Alienação, objetivação e estranhamento na Ontologia de Lukács

 

Ronaldo Vielmi Fortes
UFMG
 
Muito embora as categorias alienação e objetivação estejam presentes na atividade laborativa, Lukács no capítulo O trabalho não efetua a diferenciação de ambas as categorias. Se limita a afirmar que no interior desse complexo tem lugar a gênese da relação sujeito/objeto, sem levar a discussão do problema à análise mais depurada, de forma a introduzir já no início de suas elaborações acerca do ser social a diferenciação destes dois momentos.
Esta advertência é necessária para destacar que a leitura isolada do capítulo O trabalho implica o alijamento de problemas essenciais de seu pensamento.
A ausência dessa tematização se justifica em parte pelos objetivos propostos no cap. I da parte sistemática de sua obra, cuja intenção é fundamentalmente a análise do complexo genético do ser social. Nesse momento inicial de sua elaboração trata-se de colocar no centro da reflexão a análise do complexo da relação entre homem e natureza, com o objetivo de pôr em destaque o caráter mais geral de toda atividade humana. Logo no início de suas considerações, após citar Marx, Lukács anuncia a categoria central do trabalho: o pôr teleológico. Trata-se de uma discussão bastante conhecida para os leitores de Lukács, portanto aqui bastaria apresentar os lineamentos mais gerais acerca do tema.
A correta compreensão da atuação da teleologia no âmbito do ser social envolve necessariamente a noção de relação indissociável com a categoria da causalidade, e nesse sentido só podemos falar de existência real e concreta da teleologia enquanto “teleologia posta”, como realização efetiva da finalidade. O produto final do trabalho aparece como síntese entre o movimento causal da natureza e o direcionamento teleologicamente estabelecido pela atividade do homem, de forma que, o objeto produzido é a expressão da superação da heterogeneidade entre teleologia e causalidade. É o pôr teleológico, entendido como um complexo de categorias específicas da atividade humana, que fornece o meio pelo qual o homem se diferencia radicalmente dos limites estáticos do movimento característico da natureza – do determinismo da necessidade natural.
Creio que seria possível dizer que o pôr teleológico constitui a versão lukacsiana para a determinação de Marx presente em Manuscritos econômicos filosóficos:
 
Quando o homem real, corpóreo, de pé sobre a terra firme e bem redonda, o homem que aspira e expira todas as forças da natureza, põe suas forças essenciais objetivas reais por meio de sua alienação como objetos estranhos, não é ato de pôr que é o sujeito; ele é a subjetividade das formas essenciais objetivas, cuja ação deve ser igualmente objetiva. O ser objetivo opera objetivamente, e ele não operaria objetivamente se a objetividade não estivesse incluída na determinação de sua essência. Ele apenas cria e põe objetos porque ele mesmo é posto por objetos, porque em sua origem ele é natural. Portanto, no ato de pôr, ele não cai de sua “atividade pura” em uma criação de objetos, mas seu produto objetivo não faz mais que confirmar sua atividade objetiva, sua atividade de ser objetivo natural. [MARX, 1982, 407-8]
 
O pôr teleológico implica sempre a ação de uma subjetividade em direta relação com a objetividade. No caso do trabalho esta objetividade aparece como os nexos causais da natureza, como determinações materiais dos objetos que devem ser apreendidos e corretamente manuseados para que possa de realizar as finalidades que movem o fazer dos homens. Esse constitui em termos bem genéricos a dimensão objetiva do trabalho. Porém Lukács evidencia no trabalho uma dupla dinâmica do processo do devir homem do homem. A dimensão objetiva – de compreender os nexos naturais e efetivar no mundo objetos somente capazer de serem postos pelos atos dos homens – e a dimensão subjetiva. Em relação a essa última Lukács destaca que ao trabalhar
 
todas as faculdades do homem que são mobilizadas devem estar sempre orientadas substancialmente em direção ao exterior, em direção à dominação efetiva e à transformação material do objeto natural através do trabalho. Quando o dever-ser, como é inevitável, apela para determinados aspectos da interioridade do sujeito, as suas demandas tendem a fazer com que as mudanças no interior do homem forneçam um veículo para melhor dominar a relação orgânica com a natureza. (LUKÁCS, 1986, Band 14, 77)
 
