O conteúdo das categorias da Economia Política

 

Bruno Hofig[1]
 
 
 
O trabalho, de que aqui se trata, é o da crítica das categorias econômicas ou, se você prefere [if you like],
o sistema da economia burguesa apresentado criticamente. É simultaneamente a exposição do sistema e,
através da exposição, a sua crítica.
Karl Marx, carta a Lassale.
 
RESUMO: Ao conceber as categorias da economia burguesa como a expressão das relações sociais imanentes ao modo de produção capitalista, Marx distingue-se radicalmente do pensamento burguês, que as apreende de modo exterior e as absolutiza como naturais – absolutizando assim também o modo de produção da vida no qual elas encontram sua validade. O conteúdo essencialmente histórico dessas categorias só pode ser evidenciado pelo seu desenvolvimento, a partir de seu fundamento contraditório, num movimento expositivo cujo conteúdo é a derivação das formas sociais através das quais a lei do valor poderá se realizar. Por meio desse desenvolvimento, Marx evidencia a unilateralidade do pensamento burguês, que insiste em assumir aprioristicamente a validade de suas próprias categorias.
 
No presente artigo, procuramos mostrar como Marx, ao conceber as categorias da economia burguesa como a expressão das relações sociais imanentes ao modo de produção capitalista, distingue-se radicalmente do pensamento burguês, o qual busca apreender essas mesmas categorias de modo exterior – naturalizando não apenas tais categorias, mas também o modo de produção no qual elas encontram sua validade.
Para atingir tal objetivo, será necessário retomar as tão conhecidas considerações marxianas sobre o método da Economia Política. Na Introdução de 1857, Marx escreve que:
 
Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia Política, (…) parece que o correto é começar pelo real [Real] e concreto, que é o pressuposto [Vorraussetzung] efetivo [wirkliche]; assim, em Economia, por exemplo, começar-se-ia pela população, que é o fundamento [Grundlage] e o sujeito do ato social de produção como um todo. No entanto, numa observação mais atenta, isso se mostra falso. A população é uma abstração [Abstraktion], se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. (…) Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo [Ganze], e através de uma determinação mais precisa chegaríamos analiticamente a conceitos cada vez mais simples; do concreto representado [vorgestellte] passaríamos a abstrações [Abstrakta] cada vez mais tênues [dünnere] até atingirmos as determinações mais simples. Deste ponto, teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até chegarmos finalmente de volta à população; desta vez, porém, não como representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade [Totalität] de muitas determinações e relações. (...)
O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso/múltiplo.[2] [Das Konkrete ist konkret, weil es die Zusammenfassung vieler Bestimmungen ist, also Einheit des Mannigfaltigen.]  Por isso o concreto aparece no pensamento como processo da síntese [Zusammenfassung], como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação. No primeiro trajeto [Weg], a representação plena foi volatilizada [wurde verflüchtigt] em determinações abstratas; no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto no trajeto [im Weg] do pensamento. Por isso é que Hegel caiu na ilusão de apreender [fassen] o real [Reale] como resultado do pensamento que se sintetiza a si mesmo, se aprofunda em si e se move por si [sich in sich zusammenfassenden, in sich vertiefenden und aus sich selbst sich bewegenden Denkens], enquanto que o método de se elevar do abstrato ao concreto é apenas a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, reproduzi-lo como concreto espiritual [geistig]. (Marx, 1983: 34-6).
 
Eis então que o método “cientificamente correto” – o método que nos permite “reproduzir no pensamento” aquilo que a experiência imediata nos deixa apreender apenas de modo “caótico” – deve distinguir três tipos de concreto: em primeiro lugar, o real-concreto (das Real), ponto de partida de toda intuição e toda representação e, como tal, pressuposto efetivo de todo o pensar científico; em segundo, o concreto representado, isto é, o concreto reproduzido pela consciência imediata através de categorias que a análise mais atenta revela serem ainda meras abstrações (pois indeterminadas)[3]; e por fim, o concreto como “como processo da síntese [Zusammenfassung], como resultado, não como ponto de partida”, o concreto efetivo (wirklich), concebido/conceituado (begrifflich) - um concreto que:
 
Não é mais individual [Einzelnes], mas sim um todo, uma totalidade; que não mais expressa momentos isolados apreendidos pelos sentidos [Sinnlichkeit], mas sim a conexão concebida/conceituada e concebível/conceituável [den begriffenen und begrifflichen Zusammenhang] (Sgro', 2009: 205).
 
Deve-se portanto reconhecer, por um lado, que o “sujeito real permanece subsistindo, agora como antes, em sua autonomia fora do cérebro”, e que “o método de se elevar do abstrato ao concreto é apenas a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, reproduzi-lo como concreto espiritual”; e por outro, que essa “apropriação do concreto” não pode se dar através do espelhamento imediato do concreto pela representação, mas apenas como síntese, como resultado de uma reconstrução a partir das categorias mais simples e gerais a que nos levara a análise – e isso porque o concreto de que agora se trata “é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso/múltiplo”, resultado de um movimento do pensamento, de uma concepção da coisa através do trabalho do conceito:
 
Que expõe progressivamente, a partir das determinações mais simples e abstratas do conteúdo, suas determinações cada vez mais ricas, complexas e intensas, até o ponto de sua unidade, que não é uma unidade formal, mas uma unidade sintética de múltiplas determinações (Müller, 2011).
 
É por isso que tal método deve ser constituído por dois momentos, dois trajetos distintos e complementares: no primeiro, a faculdade da abstração nos leva “do concreto representado” até “as determinações mais simples”[4]; no segundo, faz-se a viagem de “modo inverso, até chegarmos finalmente” ao concreto, “desta vez, porém, não como representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade [Totalität] de muitas determinações e relações”. Nas palavras de Marx citadas acima: “no primeiro trajeto [Weg], a representação plena foi volatilizada [wurde verflüchtigt] em determinações abstratas; no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto no trajeto [im Weg] do pensamento”[5]. Trajetos distintos pois, enquanto no primeiro deles se trata de pesquisar o material, no segundo trata-se de expô-lo, apresenta-lo da maneira adequada; e complementares porque a exposição adequada, único modo de reproduzir racionalmente o concreto, tem sempre a pesquisa como seu pressuposto. Como formularia Marx cerca de uma década e meia mais tarde:
 
A pesquisa tem de captar detalhadamente o material, analisar as suas várias formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno [innres Band]. Só depois de concluído esse trabalho é que o movimento efetivo [wirkliche] pode ser adequadamente apresentado. Caso se consiga isso e a vida do material se reflita [widerspiegelt] agora idealmente, então pode parecer que se trata de uma construção a priori (K, I, 27; C, I, 1, 140).
 
O modo de exposição [Darstellungsweise]” deve então ser distinguido “do modo de pesquisa [Forschungsweise]”, mas apenas “formalmente” (Marx, 2008a: 27) – pois, como veremos à frente, o modo de exposição mesmo será condicionado pelo objeto analisado.
 
