como alheias e estranhas. (...) o processo pelo qual os sujeitos (os indivíduos, os agentes sociais particulares) se desapossam de si e de sua atividade criadora na medida em que não conseguem captar as mediações sociais que os vinculam à vida social em seu conjunto e dinamismo (...).  (Idem: 74-75).
A novidade da sociedade burguesa constituída é que ela instaura um novo processo de alienação - o fetichismo - e que este redunda em "formas alienadas específicas", as coisificadas (ou reificadas).
Segundo Netto, Marx consegue determinar a especificidade da alienação na sociedade burguesa constituída a partir da análise na qual o fetichismo não está presente somente na produção mercantil, mas se reproduz em todas as relações sociais – “porque esta sociedade está inteiramente mercantilizada[2]”.
O fetichismo que Marx conceptualiza depois de 1857-1858 consiste precisamente nisto: é através dele que os processos alienantes emergentes na sociedade burguesa constituída têm a peculiaridade de se concretizar em projeções substantivas objetuais - redundam na reificação das relações sociais. (...) é situar a reificação [coisificação] posta pelo fetichismo, como a estrutura específica da alienação que se engendra na sociedade burguesa constituída. (Idem: 80).
O que ocorreu foi o processo de universalização da dinâmica própria ao modo de produção do capital, dinâmica esta, que penetra as relações, não só de produção, mas também de reprodução social. [3]
O caráter de coisa que as relações sociais adquirem na forma mercadoria é, agora, o caráter das objetivações humanas: elas coagulam numa prática social que os agentes sociais particulares não reconhecem como sua. O fetichismo mercantil passa a ser fetichismo de todo o intercâmbio humano. (...) O que se manifesta é a pura positividade[4]. Como Marx diria, o fetichismo acabado e o acabamento do fetichismo.  (Idem: 85).
3. Reificação e barbárie
Reificação e barbárie. Brutalidade e sutileza de uma relação. O cotidiano: a "pseudoconcreticidade" em sua forma bruta e imediata. A totalidade concreta: em sua forma sutil e essencial. Brutalidade e sutileza que se acham e se combinam como expressão real e concreta de um movimento único. A produção e reprodução do ser social na ordem do capital. Relação bárbara. Relação reificada. A brutalidade dá suporte à sutileza, ao mesmo tempo em que a sutileza sustenta a brutalidade.
Poderíamos ficar especulando e estabelecendo as mais variadas relações e perceber as situações em que se evidenciam e se materializam a barbárie. Falar da barbárie é desfazer a sua obviedade. É trazê-la à luz para que todos percebam as consequências do sistema econômico opressor ao qual estamos submetidos.
A manipulação ficou tão ostensiva por parte dos defensores da ordem do capital, que se torna importante estudar as formas concretas que essa ordem societária vem se movimentando. É necessário captar de que modo os "credos" desse "sistema de controle do metabolismo social" se estruturam para conseguir se perpetuar.
A concepção econômica própria à ordem do capital possui pressupostos fundamentais, mas, quanto à questão das condições de existência material e espiritual do ser social, esta concepção guarda um silêncio bárbaro.
São condições materiais de existência como: alimentação, habitação, vestuário, saúde, cultura, lazer, meio ambiente, que não são contabilizados como variáveis necessárias ao acúmulo do capital. Nenhum problema da vida real deve ser considerado. Os problemas da vida real não fazem parte do desenvolvimento desta ordem societária.
Os defensores dessa ordem sugerem que a "racionalidade desse sistema" trabalha com "variáveis exclusivamente econômicas". Esta racionalidade declara haver descoberto o único princípio - o do interesse próprio - com base no qual se pode ser economicamente "racional". Pode-se dizer que a aposta incondicional neste interesse próprio é a "defesa da liberdade" e, com isso, a exclusão de qualquer concepção diferente de liberdade. Vale acrescentar que este é o único caminho possível para fazer algo de proveitoso em "favor de seus semelhantes".
