Cenas cotidianas de exclusão na sociedade da diversidade

 

Márcia Imaculada de Souza
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
 
 
Vivemos uma época na qual é comum falar da multiplicidade de modos de ser, defender a diversidade e a diferença e afirmar a necessidade de inclusão. Neste cenário, proliferam-se discussões, propostas e políticas para enfrentamento da exclusão. Tornam-se frequentes os discursos em defesa da inclusão de parcelas destituídas de seus direitos. Porém, muitas vezes, pode haver uma apropriação acrítica do conceito, sem considerar os determinantes histórico-sociais presentes na composição das diferentes situações excludentes.
Consideramos ser necessário encarar a questão da exclusão a partir de um enfoque crítico para não cair na armadilha de uma ingênua, perigosa e cômoda sensação de que todas as coisas e pessoas estão ocupando seus lugares e de que na “nova sociedade” há um lugar para todos e cada um receberá a parte que lhe pertence.
O mundo anunciado é o da diversidade e da inclusão. No entanto, encontramos condições de vida que são características das contradições de nossa sociedade e revelam um cenário nada alentador, no qual intolerância e violência estão muito presentes. Assim, o mundo da diversidade e da inclusão deve se efetivar em uma realidade caracterizada pela barbárie, que segundo Adorno consiste em:
 
[...] estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização — e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza (ADORNO, 1995: 155).
 
Em nossa sociedade são frequentes as notícias de episódios que revelam pouca capacidade de identificação com o outro e baixa tolerância em relação às diferenças. Portanto, consideramos que é importante refletir sobre como as condições objetivas desta sociedade repercutem nos modos de subjetivação e constituem desafios à efetivação das políticas de inclusão.
Com base nas inquietações provocadas pelas contradições desta sociedade, nos perguntamos: Que tipo de indivíduo se espera para a efetivação das políticas de inclusão e da sociedade que comporta a diversidade?
O presente trabalho é parte de nossa pesquisa de doutorado (Souza, 2011), que teve por objetivo refletir e problematizar a convivência de políticas inclusivas com condições objetivas excludentes, a partir de políticas e dispositivos legais que respaldam as propostas de inclusão e de situações cotidianas de exclusão, intolerância e violência. Como objeto de análise foram selecionadas notícias veiculadas na mídia impressa do período de junho de 2010 a julho de 2011, que se referiam a escolarização de pessoas com deficiência e a preconceito e discriminação. Foram organizados dois grupos: 1. Escolarização de pessoas com deficiência e homofobia; 2. Violência e discriminação manifestas por práticas de bullying e trote. As notícias foram lidas na íntegra; organizadas e apresentadas de forma sintética, destacando-se os aspectos ilustrativos das categorias elencadas e analisadas a partir dos escritos de T. W. Adorno, M. Horkheimer e seguidores.
Aqui enfocaremos manifestações encontradas em notícias sobre práticas de violência, bullying e trote em instituições educacionais. As notícias chamam a atenção pela quantidade de situações de violência e pelo conteúdo que revela práticas discriminatórias, preconceituosas e violentas.
O primeiro bloco refere-se à prática de bullying nas escolas, que é definida por “[...] comportamentos agressivos, de intimidação [...]e que resultam em práticas violentas exercidas por um indivíduo ou por pequenos grupos” (NOGUEIRA, 2007:. 92). As notícias referentes a este fenômeno abordavam o caráter preocupante do alto índice de ocorrência destas situações de violência; anunciavam medidas legais e/ou ações para combater o fenômeno; apresentavam alguns casos e esclareciam sobre o que é o bullying e como enfrentá-lo.
As situações de bullying expressas por brincadeiras violentas foram ilustradas por um episódio ocorrido durante os jogos universitários em uma universidade pública em 2010. Durante o evento, um grupo de alunos organizou uma competição batizada de “Rodeio das Gordas”[1]. O objetivo era “agarrar suas colegas, de preferência as obesas, e tentar simular um rodeio – ficando o maior tempo possível sobre a presa”. Diante da repercussão negativa, o estudante “organizador do Rodeio” e criador de uma comunidade do Orkut sobre o tema, alegou que a prática era “só uma brincadeira.
Por fim, um conjunto de notícias se referia aos trotes universitários e consistia na divulgação de trotes abusivos, discussão de especialistas e ações de combates a esta prática. Nos últimos anos, a divulgação e o combate de trotes violentos têm sido intensos e muitas instituições aderiram ao chamado “trote solidário”. No entanto, todos os anos, no início do período letivo, uma mesma situação se repete: inúmeras situações de violência nos trotes universitários.
O trote universitário consiste em um tipo de ritual de passagem aplicado àqueles indivíduos que foram aprovados no vestibular[2] e iniciam a vida universitária. Neste ritual, os ingressantes têm os rostos pintados, o cabelo cortado e devem cumprir tarefas exigidas pelos alunos veteranos. Segundo Zuin (2002), a prática do trote
 
