A pintura esvaziada de Lily Briscoe em To the lighthouse

 

Brena Suelen Siqueira Moura[1]
 
No primeiro capítulo de To the lighthouse, 1927, de Virginia Woolf, o leitor se depara com muitas informações fragmentadas acerca dos personagens, uma delas é sobre Lily Briscoe, uma das convidadas da casa dos Ramsays, que trata-se de uma mulher que é pintora no início do século XX, isto é, uma artista em tempos de guerra, de forma que, ao longo da narrativa, podemos refletir a respeito da construção dessa forte tensão entre ser mulher e ser artista.
No caso, Lily Briscoe devia sustentar o pai, sua casa e, ainda, sua pintura, fato que nos demonstra a importância que a pintora oferece a seu trabalho que considera ser sua razão de viver. Em decorrência disso, Lily Briscoe refere-se a uma mulher independente, não se sujeitando aos aviltamentos do casamento e ao papel da mulher dedicada à família, ao marido e ao lar na sociedade. Sendo assim, no jantar realizado por Mrs Ramsay, ela não se sentia a vontade diante da situação armada pela matriarca, porque, a pintora notava que o poder de convencimento de Mrs Ramsay, através de sua beleza, gerava situações constrangedoras para todos que estavam sentados à mesa, como ao terem que se sentirem dispostos para conversar sobre assuntos banais e cotidianos a todo o momento ao invés de estarem em seus quartos fazendo suas particularidades diárias. Ela deveria terminar de pintar o quadro da mãe com o filho.
Porém, após a finalização do jantar, inicia-se o segundo capítulo (Times passes) e muitos anos se passam com a guerra e a devastação da casa, de modo que somente após onze anos, Lily Briscoe volta à narrativa, isto é, à casa dos Ramsay, no capítulo The lighthouse, e retoma suas tintas com a declaração de que detesta brincar de pintar, pois já tem 44 anos e que leva seu trabalho a sério, não podendo perder mais tempo com Mr Ramsay que lhe suplicava a compreensão que Mrs Ramsay tanto lhe dava, mas que não mais estava disponível, pois morrera instantaneamente durante a guerra.
Ainda que nossa leitura não se reduza à leitura biográfica de Lily Briscoe, procuraremos neste trabalho perquirir como a vêem, ou seja, como é constituído seu retrato: primeiramente como mulher e, sobretudo, como pintora e, consequentemente, como artista na trajetória de seu processo criativo, uma vez que o que parece sustentar Lily Briscoe é efetivamente o seu trabalho.
Entretanto, a problemática desse trabalho reside nesse lugar de destruição provocado pela guerra e da dupla resistência encontrada pela artista, pois, sendo Lily Briscoe uma mulher e artista em tempos de guerra, que é o próprio sinônimo da destruição, ela parece apoiar-se na obra como possível lugar de resistência tanto ao não-lugar da mulher como da guerra/devastação. Contudo, o lugar pelo qual ela procura conforto é o próprio enigma, assim como a face da Mrs Ramsay e sua tristeza velada residindo no absoluto não-saber, levando-nos a refletir acerca do que a escrita literária diz do quadro pintado por Lily Briscoe e o que o quadro diz da escrita literária. Para tal, é necessário considerarmos o relato do quadro confeccionado pela artista, no seu trajeto enunciativo percorrido por ela até o proferimento de finalização da obra com a frase final: “I have had my vision” (WOOLF, 1924: 175). Deste modo, Lily Briscoe teria percorrido duas modalidades de luto: a primeira pela morte de Mrs Ramsay e, a segunda, pelo término do quadro, ainda que não totalizado, pois comporta lacunas, frases para que cada leitor possa interpretar bem a vontade.
 
Duplo abandono, dupla perda
No relato do quadro há a leitura do duplo abandono, da dupla perda, duplo vazio. Não se tem o quadro, há algo que não é preenchido, que fica no âmbito do indizível. É preciso aceitar o objeto como perdido para que se possa se falar dele, assim como, a perda do quadro ideal, pois não há relato total, somente o da morte que nunca será realizável.
Diante de tal constatação, ao retomarmos a cena final do quadro por parte de Lily Briscoe, surge-nos a seguinte pergunta norteadora deste trabalho: teria ocorrido, portanto, o fim do trabalho do luto mediante a exigência da transferência de libido do objeto amado para outro, fazendo com que o artista tenha sublimado essa libido em sua obra?
No ensaio Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, Freud atenta-nos ao fato de que ainda que o leigo admire o trabalho de seu artista como uma obra-prima, para seu criador uma obra de arte jamais será completa, pois a sua concretização torna-se sempre insatisfatória tendo em vista a sua idealização que possui uma ‘tênue visão da perfeição’ nunca almejada. Logo, “[...] o artista nunca consegue realizar seu ideal”. Isso significa que a obra é condenada a permanecer para sempre inacabada. Deste modo, refletindo acerca do romance de Virginia Woolf podemos inferir que o laborioso trabalho do escritor também passa por esse processo de ter que abrir mão da perfeição, aceitando o fato de que é preciso dar o objeto como – seja com o traço, seja com o ponto final – finalizado, ou seja, perdido, mortificado (FREUD, 1996: 77).
No caso de Leonardo da Vinci, seu interesse pela pesquisa pode ter surgido a partir das impressões infantis que seriam suas forças sexuais instintivas que posteriormente resultaram em uma parcela da vida sexual do indivíduo. Deste modo, alguém assim poderia investir tais forças na pesquisa e passar a “dedicar-se à pesquisa com o mesmo ardor com que uma outra se dedicaria ao seu amor, e seria capaz de investigar em vez de amar.” Portanto, esse instinto sexual voltado para a atividade profissional é dado como uma faculdade de sublimação do artista, pois ele “tem a capacidade de substituir seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que possam ser mais altamente valorizados” (FREUD, 1996: 86).
No relato da pintora de To the lighthouse, então, podemos pensar que possa ter havido tal substituição, já que ela negou casar-se, apoiando-se em sua pintura em busca de satisfação sexual a partir de sua intelectualização, funcionando como substituto para a atividade sexual (FREUD, 1996: 88).
Nesse sentido, ao tratarmos de sua relação com Mrs Ramsay, Lily Briscoe discorre de duas situações cabíveis para a ocorrência da sublimação, pois podemos ter tanto amor maternal sentido por Mrs Ramsay quanto uma paixão platônica alimentada pela pintora em relação a essa mulher de beleza inigualável.
Lily Briscoe, contudo, para não se perder nos caminhos tortuosos e misteriosos do amor, lutou por sua causa de não crer no matrimônio, pois, para ela, o amor é algo impossível de ser realizado em toda a sua plenitude. Assim, a sublimação pode ser tanto considerada como um mecanismo de defesa quanto como uma forma propiciadora das pulsões mais elevadas, já que busca através da arte o prestígio e o reconhecimento social e, através de sua criação, o artista pode ter sua satisfação pessoal.
 