A dupla ordem de exigências existentes no trabalho conduz à transformação do comportamento do homem, pois o êxito de sua atividade depende da capacidade de disciplinar e adequar seus atos e sensações, para que possa responder efetivamente não apenas à finalidade, mas também, para que possa controlar a própria legalidade dos nexos e leis que regem os objetos e elementos naturais com os quais lida no decorrer de sua atividade. O trabalho implica concomitantemente à transformação do elemento natural, a transformação do próprio sujeito que trabalha – o homem ao transformar a natureza, transforma a sua própria natureza. Com isto tem lugar o desenvolvimento de novas qualidades físicas e psicológicas; surge pela primeira vez o “crescente domínio da inteligência sobre as inclinações espontâneas biológicas” (LUKÁCS, 1986, Band 14, 77), e se desenvolvem novas qualidades no sujeito tais como destreza, espírito de observação, disciplinamento das emoções, etc., que tanto favorecem de modo relevante um maior domínio e eficiência em suas ações junto à natureza, quanto criam as bases para a edificação da personalidade do homem. O trabalho é nesta medida considerado como o primeiro lugar em que estão dados os primeiros lineamentos para o desenvolvimento posterior da subjetividade e da personalidade do indivíduo.
Na seção A ontologia do momento ideal, do capítulo III O momento ideal e a ideologia Lukács retoma essa discussão e introduz a análise das categorias objetivação e alienação. O momento objetivo analisado no capítulo O trabalho, por nós apenas aludido aqui, é analisado nesse instante de suas elaborações por meio da categoria objetivação. Enquanto o momento subjetivo é pensado por meio da categoria alienação.
Para Lukács na unidade efetiva do ato da objetivação e da alienação estamos diante do complexo essencial da subjetividade/objetividade. A primeira categoria, objetivação, guarda relação direta com o crescente domínio por parte dos homens dos limites naturais, que se expressa historicamente como contínua construção e ampliação objetiva de sua capacidade de transformar a natureza e desse modo criar as próprias condições de sua existência. A alienação se reporta ao outro lado dessa mesma dinâmica, ou seja, a atividade prática junto à natureza impõe a adequação subjetiva ao processo produtivo, o confronto da subjetividade com um conjunto de necessidades extrínsecas tem como consequência necessária o desenvolvimento do controle dos indivíduos sobre si mesmos, que pensam e modificam a si próprios a partir de sua atividade.
Entretanto nessa seção o plano de análise da categoria é intensificado, e o autor destaca a dimensão mais ampla da efetivação de ambas as categorias, demonstra sua esfera de atuação para além da atividade junto à natureza, ou seja, além do complexo trabalho. Trata-se do pôr teleológico que se circunscreve não mais na relação objetiva com a natureza, mas com os nexos objetivos da sociabilidade. Em outras palavras, não mais com os nexos causais da causalidade natural, mas no plano objetivo dos nexos causais das relações sociais. A objetividade social aparece diante dos indivíduos sob a forma de problemas ou questões que devem ser equacionados e respondidos pelos mesmos no curso de sua existência, ou para usarmos as palavras de Lukács, no âmbito da ontologia da vida cotidiana.
Para exemplificar podemos lembrar que a objetivação, para Lukács, não mais significa apenas a produção de objetos materiais, mas a linguagem [portanto, algo essencialmente imaterial] é também definida como objetivação. A alienação do indivíduo se faz pelo uso particular da linguagem, que em sua especificidade define a dimensão subjetiva, a personificação do indivíduo expressa no estilo, nas escolhas das palavras, etc.
Nesse sentido, não são apenas as relações da subjetividade no interior da atividade prática aparecem como os critérios e elementos que movem o processo de produção da personalidade, mas os confrontos do indivíduo com a própria dinâmica social.
A diferenciação entre os dois momentos se faz evidente por meio da constatação da heterogeneidade entre a dinâmica por meio da qual tem lugar a socialização do mundo dos objetos e aquela que leva à socialização e ao desenvolvimento da personalidade por parte dos homens. A socialização do mundo, processo esse levado a cabo pelas objetivações, se dá de forma mais direta e homogênea a partir da ampliação da capacidade humana de transformar e moldar o seu mundo, enquanto no outro pólo, o da humanização do homem e o do desenvolvimento de sua personalidade, o curso dos desdobramentos é um processo mais descontínuo, entremeado por mediações, e pode, por isso, adquirir contornos contraditórios e, por vezes, até mesmo nefastos, sem que isto signifique a interrupção ou o retrocesso no desenvolvimento do afastamento das barreiras naturais. A formação da totalidade do ser social – em seus dois polos fundamentais: indivíduo e gênero – ocorre sob a forma da heterogeneidade entre a construção objetiva de seu mundo e a edificação de seu processo de humanização. O itinerário das ações humanas de objetivação indica a tendência à contínua e sempre crescente especificação das categorias do ser social, por meio do afastamento das barreiras naturais, ainda que, por seus movimentos desiguais ou mesmo contraditórios possa inibir a realização das individualidades.
A descontinuidade dos processos se justifica pelo fato de a alienação – diferentemente da objetivação que efetivando algo no mundo se reporta de modo mais imediato à totalidade da produção social – permanecer ligada ao ato singular do pôr e se dirigir à interioridade do indivíduo. A personalidade humana, em seu processo de desenvolvimento, somente pode se estruturar mediante a síntese dos vários atos singulares que ela efetivados. Em outros termos, para que a personalidade se estruture e adquira elementos suficientes para fixar-se sob a forma da relativa continuidade e estabilidade, deve deixar deslanchar uma longa série de pores singulares, para a partir daí, mediante a reapropriação de suas alienações, constituir a unidade de seus atos e comportamentos individuais. Pelo fato de a reapropriação não ter por primazia a exterioridade, mas a interioridade, o conjunto de mediações necessárias para o desenvolvimento da subjetividade se amplia e complexifica. A alienação, apesar de ser concomitante aos atos de objetivação, possui desenvolvimento desigual, dependente de uma série de mediações e processos contínuos para criar a constância passível de se constituir como traços de uma personalidade ou como tendências constantes presente em cada ação do indivíduo.
A heterogeneidade dos dois atos, um que se dirige aos nexos causais naturais ou sociais, outro aos elementos constitutivos da própria subjetividade, forma a base do duplo percurso aqui posto em evidência. A formação dos meios objetivos do desenvolvimento humano, isto é, a criação humana de seu mundo por meio das objetivações pode, dada esta heterogeneidade e característica multiplicação de desigualdades, constituir tão somente as bases para o afastamento das barreiras naturais, e é neste sentido que pode ser entendida como dinâmica tendencial do desenvolvimento do ser social. O ato de alienação é consentâneo ao ato da objetivação, embora, convém insistir, haja um desenvolvimento desigual entre eles quando se leva em conta o processo de socialização do mundo e da humanização do homem.
Na descontinuidade existente entre os dois momentos da atividade prática surge a possibilidade do aparecimento do estranhamento.
 
