Da dialética do Esclarecimento à Dialética Negativa: metamorfoses do pensamento adorniano

 

Marcus P. V. Tondato
Univ. Federal de Minas Gerais
 
Resumo
 
O presente estudo é um roteiro de pesquisa que tem por objetivo, partindo Dialética do Esclarecimento (1947), de Adorno e Horkheimer, delinear e distinguir os diferentes momentos do percurso do pensamento adorniano até sua fase tardia. Acredita-se que há rupturas em pontos decisivos, em relação à obra de 1947, que uma vez não mantidos, são reformulados na obra tardia, sobretudo na Dialética Negativa (1969). Contudo, este estudo aponta também para própria importância deste movimento teórico no comportamento crítico, tal como apresentado por Horkheimer em Teoria Tradicional e Teoria Crítica (1937). Exemplo deste deslocamento se encontra na própria nota a edição alemã de 1969, da Dialética do Esclarecimento, onde os autores asseveram que o diagnóstico de 1947 se encontra em suspenso, contudo não interrompido. Neste sentido, Adorno na tentativa de repensar a realidade e a própria filosofia, apresentará na, Dialética Negativa, conceitos como constelação, duplo giro copernicano, primazia do objeto, não-idêntico preservando o momento dialético baseado na tensão. A investigação, por fim, apresentará à importância da obra de Walter Benjamin e sua concepção de história na obra adorniana.  
 
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A Dialética do Esclarecimento (1947), de Adorno e Horkheimer, certamente se constitui como a obra emblemática da primeira geração da Escola de Frankfurt, fato pelo qual, não raramente, é retomada para o entendimento das investigações posteriores do pensamento de ambos os autores. Todavia, Horkheimer, após a volta para Alemanha, como sabemos, não tem uma produção tão ampla quanto em sua estadia nos Estados Unidos, sendo o Eclipse da Razão (1956), seu estudo mais contundente neste período. Por sua vez, Adorno, após o retorno da América do Norte, continua suas investigações acerca dos diversos temas filosóficos, como filosofia música, Estética, teoria social, Metafísica e outros. Deste modo – e é isto que procurarei defender -, seu pensamento tardio é marcado por continuidades e rupturas em relação a temas abordados em sua obra em parceria com Horkheimer.
 Não obstante, esse movimento do pensamento adorniano, justifica-se, já na apresentação de Horkheimer acerca dos fundamentos do pensamento, do comportamento, crítico e sua relação dialética com o núcleo temporal da verdade; como podemos observar no texto de 1937, intitulado Teoria Tradicional e Teoria Crítica. Partindo de uma perspectiva materialista, o escrito horkheimeriano pretende fundar os princípios da teoria crítica em contraposição à história da filosofia que este denominou teoria tradicional, sobretudo a partir de Descartes, o estudo salienta a importância da atenção para com a realidade material na formulação de teorias, a estas, pois, não caberia a mera função de descrever a realidade, baseada em princípios lógicos, formais e abstratos, mas antes, buscar, a partir de diagnósticos de tempo, prognósticos que visassem iluminar, orientar, apresentar, propor, cursos de ação possível para emancipação da humanidade, dessa maneira, possibilitando a existência autêntica do homem. Para tanto, o teórico crítico deveria ter sempre em seu horizonte a relação entre teoria e práxis, que possibilitaria, mediante a crítica da sociedade capitalista e de seus meios de produção, em especial na ciência, se chegar ao entendimento das relações entre os fenômenos da totalidade, neste sentido,
 
...o pensamento crítico não confia de forma alguma nesta diretriz, tal como é posta à mão de cada um pela via social. A separação entre indivíduo e sociedade, em virtude da qual os indivíduos aceitam como naturais as barreiras que são impostas à sua atividade, é eliminada na teoria crítica, na medida em que ela considera ser o contexto condicionado pela cega atuação conjunta das atividades isoladas, isto é, pela divisão dada do trabalho e pelas diferenças de classe, como uma função que advém da ação humana e que poderia estar possivelmente subordinada à decisão planificada e a objetivos racionais. Para os sujeitos do comportamento crítico, o caráter discrepante cindido do todo social, em sua figura atual, passa a ser contradição consciente. (HORKHEIMER, Max., 1983, p. 130).
 
