O debate sobre Franz von Sickingen entre Marx, Engels e Lassalle: “schillerizar” ou “shakespearizar”?

 

Ana Cotrim[1]
 
 
Entre as passagens esparsas na obra de Karl Marx que tratam de temas artísticos e literários, o debate epistolar sobre o drama Franz von Sickingen – Eine Historische Tragödie (1959), de Ferdinand Lassalle, constitui um dos momentos de maior desenvolvimento, ao lado da análise do romance Os mistérios de Paris, de Eugène Sue, em A sagrada família. Lassalle enviou a peça a Marx e Engels, junto com um manuscrito explicando as suas intenções, que lhe responderam separadamente. A carta de Marx data de 6 de março de 1959 e a de Engels de 21 de março de 1959. A semelhança dos argumentos de ambas as cartas conduziu Lassalle a enviar uma réplica conjunta a Marx e Engels, que julgaram por fim despropositado dar continuidade ao debate, que se conclui com uma carta de Marx a Engels datada de10 de junho de 1859. Embora escrita de maneira bastante sintética, a carta de Marx abrange um amplo espectro de temas e proposições significativas para o campo da estética, que buscamos apresentar aqui brevemente. Seguimos de perto a argumentação de Marx, e tomamos a carta de Engels em algumas passagens.
Marx inicia a sua carta com um elogio à peça pela “composição e vivacidade da ação”, bem como pelo conflito que procurou figurar:
 
A colisão que ideaste não é apenas trágica: é aquela trágica colisão que conduziu o partido revolucionário de 1848-1849 ao seu lógico fracasso. Portanto, só posso aplaudir a ideia de convertê-la no eixo de uma tragédia moderna. (Marx, 2010a: 73)
 
Antes de mais nada, Marx ressalta que o conflito que Lassalle pretende figurar é objetivamente trágico. Sobre isso, a célebre passagem acerca da queda trágica do antigo regime na França e seu fim cômico na Alemanha lança luz à sua concepção sobre a imanência da tragicidade em certas colisões históricas:
           
O ancien régime teve uma história trágica, uma vez que era o poder estabelecido do mundo, ao passo que a liberdade era uma fantasia pessoal; numa palavra, quando acreditou e tinha de acreditar na sua própria legitimidade. Enquanto o ancien régime, como ordem do mundo existente, lutou contra um mundo que estava precisamente a emergir, houve da sua parte um erro histórico, mas não um erro pessoal. O seu declínio, portanto, foi trágico. (Marx, 2006: 148)
 
Aqui, o trágico existe na medida em que as partes em conflito estão ambas justificadas em sua luta por prevalecer sobre a outra. Embora o antigo regime estivesse fadado a desaparecer pelo próprio evolver da história, os seus representantes que enfrentam o surgimento da nova ordem têm de lutar pela sua própria existência social. Sua luta é heroica e sua derrota é necessária – nessas condições, sua história é trágica.
Pertencendo-lhes a tragicidade como traço próprio, os diversos conflitos que envolvem a dissolução do antigo regime são apropriados como matéria da conformação artística trágica – e de fato o foram e, entre muitos outros, por ninguém menos que Shakespeare. Marx escreve que “o desaparecimento de classes de outrora, como a cavalaria, pôde dar matéria a grandiosas obras de arte trágicas”. Aqui, trata-se do desaparecimento heroico de instituições e classes sociais de origem feudal que não poderiam ter outro destino, porque a sua luta visa o que já está a tornar-se passado. O sentido positivo da sua queda trágica não reside no conteúdo da sua luta, mas sim na vitória das instituições da nova forma social que, com todas as contradições inerentes, logrou romper com as amarras da servidão, da vassalagem e do sangue.
O conflito que Lassalle quer retratar não é apenas trágico, mas uma colisão trágica específica, a derrota dos revolucionários de 1848 na Alemanha. O caráter objetivamente trágico dessa derrota não é daquele mesmo tipo. Na França, as jornadas de junho de 1848 caracterizaram uma revolução do trabalho, e sua derrota advém do desenvolvimento ainda restrito das relações capitalistas de produção, por conseguinte, do caráter incipiente da classe operária e do movimento. A contrarrevolução burguesa massacrou os revolucionários na condição de classe plenamente estabelecida como dominante, tendo já vencido aquelas classes que se opunham à sua dominação, os representantes do antigo regime. Marx escreve:
 