O vazio que dá a forma
Lily Briscoe talvez tenha podia obter alguma satisfação pessoal ao término sua pintura, contudo, sabemos que essa satisfação não é totalmente plena devido aos empecilhos do processo criativo. Auerbach (2011), em Meia Marrom, ao analisar o parágrafo iniciado com a expressão: “Never did anybody look so sad” (WOOLF, 1924: 25), põem em questão as conjecturas juntamente com seus enunciadores acerca da face de Mrs Ramsay, concluindo que tudo não passa de conjecturas, ou seja, de impressões deixadas pelos personagens e/ou até mesmo da própria Virginia Woolf na narrativa. A partir da percepção desse não-saber, o que resta, portanto, é apenas uma lacuna, ou melhor, um vazio que se relança a todo tempo no romance woolfiano.
Esse vazio, em To the lighthouse, aparece a partir de uma trajetória construída ao longo dos três capítulos, assim como a formação de um personagem. Em seu primeiro capítulo, há poucos precedentes de sua aparição. Já no segundo capítulo, em Time passes, o vazio começa a dar sua forma quando a chuva desmorona assim que todas as luzes foram apagadas. Logo, a casa em ruínas, objetos e móveis abandonados, um mundo esvaziado, são essas, dentre outras, as consequências do passar da guerra em To the lighthouse. Por conseguinte, em sua volta, Lily Briscoe, no terceiro e último capítulo, constata o vazio de sua mente, pois não sentia nada, não havia respostas para dar nessa primeira manhã de volta à casa dos Ramsays tendo em vista a perda de entes queridos e a ruína dos móveis da casa geraram na pintora a sensação de total frustração após sentir um repentino vazio, de modo que sua própria imagem se fragilizava mediante tanta destruição.
A descrição do processo de pintura realizado por Lily Briscoe, portanto, é intermediada, primeiramente, pela presença de Mrs Ramsay. Posteriormente, pela ausência dela e pela presença de Mr Ramsay, de forma que esse momento de transição ocorre entre a fluidez da vida e a concentração na pintura. Consequentemente, a tela e a mente de Lily Briscoe habita “[...] round a centre of complete emptiness” (WOOLF, 1924: 149). Nesse sentido, “[...] a sublimação ocupa lugar do texto perdido” (PERES, 1999: 75), de forma que, tratando-se de texto perdido (parte que nos interessa nesta análise) podemos inferir, a partir de tais considerações acerca da sublimação, de que a narrativa em To the lighthouse seria comandada por uma escrita que buscasse, não suprir o vazio, mas sim de representá-lo em ato.
 
Conclusão
Há, em To the lighthouse, uma clara leitura de abandono, de pura perda diante da formação do vazio em ato ao longo da narrativa que não nos permite alcançar a plenitude da vida, seja na perda do jantar idealizado frente ao jantar frustrado; seja no antes e depois da Guerra e a degradação da Casa; seja na ida ao Farol com os remanescentes desapontados; seja no quadro sonhado e aquele que foi tortuosamente confeccionado depois de onze anos por Lily Briscoe ao voltar à casa dos Ramsays, com quarenta e quatro anos, sentindo-se velha e cansada de seu próprio escarnecimento. Logo, a pintura esvaziada de Lily Briscoe pode ser tanto sua trajetória de vida quanto o quadro com mãe e filho, pois a relação pertinente entre ser mulher e ser artista em tempos de guerra envolve a colocação da obra de arte como uma potencial arma contra aos efeitos da destruição advinda da guerra, invocando na sublimação das forças libidinais dessa artista a partir do trabalho de luto, não só por Mrs Ramsay, como também de sua própria pintura. Assim, a narrativa woolfiana resulta-se em um melancólico mosaico de enigmas insolúveis na Literatura que pode ser plenamente simbolizada na frase acerca da face de Mrs Ramsay: Never did anybody look so sad (WOOLF, 1924: 25).
 
 
Bibliografia

AUERBACH, E., Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2011.  
FREUD, S. (1910) “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância”, en FREUD, S., Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volumen XI, Rio de Janeiro: Imago, 1996, pp. 73-141.
PERES, U., Mosaico de letras: ensaios de psicanálise, Rio de Janeiro: Editora Escuta, 1999.

WOOLF, V., To The Lighthouse, London: Wordsworth Classics, 1994.
 
– , Rumo ao Farol, São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.
 
 
 
 
 
 
 


[1] Mestranda em Teoria Literária do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Orientadora: Flávia Trocoli.