Reificação em História e consciência de classe: de Max Weber a Karl Marx

 

Ricardo Musse
 
 
A determinação da “missão” do proletariado, esforço inerente à teoria que o entende como sujeito (e objeto) da história, conduziu Lukács a desenvolver uma intrincada formulação do que seria a sua “consciência de classe”. Seu livro foi um dos primeiros textos a observar que não se pode tratar da esfera da subjetividade, no âmbito do marxismo, sem retomar a questão do “fetichismo da mercadoria”. Ele se propõe então a recuperar esse conceito, que rebatiza de “reificação”. Assim, traz de volta ao centro do debate uma categoria que foi ignorada por décadas na linhagem marxista e preservada na sociologia alemã com sinal trocado.
A proeminência concedida por Lukács ao fenômeno do “fetichismo da mercadoria” ensejou uma nova via para a interpretação de O capital. Nela, esse conceito tornou-se o feixe estruturante e o princípio explicativo da principal obra de Marx. Ele considerou a própria crítica da economia política como uma dos resultados da crítica do fetichismo da mercadoria. Mais impactante, porém, foi o fato de História e consciência de classe ter alçado a avaliação do teor de reificação em critério decisivo das análises e diagnósticos do presente histórico.[1]
Nessa leitura de O capital, [2] sob vários aspectos inédita, Lukács define a mercadoria como “categoria universal do ser social total”. A “relação mercantil” e seu desdobramento inevitável, o “fenômeno da reificação”, tornam-se assim o nexo primordial da ordem capitalista, o “protótipo de todas as formas de objetividade e de todas as suas formas correspondentes de subjetividade”.[3]
O artigo “A reificação e a consciência do proletariado”, peça central do arcabouço conceitual de História e consciência de classe, não limita a consideração do fenômeno do fetichismo da mercadoria ao âmbito econômico. A investigação do predomínio de relações coisificadas no direito e no Estado – mas também na ciência, na arte e na filosofia – procura comprovar que a mesma reificação à qual o trabalhador está submetido no interior da fábrica encontra-se disseminada em todas as classes e esferas da vida social. 
Lukács complementa e atualiza assim uma pauta que permaneceu implícita em O capital. Nesse livro, Marx não teve tempo de desenvolver os resultados e as conseqüências da expansão da relação mercantil nas demais dimensões da sociedade burguesa, tópico que esboçou em outros textos, especialmente no Manifesto do partido comunista.[4]
Sem poder contar com reflexões na tradição marxista acerca dos impactos da reificação no âmbito da subjetividade, Lukács se viu forçado a recorrer ao arsenal teórico desenvolvido pela sociologia alemã. História e consciência de classe institui um diálogo crítico com as obras de Ferdinand Tönnies, Georg Simmel e Max Weber, privilegiando as categorias oriundas de uma leitura bastante peculiar de O capital, e, em particular, da incorporação – um tanto distorcida – por esses sociólogos do conceito de fetichismo da mercadoria.
Segundo Lukács, a fonte primária, o polo de disseminação da reificação situa-se na organização capitalista do trabalho. A trajetória histórica de suas modalidades principais, da oficina artesanal à grande indústria, não cessa de ampliar a fragmentação da subjetividade do trabalhador:
Se perseguirmos o caminho desenvolvido pelo processo de trabalho desde o artesanato, passando pela cooperação e pela manufatura, até a indústria mecânica, descobriremos uma racionalização continuamente crescente, uma eliminação cada vez maior das propriedades qualitativas humanas e individuais do trabalhador. [...] Com a moderna análise “psicológica” do processo de trabalho (sistema de Taylor), essa mecanização racional penetra até a “alma” do trabalhador.[5]
História e consciência de classe, no entanto, não se restringe à descrição da intensificação da reificação na indústria moderna, ressaltada por Marx na seção IV de O capital. Algumas passagens do livro de Lukács dão a entender que o predomínio da forma-mercadoria exige e estimula uma condição necessária tanto para a produção de bens em larga escala como para o fomento da troca mercantil: o rompimento dos laços que prendiam os trabalhadores à vida comunitária.
Mais que uma reconstituição da narrativa histórica ensaiada por Marx no capítulo de O capital, denominado “A assim chamada acumulação primitiva”, esses trechos de Lukács aproximam-se da contraposição entre “comunidade” e “sociedade”, recorrente desde a obra homônima de Ferdinand Tönnies.[6] No endosso dessa dicotomia, todavia, História e consciência de classe adota uma perspectiva ligeiramente diferente da que predomina na sociologia alemã. O conceito de reificação é empregado explicitamente como chave explicativa da distinção entre a experiência social no capitalismo e a vivência própria das formas históricas do passado.
Quando salienta que a linha divisória entre essas duas formas de sociabilidade pode ser melhor aferida a partir dos efeitos da reificação – e por conseguinte, da influência da dimensão econômica sobre as demais esferas da vida social –, Lukács de certo modo, detecta e redimensiona a presença do trabalho abstrato, exposta por Marx em O capital, na gênese do livro de Tönnies.
Essa inferência permite que História e consciência de classe se aproprie, sem muitas ressalvas ou mediações adicionais, de algumas categorias desdobradas por Georg Simmel a partir da leitura tanto do livro I de O capital como de Comunidade e sociedade. Lukács incorpora a transcrição, iniciada por Tönnies e exacerbada na Filosofia do dinheiro, do trabalho abstrato em “razão abstrata”, assim como a “intelectualização” que lhe é conexa – responsável, em certa medida, pela “matematização” característica da ciência moderna.[7]