Os trabalhadores parisienses foram esmagados pela superioridade numérica, não foram abatidos por ela. Foram batidos, mas seus opositores foram vencidos. O triunfo momentâneo da força bruta foi comprado com o aniquilamento de todas as mistificações e ilusões da revolução de fevereiro, com a decomposição de todo o velho partido republicano, com a cisão da nação francesa em duas nações, a nação dos proprietários e a nação dos trabalhadores. (Marx, 2010b, artigo nº 29: 126)
 
Vemos que a derrota dos revolucionários franceses em 1848 é para Marx momentânea – devida apenas à sua desvantagem de força e número. A positividade da derrota reside em ter encontrado a verdadeira finalidade da sua luta e na “perda de suas ilusões”, opondo a finalidade da revolução social aos ideais burgueses da revolução política, e assim afirmando a perspectiva de futuro que se encarna na classe proletária.
Na Alemanha, as revoluções de 1848 tiveram um caráter diverso. Econômica e politicamente atrasada e fragmentada, a Alemanha mantinha em grande medida uma base feudal – a maioria da população trabalhadora era camponesa ligada à terra pelos laços da servidão e a classe dominante ainda se compunha de uma aristocracia, embora aburguesada. A indústria nascente se concentrava na região renana da Prússia, onde surgira uma burguesia local e a classe operária era incipiente e pouco numerosa. A burguesia tinha o interesse de estabelecer um estado propriamente burguês e promover a unificação da Alemanha: tratava-se de uma tentativa tardia de revolução burguesa. Contudo, as lutas na França haviam já estabelecido o proletariado como classe que lhe é oposta. Por conseguinte, o pequeno proletariado alemão tinha consciência de que a revolução burguesa não realizaria os interesses da sua classe; e a grande massa de camponeses e artesãos, que em princípio encontravam na burguesia um aliado na luta contra a servidão, também já se tornara demasiado revolucionária para o estreito horizonte burguês. Pelas suas condições objetivas, a burguesia dependia, para fazer a sua transição, da aliança com as classes revolucionárias do proletariado, dos camponeses e artesãos. Mas a partir da experiência radical francesa, tinha consciência da ameaça popular. Marx escreve que “cada classe, no preciso momento em que inicia a luta contra a classe superior, fica envolvida numa luta contra a classe inferior” (Marx, 2006, 155). Sufocando os levantes populares, a burguesia aliou-se à aristocracia. Com isso, “fez a contrarrevolução de seus próprios déspotas” (Marx, 2010b, artigo nº 136: 259), e acabou derrotada.
Marx mostra que a Alemanha desse período não poderia realizar a sua revolução burguesa, de modo que as conformações do estado aristocrático apenas seriam vencidas por uma revolução radical que suprimisse as próprias barreiras políticas, ou seja, pela emancipação social. Contudo, o atraso no desenvolvimento produtivo e conseguinte imaturidade da classe revolucionária consistiam em obstáculo a essa realização:
 
Como poderia a Alemanha, em salto mortale, superar não só as próprias barreiras, mas também as das nações modernas, isto é, as barreiras que na realidade tem de experimentar e atingir como uma emancipação das suas próprias barreiras reais? Uma revolução radical só pode ser a revolução das necessidades reais, para a qual parecem faltar os pressupostos e o campo de cultivo. (Marx, 2006: 153)
 