                         
 Os métodos da Economia burguesa
Deve-se notar, entretanto, que o método de ir do abstrato ao concreto é praticado por todos os cientistas e filósofos que Marx considera dignos dessas qualificações: eles admitem, consciente ou inconscientemente, que o concreto não pode ser apreendido apenas pela intuição (Anschauung) e pela representação (concreto representado, não ainda concebido), embora estes constituam efetivamente o ponto de partida do raciocínio científico[6]. Todas as ciências, portanto, admitem tal procedimento – todas, menos a Economia Política: “Que no aparecimento as coisas se apresentam frequentemente invertidas, é conhecido em quase todas as ciências, exceto na Economia Política” (Marx, 2008a: 559).
Para compreender por que Marx diz isso, basta ter em vista aquilo que ele chamou de economia vulgar, uma expressão que serve para qualificar todos aqueles economistas que se recusam a “pensar além” da “representação burguesa” (Marx, 2008c: 826). A economia vulgar sistematiza e transforma em doutrina as concepções correntes dos agentes produtivos[7] – as quais, apesar de serem imediatamente adequadas ao modo de proceder destes últimos, constituem, como vimos, um fundamento insustentável para o raciocínio científico. Ela parte daquilo que Marx denominou fórmula trinitária (constituída pelas seguintes associações entre fator de produção e tipo de rendimento: relações capital – juro, terra – renda, trabalho – salário), desconsiderando que os elementos que a constituem formam composições prima facie impossíveis[8]; não contesta o absurdo da trindade, e por isso se vê obrigada a traçar uma relação incomensurável entre valor de uso (terra, meios de produção) e valor, isto é, a “deduzir” este daquele. Daí, por exemplo, que embora parta da relação (claramente absurda) capital – juro, a economia vulgar se veja sempre obrigada a fugir do capital enquanto valor para o capital como coisa material (da mesma maneira como faz com a terra). Isso, decerto, a leva a outro absurdo; afinal, por que o produto dessa coisa material não apenas poderia, mas teria necessariamente que ser trocado por dinheiro? E por que uma coisa material deveria gerar dinheiro, isto é, um excedente na forma do lucro? Isso, diz Marx, a Economia vulgar é completamente incapaz de esclarecer.
 
Primeiro temos o valor de uso terra, que não tem nenhum valor, e o valor de troca renda: de tal modo que uma relação social, concebida como coisa, está posta em relação com a Natureza; portanto duas grandezas incomensuráveis, que precisam guardar entre si uma proporção. Depois capital – juros. Se o capital é compreendido como certa soma de valor, apresentada [dargestellte; na tradução: representada] autonomamente em dinheiro, então é prima facie sem sentido [Unsinn; na tradução: uma bobagem] que um valor deva ter mais valor do que ele tem [als er Wert ist]. Exatamente na forma: capital – juros desaparece toda a mediação e o capital fica reduzido a sua fórmula mais genérica, mas, por isso mesmo, em si mesma inexplicável e absurda. Exatamente por isso, o economista vulgar prefere a fórmula capital – juros à fórmula capital – lucro, com o que oculta a qualidade de ser um valor desigual consigo mesmo, pois aqui já se pode chegar mais perto da relação real do capital. Depois, de novo, com a intranqüila sensação de que 4 não são 5 e, daí, 100 taléres não podem ser, de maneira alguma, 110 táleres, ele foge do capital enquanto valor para a substância material do capital, para seu valor de uso enquanto condição de produção do trabalho: maquinaria, matéria-prima etc. Com isso consegue então novamente que, em vez da incompreensível relação, segundo a qual 4 = 5, acaba aparecendo uma relação completamente incomensurável entre, por um lado, um valor de uso, uma coisa, e, por outro, determinada relação social de produção, o mais-valor; exatamente como na propriedade fundiária. Assim que chega a esse incomensurável, tudo fica claro para o economista vulgar e ele não sente mais a necessidade de pensar além. Pois ele acabou chegando ao 'racional' da representação burguesa ['Rationale' der Bürgervorstellung]. (Marx, 2008c: 825-6)
 
O que o economista vulgar faz, portanto, é tentar dar à consciência imediata (na maioria das vezes, efetiva no cotidiano burguês) dos agentes da produção a forma da ciência:
 
Por outro lado é, no entanto, igualmente natural que os agentes reais da produção se sintam completamente à vontade nessas formas alienadas [entfremdeten] e irracionais [irrationelen] de capital – juro, terra – renda, trabalho – salário, pois elas são exatamente as configurações [Gestaltungen] da aparência [Schein] em que eles se movimentam e com as quais lidam a cada dia. Por isso é igualmente natural que a Economia vulgar, que não é nada mais do que uma tradução didática, mais ou menos doutrinária, das concepções cotidianas dos agentes reais da produção, nas quais introduz certa ordem compreensível, encontre, exatamente nessa trindade em que toda a conexão interna [innere Zusammenhang] está desfeita, a base natural e sublime, acima de toda e qualquer dúvida, de sua jactância superficial (Marx, 2008c: 838-9)[9].
 
Assim, a economia vulgar abdica do trabalho de análise que constitui o primeiro momento do “método cientificamente correto”, com o que ela pode apresentar as três partes do valor global periodicamente produzido como advindas de três fontes não apenas diversas (isto é: distintas e independentes umas das outras)[10], mas também naturais:
 
Aparecem como frutos de uma árvore perene a serem anualmente consumidos, ou melhor, de três árvores; constituem as receitas anuais de três classes – do capitalista, do proprietário da terra e do trabalhador – rendimentos que o capitalista ativo distribui em geral como sugador imediato do mais-trabalho e empregador do trabalho. Ao capitalista aparece seu capital, ao proprietário da terra seu solo e ao trabalhador sua força de trabalho, ou melhor, seu próprio trabalho (já que ele só vende efetivamente a força de trabalho enquanto algo que se exterioriza [sich äuβernde], e para ele, como se mostrou anteriormente, o preço da força de trabalho, na base do modo de produção capitalista, se apresenta necessariamente como preço do trabalho), enquanto três fontes distintas [indiferentes, exteriores umas às outras - BH] de seus rendimentos específicos: o lucro, a renda fundiária e o salário (Marx, 2008c: 830).
 
Ora, o absurdo dessa concepção é patente; pois:
 
a distribuição pressupõe a existência dessa substância, ou seja, o valor global do produto anual[11], que nada é senão trabalho social objetivado. Todavia, não é nesta forma [in dieser Form] que a coisa [Sache; na tradução: questão] se apresenta para os agentes da produção, para os portadores das diferentes funções do processo de produção, mas, antes, numa forma invertida [verkehrten Form]. (…) Capital, propriedade fundiária e trabalho aparecem para aqueles agentes da produção como três fontes distintas e independentes, das quais se originam enquanto tais três componentes diferentes do valor anualmente produzido – e daí do produtor em que ele existe; ou seja, dos quais não só se originam as diferentes formas desse valor como rendimentos, que recaem nos fatores particulares do processo social de produção, senão esse mesmo valor e, com ele, a substância dessas formas de rendimento (Marx, 2008a: 831).
 
