A transformação da alienação: comportamento mimético e ideologização da vida social na sociedade unidimensional

 

Débora Cristina de Carvalho
 
 
Em A ideologia da sociedade industrial. O homem unidimensional, Marcuse constata que a sociedade industrial do pós-guerra conhece “uma etapa mais avançada” na qual “os direitos e liberdades que foram vitais nas origens e nas fases iniciais [dessa sociedade] estão perdendo os conteúdos tradicionais” (MARCUSE, 1973: 23). Essa constatação não colide com a análise anterior efetuada no ensaio Algumas implicações sociais da tecnologia moderna. Também não contradiz as conclusões do mesmo ensaio quando afirma ser esta sociedade dotada de uma eficiência e uma produtividade que a tornaria, aos olhos de seus membros, racional. Ela poderia assim, sem dificuldades, “exigir a aceitação de seus princípios e instituições e reduzir a oposição à discussão e promoção de diretrizes alternativas dentro do status quo” (MARCUSE, 1973: 24). Essa situação obviamente torna difícil o exercício de uma forma de crítica radical a ela, já que tal atitude pareceria irracional ou insensata. Marcuse, porém, parece insistir em encontrar alguns fatos – ou indícios - decisivos capazes de demonstrar ser essa crítica ainda, mesmo de modo tênue, viável: o primeiro desses aspectos se refere à situação do trabalhador, o segundo, às características do aparato de produção existente.
De fato, do ponto de vista dos indivíduos, Marcuse constata que “nunca foi uma vantagem” a liberdade de empreendimento para quem não tem outra coisa que sua força de trabalho. Para indivíduo semelhante, a não obrigatoriedade de vendê-la no mercado só poderia ser uma conquista, talvez a mais importante de todas. Contudo, isso só seria possível se o aparato produtivo da sociedade efetivamente apresentasse características que pudessem tornar tal coisa viável.
Em primeiro lugar, o aparato deveria, por sua capacidade produtiva e grau de organização, deixar entrever concretamente a possível liberação de energias individuais até então requeridas na atividade produtiva. Se o indivíduo não fosse mais forçado a trabalhar arduamente para sobreviver, afirma, “a própria estrutura da existência humana seria alterada” (MARCUSE, 1973: 24) e o indivíduo “ficaria livre para conduzir sua vida de modo autônomo”.
Em segundo lugar, isso só seria viável se o atual aparato produtivo
 
 pudesse ser organizado e orientado para a satisfação das necessidades vitais ainda que esse controle fosse centralizado, o que não seria entretanto um obstáculo para a realização do indivíduo, tal controle não impediria a autonomia individual, antes tornando-a possível (MARCUSE, 1973: 24).
 
Marcuse, porém, reconhece ser essa apenas uma possibilidade abstrata da “presente etapa da sociedade industrial” e que, de fato, nela predomina a tendência oposta, a qual parece resultar “do modo pelo qual [a sociedade] organizou sua base tecnológica” (MARCUSE, 1973: 24), modo que permite, ainda segundo o autor, caracterizá-la como “totalitária”. Conceito que designa nesse caso “uma coordenação técnico-econômica não-terrorista que opera através da manipulação das necessidades” (MARCUSE, 1973: 25). “Totalitarismo” aqui se refere ao sistema de produção e distribuição.
O raciocínio de Marcuse, quanto a esse segundo aspecto, parece estar assentado na pressuposição de que a base material da sociedade industrial poderia estar orientada para o atendimento das necessidades vitais, as quais se diferenciariam qualitativamente das necessidades impostas pelo próprio aparato, sempre estranhas aos indivíduos.
 