parece ter sido iniciada no século XI, durante a Idade Média. Os candidatos (palavra de que deriva do latim candidus, ou seja, “branco”, “puro”) aos cursos das primeiras universidades européias não podiam freqüentar as mesmas salas que os veteranos e, portanto, ficavam nas ante-salas, os chamados vestíbulos, que continham as roupas dos alunos mais antigos da instituição. As roupas dos novatos, ou calouros, eram retiradas e queimadas. Já seus cabelos eram raspados. Mas essas atividades eram justificadas sobretudo pela necessidade de aplicação de medidas profiláticas contra a propagação de doenças (ZUIN, 2002: 29).
 
Segundo o autor, com o tempo, o sentido desta atividade é modificado e esta se transforma em um ritual de passagem com bases sadomasoquistas de integração.
Nos dois primeiros blocos os episódios são recebidos pelos sujeitos com medo e indignação. Seja na ação direta de discriminação e violência presentes no bullying seja no assujeitamento das garotas durante o chamado “Rodeio das Gordas”, há atos deliberados de submeter o outro que é considerado inferior e voltar-se contra sua pessoa. No caso do trote, no entanto, a violência está posta, mas a tradição, que garantiria a integração, justifica, para os trotistas e muitas vezes para os calouros, as práticas violentas.
 
As notícias e seus significados
Assusta ver a quantidade de notícias e os índices de bullying nas escolas[3]. Também assustam as situações de agressões que se tornam públicas: humilhações, violência física, perseguições e ameaças. Parece assustar, ainda mais, o fato de os casos de bullying e violência nas escolas envolverem crianças e adolescentes e, principalmente, em um momento em que estão disponíveis as informações sobre a diversidade e a convivência com a diferença.
Do ponto de vista do grau de desenvolvimento da nossa sociedade era de se esperar que as relações se estabelecessem de maneira racional e com base no respeito, já que há tantas informações para subsidiar o entendimento de que o mundo é composto de uma diversidade de homens livres e iguais.
De certa forma, a pergunta que paira sobre as manifestações contrárias ao bullying e sobre as ações que são disparadas para contê-lo parece ser: Como pode, dentro das instituições educacionais e em uma sociedade em que já possuímos informações suficientes sobre as diferenças e os direitos à igualdade, proliferarem ações que caracterizam alto grau de crueldade e de intolerância?
Este questionamento expressa a asserção de Adorno quanto à contradição que se manifesta na convivência de alto grau de desenvolvimento tecnológico com o impulso de destruição, o que o autor denomina barbárie (ADORNO, 1995).
A existência de direitos e a desejável e necessária convivência pacífica entre os homens são conteúdos disponíveis para orientar nossa ação no mundo. No entanto, não garantem a reflexão sobre as práticas, pois chegam aos indivíduos, em geral, como meras informações a serem replicadas, como qualquer produto.
Assim, apesar da proliferação de leis, projetos e ações no interior das instituições com o objetivo de coibir o bullying, proibir o trote e criar relações mais solidárias, há a permanência de atos de violência em suas diversas formas: garotas utilizam a internet para assediar uma colega; jovens que espancam, filmam e divulgam a humilhação a um colega homossexual; outros submetem colegas ingressantes a situações de humilhação; crianças obrigam outra criança a colocar a língua na água do vaso sanitário[4].
Possuímos os dispositivos legais que asseguram direitos e dão diretrizes para que todos compreendam que não se deve discriminar e que se deve respeitar. Porém, a criação de normas e leis parece não surtir o efeito desejado de conter a violência, parece que quanto mais se ataca a violência pelo controle externo mais o mundo interno se manifesta em ações irracionais.
Poderíamos afirmar que a frustração experienciada pelo indivíduo, aquela de jamais receber o cumprimento da promessa de felicidade, parece se voltar aos demais como forma de se vingar de sua indiferenciação, que ele insiste em negar, mas que sente a todo o tempo. Neste sentido, Crochík (1997: 103) afirma
 
Se cada vez mais fica visível que os sacrifícios não são compensados, maior é a necessidade da coerção sobre o indivíduo para que ele os realize, mas também menor é o empenho deste no exercício de seu papel social, uma vez que não pode se reconhecer nele e refletir sobre a sua racionalidade.
 