Pode-se agora ver com clareza o que levou Marx a negar à maior parte da teoria econômica o caráter de ciência: por se recusar a investigar e se limitar a espelhar as representações que se apresentam no cotidiano do mundo burguês, por não “volatilizá-las” por meio da “faculdade de abstrair” - enfim, por simplesmente deixar de lado o momento essencial da análise, a Economia vulgar abandona desde o início o método adequado àquilo que pode ser seriamente classificado como raciocínio científico. Em outras palavras: aquilo que Marx chama de Economia vulgar apenas reflete imediatamente as formas de aparecimento das relações sociais de produção, sem atentar para sua conexão interna[12], e é isso que a torna completamente “desnecessária” do ponto de vista científico[13].
Como, contudo, dizer o mesmo da Economia clássica? Como dizer que ela não sabe que “as coisas frequentemente aparecem de modo invertido” se seu maior mérito foi justamente ter dissolvido essa aparência de autonomia dos diferentes elementos da riqueza social[14], ter considerado “corretamente o valor e a relação do lucro, do salário, etc. como parte desse valor” (Marx, 2000: 100)? Para compreender isso, será útil recorrer à importante passagem das Theorien über den Mehrwert cujo início acabamos de citar. Marx escreve ali que Ricardo[15]:
 
abstrai com consciência da forma da concorrência, da aparência da concorrência, com o intuito de considerar a lei enquanto tal. Por um lado deve-se lhe censurar o fato de que ele não vai longe o suficiente na abstração, não está de todo na abstração – assim, por exemplo, quando ele considera o valor da mercadoria, mas já se deixa determinar pela consideração de todo tipo de relações concretas –; por outro lado, [deve-se lhe censurar] que ele considera então a forma de aparecimento imediatamente, diretamente como comprovação ou apresentação da lei geral, de modo algum a desenvolve. No que diz respeito ao primeiro [ponto] é sua abstração muito incompleta, no que diz respeito ao segundo é ela abstração formal, a qual é, em si e para si, falsa (Marx, 2000: 100, nota).
 
 
Assim, se Ricardo de fato “abstrai da forma da concorrência”, ele “não vai longe o suficiente nessa abstração”. Consequentemente, apesar de chegar ao trabalho como substância do valor, ele é incapaz de ver que apenas em uma dada forma de sociedade o trabalho põe valor[16], isto é, que apenas na sociedade em que se produz predominantemente para a troca o valor aparece como “forma imediatamente social dos trabalhos privados” (Marx, 2008a: 91); apesar de chegar à mercadoria, ele só a compreende como forma natural, modo natural de existência do produto do trabalho[17] – e o produto do trabalho, portanto, como algo que naturalmente porta valor[18]. Assim, embora se encontre muito à frente dos economistas vulgares e desfaça o absurdo da fórmula trinitária ao reduzir todos os tipos de rendimento à mesma substância, e apesar de ter analisado, “ainda que incompletamente, valor e grandeza de valor e o conteúdo oculto nessas formas”, a Economia clássica “nunca chegou a perguntar por que esse conteúdo assume aquela forma, por quê, portanto, o trabalho se representa pelo valor e a medida do trabalho, por meio de sua duração, pela grandeza do valor do produto de trabalho” (Marx, 1983a: 94)[19]. Como escreveu Marx em um dos trechos mais conhecidos de O Capital:
 
É uma das falhas básicas da Economia Política clássica não ter jamais conseguido descobrir, a partir da análise da mercadoria e, mais especialmente, do valor das mercadorias, a forma-valor, que justamente o torna valor de troca. Precisamente, seus melhores representantes, como A. Smith e Ricardo, tratam a forma-valor como algo totalmente indiferente ou como algo externo à própria natureza da mercadoria (Marx, 2008a: 95).
 
E a mesma idéia pode ser encontrada nas Theorien:
 
Ricardo (…) não investiga de modo algum o valor segundo sua forma - a forma determinada que o trabalho assume como substância do valor - mas apenas as magnitudes de valores, as quantidades desse trabalho [que é] universalmente abstrato e social graças a essa forma, que produz a diferença nas quantidades de valor das mercadorias (Marx, 2000: 163).
 
Assim, o trabalho de abstração da Economia clássica é incompleto porque, ao chegar à categoria mais geral da economia capitalista, ela se mostra incapaz de reconhecê-la como a expressão de uma forma social (e portanto histórica), uma forma determinada assumida pelo trabalho quando seu produto se socializa através de uma relação (histórica) de troca[20]. Evidencia-se assim um defeito característico da economia política: ela não consegue compreender as formas de sociabilidade imanentes ao modo de produção capitalista como formas sociais[21], o que a condena a assumir aprioristicamente a validade das categorias que exprimem apenas as relações sociais específicas deste modo de organização da produção social[22]. Assim, dirá Marx,
 
mesmo seus melhores porta-vozes, como não poderia ser diferente do ponto de vista burguês, permanecem mais ou menos presos ao mundo da aparência [Schein] que sua crítica extingue; por isso, todos eles recaem, em maior ou menor grau, em formulações inconsequentes, semiverdades e contradições não-solucionadas [ungelöste]” (Marx, 2008c: 838)[23].
 
Como”, porém, “esse ponto é o ponto crucial em torno do qual gira a compreensão da Economia Política” (Marx, 2008a: 56), Marx se vê obrigado, antes de iniciar o trabalho de apresentação do material pesquisado, ou seja, antes de iniciar o segundo momento do “método cientificamente correto” – tarefa da qual Marx se ocupará em praticamente todo O Capital –, a dedicar as duas primeiras seções do capítulo I de sua principal obra à conclusão crítica do trabalho de análise que a Economia clássica deixara incompleto[24], e mostrar que a mercadoria não é valor de uso e valor de troca, mas valor de uso e valor[25] - e que “o trabalho, à medida que é expresso no valor, já não possui as mesmas características que lhe advêm como produtor de valores de uso” (Marx, 2008a: 56)[26].
 
Mas voltemos ao trecho das Theorien que abriu esta seção. Ali, não é apenas por não completar o trabalho de análise que Ricardo é criticado: Marx também o censura por considerar “a forma de aparecimento imediatamente, diretamente como comprovação ou apresentação da lei geral”, ou seja, por não “desenvolver” essa “forma de aparecimento”. Como se lê em outro trecho das Theorien:
 
[E]m Ricardo, a unilateralidade vem dele querer em geral demonstrar que as diversas categorias ou relações econômicas não contradizem a lei do valor, em vez de, ao contrário, desenvolvê-las junto com suas contradições aparentes a partir deste fundamento ou expor o desenvolvimento deste fundamento mesmo. (Marx, 2000: 146)
 
Ricardo erra então ao aceitar as “diversas categorias ou relações econômicas” tais como elas se apresentam na empiria como aptas à constituição científica do objeto, ou seja, ao pressupô-las como dadas, ao invés de desenvolvê-las a partir de seu fundamento social: a lei do valor[27]. Afinal, como afirma Reichelt:
 
As categorias não devem ser apreendidas de modo exterior [aeuβerlich aufgriffen] e absolutizadas como naturais; trata-se [es kommt darauf an] pelo contrário de desenvolvê-las geneticamente, como formas historicamente devindas [gewordene], as quais, enquanto socialmente condicionadas, podem também novamente desaparecer com a sociedade da qual nasceram. (Reichelt, 2008: 426)
 
Ora, se “um método que apreende as categorias de modo exterior [äuβerlich] deve necessariamente conduzir a um modo falso de exposição [falschen Darstellungsart] do processo total” (Reichelt, 1971: 127), então Ricardo deve inevitavelmente complementar a insuficiência no trabalho de análise com uma exposição também equivocada do material analisado, uma apresentação que ignore completamente o fato de que as “categorias e relações econômicas” mais concretas só adquirem sua validade científica quando são desenvolvidas teoricamente, e não apanhadas diretamente da empiria.
 