No caso de Max Weber, esse mesmo procedimento, concentrado no transplante do conceito de racionalização, gerou, ao longo da recepção de História e consciência de classe, uma teia crescente de mal-entendidos. A maioria dos comentadores, inclusive alguns teóricos do marxismo ocidental, passou a identificar nesse livro uma aproximação insólita de Marx com Weber, determinada pela fusão de “reificação” e “racionalização”.
Uma leitura mais atenta de História e consciência de classe permite observar, porém, que aí a “racionalização” comparece como um subproduto, uma especificação dos efeitos da reificação. Subsumindo a categoria de Weber à doutrina de Marx, Lukács descreve a possibilidade de previsão e cálculo cada vez mais exatos como consequência de um processo histórico, como resultado da progressão da divisão capitalista do trabalho, que retalha o processo produtivo em uma série de operações parciais, abstratas e especializadas.
A própria racionalização da vida é apresentada, na versão de Lukács, como a adequação da ação ao devir das leis objetivas da sociedade. A possibilidade de cálculo e previsão “racionais” decorre assim da sujeição dos indivíduos no capitalismo ao destino comum de “espectadores impotentes”, à atitude contemplativa diante dos fatos sociais. Desse modo, o processo de racionalização não constitui mais que uma das consequências do fetichismo da mercadoria.
Além disso, na interpretação de Lukács – nesse ponto fundamental oposta à posição defendida por Weber –, os desdobramentos da racionalização social não configuram um movimento inexorável. Primeiro, ele ressalta que sua influência restringe-se aos sistemas parciais, que a conexão entre esses sub-sistemas desencadeia uma série de contradições, sintetizadas por Marx na expressão “anarquia da produção”. Em suas palavras, “[...] toda a estrutura da produção capitalista repousa sobre essa interação entre uma necessidade submetida a leis estritas em todos os fenômenos isolados e uma irracionalidade relativa do processo como um todo”.[8]
O argumento decisivo, todavia, consiste na explicação da reificação – concebida como forma constitutiva, regra universal de objetividade à qual a racionalização subordina-se – como algo não monolítico. Lukács sustenta que a disseminação da reificação não é completa, sendo perpassada por brechas que possibilitam a sua superação, facultando a passagem ao socialismo.
Segundo História e consciência de classe, a lógica da produção capitalista estabelece limites objetivos apenas para a consciência de classe da burguesia. A função prática da consciência impede que essa classe – pela própria “possibilidade histórica” – logre compreender que sua conformação constitui uma etapa determinada e transitória da sociedade humana.
A “atitude contemplativa”, inerente aos que se encontram submetidos a uma organização do trabalho alheia, determina também o comportamento daqueles que, em tese, comandam esse processo, os capitalistas. Mesmo o empresário industrial, “o capitalista como portador do progresso econômico técnico etc., não age, mas sofre a ação, [...] sua “atividade” se esgota na observação e no cálculo exatos do efeito objetivo das leis sociais naturais”.[9]
A burguesia concebe os fenômenos da sociedade capitalista como essências supra-históricas. Incapaz de ultrapassar a prioridade metodológica dos fatos ou de se aperceber de seu caráter histórico, presa à significação imediata dos objetos, a ciência burguesa nunca apreende a totalidade concreta.[10]
A organização do proletariado como classe, no entanto, descortina modalidades de ação que suplantam a “atitude contemplativa”, generalizada na sociedade pela reificação. Somente quando cotejado em escala individual, como aferição de consciências psicológicas, o operário compartilha a condição de “espectador impotente” com a burguesia. Uma vez organizado como classe, a “possibilidade objetiva de sua consciência” apresenta-se como negação das formas de vida reificadas.[11]
O estremecimento da supremacia da reificação manifesta-se na conjugação simultânea de dois vetores: o agravamento da crise – em suas diferentes dimensões: econômica, política, moral, cultural etc. – e a emergência da ação revolucionária do proletariado.
Lukács concentra a sua investigação na esfera da subjetividade, examinando os efeitos da reificação no Estado, no direito, na ciência, na filosofia, na arte etc. A compreensão de seus impactos no conjunto da vida social abre, porém, uma rota que lhe permite elucidar a gênese do reformismo (e a subseqüente divisão do movimento operário).
Nessa trilha, História e consciência de classe atribui, em larga medida, a incapacidade das diversas vertentes da socialdemocracia em transformar a sociedade ao fato de que sua prática política encontra-se aprisionada nas malhas da reificação. Não é por mera incompatibilidade política, portanto, que Lukács associa o marxismo da Segunda Internacional à ciência burguesa.
Na equação que ele arma, o proletariado detém a disposição de apreender a totalidade histórica do capitalismo não por uma analogia com o sujeito-objeto idêntico da Fenomenologia do espírito, mas porque se trata da única classe da sociedade capitalista apta a “compreender as formas reificadas como processos entre homens”. Esse movimento de “desalienação”, não custa repetir, depende, sobretudo, da capacidade dessa classe em encetar a ação revolucionária:
Justamente porque é impossível para o proletariado libertar-se como classe sem suprimir a sociedade de classes em geral, sua consciência, que é a última consciência de classe na história da humanidade, deve coincidir, de um lado, com o desvendamento da essência da sociedade e, de outro, tornar-se uma unidade cada vez mais íntima da teoria e da práxis.[12]
História e consciência de classe altera significativamente a configuração do marxismo delineada pelo último Engels e pela geração subsequente. Tanto o método quanto o sistema (bem como a sua conexão) são redefinidos a partir de uma nova perspectiva que compreende o materialismo histórico como a “teoria de uma prática revolucionária”.
 
