Para uma apresentação materialista da história

 

Danilo Chaves Nakamura
 
 
Objetivo
§ 1- Minha comunicação é apenas um resultado inicial da minha pesquisa de mestrado, sob a orientação do professor Jorge Luis Grespan. O objetivo da pesquisa é analisar alguns textos políticos de Karl Marx e Friedrich Engels, escritos na segunda metade do século XIX. Minha hipótese é que enquanto análises de fenômenos empíricos, esses escritos nos permitem, entre outras coisas, aprofundar a discussão sobre lógica e história, que ainda não foi satisfatoriamente decidida seja no que diz respeito ao método, seja em relação ao conteúdo.
§ 2- Nessa comunicação, tentarei sugerir um lugar de destaque para os chamados textos políticos de Marx e Engels. Para isso, apoio-me nas ricas interpretações de Eike Henning, que analisa os textos políticos como análises de particularidades das “condições principais [Hauptbedingungen]” do capitalismo. No percurso, utilizarei de alguns conhecimentos que tenho de obras teóricas como os Grundrisse e O Capital, de exemplos retirados dos textos políticos, assim como, de informações biográficas da dupla.
 
Esperando o dilúvio
§ 3- Após as sucessivas derrotas das insurreições populares que sacudiram a Europa em 1848, Karl Marx precisou exilar-se na Inglaterra, no verão de 1849. Aos 31 anos, pobre e com problemas de saúde, ele passou a viver em Londres junto de sua família. Em 1856, Marx decide retomar seus estudos de economia política, principalmente devido à crise econômica europeia que se agravava. Em 26 de setembro de 1856, Marx escreveu para Engels: “Eu creio que não seremos capazes de ficar aqui muito tempo apenas assistindo”. Engels imediatamente respondeu com grande otimismo: “Desta vez haverá um dia de cólera sem precedentes; a indústria da Europa inteira está em ruínas... todos os mercados saturados, toda classe dominante na sopa (...). Eu também acredito que tudo vai acontecer em 1857”.
§ 4- Ao final de uma década de refluxo do movimento revolucionário e de uma organizada contrarrevolução liderada pelas potências europeias, Marx e Engels retomam a confiança na revolução. Isso colocava uma prioridade para Marx: sintetizar os resultados de sua crítica da economia política “antes do déluge”.
§ 5- Nesse período, além das constantes ajudas financeiras de Engels, Marx obtinha sua renda vendendo artigos para o jornal New York Tribune, um dos jornais de maior circulação naquele tempo. Engels ajudou Marx a escrever uma série de artigos e escreveu a maioria dos verbetes da Nova Enciclopédia Americana, lançada pelo jornal entre 1857 e 1860. Os assuntos dos artigos eram diversos: política e diplomacia europeia, conjuntura da economia internacional, Guerra da Criméia, luta pela unificação italiana e alemã, guerras coloniais, partidos políticos ingleses, movimento cartista etc. Precisamente nessa época, Marx escreveu os últimos cadernos de seus Grundrisse e decidiu publicar seu trabalho em panfletos. Em 1859, saiu o primeiro panfleto: Contribuição à crítica da economia política.
§ 6- O dilúvio não veio. A crise não provocou os efeitos sociais e políticos esperados por Marx e Engels e as potências europeias se recuperaram e expandiram seus negócios pelo globo. Num tom de avaliação, Marx escreve para Engels (8 de outubro de 1858):
 
A verdadeira tarefa da sociedade burguesa é a criação do mercado mundial, ou ao menos da estrutura adequada ao seu funcionamento, e da produção baseada no mercado. Já que o mundo é redondo, me parece que a colonização da Califórnia e da Austrália e a abertura da China e do Japão parece ter completado esse processo. A pergunta difícil para nós respondermos é a seguinte: Ela não irá morrer nestes pequenos recantos do mundo, já que o desenvolvimento da sociedade burguesa está apenas começando nestas áreas tão vastas?
 