A apresentação/exposição [Darstellung] dialética
Vimos anteriormente que o “modo de apresentação” pode ser distinguido apenas “formalmente” do “modo de pesquisa”. Tudo leva a crer então que as duas falhas metodológicas de Ricardo – a insuficiência de seu trabalho de abstração (análise) e o não-desenvolvimento das categorias a partir de seu “fundamento contraditório” (síntese) – estão intimamente relacionados, com o que se poderia afirmar que a apresentação equivocada das categorias por parte de Ricardo decorre necessariamente do fato de que ele não as compreende como a expressão unilateral das relações de produção capitalista, ou seja, como formas autonomizadas do valor[28]. Com efeito, por compreender equivocadamente a Economia Política como uma ciência da relação das pessoas com as coisas, e não da relação das pessoas com as pessoas no processo de reprodução material da sociedade[29], Ricardo, como vimos, não consegue apreender a mercadoria como forma historicamente determinada do produto do trabalho, ou o valor como a forma em que o trabalho necessariamente se apresenta num modo de produção em que o produto do trabalho não é socializado imediatamente enquanto coisa útil[30]. Consequentemente, ele se mostra absolutamente incapaz de perceber a reprodução da sociedade produtora de mercadorias como problema.
A Crítica à Economia Política, ao contrário, sabe que as categorias são as “formas de aparecimento das relações essenciais” (Marx, 2008c: 825) de uma sociedade historicamente determinada. Consegue, assim, livrar-se da assunção da validade a priori dessas categorias, o que lhe permite admitir que a reprodução material da sociedade em que tais categorias adquirem validade nada tem de natural ou trivial. Daí que o movimento dialético empreendido por Marx possa partir da constatação (analítica) de que “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista” – um modo de produção que efetivamente existe e, portanto, se reproduz – tem a mercadoria individual “como sua forma elementar” (Marx, 2008a: 49)[31] e mostrar, a partir daí, como é possível que isso ocorra – para o que terá que derivar as formas sociais necessárias à reprodução de uma economia assim organizada. Marx pode pois censurar a Economia Política por pressupor aquilo que deveria desenvolver[32]: as formas sociais sem as quais a reprodução do modo de produção capitalista seria impossível.
Caberá então à Crítica da Economia Política problematizar pela primeira vez a reprodução material de uma sociedade em que:
 
the private labor of separate individuals does not acquire the character of social labor in the concrete form in which it was expended in the process of production, but through exchange which represents an abstraction from the concrete properties of individual things and individual forms of labor (Rubin, 2008: 70)
 
isto é, dessa sociedade cuja reprodução material – a produção e a distribuição dos valores de uso de que necessita – se fundamenta na lei do valor[33], sociedade esta que terá que ser capaz de saciar suas necessidades materiais apesar de nela não se produzir para o consumo imediato, mas sim para a troca. Ora, para que uma tal sociedade possa se reproduzir, a contradição contida na mercadoria terá que ser ao mesmo tempo superada e conservada: superada, pois numa economia capitalista o valor de uso só se realiza quando se realiza o valor, e vice-versa[34]; conservada, porque uma sociedade em que tal contradição seja abolida não será uma sociedade capitalista. Por conseguinte, o desenvolvimento de que falava Marx consistirá numa apresentação/exposição cujo conteúdo será a derivação das formas sociais através das quais a lei do valor poderá se realizar[35], isto é, das relações sociais específicas com as quais a oposição entre valor de uso e valor poderá se mover: resolver-se e desdobrar-se.Trata-se então de um modo de exposição cujo motor é a contradição: um modo de exposição dialético[36]. Como escreve Wolf:
 
O caráter dialético da exposição desvela-se [erschließt sich] então fundamental e completamente [grundlegend und vollständig] apenas se é mostrado de modo firme e substancial [inhaltlich verbindlich], para os processos econômico-sociais expostos/apresentados e a cada nível de abstração, de que modo é neles tanto posta quanto resolvida [gelöst] a contradição das mercadorias entre o valor de uso e o valor, entre o caráter material [Stofflichkeit] e o caráter social [Gesellschaftlichkeit] do trabalho. Da forma-valor simples na relação de duas mercadorias entre si, passando pela circulação de mercadoria caracterizada [gekennzeichnete] pela ligação [Beziehung] entre a mercadoria precificada [preisbestimmte] e o dinheiro, até todas as formas que o capital assume através de seus diferentes circuitos [Kreisläufe] em seu 'processo vital' determinado, trata-se de formas do valor [Formen des Werts] que consistem em formas de movimento nas quais a contradição entre o valor de uso e o valor da mercadoria não apenas é resolvida, mas ao mesmo tempo se conserva [erhalten bleiblt]. Com base no [caráter – BH] social-geral do trabalho que se exprime no valor e no seu lado material dado com o valor de uso, pode-se dizer sobre o significado da contradição entre o valor de uso e o valor da mercadoria o mesmo que sobre o duplo caráter do trabalho primeiramente descoberto por Marx. Ela é o “nó górdio” [Springpunkt] da Crítica à Economia Política. (Wolf, 2011: 8)
 
A origem do movimento de exposição é portanto o fato de que, numa sociedade de produtores privados, o trabalho não é diretamente social enquanto trabalho útil[37], e portanto o produto não é diretamente social enquanto valor de uso; e a exposição mesma será dialética porque realizará o processo ideal de desenvolvimento das contradições do capital a partir de sua contradição fundamental[38]. Assim, “a mercadoria é uma contradição imediata”, e “essa contradição precisa se desenvolver” (Marx apud Reichelt, 1971: 151) - desenvolvimento que, como se sabe, levará em sua primeira etapa à gênese lógica da forma-dinheiro[39] através do processo de troca (imanente à própria forma-mercadoria), que “produz uma duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro, uma oposição externa, na qual ela [a mercadoria - BH] apresenta sua oposição imanente entre valor de uso e valor” (K, I, 119; C, I, 1, 228). A forma-dinheiro, contudo, “não suprime/supera [aufhebt] essas contradições”, mas apenas “gera a forma dentro da qual elas podem mover-se” (K, I, 118; C, I, 1, 227)[40] - o que significa que, com o dinheiro (ou melhor: o dinheiro enquanto concebido), tem-se uma forma em que a oposição imanente à mercadoria pode ser ao mesmo tempo resolvida e desdobrada, mas não abolida.
Se não abole a contradição, o dinheiro todavia a repõe num nível mais concreto, isto é, num nível da exposição que reúne em si mais determinações do que aquele do qual o movimento partira. Isso significa que o movimento dialético de exposição tem um sentido exato: parte da forma “mais geral e abstrata” em direção às “mais complexas e concretas”. O movimento que efetua a resolução e a reposição da contradição dialética entre valor de uso e valor na mercadoria é portanto idêntico ao trajeto que constitui o segundo momento do método “cientificamente correto”: aquele que “se eleva do abstrato ao concreto”, que constitui “a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, reproduzi-lo como concreto espiritual”. Assim, a exposição categorial deve
 
reconstituir a articulação entre os vários aspectos deste conceito como um desdobramento de etapas ou momentos – as ‘determinidades formais econômicas’ –, desdobramento através do qual a definição de ‘capital’ se enriquece progressivamente até alcançar seu conteúdo mais complexo, mais ‘concreto’, num movimento que tem como finalidade apreender a relação entre o ‘nexo interno’ do objeto e suas formas externas de manifestação como uma dedução de categorias (Grespan, 1998: 40).
 