Impossibilidade de o proletariado alemão lançar-se na luta por seus próprios interesses de classe, em função da ausência dos pressupostos reais, eis o caráter trágico da derrota dos revolucionários de 1848 na Alemanha. Na carta a Lassalle, esse traço trágico do conflito é reconhecido por Marx, que aplaude a ideia de tomá-lo como matéria para a construção de uma tragédia moderna – moderna, portanto diversa daquela que conforma a queda de classes e instituições do antigo regime.
Dessa distinção advém a crítica à obra lassalleana: “No entanto, pergunto-me se o tema que escolheste é adequado para representar um tal conflito.”(Marx, 2010a: 74). O drama de Lassalle se passa durante os anos de 1522 e 1523, nas regiões alemãs da Suábia e da Francônia. Franz von Sickingen é um cavaleiro protestante e vinculado aos ideais de Lutero, defensor de Reuchlin e amigo de Hutten, humanistas luteranos. Partidário da Reforma, opõe-se a Roma não apenas pelas questões religiosas, mas especialmente pelo poder exercido sobre a Alemanha e seu vínculo com a alta nobreza interessada em preservar a fragmentação do Império em principados. Demanda apoio de Carlos V em sua luta contra Roma e os Príncipes, a fim de estabelecer a unidade nacional e a liberdade religiosa. Embora Sickingen tivesse garantido a sua eleição pela imposição militar, a vinculação direta do papado com a alta nobreza obriga-o a contrapor-se a ele.
A partir disso, e com o banimento de Lutero decretado pelo Imperador, Sickingen concebe o plano de conquistar a dignidade eleitoral, então restrita aos Príncipes-Eleitores, e fazer-se eleger Imperador contra Carlos V. Contudo, considera que a estratégia adequada é, antes de abrir a luta direta contra o Imperador e Príncipes, tomar o principado de Tréveris, um dos mais fortes e estratégicos, obtendo a dignidade eleitoral. Unifica como oposição os cavaleiros alemães para investir contra o Arcebispo de Tréveris.
Tanto pelos seus objetivos – liberdade religiosa, unidade nacional e restituição do antigo Império germânico – como pelo modo como se aproxima das questões – fidelidade ao Imperador, obrigações da honra, Sickingen caracteriza-se como cavaleiro, representante dos antigos ideais desta classe. Mais ainda, busca ocultar seu projeto por trás de uma querela de cavaleiros: a justificativa da investida recai sobre uma desavença entre Ricardo de Tréveris e um certo cavaleiro Hilchen Lorch, em razão do pagamento pelo resgate de dois prisioneiros.
Sickingen não contava com o fato de que o Príncipe, cioso de seu poder militar e de sua proximidade com o Imperador havia concebido um pacto de ajuda mútua com dois outros príncipes,[2] e que não comprariam essa justificativa típica da honra da cavalaria. Logo enxergam a ameaça e, de uma situação militarmente vantajosa, Sickingen passa a desvantagem e é obrigado a recuar. O levante final, aberto contra Imperador e Príncipes fica marcado para a primavera seguinte, mas falha pela previdência dos inimigos, que o cercam e prendem num de seus feudos. Cavaleiros temerosos das ameaças imperiais de proscrição e morte não acorrem.
No último ato, aparece a única figura representante daquele que foi, segundo Marx, “o acontecimento mais radical da história alemã”, a Guerra dos Camponeses. A figura é Joss Fritz, líder do Bundschuh, movimento responsável por uma série de levantes anteriores à guerra de 1525. Hutten concebe com Joss Fritz o plano de união com os camponeses que estão preparando a sua insurreição. Nas cenas de seu encontro, Fritz propõe a Hutten que a revolução dos camponeses seja liderada por Sickingen, com a condição de que ele jure fidelidade aos Doze Artigos dos Camponeses, o que Hutten faz em nome do amigo.[3]
Mas já é tarde demais. Numa tentativa de fuga, Sickingen é ferido de morte. Sobre o seu cadáver, Hutten prenuncia a derrota dos camponeses e clama aos revolucionários dos séculos vindouros que prossigam na luta de seu amigo. No entanto, é de Baltasar, seu fiel aliado, a reflexão que parece dar voz a Lassalle. Entre outros erros estratégicos, Sickingen comete o “erro trágico” de não declarar abertamente a sua finalidade e não apelar diretamente à nação, à massa dos camponeses e plebeus, que tinha força revolucionária.
Questionando a adequação deste tema para figurar os motivos da derrota trágica das lutas de 1848, Marx prossegue:
 
É claro que Baltasar pode imaginar que Sickingen venceria se não tivesse revestido a sua revolta com a aparência de uma querela entre cavaleiros e se, ao contrário, tivesse levantado a bandeira da luta contra o poder imperial e da luta aberta contra os príncipes.[4] Mas podemos nós compartilhar dessa ilusão? (Marx, 2010a: 74)
 