§ 7- Com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 28 de setembro de 1864, Marx assume as tarefas públicas da organização como prioritárias após 16 anos com o trabalho científico. Continua fazendo análises de conjuntura, acompanhando os acontecimentos políticos na Europa e combatendo seus adversários políticos. E é durante a década de 1860 que o primeiro volume de sua principal obra finalmente fica pronto. Em 25 de julho de 1867, Marx assina o prefácio da primeira edição do volume I de O Capital.
§ 8- Essas breves considerações biográficas são importantes para percebermos que Marx desenvolveu suas tarefas mais ou menos em paralelo durante os anos 1850 e 1860 (análises de conjuntura, pesquisa sobre economia política na Biblioteca de Londres, tarefa de fazer uma crítica à economia política e militância junto aos trabalhadores). É possível dizer isso, mesmo levando em consideração as constantes reclamações dele pelo excesso de trabalhos nos jornais, “tenho me sentido tão doente (...) estou incapaz de pensar, ler, escrever (...) com exceção dos artigos para o Tribune. Esses, é óbvio, não posso me dar ao luxo de negligenciar, pois eu devo contar com esta ninharia (...) para evitar a falência”. (Marx/Engels, 2/04/1858). Ou suas ironias diante de lutas num período de ‘baixa’ da luta de classes: “Desde o julgamento em Colônia [1853], eu me retirei completamente para me dedicar aos meus estudos. Meu tempo era precioso demais para ser desperdiçado em empreitadas infrutíferas e contendas inúteis”. (Marx/Weydemeyer, 1°/02/1859).
 
Considerações metodológicas dos escritos políticos
§ 9- Seguindo as formulações do alemão Eike Henning, acredito que os temas contidos nos escritos políticos devem ser vistos em sua totalidade como análise de particularidades das ‘condições principais’ do capitalismo. Entendo que tem de ser precisamente isso, pois, em caso contrário, não conseguiriam manter a sua pretensão política, ficando reduzidos, por exemplo, ao papel de simples elementos de autoagitação da classe trabalhadora. Penso também que uma reconstrução crítica dos textos políticos de Marx e Engels deve atacar os pontos fracos do texto e mostrar onde eles alcançam a pretensão política do que entendemos por materialismo histórico.
§ 10- Cito Henning:
 
O que motiva os escritos políticos é a necessidade de conseguir uma coleção de conhecimentos analíticos sobre as diferenças que existem entre as duas principais classes, a dos capitalistas e a do proletariado, sobre as formas concretas nas quais aparecem as classes intermediárias, sobre a atividade, as formas e a constituição da maquinaria do Estado, da economia, etc. (...) Em última instância, as análises políticas fornecem o material para a discussão do movimento revolucionário dos trabalhadores, seja no nível da discussão da teoria e da práxis, seja no da discussão estratégico-prática). (HENNING, E. p.74).
 
§ 11- Nesse sentido, os escritos políticos podem aparecer como o “momento de pesquisa” para as obras cuja exposição requer esse momento prévio de análise das múltiplas determinações. Ou ainda, como
 
testemunhos singulares dos consideráveis esforços despendidos por Marx e Engels para desenvolver análises que levam em conta os dados concretos; revelam, outrossim, o quanto eles estão preocupados em desvendar as “correntes profundas da sociedade moderna” e em mostrar que elas constituem um elemento geral que se revela nas particularidades individuais da superfície da sociedade”. (HENNING, E. p. 79).
 
Creio que tentar compreendê-los por esse ângulo pode ser um bom caminho para vincularmos as investigações sobre os capitais particulares e a exposição do capital em geral. Ou ainda, para entendermos o nexo que existe entre as variedades empíricas e ‘sua’ essência (HENNING, E. 86).
 
§ 12- No prefácio deO Capital, Marx contrapõe o ‘método de exposição [Darstellungsweise]’ e o ‘método de pesquisa [Forschungsweise]’. Diz Marx no prefácio da segunda edição do livro:
 
É, sem dúvida, necessário distinguir o método de exposição formalmente, do método de pesquisa. A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Caso se consiga isso, e espelhada idealmente agora a vida da matéria, talvez possa parecer que se esteja tratando de uma construção a priori. (MARX, K. p. 20).
 
§ 13- E na seção VI, do livro III de O Capital, se eu não estiver errado, Marx parece sugerir algo nessa direção ao explicitar o lado metódico, que demonstra o vínculo entre representação categorial e pesquisa empírica. Cito o trecho:
 
A forma econômica em que se suga mais-trabalho não pago dos produtores diretos determina a relação de dominação e servidão, tal como esta surge diretamente da própria produção e, por sua vez, retroage de forma determinante sobre ela. Mas nisso é que se baseia toda a estrutura da entidade comunitária autônoma, oriunda das próprias relações de produção e, com isso, ao mesmo tempo sua estrutura política peculiar. É sempre na relação direta dos proprietários das condições de produção com os produtores diretos – relação da qual cada forma sempre corresponde naturalmente a determinada fase do desenvolvimento dos métodos de trabalho, e, portanto a sua força produtiva social – que encontramos o segredo mais íntimo, o fundamento oculto de toda a construção social e, por conseguinte, da forma política das relações de soberania e de dependência, em suma, de cada forma especifica de Estado. Isso não impede que a mesma base econômica – a mesma quanto às condições principais – possa, devido a inúmeras circunstâncias empíricas distintas, condições naturais, relações raciais, influências históricas externas etc., exibir infinitas variações e graduações em sua manifestação, que só podem ser entendidas mediante análise dessas circunstâncias empiricamente dadas. (MARX, K. p. 252).
 