Na economia burguesa a questão é ser, suficientemente humilde, confiante e sempre atento aos imperativos da racionalidade econômica. Quem procura fazer isto não deve temer. Quando a fé no paradigma de mercado conseguiu avassalar as mentes e os corações, a solução dos problemas sociais ficou entregue, basicamente, aos próprios mecanismos do mercado - anulação por absorção.
Aparece a exclusão explícita de uma busca, coletivamente participada, das metas sociais prioritárias e uma anulação prática dos temas sociais mais candentes, mediante o dogma de que nos é impossível adquirir certeza e consciência acerca de objetivos deste tipo, devendo ser confiada a sua melhor efetivação à própria lógica dos mecanismos do mercado capitalista.
O sistema de mercado capitalista incorpora teorias sacrificais e aponta caminhos únicos, que se legitimam com promessas messiânicas. O custo em vidas humanas se transforma em sacrifício necessário. A exigência do sacrifício de vidas humanas é parte constitutiva do atual "sistema de controle do metabolismo social".   No que implica o fato de que a natureza (recursos naturais) e o homem (trabalhador liberado e exposto ao mercado de trabalho) sejam considerados como mercadorias? Significa que homem e natureza se incorporam ao capital e à sua lógica, pois este só utiliza o que lhe é de proveito. O que não é "empregável" fica, logicamente, sacrificado.
 
(...) o sacrifício humano que realiza a sociedade burguesa recebe duas referências. De um lado, trata-se de um anti-sacrifício, através do qual os sacrifícios que produz o despotismo se fazem férteis para a sociedade burguesa. De outro lado, trata-se de sacrifícios necessários para tornar possível um progresso, cuja conseqüência seria que a vida humana será sempre mais respeitada. Todos estes sacrifícios são apresentados como sacrifícios mediante os quais surgirá uma sociedade sem sacrifícios. (Hinkelammert, 1995: 34).
O sacrifício humano transforma-se em obrigação moral (a dívida externa, por exemplo). Comete-se o genocídio exatamente por se ter consciência moral. Constrói-se uma moral que necessita de sacrifícios humanos.
A realidade da pobreza, desemprego, destruição do meio ambiente e outras que afetam diretamente as condições de vida dos seres sociais, devem ser solucionadas pela ampliação e consolidação dos mecanismos de mercado pela ordem do capital. As necessidades têm que se adequar ao mercado e não o contrário Crê-se de uma maneira verdadeiramente religiosa que apenas mais mercado pode solucionar estes problemas. Qualquer compromisso com a vida humana concreta, a qual já não é nada mais do que subproduto da totalização das relações mercantis capitalistas, pode ser relegado às migalhas que caem da mesa da premência do sistema de mercado.
Com a ordem do capita se transformando em instituição total, os elementos fundamentais para a existência humana, como a água, a habitação, a alimentação e tantos outros serviços que garantem a vida, só chegam aos "excluídos" por meio do mercado. A vida está submersa num "mundo de mercadorias". 
A eficácia da ideologia da ordem do capital pressupõe a crença de que a falta de mercado é a causa do desemprego e não a "lei geral da acumulação capitalista". Mais mercado é igual a mais crescimento que é igual a mais emprego. Poderão ser mobilizados trabalhadores em nome do crescimento econômico, até contra seus próprios interesses. O emprego depende das relações sociais de produção material da vida em favor de quem trabalha.
O capital, como sujeito da acumulação, vive da exploração do trabalho do ser social. Precisa deste para sua acumulação. Uma grande parte é supérflua e pauperizada.
A mulher que limpa as ruas precisa locomover-se em meio às pessoas e carros para desempenhar a sua tarefa. Ninguém imagina que o seu salário seja satisfatório. Ninguém imagina que sua moradia seja em lugar adequado. Ninguém imagina que aquela mulher possa comer o que é necessário. Mas quem disse que alguém imagina alguma coisa sobre aquela mulher? Quem disse que alguém nota a existência daquela mulher? Talvez quando o celular dela tocar alguém perceba que ali tem um ser. Um ser social, quem sabe?