Outro ponto nuclear para o desenvolver da apresentação aparece, no tocante, ao termo utilizado no artigo para denominar os teóricos tradicionais, pois, Horkheimer coloca sob uma mesma rubrica, a saber, Positivistas, teóricos de diferentes doutrinas filosóficas, tais como, racionalistas, empiristas, funcionalistas, dentre outros. O curioso deste fato, é perceber que o termo positivista, se coloca, não nos moldes de Comte, mas antes num entendimento da ciência que, proveniente das ciências naturais, portanto, uma ciência descritiva dos fenômenos, quando transposta para as ciências sociais, acaba por naturalizar fenômenos do âmbito da cultura. Finalmente, há de se salientar, contudo, que Horkheimer nesta época, tinha em mente a criação de um campo interdisciplinar de debates envolvendo áreas como, economia, filosofia, sociologia e psicanálise, todavia esse projeto primeiro do Instituto foi deixado de lado, devido ao tamanho do empreendimento visado que exigira forças sobre-humanas.
São, portanto, com esses fundamentos que Horkheimer iniciará o projeto da dialética que resultou na Dialética de Esclarecimento.
 A obra de 1947 –conforme dito acima– é escrita em parceria com Adorno, que antes se dedicava a estudos e críticas acerca de música e filosofia. Partindo de uma crítica imanente, o estudo procura realizar uma denúncia da ambiguidade do conceito de esclarecimento, logo não se trata apenas de uma crítica da razão, mas antes da racionalidade mistificadora do esclarecimento, em outras palavras, o projeto de Adorno e Horkheimer, visava remontar a origem do mito do esclarecimento, ou seja, da busca histórica do homem de, por meio do pensamento, se livrar do julgo da natureza e se colocar na posição de senhor, todavia, “a terra esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal” (ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max., 2006, p. 17). Logo de início, portanto, percebemos a ideia de um continuum temporal, que se estabelece através de rupturas subsumidas, na ideia de Aufhebung.
É essa a ideia que perpassa toda a obra, contudo é no capítulo chamado O conceito de esclarecimento que se percebe a crítica realizada pelos autores de forma mais contundente. Segundo esses, já é possível se entrever nas sociedades mais rudimentares, a origem do mito, assim como sua ambiguidade, no entanto, cabe a nós perguntarmos, de que se trata esse mito?; contra o que ele se coloca?, e por fim, qual seria propriamente sua ambivalência?
O mito, tal qual, os autores apresentam, é o mito do Aufklärung, ou esclarecimento, em outras palavras, é o mito que se constitui na fé do homem na potência de seu pensamento, na capacidade de transformação da natureza, portanto se dá na origem da cultura, na busca pela autopreservação, percebemos, pois, que não se trata apenas de uma crítica da razão nos termos iluministas, mas como ressaltado acima, da racionalidade, i.e., das justificativas para o curso de ação, em outro termos o sentido que norteia a ação. Essa confiança no pensar humano, entretanto, em sua origem é impulsionada pelo medo, açoitado, melindroso, diante das intempéries da natureza, este sujeito sabe bem o que teme, e, por conseguinte, contra o que se impõe, qual seja, contra o desconhecido, o outro, o heterogêneo, o diverso é o objeto que tenta conformar, enquadrar, no limite eliminar. É visando esse ideal que, o esclarecimento teve seu auge na era moderna, principalmente com Kant que tratou em sua filosofia de promover os aspectos positivos da razão, dando à humanidade a esperança de, através, do potencial do pensamento, de dar sentido a história. Adorno e Horkheimer, por sua vez, tratarão de demonstrar que a mesma razão de caráter progressista, positivo, leva consigo, na mesma proporção, elementos regressivos, perversos e totalitários. Por conseguinte, na Dialética do Esclarecimento a tarefa dos autores se dá na busca, mediante a relação dialética de suprassumir a razão colocando, esta agora de forma crítica em relação a sua face terrível, para que doravante a razão possa ser empregada na busca pela emancipação. Deste modo, segundo os autores, o mito se encontra imbricado desde o início na idéia da razão, na busca pela padronização, classificação, ordenação e domínio da natureza, é neste sentido que, na modernidade, a ciência empirista, ganha força e se configura como modo singular de explicação dos fenômenos naturais, com efeito, se constituindo a expressão mais bem acabada do mito, nas palavras de Perius,
 