Um tal desenvolvimento expositivo, é evidente, só se pode encerrar quando se chega novamente às formas mais concretas da superfície da economia burguesa, quando se as apreende como resultado do movimento conceitual do capital – quando, finalmente, se realiza completamente a reconstrução conceitual da “sociedade burguesa organizada através da relação-capital desenvolvida” (Wolf, 2011: 4), de modo que tal sociedade não mais se apresenta como a “representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade de muitas determinações e relações”. Daí que, no último tomo de O Capital, trate-se:
 
de encontrar e expor as formas concretas que surgem [hervorwachsen] do processo de movimento do capital, considerado como um todo. Em seu movimento efetivo [wirklich], os capitais se defrontam em tais formas concretas, para as quais a figura do capital no processo de produção direto, bem como sua figura no processo de circulação, só aparecem como momento particular [besondere]. As configurações do capital, como as desenvolvemos neste livro, aproximam-se, portanto, passo a passo, da forma em que elas aparecem [auftreten] na superfície da sociedade, na ação dos diferentes capitais entre si, na concorrência e na consciência costumeira dos agentes da produção. (Marx, 2008c: 33)
 
Qual é, enfim, o conteúdo das categorias?
O leitor atento lembrará que todo este longo e quiçá pretensioso desvio metodológico tivera um único fito: o de trazer à luz o conteúdo das categorias da economia burguesa, com o que se pretendia superar a imperdoável indeterminação que acometia as teorias econômicas convencionais ali onde elas pretendiam ter apreendido plenamente seu objeto – no caso, as sociedades por ações. Caso tenhamos cumprido nosso objetivo, terá ficado claro que o desenvolvimento dialético das formas-valor é a outra face de um desenvolvimento dialético das relações sociais de produção que, em seu conjunto, configuram o modo de produção capitalista. O sistema marxiano, afinal, “examines a series of increasingly complex 'economic forms' of things (…) which correspond to a series of increasingly complex production relations among people.” (Rubin, 2008: 37; grifos do autor)
Assim, Marx parte da forma-valor como forma geral assumida pelo trabalho na sociedade capitalista e mostra que tal forma necessariamente “pede” a forma-dinheiro[41], pois o valor só pode ser a forma geral assumida pelo trabalho quando o produto deste é trocado, e isto é impossível sem a forma-dinheiro – significando isso que, deixada a si mesma, a forma-valor entra em contradição consigo mesmas, uma contradição só resolvida com a entrada em cena do dinheiro enquanto uma forma mais concreta do valor. Mas esse mesmo movimento, apreendido acima da perspectiva do produto do trabalho, pode também ser visado da perspectiva das relações sociais sob as quais tal produto é produzido, distribuído e consumido. Afinal, deve-se exclusivamente ao modo como se relacionam seus produtores, e não a alguma de suas propriedades materiais, o fato de um produto do trabalho assuma tal ou qual forma social[42]: ele assume a forma-mercadoria – e o trabalho nele contido, a forma-valor – apenas se for resultado da atividade de produtores privados autônomos que os trocam no mercado. Desse ponto de vista, percebe-se que Marx parte da relação de troca (o modo geral de relacionamento entre indivíduos na economia capitalista) e mostra que a relação de troca abstrata, deixada a si mesma, entra em contradição consigo mesma – pois ela não pode ser a relação social geral na forma da simples troca, isto é, do escambo. Essa contradição, por seu turno, só é resolvida com o desenvolvimento da relação de troca na relação de compra e venda: forma mais concreta assumida pela relação de troca.
Fica claro, desse modo, que quando falamos de um desenvolvimento dialético das formas-valor, ou das categorias através da qual o sujeito apreende unilateralmente estas formas na superfície do mundo burguês, estamos também falando do desenvolvimento das relações sociais que dão origem àquelas formas – relações cujo tipo mais geral é a relação de troca. E é por isso que Marx escreverá não apenas que “as categorias exprimem relações” (Marx, 1983: 39), ou que “as categorias são apenas a expressão teórica das relações de produção” (Marx, 1971: 126), mas também que essas formas-valor – categorias subjetivas-objetivas, já que a coisa, por um lado, não pode ser coisa de valor em sua determinidade imediata, i.e., como coisa em-si, mas apenas para um sujeito, e por outro se apresenta ao sujeito individual como coisa de valor justamente nesta forma do em-si, como algo que vale [gilt] socialmente como coisa de valor, i.e., que possui objetividade social como coisa de valor –; enfim, que “tais formas constituem [bilden] precisamente [eben] as categorias da economia burguesa” (Marx, 2008a: 91)[43].
 