Dezenas de jovens saem de uma escola pública. Ninguém fica imaginando se estas pessoas vão poder comer, se moram em lugar adequado, se precisam receber salário para sobreviver e se o salário é compatível com uma vida digna. Mas quem disse que alguém imagina alguma coisa sobre estes estudantes?  Se o celular tocar...
Um homem está cimentando um passeio de uma agência bancária. Será que ele tomou café pela manhã? Sua casa agüentou as chuvas desta última madrugada? O que será que ele tem na "maumita"? Quanto ele deve receber? Quem se importa? Quem nota aquele homem? Quem? Se o celular...
Mais do que movimentos "naturais" das pessoas no seu dia a dia, são movimentos de uma sociedade dominada pelo "sistema de controle do metabolismo social", o capital.
O que aproxima o "ser social" daquelas pessoas? Sua relação com o produto do trabalho neste modelo de sociedade - a mercadoria - e por extensão, a relação que estabelecem com outras pessoas. Trata-se de uma relação reificada.
O celular, ao mesmo tempo em que é sinal de riqueza, também é sinal de miséria. Aqui falamos de riqueza material e espiritual e miséria material e espiritual. Nas atuais condições históricas, o celular é expressão do desenvolvimento das habilidades humanas ao avançar no seu processo de trabalho. Riqueza material do potencial do homem e da mulher ao trabalhar. Miséria material, ao perceber que este potencial é canalizado para atender a necessidade de valoração do valor e do acúmulo de capital e não para atender as necessidades do ser social. Aqui, o dominante capital financeiro, que gera frutos sem o "ato sexual" da produção material.
Riqueza espiritual, pois a vitalidade do homem e da mulher rendeu um produto fruto de suas potencialidades. Miséria espiritual, pois este produto, enquanto criatura ganha estatuto de criador.
A totalidade a qual estamos submetidos apresenta-se como um espaço onde a maior riqueza espiritual e material, é ao mesmo tempo, miséria espiritual e material.
Submetidos ao fenômeno da reificação, o ser social das pessoas necessita da mercadoria para se valorizar e para se sentir valorizado. Ao tocar o celular, aquele som apresenta-se como realmente o que é: a mercadoria que nos projeta como possibilidade de "ser" e de "ser reconhecido". Aqui um traço explicito da barbárie. O ser acoplado ao lastro da mercadoria.
A barbárie atinge todas as pessoas. Todas precisam se valorizar na mercadoria e todos se relacionando pela mercadoria. Barbárie explícita e aberta. Franca e sem rodeios.
A relação entre barbárie e reificação espalha-se por todos os continentes. A "coisa" que vira "sujeito" e que empalidece o "sujeito" que vira "coisa" transborda em todas as esferas da sociedade.
Independente das alegações da atual 'globalização', é impossível existir universalidade no mundo social sem igualdade substantiva. Evidentemente, portanto, o sistema do capital, em todas as suas formas concebíveis ou historicamente conhecidas, é totalmente incompatível com suas próprias projeções - ainda que distorcidas e estropiadas - de universalidade globalizante. E é enormemente mais incompatível com a única realização significativa da universalidade viável, capaz de harmonizar o desenvolvimento universal das forças produtivas com o desenvolvimento abrangente das capacidades e potencialidades dos indivíduos sociais livremente associados, baseados em suas aspirações conscientemente perseguidas.  A potencialidade da tendência universalizante do capital, por sua vez, se transforma na realidade da alienação desumanizante e na reificação. (Mészáros, 2003:17)
 A barbárie toma conta das pessoas, domina-as e impede a sua reação
A reificação enquanto fonte constituinte e mantenedora da barbárie. A barbárie material e espiritual como expressão das relações sociais reificadas.