O próprio mito já é interpretado, em sua ontologia da repetição, como uma angústia em relação ao diferente, ao novo. Surge, portanto, como tentativa de dominar as forças cegas da natureza, manifestas no destino. A modernidade, neste processo, realiza no sujeito racional autônomo esta instância ontológica e idêntica, perante a qual sucumbe tudo o que lhe é heterogêneo (PERIUS, Oneide 2008, pág.83.).
 
Como se viu acima, já em Teoria Tradicional e Teoria Crítica, a filosofia moderna, desde Descartes, mas sobretudo com Bacon, buscará erigir uma ciência voltada não para a compreensão e interpretação dos fenômenos naturais, mas antes, para sua padronização, classificação, mensuração, para a articulação dos fenômenos buscando sua operation, se concentrando, deste modo, na técnica. Vale a pena nos determos um instante neste ponto, pois essa reconstrução, por parte dos autores, nos permitirá entender a crítica presente no diagnóstico temporal no qual a Dialética do Esclarecimento se encontra e os meios que aqueles utilizam para empreendê-la. A ciência moderna ao tomar a natureza como objeto de realizações de seus fins, entenderá a razão como um meio, um instrumento, para a consecução desses fins. De acordo com esse raciocínio, a natureza se constituiria num universo caótico, difuso, obscuro, opaco, com efeito, sendo preciso à instauração de um método para ordenar e classificar seus fenômenos, sendo que esse método, deveria também afastar da análise a parcialidade, a subjetividade do próprio cientista. Dessa maneira, os autores afirmam, ser a ciência moderna marcada pela tentativa de demarcar, delimitar a distância entre sujeito e objeto.
Justamente pelo método utilizado na ciência moderna, e seus pressupostos, as investigações sobre a natureza procurarão objetivar os fenômenos naturais, é desta forma que o número emerge como cânone da ciência moderna, nesta, tudo aquilo que se analisa, todo objeto de estudo é conformado aos padrões, aos métodos teóricos que, supostamente, mediariam à relação entre sujeito e objeto. Este, por sua vez, se torna algo quantificável, mensurável, algo só é digno de conhecimento se pode ser enquadrado nas formas. Por outro lado, sua não-identidade com sistema o excluí de qualquer conhecimento que se julgue científico e confiável na modernidade. Por conseguinte, a dimensão qualitativa dos objetos é deixada à margem, negada, menosprezada, pois com ela não se atinge grandes sistemas, o que vale é a universalidade da teoria. Por essa razão, a ciência moderna que só é capaz de generalizações – que busca a univocidade do conhecimento - se afasta da dimensão qualitativa de seu objeto, de sua singularidade, evidenciando de forma patente seu totalitarismo. Por seu turno, este totalitarismo presente no saber, por se constituir de forma irrefletida, como um meio, um instrumento, se isenta das aplicações a ele dado no âmbito social, assim corroborando para a reprodução da dominação do homem pelo homem, é nesse sentido que saber e poder se entrelaçam permitindo a reificação e reprodução do status quo. Portanto, sendo o saber uma forma de poder, este emerge como poder totalitário.
Assim, fica claro, o modo pelo qual, o esclarecimento se converte em mito novamente, ou melhor, porque o esclarecimento nunca deixará de ser mito, pois uma vez que, o esclarecimento é fundado num sujeito abstrato que não tem acesso à natureza senão, por meio, de sua idealidade, suas representações, que lhe permitem formular juízos sintéticos acerca dos objetos da experiência, assegurando-lhes caráter de faticidade, alienam duplamente o cientista da realidade, é neste sentido que Adorno e Horkheimer, vão afirmar ser a ciência positivista – naquele sentido lato- mais metafísica que a própria metafísica, dessa maneira conduzindo o conhecimento - tal como as sociedades primitivas tinham no mito - a reprodução da dominação do homem pelo homem.
Na Dialética do Esclarecimento, portanto, percebemos que na análise dos elementos originários no mito já se encontrava o esclarecimento da ciência moderna, que numa espécie de continuum foram dialeticamente subsumidos chegando a ciência moderna, como se percebe na passagem,
 