O raciocínio de Marcuse, voltado para a análise das novas formas de controle produzido pela sociedade unidimensional, estabelece, como condição para a crítica da sociedade, uma distinção entre “necessidades impostas” e “necessidades vitais”. Antes, porém, de examinarmos a natureza e as conseqüências dessa distinção, é preciso destacar o fato de Marcuse conceber, no atual modo de organização do aparato produtivo, que “a máquina se torna o mais eficiente instrumento político de qualquer sociedade cuja organização básica seja a do processo mecânico” (MARCUSE, 1973: 25). Se quisermos entender esta afirmação sustentada pelo autor, precisamos realizar uma leitura mais acurada, pois, se tomada genericamente, lida de modo positivo e unilateral ela pode nos conduzir à conclusão de que o autor se posicionou contra ela, dada sua natureza. Essa conclusão, à qual chegam vários dos críticos de sua obra, é completamente equivocada visto que a afirmação não pode ser lida dessa maneira. Assim, se num primeiro momento, ela pode ser lida positivamente, isso significa ser a máquina um instrumento político não porque necessariamente isso sempre ocorre ou porque esse aspecto faz parte de sua substância mais íntima, mais essencial, mas porque esse atributo lhe foi imputado. Ser “instrumento político” não é um atributo inerente a ela. De fato, ela é atualmente concebida para poder ser usada de modo a provocar “certos efeitos sociais e políticos”. Isolada, ela não é capaz de produzir esses efeitos: é seu uso organizado, sem dúvida projetado de acordo com as necessidades oriundas de determinado projeto histórico de uma classe, que confere a ela semelhante caráter. Esse projeto está materializado no que o autor denominou de “processo tecnológico”. A máquina é um instrumento político também porque, enquanto parte fundamental da tecnologia, ela foi concebida para viabilizar a dominação tanto da natureza como a de outros homens: ela foi planejada para concretizar a submissão do trabalhador ao aparato produtivo.
Todavia, isso a torna parte fundamental de uma dimensão crucial da vida social, pois os trabalhadores sempre poderão perceber esse fato e assim tentar reverter objetivamente a situação. A máquina é instrumento político enquanto puder evitar que isso ocorra. A afirmação de Marcuse, porém, pode ser lida noutro sentido: ela contém um momento que poderíamos denominar de “negativo”, como o pensamento dialético requer. Essa é a fonte da confusão acerca de seu posicionamento em relação à máquina. Lida dialeticamente, o reverso da afirmação se revela: a máquina é um instrumento político, pois foi concebida para viabilizar um modo específico de dominação social, mas ela não se esgota nisso porque pode ser outra coisa se seu uso social não for determinado a priori pelo referido projeto. Como momento negativo, no entanto, esse uso só pode ser pensado abstratamente, já que na sociedade unidimensional efetivamente predomina a tendência oposta. Lida desse modo, a afirmação marcuseana pode ser plenamente entendida. Tal leitura teria a vantagem de não se equivocar a respeito da concepção do autor: ele não é pensador contrário à existência das máquinas. Marcuse sempre insistiu no fato de que o aparato produtivo da sociedade industrial contemporânea apresenta uma dimensão libertária, pois, dadas suas potencialidades, tal aparato tanto poderia diminuir o tempo de trabalho quanto eliminar a escassez. Dessa maneira, convém realçar que Marcuse é o crítico de um uso histórico específico das máquinas, onde a racionalidade do processo tecnológico se converte em “lógica da dominação”. Esta lógica exige o desenvolvimento amplo e minucioso de inúmeras práticas ou atividades sociais destinadas a reforçar a dominação. Nos executores do processo tecnológico, a consciência de a dominação ter de ser exercida permanentemente não se apaga jamais, visto que tal processo parece sempre se orientar em direção ao estabelecimento de uma “eficaz e resistente forma de guerra contra a libertação” (Marcuse, 1973: 26). O processo tecnológico operaria em um cenário social concebido como “guerra cotidiana”, buscando sempre implementar “necessidades materiais e intelectuais perpetuadoras de formas obsoletas de luta pela existência” (Marcuse, 1973: 26). A incessante produção e reprodução de necessidades, concebida como elemento vital da “guerra cotidiana contra a libertação” alimentada pelo processo tecnológico, exige a criação de um aparato produtivo capaz de ofertar produtos destinados a atender e a estimular tais necessidades, de tal modo que tanto as máquinas nele implicadas como os produtos por ele gerados podem ser considerados instrumentos políticos.
A “guerra cotidiana contra a libertação” exige, portanto, uma incessante produção de novos artefatos que devem despertar no consumidor um desejo irrefreável e constante de consumir produtos dos quais ele até então jamais havia sentido necessidade. Dessa forma, na sociedade unidimensional, o ato de consumir é um imperativo: consumir incessantemente torna-se “um estilo de vida”, um comportamento socialmente aceito e estimulado. O consumo não perpetua apenas a produção, como sugere a célebre observação de Marx; ele reproduz o status quo. Nessa medida, o ato de consumir é também uma atitude política. Por meio dele, o indivíduo aceita a ordenação social dada.
Essa observação obriga Marcuse a efetuar uma distinção entre o que ele identifica como “necessidades vitais” e “necessidades superimpostas”. Estas são as oriundas do processo tecnológico, servem para estimular continuamente a integração do indivíduo ao todo social. Por essa razão, Marcuse também as chama de “falsas necessidades”. Enquanto tal, elas são opressivas, pois se prestam para viabilizar a dominação; ao mesmo tempo, são também repressivas porque impedem que o indivíduo estabeleça por si só, de forma autônoma, suas próprias necessidades. Em oposição a elas, Marcuse identifica a existência de necessidades “vitais” ou “verdadeiras”. Elas se diferenciam das primeiras fundamentalmente porque não resultam diretamente do processo tecnológico da sociedade unidimensional, visto que elas seriam as mesmas nos diversos modos de produção. Em uma sociedade onde os indivíduos possam, em algum grau razoável, determinar autonomamente sua própria história, elas seriam as essenciais. Em tal tipo de sociedade, não haveria lugar para as necessidades “superimpostas”, razão pela qual Marcuse almeja criticá-las afirmando que, no bojo de qualquer movimento de libertação, elas deveriam ser prioritariamente suprimidas, pois elas oferecem objetivamente “euforia na infelicidade”.
 