O estranhamento
Na própria raiz do trabalho os elementos da possibilidade contraditória estão postos. Lukács constrói seus argumentos por meio da crítica marxiana a Hegel, observando a ausência nesse último da distinção entre trabalho como é em-si, enquanto relação homem e natureza, e o trabalho tal como ocorre na formação da sociabilidade capitalista, na qual nasce uma forma específica da alienação, ou seja, o estranhamento. Na primeira acepção os traços mais universais do trabalho aparecem como elementos preponderantes do processo de autoconstrução humana e de formação da personalidade dos indivíduos mediante seus atos de alienação. Na secunda acepção, mais particularizada e circunscrita à realidade social de sua época (sob a égide do capital), o trabalho aparece como elemento dissolutor do humano, como atividade inibidora do pleno desenvolvimento dos indivíduos – o estranhamento. Essa ideia está contida, segundo Lukács no centro da crítica marxiana endereçada a Hegel, onde a dimensão negativa do trabalho se encontra negligenciada, e, por esse motivo, para o pensador idealista alemão “aquilo que é válido para a essência posta e a superar no estranhamento, não é que o ser humano se objetive desumanamente, em oposição a si mesmo, mas que ele se objetiva em contraste e em oposição ao pensamento abstrato” [Marx, apud LUKÁCS, 1986, Band 14, 355].
Para explicitar tal problema, Lukács refere uma significativa passagem do texto Teorias da mais valia, no qual Marx confronta o pensamento de David Ricardo ao do economista francês Sismondi. Esse último, assumindo a típica posição de um anticapitalista romântico, “contrapõe o bem-estar do indivíduo às necessidades do processo social tomado em sua totalidade” [OSS II, 561]. Marx, contra Sismondi, defende o caráter científico do pensamento ricardiano cujo princípio central de sua prospectiva dos processos da economia é a afirmação da primazia da “produção pela produção”. Citando diretamente o texto marxiano, nosso autor destaca:
 