A imprensa não passou de uma invenção grosseira; o canhão era uma invenção que já estava praticamente assegurada; a bussola já era, até certo ponto, conhecida. Mas que mudança essas três invenções produziram – uma na ciência, a outra na guerra, a terceira nas finanças, no comércio e na navegação! (ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max., 2006, p.17).
 
O estudo de 1947, portanto se constitui, acerca das preocupações dos autores sobre a ambiguidade da razão, sendo antes de tudo uma denúncia da radicalização do esclarecimento como forma singular e privilegiada de entender o mundo desde as civilizações mais primitivas que no desenrolar da história tem seu ápice na ciência moderna, com efeito, para escapar desse contexto os autores buscam, mediante uma crítica imanente baseada na apresentação dos aspectos perniciosos do esclarecimento, preservá-la após uma crítica dialética.
Não obstante, após o retorno para a Alemanha na década de 1950, Adorno, entre uma de suas atividades, se volta para a publicação dos textos de Walter Benjamin, interlocutor fundamental no início da formação de seu pensamento nas décadas de 1920 e 1930, não só, mas sobretudo por esta razão, a obra tardia de Adorno tem novamente um deslocamento daquilo que antes era o centro gravitacional, a saber, na esteira da Dialética do Esclarecimento, da reconstituição dos elementos totalitários do esclarecimento, presentes na ratio burguesa. Isto ocorre, sobretudo pela apropriação, não sem modificações, da crítica benjaminiana ao conceito de história, e é neste ponto que gostaria de concentrar agora.
È no estudo chamado Sobre o conceito da História (1940) que se encontra no livro O anjo da história publicado no Brasil em 2012 pela editora Autêntica, que Benjamin coloca o problema da leitura da história baseada no conceito de progresso.
Tal forma de ler a história manteria viva a ideia de causalidade da história em conformidade com a seta do progresso, desta forma justificando os acontecimentos do passado na imagem do presente, que por sua vez, se justificava no caminho do futuro, ou seja, uma ideia de causalidade que permitia que se reproduzissem as mazelas da sociedade. A historiografia dominante, pois veria a história do ponto de vista dos vencedores, que no presente se encontrariam nas camadas dominantes, tendo como método, pois a empatia, que se instaura num tempo homogêneo e vazio. Por sua vez, segundo Benjamin, ao historiador materialista, caberia a reconstrução da história dos derrotados, ou seja, daqueles que foram privados dos louros da nova era. Desta forma, o materialismo histórico benjaminiano, se constitui de forma construtiva, buscando se suspender numa constelação carregada de tensões, que buscaria a redenção daqueles que foram deixados de lado no decurso da história, logo se tratando de uma redenção do passado no presente, todavia, vale ressaltar, que essa oportunidade, como coloca Benjamin, se apresenta como monadas, em outros termos, a oportunidade de redenção que a história nos apresenta, deve ser reconhecida pelo materialista histórico como o sinal de uma paragem messiânica do acontecer, uma oportunidade revolucionária na luta pelo passado reprimido, que se aproveitada, permitiria que se rompesse com determinada época em direção a redenção, este movimento do presente já estaria colocado no passado que traria em si mesmo um índex secreto que o remeteria para sua redenção.
É a partir de tal concepção de história, assim como de algumas figuras do pensamento benjaminiano, que Adorno deslocará sua obra tardia. Todavia, comecemos pela Dialética do Esclarecimento em sua nota a edição de 1969 nela já se consegue entrever que o diagnóstico de 1947 mudara,
 