O prevalecimento de necessidades repressivas é um fato consumado, aceito na ignorância e na derrota, mas um fato que deve ser desfeito, no interesse do indivíduo bem como no daqueles cuja miséria é o preço de sua satisfação. As únicas necessidades que tem direito indiscutível à satisfação são as necessidades vitais – de alimento, roupa e teto ao nível alcançável de cultura. O atendimento a essas necessidades é o requisito para a realização de todas as necessidades, tanto das sublimadas como das não sublimadas (MARCUSE, 1973: 26-27).
 
Claro que a distinção entre os dois tipos básicos de necessidade implica enormes dificuldades. De fato, como sustentar a validade de um deles em detrimento do outro? Um possível critério poderia ser o da validade universal: assim, as necessidades vitais seriam apenas as comuns aos homens das diferentes épocas – caso das necessidades propriamente biológicas. Tal modo de concebê-las evita o risco de torná-las excludentes. Entretanto, até mesmo esse critério poderia ser questionado. Marcuse indaga então, qual “tribunal histórico” pode decidir a esse respeito, para em seguida afirmar que, em última instância, somente os indivíduos poderiam decidir sobre essa questão. Reconhece, porém, que se os indivíduos não são livres, mas vítimas em ampla escala do processo tecnológico e, portanto, dos “efeitos sociais e políticos” dos produtos do aparato, como eles poderiam tomar qualquer tipo de decisão em relação a essa matéria? 
 
Quanto mais racional, produtiva, técnica e total se torna a administração repressiva da sociedade, tanto mais imagináveis se tornam os modos e os meios pelos quais os indivíduos administrados poderão romper sua servidão e conquistar sua própria libertação (MARCUSE, 1973: 28).
 
A equação marcuseana se reduz aqui a pensar que quanto mais eficaz seja a dominação, maior será a submissão dos indivíduos, por que
 
toda libertação depende da consciência da servidão e o surgimento dessa consciência é sempre impedido pela predominância de necessidades e satisfações que se tornaram, em grande proporção, dos próprios indivíduos (MARCUSE, 1973: 28).
 