 
Bibliografia
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[1] Economista pela FEA/USP, mestrando do programa de História Econômica da FFLCH/USP e bolsista Fapesp. E-mail: bruno.hofig@usp.br.
[2]  “Como se sabe, concreto vem de concrescere; concrescere = crescer junto [zusammenwachsen]”. (Wolf, 2011a: 3).
[3] Indeterminadas porque tomadas como coisas em si desprovidas de conexão com os demais elementos que se apresentam à percepção, o que elas efetivamente não são. Justamente por isso, sua análise invariavelmente nos remete a suas determinações reflexivas.
[4] “Na análise das formas econômicas não podem servir nem o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos” (Marx, 2008a :11-2).
[5] “O concreto é ponto de partida como objeto não-concebido [unbegriffener] da intuição e da representação [Vorstellung], para então se atingir, no curso da pesquisa como processo do desmembrar [Zergliederns] e do rastrear [Aufspürens] analíticos, todos os componentes pertencentes ao concreto (domínios e elementos). Daqui, com o conhecimento – obtido no curso do processo de pesquisa – de como eles [os componentes – BH] se inter-relacionam/concatenam [zusammenhängen], retorna-se ao concreto, que como não-concebido fora ponto de partida da intuição e da representação e agora é o ponto final do conceber que condensa os resultados da pesquisa.” (Wolf, 2011a: 4)
[6] Cf. Wolf, 2011a: 5.
[7] Ela é “o prolongamento teórico das representações que se originam da aparência da superfície capitalista” (Reichelt, 2008: 378).
[8] “Porque ele [o economista vulgar] a encontra expressa na monetary expression [em inglês no original – BH], ele não precisa 'conceber' [begreiffen], através do que [wodurch] essa expressão se torna possível (…) e o que ela de fato expressa” (Marx, 1993: 155)
[9] E Marx completa: “ Ao mesmo tempo, essa fórmula corresponde ao interesse da classe dominante, à medida que ela proclama e eleva a dogma a necessidade natural e a legitimação eterna de suas fontes de rendimentos” (Marx, 2008c: 839).
[10] É importante ter aqui em mente a distinção entre diversidade e oposição: “Hegel define a primeira [a diversidade - BH] como uma forma de diferença na qual os termos diversos são independentes e indiferentes uns dos outros – a diferença não é estabelecida por qualquer relação entre eles – enquanto na segunda [i.e., na oposição - BH] é a relação que constitui os termos opostos em sua diferença – cada um é o que o outro não é, e vice-versa” (Grespan, 1998: 66).
[11] Até porque, embora tenham magnitudes diferentes, todas as três grandezas se apresentam na mesma forma: a do valor, e só por isso podem ser comparadas como grandezas. É impossível, por exemplo, comparar quantitativamente arroz e maquinaria enquanto tais; mas pode-se compará-los enquanto corpos que possuem massas, por exemplo. Assim, apenas abstraindo de suas diferenças qualitativas, isto é, apenas reduzindo-as a corpos de mesma qualidade (no caso, massa) essa comparação é possível.
[12] “Na superfície do processo total (…) manifesta-se a relação da essência com o aparecimento na irracionalidade da forma mesma”. (Reichelt, 1971: 90-1). “Essas expressões imaginárias nascem [entspringen], entretanto, das próprias condições de produção. São categorias para as formas de aparecimento [Erscheinungsformen] de relações essenciais”(Marx, 2008a: 559). Tais relações sociais históricas aparecem então necessariamente como seu contrário: como imanentes à produção enquanto tal, e isso se reflete na teoria. Assim, a teoria que parte imediatamente dessas categorias é necessariamente, inevitavelmente a-histórica. “Caso o teórico não consiga dissipar [aufzulösen] essa mistificação, então ele já está antecipadamente condenado a perceber o mundo burguês apenas sob uma forma, qual seja, a do objeto. (…) Que o modo de produção seja visto como natural e eterno, não é (…) uma assunção [Unterstellung] consciente [bewuβt vollzogone] do economista burguês, mas sim algo que deve ser remetido a essas formas de aparecimento [Erscheinungsformen]” (Reichelt, 1971: 92).
[13] Para compreender essa afirmação, é necessário compreender o que Marx tinha em mente quando falava de essência: “[Marx concebe] a essência não como absoluta, mas sim como essência que – como na concepção hegeliana – deve aparecer – e, com efeito, aparecer completa e plenamente [voll und ganz]; caso ela não aparecesse, não seria a essência. As categorias são neste caso 'formas de aparecimento de relações essenciais' apenas porque o 'capital que é para-si [für-sich-seienden]', o capital geral [allgemeine], 'aparece' para o capitalista, mas – e este é precisamente o ponto de vista decisivo – aparece, enquanto que, no ato de aparecer, também se esconde. Apenas através disso surgem problemas para a ciência, que de fato só se constitui em virtude [vermöge] dessa diferença entre essência e aparecimento.” (Reichelt, 1971: 86-7). Logo, Marx considerava a diferença entre essência e aparência, a não-coincidência imediata dessas duas, como a condição de possibilidade da ciência.
[14] “O maior mérito da Economia clássica consiste em ter dissolvido essa falsa aparência, esse engodo, essa autonomização e essa ossificação dos diferentes elementos sociais da riqueza entre si, essa personificação das coisas e e coisificação [Versachlichung] das relações de produção, essa religião da vida cotidiana, à medida que reduz o juro a uma parte do lucro e a renda ao excedente sobre o lucro médio, de tal modo que ambos coincidem no mais-valor; já que apresenta [darstellt; na tradução: representa] o processo de circulação como mera metamorfose das formas e, por fim, no processo imediato de produção, reduz o valor e o mais-valor da mercadoria ao trabalho” (Marx, 2008c: 838).
[15] Cabe lembrar que Ricardo foi, para Marx, “o último grande economista político, que teve o mérito de enfrentar o problema da teoria do valor-trabalho e de corrigir alguns defeitos da teoria de Smith, ao mesmo tempo em que desenvolveu até certo ponto uma concepção crítica do capitalismo, presente em sua teoria do lucro e na da tendência à queda da taxa de lucro. Além disso, em Ricardo são claras as virtudes de toda a economia inglesa, mas também seus defeitos metodológicos, alvo de observações importantes para se entender o método do próprio Marx. Daí que este último considere a sua crítica a Ricardo como ao que havia de melhor na tradição clássica, de modo que ela pode ser vista enquanto síntese do conjunto da sua crítica à Economia Política” (Grespan, 2012). Cf. também a primeira seção dos Grundrisse: “Bastiat e Carey”.
[16] “Ricardo (…) apreende a produção como imediatamente idêntica à autovalorização do capital” (Grundrisse, 324). Contra tal concepção reveladora da unilateralidade dos economistas, Marx escreve que“O trabalho que põe [setzende] valor de troca é uma forma especificamente social de trabalho” (Marx, 1971: 24). “Labor does not, in itself, give value to the product, but only that labor which is organized in a determined social form (in the form of a commodity economy). If producers are related to each other as formally independent organizers of economic activity and as autonomous commodity producers, then the values of their labor confront each other on the market as 'values'. (…) The value of things expresses a determined type of production relations among people” (Rubin, 2008: 68).
[17] “Quando se trata, pois, de produção, trata-se da produção em um grau determinado do desenvolvimento social, da produção dos indivíduos sociais” (Marx, 1983: 20). Assim, “apenas produtos de trabalhos privados autônomos e independentes entre si confrontam-se como mercadorias” (Marx, 2008a: 57).
[18] “Pois o trabalho é sempre trabalho determinado, o qual se realiza no horizonte de um nível [Stand] de domínio sobre a natureza [Naturbeherrschung] condicionado através da atividade de várias gerações; tal horizonte (…) altera-se novamente no ato mesmo de sua apropriação” - o que, no entanto, não impede “a geração seguinte” de o tomar [weitergeben] “por um apriori transcendental” (Reichelt, 1971: 40).