 
Referências bibliográficas
LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo, Martins Fontes, 2003.
MARRAMAO, Giacomo. O político e as transformações: Crítica do capitalismo e ideologias da crise entre os anos vinte e trinta. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1990.
MARX, Karl. Manifesto do partido comunista. São Paulo, Hedra, 2010.
MARX, Karl. O capital. São Paulo, Abril Cultural, 1983.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital – rumo a uma teoria da transição. São Paulo, Boitempo/Unicamp, 2002.
MUSSE, Ricardo. “Introdução”. In: MARX, KARL. Manifesto do partido comunista. São Paulo, Hedra, 2010.
SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: revista Mana, 11(2), p. 577-591. Rio de Janeiro, Museu Nacional, 2005.
TÖNNIES, Ferdinand. Gemeinschaft und Gesellschaft. Grundbegriffe der reinen Soziologie. Darmstadt, Wiss. Buchges, 1991.
WEBER, Max. A ciência como vocação. São Paulo, Cultrix, 1972.


[1] A elaboração de uma teoria da reificação consiste no ponto mais destacado pela parcela da posteridade que atribui a História e consciência de classe uma recorrente atualidade (recepção que Lukács nunca cessou de contestar). O livro tornou-se, para essa vertente, a matriz de uma série de diagnósticos do presente histórico que se mostraram adequados às modificações do capitalismo – na ocasião de sua publicação ainda quase imperceptíveis e consolidadas plenamente somente após os desdobramentos da crise de 1929. Para um relato das discussões sobre esse período, cf. MARRAMAO, Giacomo. O político e as transformações: Crítica do capitalismo e ideologias da crise entre os anos vinte e trinta.
[2] Não há como deixar de relevar o mérito da interpretação de Lukács quando se considera que, em 1923, ainda não haviam sido publicados a maioria dos livros póstumos de Marx, em especial os Manuscritos econômico-filosóficos e A ideologia alemã.
[3] LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe, p. 193.
[4] Cf. MUSSE, Ricardo. “Introdução” ao Manifesto do partido comunista.
[5] LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe, p. 201-202.
[6] TÖNNIES, Ferdinand. Gemeinschaft und Gesellschaft.
[7] Simmel apresenta uma síntese desses resultados, desenvolvidos sobretudo em  Filosofia do dinheiro, sob a luz do exame da experiência urbana, em As grandes cidades e a vida do espírito.
[8] LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe, p. 225.
[9] Idem. História e consciência de classe, p. 280.
[10] Atrelada à sua “falsa consciência”, a burguesia teria sido destituída da capacidade política de comandar a sociedade, fato esse que Lukács considerava incontroverso após os acontecimentos de 1914.
[11] Segundo Lukács, o antídoto deriva do fato de o operário vender sua força de trabalho como mercadoria. Na reiteração diária dessa atividade acaba reconhecendo a essência fundamental da sociedade burguesa: a transformação de seres humanos em coisas.
[12] Idem. História e consciência de classe, p. 174.