§ 14- Só para reforçar a ideia, trata-se de um procedimento que Marx já havia explicitado nos Grundrisse quando diz:
 
O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade. Por essa razão, o concreto aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, não obstante seja o ponto de partida efetivo e, em consequência, também o ponto de partida da intuição e da representação. (Marx, K. p. 54).
 
§ 15- Em resumo, entendo que é central para uma apresentação materialista da história, perceber que o problema inicial está no nível da formação dos conceitos e a seguir na realimentação empírica dessas categorias.  Talvez, de acordo com que estou tentando dizer, o vínculo entre apresentação categorial e pesquisa empírica possa ser mais bem analisado a partir do modelo fornecido pelos escritos políticos de Marx e Engels. E, pensando em política propriamente dita, uma reconstrução crítica dos escritos políticos poderia demonstrar onde os acontecimentos políticos e sociais não são completamente absorvidos pelas categorias do capital e desvendar onde o sistema é atacável.
 
Complexo temático dos escritos políticos
§ 16- Eike Henning sugere o seguinte complexo temático dos escritos políticos:
-Análise do Estado e análise das classes (as quais são apresentadas sem levar em conta, de modo geral, análises conjunturais independentes);
-“Educação” e informação da classe operária na forma de críticas: 1) às formas primitivas da política do Estado social; caracterizadas ironicamente como “doçuras do regime da burguesia”, 2) à tentativa burguesa de “colocar uma parte dos proletários contra a outra”; 3) à divisão da classe dos trabalhadores de acordo com as diferenças étnicas; 4) à posição sindical; 5) à posição anarquista; 6) ao papel da pequena burguesia no que diz respeito ao proletariado.
-Análise da burguesia, isto é, das frações do capital, das suas variadas intenções políticas, bem como das institucionalizações do direito do Estado, e análise dos efeitos da industrialização (efetivação do capital) e do liberalismo político.
-Análise da política internacional, com o intuito de obter o seu controle e de conhecer as condições e perspectivas da política mundial e externa que possa vir a ser úteis para uma revolução socialista (HENNING, E. p.81).
§ 17- Esse abrangente complexo temático abre a possibilidade para uma série de discussões: a) análise das formas de Estado (O 18 Brumário); b) distinção entre revolução política e revolução social (textos da Nova Gazeta Renana); c) diversas frações de classes entre a burguesia e o proletariado (textos do New York Tribune); d) atraso alemão (Revolução e contrarrevolução na Alemanha); e) diferentes níveis de desenvolvimento econômico entre as nações (A questão oriental); entre outros tendo em vista os acontecimentos contingentes de cada nação em determinada época. Mas, em última instância, acredito que o alvo das análises consiste em proporcionar os elementos necessários para que o próprio movimento dos trabalhadores se transforme no sujeito da transformação social.
§ 18- Enfim, apesar das diversas reflexões em torno da sociedade capitalista, é importante lembrar que, necessariamente impõe-se o imperativo de que o capitalismo é idêntico em si e para si (um conceito de sujeito como auto-relação de um substrato, o valor, que na sua relação consigo se torna processo de autovalorização, capital). E isso é importante para compreender que as interrupções políticas (revolucionárias?) são temporárias e, portanto, a sociedade capitalista só pode ser superada em termos positivos se o ataque desmontar (destruir) os fundamentos que a repõem.
 
Conclusão
§ 19- Como não poderia deixar de ser, minha exposição é apenas uma hipótese de como eu considero que se deveria proceder a uma apresentação materialista da história [eine materialische Darstellung von Geschichte]. Para além de um “positivismo crítico” ou um “historicismo de esquerda” que vê na história apenas um resgate do passado [res gestae], uma apresentação materialista da história que pretende explicitar a natureza do processo de produção da sociedade capitalista, precisa inevitavelmente passar pela análise de fenômenos concretos para apresentar de modo geral e concreto “a síntese das múltiplas determinações”.
§ 20- Termino aqui uma sugestão para que nós marxistas voltemos a fazer verdadeiros diagnósticos de época. Obrigado!
 
 
Bibliografia:
HENNING, E. Notas introdutórias à leitura dos ‘escritos políticos’ de Marx e Engels. In: A teoria do Estado. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990, p. 59-94.
MARX, K. O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
__________ Grundrisse – Esboço da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo e Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.
MUSTO, M. A vida de Marx no tempo dos Grundrisse: notas biográficas entre 1857 e 1858. In: Antítese. Goiânia: CEPEC, 2009.