Como Marcuse resolve essa dificuldade? O raciocínio não é novo na história das teorias revolucionárias da esquerda. Nestas, quando se nota ser o indivíduo impedido objetivamente de conduzir o processo de libertação, ele, é substituído por algum tipo de representante: no caso dos membros da classe operária, pelo partido político que, presumivelmente, representa de fato seu interesse ou o da totalidade da classe. Esta substituição objetiva do sujeito do processo de transformação histórica, por uma entidade supostamente representativa pode ter conseqüências autoritárias, conforme Marcuse sugere na análise da sociedade socialista empreendida na obra O marxismo soviético. Em contrapartida, só apontar que a sociedade é repressiva, pode ou redundar em alguma forma de desvalorização da crítica – em impotência objetiva – ou em defesa, ainda que disfarçada, de formas terroristas de oposição.
Não parece ser este o caso de Marcuse. Ele prefere acentuar a análise da atual dificuldade social da possibilidade da crítica e da ação mostrando as novas faces do controle na sociedade unidimensional. Nessa perspectiva, empreende interessante análise da alteração do significado do conceito de “liberdade”. Começa por apontar ter este costumeiramente significado, nos diferentes períodos históricos, que os indivíduos podiam efetivamente conceber ou imaginar viver de maneira bem diversa da forma de vida então socialmente aceita ou estimulada. Liberdade significava desse modo a possibilidade concreta de o indivíduo poder experimentar uma vida – ou os indícios de um projeto de vida – qualitativamente diferente do da existência social predominante. Entretanto, com a conversão da racionalidade tecnológica em lógica da dominação, a sociedade unidimensional teria se tornado inteiramente repressiva: desse tipo de totalidade não poderia emanar senão uma forma e um conceito de liberdade que não fosse outra coisa que “poderoso instrumento de dominação”.
Esse novo conceito de liberdade se diferiria do das épocas precedentes por não mais ser referido a escolhas qualitativas. A sociedade industrial, na fase descrita pelo autor, transformou o conceito de liberdade em uma escolha quantitativa por parte de seus membros. O deslocamento da qualidade para a quantidade significa que, nessa sociedade, a opção restante aos indivíduos refere-se exclusivamente ao número de vezes no qual ele deseja rigorosamente a mesma coisa. Dessa maneira, liberdade passa a ser entendida apenas como uma forma de escolher um dos tipos disponíveis de certo produto, que de antemão seremos forçados sempre a consumir.
 A conseqüência dessa alteração do conceito de liberdade é nítida: impossibilitados de efetuar escolhas qualitativas, seremos sempre forçados a efetuar escolhas quantitativas de uma única qualidade. Isso obviamente demonstra como a sociedade unidimensional, procura impedir os seus membros de conceberem uma vida qualitativamente diferente da vida atual presente.
Essa análise elaborada por Marcuse sobre as novas formas de controle surgidas na fase mais recente da sociedade industrial, as quais minam e dificultam as bases da crítica, tendendo a eliminar toda forma de oposição a ela, alcança momento culminante ao examinar tanto a relação psicológica – se é que se pode dizer assim – estabelecida entre os indivíduos e a totalidade social quanto a transformação da natureza da ideologia.
No ensaio de 1941, dedicado ao exame das implicações sociais da tecnologia moderna, Marcuse conclui que a sociedade forçava, por diversos modos, o indivíduo a aceitar as necessidades da lógica social como suas, assim como assimilar suas regras ou, ainda, a desenvolver habilidades por ela requeridas. Para tanto, promovia o adestramento dos indivíduos, bem como estimulava a adaptação desses aos múltiplos aspectos da vida social. A fim de qualificar com precisão essa relação entre o indivíduo e a totalidade social, Marcuse recorre ao conceito de “introjeção”, que pressupõe a existência de um tipo de homem não completamente reduzido ou identificado com a lógica social. Nele, haveria ainda, apesar das pressões e dos impedimentos sociais objetivos, uma camada mais íntima, uma dimensão propriamente subjetiva que, em última instância, determinaria seu caráter e o diferenciaria da sociedade. O conceito de “introjeção”, utilizado pelo autor, serve para designar o caráter repressivo do todo, sempre capaz de obrigar o indivíduo a assimilá-lo, isto é, a introjetá-lo.
Em A ideologia da sociedade industrial. O homem unidimensional, no entanto, esse conceito já não é utilizado. Isso ocorre, segundo o autor, porque tal sociedade teria desenvolvido formas novas de controle, as quais teriam se revelado muito eficazes, pois, em pouco tempo, teriam minado quase por completo os últimos vestígios da subjetividade, ou seja, aquela reserva mental que caracterizaria o último reduto do indivíduo ainda não invadido e colonizado pela sociedade opressiva. Na época da plena vigência de tais novas formas de controle, a “introjeção” é superada pela “mimesis”.
O comportamento mimético é resultante do aparecimento de um indivíduo desprovido de subjetividade, de uma identidade própria, particular. Tal tipo de indivíduo se caracterizaria por uma completa e imediata forma de identificação com a totalidade social. Ele, por assim dizer, copiaria os valores sociais, reproduzindo sem fissuras e de modo suave a lógica social em seu comportamento. Como diz o autor:
 
Atualmente, esse espaço privado se apresenta invadido e desbastado pela realidade tecnológica. A produção e a distribuição em massa reivindicam o indivíduo inteiro e a psicologia industrial deixou de há muito de limitar-se à fábrica. Os múltiplos processos de introjeção parecem ossificados em reações quase mecânicas. O resultado não é o ajustamento mas a mimese: uma identificação imediata do indivíduo com sua sociedade e através dela, com a sociedade em seu todo. (MARCUSE, 1973: 30).
 