Significa que, mais que um erro estratégico, a união dos cavaleiros revoltosos com a massa camponesa é uma impossibilidade objetiva. Uma olhada nos Doze Artigos revela que as exigências dos camponeses superavam muito a finalidade da Reforma e da unidade nacional: fim dos laços de servidão, retomada das terras comunais, eleição dos pastores e autoridade regulares pela comunidade, redução do dízimo, fundo de caridade com o excedente do dízimo, redução de serviços e pagamentos à parte por serviços não acordados previamente, direito de caçar, pescar e cortar madeira, supressão do imposto sobre a morte, regularização da justiça etc. Com efeito, essa impossibilidade histórica faz com que a cena de Hutten e Joss Fritz cause à leitura uma grande estranheza, uma vez que sua luta se voltava também contra essa pequena nobreza, que lhes oprimia tanto quanto a alta esfera dos Príncipes. Engels escreve: “A meu juízo, a nobreza imperial da época não se propunha uma aliança com os camponeses, interditada pelo fato de viver graças às rendas obtidas com a sua exploração” (Engels, 2010: 79). Marx continua:
 
Sickingen /.../ não fracassou por causa de sua própria astúcia. Fracassou porque se rebelou contra o existente ou, mais precisamente, contra a nova forma do existente, mas porque o fez na condição de cavaleiro e representante de uma classe agonizante. (Marx, 2010a: 74)
 
Quer dizer que, se a história de Sickingen constitui uma tragédia, é a tragédia de da classe fadada a desaparecer pelo evolver histórico. Sickingen combate o imperador “somente porque este deixou de ser o imperador dos cavaleiros para sê-lo príncipes”. As “consignas de unidade e liberdade” da pequena nobreza revoltosa “ocultavam o sonho do antigo império e do direito do mais forte”. Assim, embora Lassalle busque atribuir aos discursos de Sickingen ideias próximas aos verdadeiros ideais revolucionários, “Sickingen e Hutten teriam de fracassar porque eram revolucionários apenas em sua imaginação”.
A própria ação de Sickingen, contrariando seus discursos, acaba por trair a sua verdadeira alma de cavaleiro, que luta por manter a posição de sua classe, pertencente essencialmente ao passado. Nas palavras de Marx:
 
O fato de começar a sua rebelião sob a forma de uma querela entre cavaleiros significa simplesmente que a começa à moda dos cavaleiros. Se a tivesse iniciado de outro modo, seria obrigado a apelar, diretamente e desde o primeiro momento, às cidades e aos camponeses, ou seja, àquelas classes cujo desenvolvimento equivale à negação da cavalaria. (Marx, 2010a: 74)
 
A escolha do tema encontra em Lassalle um fundamento além da opção puramente estética. A atribuição da perspectiva revolucionária a Sickingen reflete a crença no potencial revolucionário da burguesia de 1848. György Lukács, em sua análise deste debate, observa que Lassalle, alinhava-se à “pequena ala da extrema esquerda da burguesia democrata alemã que acarinhou a esperança de constituir uma frente única democrática burguesa-proletária contra as ‘forças antigas’ e de assim realizar uma revolução burguesa séria” (Lukács, 1979: 13).
Mas, os verdadeiros revolucionários alemães de 1848 não eram os burgueses. Para retratar o tipo de tragédia representada pela derrota do proletariado, Marx propõe que o drama de Lassalle deveria tomar como eixo, em lugar da revolta da nobreza, as lutas camponesas: “Inversamente, os camponeses (em especial) e os elementos revolucionários das cidades deveriam compor o fundo ativo essencial.” (Marx, 2010a: 74)
Engels havia, quase dez anos antes, estabelecido uma comparação entre as revoluções de 1848 e a guerra camponesa de 1525. A analogia é centrada na fragmentação alemã tanto com referências às inúmeras regiões econômica e politicamente independentes, como também, no interior dessas regiões, às inúmeras classes e frações de classes. Engels argumenta que a derrota das lutas camponesas resultou dessa fragmentação: as várias classes precipitaram-se no movimento sem o apoio umas das outras, e nenhuma delas conseguiu unir as outras em torno de si. No interior da classe camponesa, a dispersão fez com que os camponeses de uma região não apoiassem praticamente os camponeses de outras, de modo que exércitos pouco numerosos puderam derrotá-las uma a uma individualmente.
De acordo com Engels, também em 1848 as classes precipitaram-se no movimento como classes opostas entre si e que agiam por conta própria: “O particularismo dos camponeses em 1525 não pôde ser maior do que o de todas as classes que participaram no movimento de 1848” (Engels, 2008: 160). Marx continua: “ /.../ Por acaso não cometeste, em alguma medida, o mesmo erro diplomático erro do teu Sickingen, colocando a oposição dos cavaleiros luteranos acima da oposição plebeia de Münzer?” (Marx, 2010a: 74)
Engels descreve Thomas Münzer como o líder mais radical e “figura mais gloriosa” (Engels, 2008: 67) do movimento dos camponeses. Encarnava as reivindicações das minorias mais radicais entre os camponeses e plebeus, propondo a igualdade cristã e a comunidade de bens. Essas propostas excediam muito a possibilidade concreta de instauração. A ausência de condições materiais sobrepujava a vontade dos insurretos e a progressão real do movimento revolucionário:
 