[19] “Havíamos visto, além disso: o capital – e o capitalista é apenas o capital personificado, funcionando no processo de produção apenas como portador [Träger] do capital –, portanto o capital, no processo de produção social a ele correspondente, extrai determinado quantum de mais-trabalho que aquele recebe sem equivalente (…) Esse mais-trabalho se apresenta num mais-valor e esse mais-valor existe [existiert] num mais-produto. De modo geral, sempre precisa haver mais-trabalho enquanto trabalho que vá além da medida das necessidades dadas. Só que, no sistema capitalista, assim como no sistema escravista etc., ele assume uma forma antagônica e é complementado por puro ócio de uma parte da sociedade. Determinado quantum de mais-trabalho é requerido [erheischt; na tradução: exigido] mediante o seguro contra acasos, mediante a necessária e progressiva expansão do processo de reprodução, correspondendo às necessidades e ao progresso da população, o que, do ponto de vista capitalista, se chama acumulação” (Marx, 2008a: 827). Mas para Economia Política, como vimos, todo mais-trabalho se apresenta num mais-valor; e ela é incapaz de compreender o valor como forma historicamente determinada porque considera o valor como uma propriedade da coisa, e não como forma social. Nas palavras de Rubin: “'value' does not characterize things, but human relations in which things are produced. It is not a property of things but a social form acquired by things due to the fact that people enter into determined production relations with each other through things. Value is a 'social relation taken as a thing', a production relation among people which takes the form of a property of things” (Rubin, 2008: 69). E é justamente por não entender que a “Political economy does not analyze the material-technical aspect of the capitalist process of production, but its social form, i.e., the totality of production relations which make up the "economic structure" of capitalism”, que ela “is not a science of the relations of things to things, as was thought by vulgar economists, nor of the relations of people to things, as was asserted by the theory of marginal utility, but of the relations of people to people in the process of production”, que ela, enfim, “não é tecnologia” (Marx, 1983: 21) - e que portanto “the categories are therefore but forms of expression, manifestations of existence, and frequently but one-sided aspects of this subject, this definite society" (Marx, 1983: 2-3) –, que Ricardo não consegue, por exemplo, lidar com o problema da taxa de lucro de dois capitais de mesma magnitude com rotação diferente; é por achar que o valor é posto pelo trabalho enquanto tal que ele não consegue passar do valor ao preço de produção – em que a remuneração de um capital já é função de sua participação no processo de reprodução como um todo, e portanto já não é mais função de uma atividade isolada, mas também de sua relação com os demais capitais. Pois a compreensão do valor enquanto propriedade da própria coisa impede a percepção de que “na sociedade capitalista, esse mais-valor ou esse mais-produto se distribui – caso abstraiamos das flutuações ocasionais da distribuição e consideremos sua lei reguladora, seus limites normativos [normierenden] – entre os capitalistas como dividendos em relação à cota do capital social que pertence a cada um”, e de que “nessa figura [Gestalt], o mais-valor aparece como lucro médio que recai no capital” (Marx, 2008a: 828).
[20] “A razão disso”, não custa lembrar, “não é apenas que a análise da grandeza de valor absorve totalmente sua atenção. É mais profunda. A forma valor do produto de trabalho é a forma mais abstrata, contudo também a forma mais geral do modo burguês de produção que por meio disso se caracteriza como uma espécie particular de produção social e, com isso, ao mesmo tempo historicamente. Se no entanto for vista de maneira errônea como a forma natural eterna de produção social, deixa-se também necessariamente de ver o específico da forma valor, portanto, da forma mercadoria, de modo mais desenvolvido da forma dinheiro, da forma capital etc.” (Marx, 2008a: 93, nota). “Essa incapacidade da economia clássica decorre [geht darauf zurück] de que ela ainda estava tão enredada pela aparência das relações econômico-sociais que, na redução das formas do valor [Formen des Werts] ao trabalho, ela permaneceu junto a uma difusa representação do trabalho, na qual o trabalho concreto útil e o trabalho humano abstrato como sua formal social geral foram misturados um com o outro. (…) [A]s abstrações dos economistas clássicos tornam-se falsas, porque eles não levam o processo de abstrair [Vorgang des Abstrahierens] longe o suficiente, isto é, interrompem-no antes da hora [vorzeitig].” (Wolf, 2011: 7).
[21] Uma consequência necessária da eliminação da análise da forma-valor, do valor como qualidade, é a completa incapacidade do estudioso de saber exatamente do que é que se fala. Isso fica especialmente claro nas análises mais complexas, em que o economista considera imediatamente como capital aquilo que o proprietário considera como tal – o que impede, por exemplo, a mais elementar compreensão do que é capital fictício. Assim, o economista considera imediatamente a ação de uma empresa como capital, e admite seu preço como o valor do capital; em outras palavras: ele não sabe exatamente o que mede. (Aqui cabe perfeitamente a censura levantada por Hegel contra a pretensão de independência da Matemática.) Como escreve Backhaus: “Joan Robinson desvela a situação paradoxal da economia moderna, a qual, por um lado, desenvolveu complicados métodos matemáticos, para calcular os movimentos dos preços e do dinheiro, e por outro, desaprendeu [verlernt hat] – o que quer que isso queira dizer – o que constitui o objeto desses cálculos. Caso no entanto se permaneça no modo de pensamento de Joan Robinson, então a pergunta replicada por ela à economia moderna – 'Quantidade do que?' - só pode ser caracterizada [charakterisieren läßt], de sua própria posição [isto é, a de Robinson – BH], como 'metafísica'; pois é precisamente essa problematização o que, como questionamento [Frage nach] da gênese das 'propriedades sobrenaturais' do valor ou – o que dá na mesma – como questionamento da 'substância' do valor, constitui o objeto das reflexões de Marx. A maneira positivista de eliminar problemas qualitativos (…) corresponde àquele notório formalismo assim censurado [glossiert] por Joan Robinson: 'Os exponentes modernos da economia neoclássica fogem [flüchten sich] para manipulações matemáticas sempre mais complicadas e se irritam cada vez mais com perguntas relativas a seu suposto conteúdo.'” (Backhaus, 2011)
[22] Marx não se cansou de repetir que o conteúdo das categorias da economia burguesa são as relações sociais específicas que, em seu conjunto, constituem o modo de produção capitalista. Em suas palavras: “as categorias são apenas a expressão teórica das relações de produção” (Marx, 1971: 126); “as categorias são a expressão de relações” (Marx, 1983: 36), ou ainda: “as categorias exprimem relações” (Marx, 1983: 39).
[23] “As determinações que valem para a produção em geral devem ser precisamente separadas, a fim de que não se esqueça a diferença essencial por causa da unidade, a qual decorre já do fato de que o sujeito – a humanidade – e o objeto [Objekt] – a natureza – são os mesmos. Este esquecimento é responsável por toda a sabedoria dos economistas modernos que pretendem provar a eternidade e a harmonia das relações sociais existentes no tempo” (Marx, 1983: 21-2). Por isso, mesmo Ricardo, o maior representante da Economia burguesa, “toma (…) conscientemente a oposição dos interesses de classe, do salário e do lucro, do lucro e da renda da terra, como ponto de partida de suas pesquisas, em que ele considera essa oposição ingenuamente como lei natural da sociedade. Com isso, a ciência burguesa da economia havia, porém, chegado aos seus limites intransponíveis” (Marx, 2008a: 20). O limite absoluto da Economia burguesa encontra-se então no reconhecimento do antagonismo como lei natural. É justamente essa limitação o que impede Ricardo de reconhecer o valor enquanto forma social que assume necessariamente o produto do trabalho quando este não se socializa diretamente enquanto valor de uso, mas apenas através da troca – isto é, como coisa de valor.
[24] “Nossa investigação começa (…) com a análise da mercadoria” (K, I, 49; C, I, 1, 165). Marx “starts his analysis with market phenomena which can be observed, with the opposition between use and exchange value. From this opposition, which can be seen on the surface of phenomena, he seems to dive below toward the two-fold character of labor (concrete and abstract)” (Rubin, 2008: 73).
[25] “Essa natureza dupla do trabalho contido na mercadoria foi criticamente demonstrada pela primeira vez por mim” (Marx, 2008a: 56).
[26] “A economia clássica é superada [überwunden] quando Marx, com a Crítica da Economia Política, exaure [ausschöpft] completamente o potencial da abstração metódica e rastreia todos os elementos, dos mais simples aos mais complexos, para com isso conceber [begreifen] apropriadamente a realidade efetiva em sua conexão interna.” (Wolf, 2011: 11)