não se compreende que esse desenvolvimento da capacidade da espécie homem, ainda que se cumpra à espessas do maior número dos indivíduos humanos e de todas as classes humanas, rompe enfim com esse antagonismo e coincide como o desenvolvimento do indivíduos singular, que, portanto, o mais alto desenvolvimento da individualidade é obtido somente a partir de um processo histórico no qual os indivíduos são sacrificados” [MARX, apud LUKÁCS, 1986, Band 14, 561-2]
 
Para Lukács, a constatação de Marx demonstra como “o desenvolvimento das forças produtivas provoca diretamente o crescimento das capacidades humanas, mas ao mesmo tempo pode em tal processo sacrificar os indivíduos (assim como classes inteiras)” [OSS II, 562]. O máximo desenvolvimento das capacidades humanas historicamente efetivado implica consentaneamente a desrealização das individualidades, ou a realização contraditória e estranhada em relação às potencialidades do gênero humano.
Em última análise o estranhamento pode ser descrito como antítese entre o desenvolvimento e potencialização da capacidade humana e o desenvolvimento da personalidade. O exemplo colhido em Teorias da mais-valia ilustra bem a caracterização mais geral do fenômeno. Ainda se pode acrescentar outro exemplo posto em evidência pelo próprio autor, que, para complementar seus argumentos, lembra A. Ferguson, para quem o desenvolvimento da atividade produtiva da indústria suplanta significativamente ao da manufatura, porém do ponto de vista humano não requer nenhum desenvolvimento de atitudes espirituais por parte dos homens; antes pelo contrário, os trabalhadores são mais eficazes quando “lhes são completamente reprimidos o sentimento e a razão, e a ignorância é a mãe da operosidade e da supertição” [FERGUSON, apud LUKÁCS, 1986, Band 14, 563]. Usando os termos de Marx, pode-se dizer, o uso das máquinas potencializa a produção ampliando a capacidade produtiva humana, porém o trabalhador, em virtude das relações de produção socialmente estabelecidas, torna-se mero “apêndice da máquina”. Sob esse aspecto, argumenta Lukács, o artesão do tardio medievo e do renascimento encontrava-se mais apto a imprimir e desenvolver em suas objetivações os traços subjetivos de sua personalidade – levavam “o seu modo de trabalhar aos limites da arte” – [LUKÁCS, 1986, Band 14, 742], enquanto o trabalhador sob as condições da divisão do trabalho plenamente desenvolvida do capitalismo encontra-se reduzido a afazeres periféricos ao processo produtivo, a atividades repetitivas, que lhes impinge gestos simplesmente mecânicos.
O estranhamento não é algo inerente ao trabalho, mas oriundo das relações sociais estabelecidas pelos homens, estas configuram a especificidade do trabalho na linha de desenvolvimento histórico do ser social. Essa observação é de suma importância, pois se considerarmos o estranhamento como algo inerente ao complexo trabalho estaríamos em concordância com as teses segundo a qual o estranhamento aparece determinado como condição essencial do humano. Algo que ocorre por exemplo no pensamento de Martin Heidegger – autonomização da técnica –, diretamente criticado nas páginas do Ontologia por Lukács. Sob esse aspecto, no trabalho, de modo contraditório estão presentes os aspectos positivos e negativos, na medida em que na atividade prática se apresentam tanto aspectos da edificação humana como os momentos da destituição de sua emancipacão.
 
 
Bibliografia
 
LUKÁCS, G.; Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins; Band 13/14; Luchterhand, 1986.
MARX, Karl.   Das Kapital; Marx/Engels WERKE; Band 23, 24 e 25; Berlin: Dietz Verlag, 1968.
________. Ökonomisch-philosophische Manuskripte; MEGA I, 2; Berlin: Dietz Verlag, 1982.