Não só aquele movimento, mas ainda o próprio século, não estavam maduros para a realização das ideias que o próprio Münzer tinha começado a imaginar tarde e confusamente. A classe que representava acabava de nascer e não estava, de modo algum, completamente formada nem podia subjugar e transformar toda a sociedade. (Engels, 2008: 145)
 
Sem desconsiderar todas as diferenças específicas entre os dois momentos históricos, as semelhanças existentes entre a condição de Münzer como “revolucionário prematuro”, para usar os termos de Lukács, torna o seu destino um material adequado à conformação artística da tragédia sofrida pelo proletariado alemão de 1848. Em ambos os casos, os revolucionários encontram na ausência de pressupostos reais a impossibilidade de lutarem pelos interesses de sua própria classe.
Mas, conforme Marx, se Lassalle tomasse esse material como eixo, também a forma do drama teria de ser outra:
 
Tu te verias obrigado, querendo ou não, a shakespearizar muito mais o teu drama – e considero atualmente o teu defeito mais grave o ter escrito à moda de Schiller, transformando os indivíduos em simples portadores do espírito da época. (Marx, 2010a: 75)
 
Independente do modo como essa afirmação afeta as obras do próprio Schiller, o que Marx parece referir pela escrita “à moda de Schiller” é a forma como o drama traz os enunciados de grandes ideais pela boca de personagens que carecem de traços individuais característicos. Os ideais tornam-se abstratos porque não se confirmam nas ações dos personagens, podendo mesmo ser contraditórios com elas, como neste caso. Ao contrário, os meios poéticos designados por “shakespearização” parecem possibilitar que as colisões de classe se representem diretamente pelas ações e destinos de personagens individualmente caracterizados. Trata-se da figuração sensível, individualizada e ativa dos movimentos profundos que as regem. Engels também distingue esses dois modos do fazer artístico quando salienta que a sua concepção do drama “exige não substituir o realismo pelo ideal, Shakespeare por Schiller” (Engels, 2010: 79).
Fundada na insuficiente compreensão do caráter objetivamente trágico que os conflitos de classe carregam, a escrita à moda de Schiller torna o drama de Lassalle artisticamente imperfeito, não-realista: não figura a tragédia moderna do “revolucionário prematuro”, tampouco se constitui como autêntica tragédia da queda heroica da cavalaria. Mas a shakespearização do drama exige outra matéria que, neste caso, apenas se abre sobre a base da perspectiva da emancipação social – proletária – como oposta aos ideais do estado burguês.
 