O livro que só a pouco a pouco se difundiu, está há muito esgotado, Ao reeditá-lo agora decorridos mais de vinte anos, não somos movidos apenas pelas múltiplas solicitações, mas pela crença de que não pouco dos pensamentos ainda são atuais e têm determinado em larga medida nossos esforços ulteriores [...] Não nos agarramos sem modificações a tudo o que está dito no livro. Isso seria incompatível com uma teoria que atribui à verdade um núcleo temporal, em vez de opô-la ao movimento histórico como algo imutável [...] E, no entanto, não se pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos avaliado de maneira inócua o processo de transição para o mundo administrado. [...] O desenvolvimento que diagnosticamos neste livro em direção à integração total está suspenso, mas não interrompido... (ADORNO, Theodor W, HORKHEIMER, Max, 2006, p. 11).
 
Assim na Dialética Negativa, Adorno da continuidade a sua investigações, contudo, na esteira de Benjamin, procurará reconstituir a história do ponto de vista de suas descontinuidades, diferente, pois do método adotado pela Dialética do Esclarecimento, que preservou um continuum da história; outro ponto a se salientar é a mudança do alvo a crítica, não se trata mais do esclarecimento como mito e sua principal característica a ciência moderna, mas agora é o idealismo e sua filosofia da identidade, sobretudo no sistema hegeliano que interessam a Adorno. Neste sentido, a Dialética Negativa aponta impossibilidade do pensar a totalidade. Deste modo, se na Dialética do Esclarecimento, Horkheimer, na esteira de Lukács, tentou preservar em sua teoria o conceito de totalidade, se distanciando daquele, quanto ao lócus do partido, buscando, pois, dentro do fluxo, resguardar a capacidade emancipatória do progresso científico, com a ressalva da totalidade, onde a divisão científica não teria lugar nos momentos da totalidade. Para o Adorno da Dialética Negativa, o princípio da totalidade emerge como impossível de ser pensado, pois este partiria do pressuposto da identificação total entre conceito e conceituado. Não se trata mais de buscar a subsunção, mas antes de preservar o momento de tensão entre conceito e conceituado.
Na Dialética Negativa, portanto, há uma cisão com certos aspectos da Dialética do Esclarecimento, entretanto, no que isso resulta? Sendo crítica da filosofia idealista, a obra de 1969, busca reformular o conceito de dialética, tal quais os moldes do pensamento hegeliano, segundo Adorno, a filosofia hegeliana afasta-se da metafísica tradicional ao quebrar com o caráter estático dos conceitos, por outro lado, mantém a mesma argumentação metafísica, pois, toma o princípio metafísico de determinada visão de mundo e reconstitui a história como sua efetivação e desdobramentos em níveis mais complexos deste princípio, num sentido amplo a filosofia de Hegel, aponta para três momentos; a Lógica (ideia em si); Natureza (ideia sai de si para se alienar em seu outro); Espírito (ideia em si e para si). Percebe-se, com isso, que há uma espécie de determinação que levaria até o espírito, um sentido imanente para história que justificaria cada etapa histórica – e assim do sofrimento – humano em via de sua efetivação. Adorno não pode aceitar isso, depois de Auschiwitz, o sofrimento tornou-se injustificável, a consciência da insuficiência, do abismo, que se coloca entre o pensar e a coisa pensada, entre conceito e conceituado, entre sujeito e objeto, mostrou a impossibilidade de pensar a realidade em sua totalidade.
Com efeito, Adorno se coloca a tarefa de reformular, reconstituir, ou no limite, salvar o pensamento filosófico. Desse modo, se Kant em sua filosofia realiza o giro copernicano, Adorno na Dialética Negativa, propõe um duplo giro copernicano, em outras palavras se a filosofia kantiana foi responsável por, tornar o sujeito consciente do abismo que separava suas representações da realidade, fundando o sujeito transcendental, como lócus constitutivo do conhecimento, causando um decisivo deslocamento da noção de verdade como adeaquatio, nas primeiras páginas da Dialética Negativa, Adorno ressalta a importância de um segundo giro em relação ao movimento kantiano. Sendo o pensamento adorniano de cunho dialético, a verdade de um objeto particular