[27] “[E]le incorpora as categorias [diretamente – BH] da empiria, pressupõe-as como dadas (ao invés de primeiro desenvolvê-las).” (Reichelt, 1971: 127)
[28] “A exposição total do processo deve ocorrer a partir da compreensão adequada dos problemas da forma [hat aus dem richtigen Verständnis der Formprobleme zu erfolgen]” (Reichelt, 1971: 128).
[29] “Political economy does not analyze the material-technical aspect of the capitalist process of production, but its social form, i.e., the totality of production relations which make up the 'economic structure' of capitalism. Production technology (or productive forces) is included in the field of research of Marx's economic theory only as an assumption, as a starting point, which is taken into consideration only in so far as it is indispensable for the explanation of the genuine subject of our analysis, namely production relations. Marx's consistently applied distinction between the material-technical process of production and its social forms puts in our hands the key for understanding his economic system. This distinction at the same time defines the method of political economy as a social and historical science. (…) Political economy is not a science of the relations of things to things, as was thought by vulgar economists, nor of the relations of people to things, as was asserted by the theory of marginal utility, but of the relations of people to people in the process of production.” (Rubin, 2008: 2-3). Como escreveu Marx, “não se trata aqui de definições sob as quais as coisas são subsumidas. Trata-se de funções determinadas que são expressas por categorias determinadas” (Marx, 2008b: 228)
[30] “Apenas dentro de sua troca os produtos do trabalho recebem uma objetividade-de-valor [Wertgegenständlichkeit] socialmente igual, separada da sua objetividade de uso fisicamente diversa. Essa cisão do produto do trabalho em coisa útil e coisa de valor realiza-se [betätigt] apenas na prática, tão logo a troca tenha adquirido extensão e importância suficientes para que as coisas úteis sejam produzidas para a troca, [ou seja, – BH] para que o caráter de valor da coisa já seja tomado autonomamente em consideração na produção.” (Marx, 2008a: 87)
[31] “Para a sociedade burguesa, a forma celular da economia é a forma-mercadoria do produto do trabalho ou a forma-valor da mercadoria” (Marx, 2008a: 12).
[32] “A economia pressupõe [unterstellt] aquilo que ela deve desenvolver.” (Marx apud Reichelt, 1971: 25). [A] livre concorrência (…) jamais foi desenvolvida pelos economistas, por mais que estes tagarelem sobre ela e por mais que ela seja a base de toda a produção burguesa, produção que repousa sobre o capital. (Marx, 1983: 327).
[33] Como escreveu Backhaus: “O próprio sentido da crítica das categorias econômicas consiste em revelar as condições econômicas que tornam a existência da forma-valor necessária.” (Backhaus, 2011)
[34] “[A] mercadoria só se realiza como valor de uso, quando se realiza como valor de troca – ela só se realiza como valor de troca, quando se realiza como valor de uso” (Reichelt, 1971: 163).
[35] “A exposição marxiana das categorias contém portanto (…) a derivação [Ableitung] daquelas formas, através das quais [durch die hindurch] a lei do valor pode, em geral [überhaupt], se realizar.” (Reichelt,1971: 178). Justamente por isso, é impossível definir sinteticamente a lei do valor e seu modo de efetivação (verwirklichung); pois, como afirma Marx numa carta a Kugelmann: “A ciência consiste justamente em desenvolver como a lei do valor se impõe” (apud Reichelt, 1971: 173). A apresentação dialética das categorias seria então a única maneira de fugir da aparência da concorrência que, como vimos, aprisiona toda a Economia Política; seria também, portanto, o modo de mostrar que o valor não pode ter outra fonte que não o trabalho: “A definição da lei do valor e a exposição de seu modo de operação [Wirkungsweise] não pode, portanto, para Marx, ser algo diferente do desenvolvimento das categorias mesmas, que por seu lado deve reabrir [wieder eröffnen] o acesso à análise do 'movimento real-efetivo da concorrência', cuja exposição porém se encontra fora dos 'planos' de Marx.” (Reichelt, 1971: 173-4).
[36] Hegel, como se sabe, dizia que a contradição era a fonte de toda a dialética. (Cf. Grespan, 2009: 32).
[37] Nos demais modos de produção de que se teve notícia, ao contrário, “o trabalho [é] diretamente socializado”, de modo que “a forma natural do trabalho, sua particularidade, e não, como na base da produção de mercadorias, a sua generalidade, é aqui sua forma diretamente social” (Marx, 2008a: 91-2).
[38] “Dialética significa n'O Capital primeiramente e, também, predominantemente, o 'método/modo de exposição' crítica das categorias da economia política, o método de 'desenvolvimento do conceito de capital' a partir do valor, presente na mercadoria, enquanto ela é a categoria elementar da produção capitalista que contém o “germe” das categorias mais complexas. O conceito fundamental, aqui, para o Marx crítico da economia política, é o de 'exposição', 'método de exposição', que designa o modo como o objeto, suficientemente apreendido e analisado, se desdobra em suas articulações próprias e como o pensamento as desenvolve em suas determinações conceituais correspondentes, organizando um discurso metódico (…) A dialética enquanto método caracteriza um procedimento que pretende expor construtivamente o 'desenvolvimento conceitual do capital' (Grundrisse, 405) (…) a partir de sua 'forma elementar' (K, I, 49), a mercadoria (enquanto objeto imediato da circulação e forma econômica dos produtos do trabalho humano), e das determinações progressivas das formas de manifestação do valor, presente na mercadoria: forma-valor simples, forma-valor total, forma-valor universal, dinheiro em suas determinações fundamentais. Ela reproduz, assim, idealmente, o movimento sistemático (lógico) através do qual o capital se constitui naquilo que é, autovalorização do valor.” (Müller, 2011) “O projeto marxiano de apresentação (…) depende de que se apreenda o ‘fundamento’ da economia capitalista – o valor e o capital enquanto valor que se valoriza – como algo contraditório, gerando daí um processo pelo qual a contradição se ‘desenvolve’ para abarcar o conjunto das relações econômicas como uma totalidade na qual cada forma se liga à outra enquanto ‘forma de manifestação da contradição todo-abrangente' (…) Nesta força totalizante do capital, Marx encontrou o substrato a partir do qual se define um objeto autônomo, que pode e deve ser apresentado independentemente de condições exteriores a ele, e que tende a subsumir a si as demais relações sociais existentes, permitindo sua inteligibilidade. Não se trata, assim, de uma simples construção que recortaria um objeto possível: ‘Aqueles que consideram a abstração do valor como uma mera abstração esquecem que o movimento do capital é esta abstração ‘in actu’’' (Marx) (…) Assim, o conceito de capital tem “seus desdobramentos dialeticamente apresentados enquanto momentos de um desenvolvimento” (Grespan, 1998: 35-7).
[39] Historicamente, a gênese das duas formas em sua plenitude é simultânea: “Na mesma medida, portanto, em que se dá a transformação do produto do trabalho em mercadoria, completa-se a transformação da mercadoria em dinheiro” (Marx, 2008a: 102). Com isso, fica claro que Marx tem em vista na derivação das categorias é o modo de produção capitalista já estabelecido, e não o movimento de sua gênese histórica (movimento do qual Marx só trata depois de derivar logicamente a forma em questão; cf, por exemplo, o capítulo dedicado à acumulação originária).
[40] “Esse é, em geral, o método com o qual contradições reais-efetivas [wirkliche] se resolvem [lösen]. É uma contradição, por exemplo, que um corpo caia constantemente em outro e, com a mesma constância, fuja dele. A elipse é uma das formas de movimento em que essa contradição tanto se realiza como se resolve” (Marx, 2008a: 118).
[41] “A questão efetiva é: o próprio sistema de troca burguês não torna ele mesmo necessário um instrumento de troca específico? Não cria ele necessariamente um equivalente particular para todos os valores?” (Marx, 1983: 64)
[42] “Pois não são as coisas sensíveis e os objetos materiais o objeto dessa ciência, mas apenas essas coisas e esses objetos na medida em que valham (gelten) simultaneamente como objetividade de um abstrato, como coisas 'sensíveis-suprasensíveis'” (Reichelt, 2011).
[43] “São formas de pensamento socialmente válidas e, portanto, objetivas para as relações sociais deste modo de produção historicamente determinado, a produção de mercadorias.” (Marx, 2008a: 91)