 
Bibliografia
Engels, Friedrich. “As guerras camponesas na Alemanha”. Em: -, A revolução antes da revolução. Tradução de Eduardo L. Nogueira e Conceição Jardim. Expressão Popular: São Paulo, 2008, págs. 37-161.
---. “Carta a Lassalle de 18 de maio de 1859”. Em: Marx, Karl e Engels, Friedrich. Cultura, arte e literatura – textos escolhidos. Tradução e organização de José Paulo Netto e Miguel Yoshida. Expressão Popular: São Paulo, 2010, págs. 76-80.
Lassalle, Ferdinand. Franz von Sickingen – A Tragedy in Five Acts. Tradução de Daniel De Leon. University Press of the Pacific: Honolulu, 2001.
Lukács, György. “O debate sobre o ‘Sickingen’ de Lassalle”. Em: -, Marx e Engels como historiadores da literatura. Tradução (da edição francesa) de Teresa Martins. Editora Nova Crítica: Porto, 1979, págs. 7-89.
Marx, Karl. “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução”. Em: -, Crítica da filosofia do direito de Hegel. Tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus. Boitempo: São Paulo, 2006, págs. 145-156.
---. “Carta a Lassalle de 6 de março de 1859”. Em: Marx, Karl e Engels, Friedrich. Cultura, arte e literatura – textos escolhidos. Tradução e organização de José Paulo Netto e Miguel Yoshida. Expressão Popular: São Paulo, 2010, págs. 73-76 [2010a].
 ---. Nova Gazeta Renana. Tradução e apresentação de Lívia Cotrim. EDUC: São Paulo, 2010 [2010b].


[1] Doutoranda em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
[2] Os outros eleitores são Ludwig, conde do Palatinado, romanista, mas cuja casa se liga à casa de Sickingen por amizade e favores mútuos e para quem Franz consegue favores de Carlos V; e Filipe, Landgrave de Hesse, inimigo de Sickingen, mas luterano.
[3]Hutten: E quais são as condições?
Joss Fritz: Uma apenas; aquela que de que te falei. Será jurado o nosso líder – deve jurar os artigos, os doze; assim como a coluna de fogo de Jeová, um manifesto flamejante deve marchar diante de todos nós! Sua posição, seguidores e incomparável gênio militar multiplicarão nossa força. Com um chefe como esse, é certo que a vitória será nossa. Não podemos esperar outra hora melhor! Diz a teu Ziska, se consentir, que sua nução fará descer aos vales um sinal ardente, acenderá os céus da Alemanha e tornará em cinzas o nosso inimigo comum.
Hutten [Solenemente]: Tanto quanto um homem pode falar por outro, com minha mão jurarei agora esse consentimento do fundo do coração de Franz. [Estende a mão a Joss, que a toma calorosamente]” (LASSALLE, 2001: 134-35)
[4]Baltasar: [...] Pensaste que iludirias os Príncipes com a campanha contra Tréveris? Pensaste que tomariam como uma mera querela, uma simples disputa entre tu e Richard? Aos Príncipes não enganaste. Levados por um instinto certeiro, em ti seu ódio viu o inimigo mortal de sua posição. Somente aos teus amigos enganaste cuidadosamente – nessa querela estava em jogo uma Nação. Por isso ela não se move: as cidades, os camponeses – todos te deixaram com tuas próprias forças terminar tua querela privada, enquanto o fracasso inicial deixou os cavaleiros tímidos desde o princípio – [Levantando a voz] Ataste por ti mesmo as artérias de tua força; levaste de volta ao coração o sangue da vida que teria fluído para ti.
Franz: Oh, Baltasar! Desiste; não me oprimas com tuas reprimendas. Não poderia ser feito de outro modo, era ainda muito cedo para me declarar abertamente. O burgo de Tréveris, lugar estratégico, de todos era o que eu precisava primeiro. O plano era bom, e todos os cálculos foram bem feitos. Quem controla o capricho do acaso – que pode convertê-lo cruelmente num ônus?
Baltasar: Oh, não chames acaso o que é efeito! Porque não podemos contar com o acaso, é tolice colocar sobre sua cabeça escorregadia o destino da época. Era ainda muito cedo? Deverias então ter sabido esperar com calma. Mas uma vez que te lançaste à luta, teu papel era inscrever na tua bandeira, em letras grandes, plenamente legíveis, A reforma da Igreja e do reino; ou, melhor ainda, por força do título e do direito, com arrojo proclamar-te Imperador. Desacorrentar o fluxo da Nação, que os bancos retêm dolorosamente. Seria mais sábio do que brincar de cabra-cega com teus amigos – jogo que não cegou nem um único de seus inimigos. Bem calculado, dizes? Sim! Foi exatamente isso! Foste vencido por tua própria astúcia [...].” (LASSALLE, 2001: 121-22)