depende de sua relação com aquilo que ele nega, ou seja, o que não é esse algo, logo pressupondo uma totalidade. Todavia, Adorno afirma que o todo não é o verdadeiro, ao passo que também afirma ser impossível de se pensar dialeticamente sem esta categoria, assim, afirmar o todo como verdadeiro é uma contradição, na medida em que o torna objeto - justamente a crítica que endereça a Hegel - logo a ideia da totalidade emerge como uma ilusão necessária, ou seja, uma categoria da qual o pensamento não pode prescindir nem tampouco se fixar. É neste ponto que o materialismo de Adorno ganha contornos mais claros. O idealismo ao postular o sujeito como portador de verdade do objeto, desconsidera o não-idêntico. A verdade do idealismo, portanto, se revela artificial, permanece no círculo tautológico do pensamento, se perdendo de seu objeto, o idealismo, portanto desconsideraria a profunda mediação presente na relação entre sujeito e objeto. Para Adorno, o sujeito ao experienciar a realidade não intencional que o cerca, interpreta e agrupa seus conceitos em constelações, esta seria uma forma de iluminação sobre momentos de verdade, ou seja, um conjunto de conceitos que permitiria se pensar modelos críticos, assim a constelação permitiria pensar o que no processo de constituição do objeto nele se decantou. O conhecimento, pois, seria, “um ‘escutar’ o objeto, um estar atento a potencialidade interna do material, para no processo de interpretação, agrupá-lo, sem violentá-lo, em constelações.” (PERIUS, Oneide, 2008, p. 111). Deste modo, na Dialética Negativa, Adorno, tem como projeto a crítica imanente do conceito, este, por sua vez, se estende da insuficiência de um princípio metafísico para apreensão da realidade encontrada na concepção idealista do eu constitutivo do mundo, logo positivo.
A negatividade sobrevive no interior do próprio conceito. Este por sua vez, a cada tentativa de definição, aponta para fora de si, para o além do conceito, este é antes de tudo devir, é alteridade, com efeito, há uma diferenciação imanente a ele que lhe é constitutiva e fundamental. É nesse sentido, que Adorno postula a primazia do objeto, esta, enquanto pressuposto ontológico materialista caracterizaria a relação recíproca de sujeito entre objeto de forma que o objeto assumisse uma posição de primazia, na constituição impositiva da verdade. Dessa forma, o sujeito é colocado numa posição de dependência em relação ao objeto, pois seu processo de constituição seria moldado pelo objeto, em outros termos, a identidade da autoconsciência é construída segundo o modelo de persistência/estabilidade material do objeto, esta propriedade, portanto, não pertence ao sujeito, mas tampouco copertence. Todavia, a teoria do primado do objeto não exclui a participação do sujeito, mas antes exige um mais sujeito.
A presente investigação, buscou no decorrer de sua exposição apresentar o deslocamento do pensamento adorniano, no entanto, como dito anteriormente, trata-se ainda de um balanço provisório, sendo assim, o estudo se caracteriza especialmente por apontar lacunas do que propriamente preenche-las, entretanto tentou-se delinear a movimento da obra adorniana, em sua fase madura e tardia, se na Dialética do Esclarecimento, Adorno tratou de forma pormenorizada da ambivalência do esclarecimento e sua característica totalizante, na Dialética Negativa o foco se desloca para a formulação de um novo princípio dialético centrado no momento de tensão entre sujeito e objeto, na oposição dialética entre momento e sistema, não obstante há continuidades, tal qual, pois esta oposição deve ser continuamente corrigida pelo diagnóstico de tempo. Outro ponto que tentei demonstrar foi a diferença no teor continuista da Dialética do Esclarecimento e a proposta descontinuada da obra de 1969, fato que teve a importante influência dos escritos de Walter Benjamin.
Finalmente, há se ressaltar que a filosofia de Adorno, não se afasta em nenhum momento da noção de correspondência entre teoria social e teoria do conhecimento, e da busca, por meio da crítica imanente a ambas, de se buscar modelos teóricos que possibilitem a emancipação da humanidade do julgo que se encontra.
 
 
 
Bibliografia
 
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