Considerações Finais
Inicio estas considerações tomando como "baliza" um trecho do texto apresentado por Marx em 1859, no "Prefácio" à obra Para a Crítica da Economia Política. Trata-se do "resultado geral" que Marx chegou e que norteou seus estudos posteriores, após compreender que a anatomia da sociedade burguesa deveria ser investigada através da Economia Política.
Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. (...). (Marx, 1982:25-26)
Com o fetichismo, o produto do trabalho humano - agora como mercadoria para a troca - aparece como se tivesse vida própria, autônoma. A reificação é exatamente a relação dos homens mediada por esta coisa - a mercadoria. Os sujeitos (os homens) tornam-se coisas e a coisa (a mercadoria) vira protagonista. As relações sociais passam a ser relações coisificadas (reificadas), pois esta é a forma de sociabilidade imposta (conquistada) pelo sistema do capital.
Com o desenvolvimento da sociedade burguesa, o fetichismo da mercadoria ganha potência e a reificação avança sobre as relações sociais da sociedade, reproduzindo, logicamente, a relação alienada da esfera da produção, como suporte fundamental e intrínseco da manutenção do escamoteamento da exploração do trabalho pelo capital; da valorização do valor de troca (atender ao mercado), em detrimento da valorização do valor de uso (atender as necessidades humanas).
A conclusão marxiana elencada acima: "o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual", confirma-se a cada dia no sistema do capital, ou seja, o processo de produção material da vida, no sistema em questão, da mercadoria e seu fetiche, condiciona a relação social determinante que os homens vão estabelecer, tanto quando trocam as mercadorias no mercado (de sujeitos passam a objeto), quanto através do processo de reificação, que se estende às esferas outras da vida política, social, artística e espiritual dos homens, portanto, relações mercantis - coisificadas. Como o homem pode conseguir reconhecimento da sociedade, que só valoriza quem "conquista mercadorias e dividendos" por meio desta relação?
Esta reflexão me remete a outro trecho da conclusão que Marx apresenta no texto de 1859: "Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes (...) De formas de desenvolvimento das forças produtivas, essas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevêm então uma época de revolução social".
Na recente história da humanidade, existe uma contradição brutal entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção inerentes a este desenvolvimento. Os grilhões "saltam e soltam os olhos!" Sem dúvida, o fenômeno da reificação na contemporaneidade, como disse Netto em relação à reificação no Capitalismo Tardio, tem dado um fôlego inimaginável ao "sistema de controle do metabolismo social" - o capital - em especial à sua modalidade dominante - o capital financeiro.
Como conseguir construir esta "revolução social" apregoada no "Prefácio", se o processo de reificação domina a esfera da produção e reprodução social - desenvolvimento das forças produtivas & relações sociais de produção?
Como se posiciona o ser social hoje? Se posiciona, ou melhor, se relaciona, determinantemente, na esfera da produção e em todos os âmbitos da vida social, através de relações sociais alienadas e mercantilizadas  - portanto, coisificadas - e sua ação está centrada na defesa do interesse próprio.
 Dois caminhos me parece estarem mais próximos, do que a construção de "novas relações sociais de produção", devido às condições materiais e espirituais desta sociedade estarem reificadas.
Primeiro, o caminho de "patinar" dentro do modelo, por força da metamorfose adaptativa do capital. O que a tradição marxista subestimou, e subestima, penso eu, é a capacidade do capital de se adaptar à nova realidade de "socialização da política", funcionalizando a mesma; e a capacidade do capital quanto aos processos próprios à reificação. A estrutura por onde se destila a "coisificação", é tão bem construída, que o capital é capaz de socializar os sonhos de uma vida melhor (dentro da lógica da compra e venda de mercadorias) e privatizar as condições materiais para alcançar tal sonho (e outros fora da lógica da compra e venda da mercadoria) e o "ser social" não perceber que tal processo leva à sua morte. Trata-se de uma "barbárie administrável". E o capital o faz com uma competência sem precedentes na história. Trata-se de um "genocídio a conta-gotas".