Insistindo nesse aspecto, afirma ainda:
 
Essa identificação imediata e automática que pode ter sido característica das formas primitivas de associação reaparece na civilização industrial elevada; contudo, sua “imediação” é produto de uma gerência e organização complicada e científica. Nesse processo, a dimensão “interior” da mente, na qual a oposição do status que pode criar raízes é desbastada. A perda dessa dimensão, na qual o poder do pensamento negativo – o poder crítico da Razão – está à vontade, é a contrapartida ideológica do próprio processo material no qual a sociedade industrial desenvolvida silencia e reconcilia a oposição. O impacto do progresso transforma a Razão em submissão aos fatos da vida e à capacidade dinâmica de produzir mais e maiores fatos do mesmo tipo de vida. A eficiência do sistema embota o reconhecimento individual de que ela não contém fato algum que não comunique o poder repressivo do todo. Se os indivíduos se encontram nas coisas que moldam a vida deles, não o fazem ditando, mas aceitando a lei das coisas – não a lei da Física, mas a lei da sociedade (MARCUSE, 1973: 31).
 
O comportamento mimético, como se vê, expressa uma nova dimensão típica da sociedade unidimensional: a submissão completa do indivíduo à lógica social. Esta submissão, “produto de uma gerência e de uma administração científica da sociedade”, é uma forma de controle propriamente “tecnológica”, visto que nenhum período anterior da sociedade capitalista conhece algo semelhante: “No período contemporâneo, os controles tecnológicos parecem ser a personificação da Razão”, acrescenta o autor. Porém, Marcuse não parece retomar nessa análise a empreendida no ensaio sobre as implicações sociais da tecnologia moderna, que investiga em detalhe o desenvolvimento do processo de integração do indivíduo ao todo por meio da “mecânica da submissão”. Isso parece ocorrer porque esta estaria agora completamente consumada. O comportamento mimético torna evidente não haver nada mais nos indivíduos que necessite ainda ser submetido à lógica social.
A mimese, exigida pela totalidade social para que ela possa se reproduzir sem atritos expressaria também uma alteração fundamental na estrutura do fenômeno conhecido como “alienação”. De fato, alienação pressupõe um indivíduo ainda capaz de recuperar a identidade conjunturalmente perdida. A novidade, nessa nova fase da sociedade industrial, é que ela teria se tornado agora “inteiramente objetiva”: o sujeito alienado é engolfado por sua existência alienada. “Há apenas uma dimensão, que está em toda parte e em todas as formas” (MARCUSE, 1973: 31). Por isso, conclui o autor, “a falsa consciência se torna a consciência real”, isto é, a única passível de existência em tal sociedade. A sociedade industrial avançada - podemos inferir - teria operado um deslocamento fundamental no modo de ser da alienação, pois se esta era até então um fenômeno concernente ao indivíduo, agora tal fenômeno se manifestaria objetivamente na própria totalidade da existência social. Esta poderia assim ser identificada como a consolidação da “vida falsa”, isto é, na qual a maioria dos cidadãos vive com certa dose de euforia, embora condenado a não perceber ser tal vida fundamentalmente contrária aos seus interesses reais, os quais estão objetivamente impedidos de serem nomeados.
A análise marcuseana da transformação da estrutura do fenômeno da alienação implica o reconhecimento de que na sociedade tecnológica até a função e o ser da ideologia foram profundamente alterados. Essa transformação seria um dos principais aspectos de tal sociedade e sua constatação (e análise) uma das teses mais importantes de A ideologia da sociedade industrial. O homem unidimensional. Para o autor, a ideologia não operaria como nos momentos anteriores dessa mesma sociedade ou como teria ocorrido em seus primórdios. Ela não consistiria mais um discurso apartado da essência da sociedade, não seria algo destinado a convencer seus membros a fim de que esses aceitassem viver o quê, de um modo ou de outro, percebiam como inadequado aos seus interesses. A ideologia, tradicionalmente concebida, podia ser entendida como uma espécie de véu que recobre a realidade social e ofusca assim a percepção crua de seu mecanismo ou estrutura fundamental.
Para Marcuse, isso teria deixado de ocorrer porque a ideologia estaria agora absorvida pelo próprio processo de produção: seu funcionamento, suas diretrizes, sua organização, bem como as qualidades e os tipos de produtos por ele fabricados, constituiriam o cerne duro da ideologia. Ou, dizendo melhor, a totalidade desse processo seria já ideológica. Esse fenômeno realça o autor, não seria o fim da ideologia, pois “a cultura industrial avançada é mais ideológica que sua predecessora” (MARCUSE, 1973: 31). Significa, antes, ser o universo tecnológico também um universo político no sentido preciso de que sua racionalidade é igualmente uma forma de convencimento porque tudo que dele emana serve para seduzir, integrar e reconciliar o indivíduo com a realidade social existente. Isso fica claro nessa passagem:
 