As condições objetivas para se construir uma contra-hegemonia, para reverter este quadro estão totalmente comprometidas. Seja pela via do "reformismo revolucionário", seja pelo caminho de uma "revolução explosiva".
O tempo está se esgotando. Assim, somente uma alternativa radical ao modo estabelecido de controle da reprodução do metabolismo social pode oferecer uma saída da crise estrutural do capital. (...) A verdade desagradável hoje é que se não houver futuro para um movimento radical de massa, como querem eles [Os que falam a respeito de uma 'terceira via' como solução ao nosso dilema] também não haverá futuro para a própria humanidade. (...) Se eu tivesse de modificar as palavras dramáticas de Rosa Luxemburgo com relação aos novos perigos que nos esperam, acrescentaria a 'socialismo ou barbárie' a frase 'barbárie se tivermos sorte' - no sentido de que o extermino da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital. (Mészáros, 2003:108-109)
Esta reflexão me remete ao segundo caminho que aponto como mais próximo de ser trilhado pela humanidade. O aprofundamento da barbárie em que vivemos, com o consequente e deliberado genocídio desta grande "massa sobrante" que não serve mais ao sistema de mercado. Uma "explosão de barbárie". Trata-se de um "genocídio aberto e franco" que "poderá" desencadear alguma reação na luta pela sobrevivência, mas não por força de uma organização revolucionária.
Que me perdoem as "esperanças alienadas", mas prefiro a crítica radical, a luta e o combate diário à ordem do capital.
 
Referências Bibliográficas
Antunes, Ricardo, Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000.
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Netto, José Paulo, Capitalismo e Reificação. São Paulo: Ciências Humanas, 1981.


[1] De acordo com Lukács (1974:100-102), "(...) quanto mais a evolução [capitalista] progredia, mais complicadas e mediatizadas surgiam as formas, mais raro e difícil ia se tornando rasgar o véu da reificação (...) o trabalho abstrato, igual, comparável, mensurável com uma precisão crescente pelo tempo de trabalho socialmente necessário, a operação da divisão capitalista do trabalho existente simultaneamente como produto e condição da produção só surge ao longo da evolução desta e só durante esta evolução se torna uma categoria social que influencia de forma decisiva, a forma de objetividade tanto dos objetos como dos sujeitos da sociedade assim nascente, da sua relação com a natureza e das relações possíveis no seu seio entre os homens."
[2] "Marx localiza na forma mesma do produto mercantil a fonte do mistério que o torna algo de estranho e alheio (algo alienado) aos agentes sociais particulares. A forma mercadoria não é apenas a célula econômica da sociedade burguesa: é também a matriz que contém e escamoteia a raiz dos processos alienantes que têm curso nesta sociedade" (Netto, 1981, p. 78).
[3] “Que a sociedade burguesa constituída se funda sobre a produção mercantil, eis o óbvio; mas não é igualmente óbvio que, inseridas as relações mercantis no âmbito de uma sociedade onde a universalização total da forma mercadoria vai muito além da sua materialidade palpável, muito além do circuito das trocas, envolvendo todos os “serviços” e todas as relações homem/homem no seu contexto vital, transforma-se estruturalmente o modo de emergência das relações sociais” (Idem: 84).
[4] “A positividade aparece, assim, como requisito para a manutenção funcional da sociedade burguesa constituída. Ela enquadra a totalidade das objetivações sociais reificadas numa equalização geral e fornece a pauta para o comportamento dos agentes sociais particulares. (...) A positividade surge, assim, como o padrão geral de emergência do ser social na sociedade burguesa constituída, como a estrutura global da reificação”. (Netto, 1981: 86-87).