o aparato produtivo e as mercadorias e os serviços que ele produz vendem ou impõem o sistema social como um todo. Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casas, alimentos e roupas, a produção irresistível da indústria de diversões e informação trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais que prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente aos produtores e, através destes, ao todo. Os produtos doutrinam e manipulam, promovem uma falsa consciência que é imune à sua falsidade. E, ao ficarem esses produtos benéficos à disposição de um maior número de indivíduos e de classes sociais, a doutrinação que eles portam deixa de ser publicidade, torna-se um estilo de vida. É um bom estilo de vida – muito melhor do que antes – e, como um bom estilo de vida, milita contra a transformação qualitativa. Surge assim um padrão de pensamento e comportamento unidimensionais no qual as idéias, as aspirações e os objetivos, que por seu conteúdo transcendem o universo estabelecido da palavra e da ação são repelidos ou reduzidos a termos desse universo. São redefinidos pela racionalidade do sistema dado a sua extensão quantitativa (MARCUSE, 1973: 32).
 
O aspecto mais importante da tese de Marcuse acerca da transformação ocorrida na natureza, na estrutura e na função da ideologia parece ser conseqüência de sua tese básica sobre o caráter da produção na sociedade tecnológica: a tecnologia como um a priori orienta o aparato produtivo na direção de uma incessante produção e oferta de produtos que importariam mais pela capacidade de provocar nos indivíduos certos “efeitos sociais e políticos” do que de atender à determinadas necessidades. Tais objetos, conforme podemos observar no trecho citado, “trazem consigo atitudes e hábitos prescritos”, “certas reações intelectuais e emocionais”.
No referido ensaio de 1941, Marcuse não avança tal tese, mas já reconhece, ainda que de forma limitada, estas qualidades novas nos produtos da sociedade tecnológica. O exemplo mais incisivo disso ocorre quando mostra que nessa sociedade os homens adoram a máquina, como seria o caso do automóvel, pois o tratam de uma forma que muito dificilmente dispensariam a outro ser humano. Nesse caso, afirma ainda, o automóvel dá a ele o que ele próprio não possui, ou seja, a vida, já que nessa relação o inanimado fica relegado ao homem. Na referida análise de A ideologia da sociedade industrial. O homem unidimensional a tese é radicalizada. Os objetos efetivamente produzem falsa consciência, estimulam a adesão à “vida falsa” e a perpetuam. O discurso ideológico de convencimento, apartado da vida efetiva, não é mais necessário. Ao adquirir um automóvel, o consumidor adere a um comportamento e, por meio dele, à própria totalidade social. O consumo estimula a crença de que só a adesão incondicional à máquina traz conforto, liberdade, tempo livre e domínio sobre a natureza. Nessas circunstâncias, efetuar a crítica do consumo parece algo completamente irracional e ideológico, no velho sentido do termo.
Cumpre ainda considerar outro aspecto novo e decisivo desse fenômeno: o consumo se dirige hoje a todas as classes sociais. Isso não significa, porém, ter ele desfeito a trama secular das diferenças de classe, mas, indica simplesmente que todos são afetados pelo mesmo processo de integração ao todo social: “à vida falsa”.
 
 
Bibliografia
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