Apesar de todas as informações difundidas, estamos diante de situações que demonstram que são suficientes para mobilizar ações no combate às práticas de violência, mas não para contê-las. O episódio do “Rodeio das Gordas”, ocorrido em um encontro de jovens universitários de uma instituição pública, pode ser apresentado como emblemático da ineficácia de ações de combate à violência.
Tamanha é a banalização da violência, que os alunos não se restringiram a fazer esta espécie de “competição”, também criaram uma conta em uma rede social da internet e divulgaram vídeos de suas façanhas. Ainda mais: diante da repercussão do episódio, os alunos envolvidos afirmaram ter sido uma “brincadeira”, como se tal afirmação fosse destituir o ato de seu caráter cruel e bárbaro. Considerar como brincadeira o ato de tentar simular um rodeio com uma garota obesa já contém algo de assustador e desumano.
A dessensibilização, a frieza em relação ao outro e a si próprio parecem ser as condições para que colegas possam ser tratadas sem qualquer reconhecimento de sua humanidade e de seus sentimentos.
Esta indiferença está configurada pela impossibilidade de reconhecer o outro como igual, em vê-lo para além de seus atributos considerados deficitários. As alunas se reduzem a “gordas” e, que por assim serem, tornam-se objeto da brincadeira, deixam de ser vistas como sujeitos; a vítima do bullying não é nada mais do que a diferença eleita pelo grupo, que a minimiza perante o mesmo. Também assim é com o homossexual, a pessoa com deficiência, o negro, o pobre... qualquer sujeito que passa a ser objeto da agressão.
A transformação do outro em objeto torna possível justificar o injustificável - pois transformar o outro em objeto já é irracional. Por este motivo, o argumento de que se trata apenas de uma brincadeira se torna possível e revela a coisificação da consciência. Para Adorno (1995: 71), “uma das características da consciência coisificada é manter-se restrita a si mesma, junto a sua própria fraqueza, procurando justificar-se a qualquer custo”.
Considerando a configuração objetiva e subjetiva, as ações para conter o bullying parecem surtir pouco efeito. Ainda que sejam necessárias e a via possível encontrada para enfrentar o problema, se deparam sempre com a reincidência de ações de violência e discriminação.
Antunes e Zuin (2008) afirmam que os pesquisadores, ao discutirem as causas do bullying não as problematizam. As classificações e tipificações a que muitos pesquisadores fazem, na tentativa de entender o bullying aproximam-se da busca da ciência positiva em classificar e controlar os fenômenos. Os autores reconhecem o mérito de estudos que desenvolvem classificações e tipologias que tornam possível conhecer os fenômenos da violência. Porém, consideram importante que “tais definições sejam estudadas à luz das mediações sociais que as determinam” (ANTUNES E ZUIN, 2008: 36). Na tentativa de superar esta questão, optam por caracterizar o bullying como fenômeno já conhecido pela humanidade: o preconceito.
Na perspectiva da Teoria Crítica, o preconceito aparece como uma manifestação defensiva que se interpõe nas relações e impede, portanto, a experiência. Sua manifestação afeta a possibilidade de reflexão, uma vez que generaliza como manifestação da totalidade do indivíduo aquelas características que são alvo de negação (HORKHEIMER e ADORNO, 1973; CROCHÍK, 1997).
A manifestação de violência em relação aos outros alunos tem como origem o enfoque da diferença como atributo que não merece reconhecimento, mas que deve ser eliminado, pois os sujeitos são classificados da mesma forma que os objetos.
Como o preconceituoso é avesso à subjetividade [...] ele julga não falar só em seu nome, mas no de uma coletividade a qual representa, ou melhor, com a qual se confunde. Aqueles com os quais se identifica e aqueles para os quais se propaga a identificação formam um conjunto coeso assemelhado com o bem; os que são excluídos desse conjunto são os inimigos (CROCHÍK, 1997: 35).
Pensando na tendência à adesão a coletividades, talvez possamos aproximar a discussão à questão do trote universitário. Não pensamos no fenômeno diretamente como manifestação do preconceito, mas é também expressão de pseudoindividuação, que necessita convalidar a integração ao existente a todo custo, ainda que ao preço de receber ou produzir sofrimento. Assim, a felicidade de ingressar na universidade é acompanhada da certeza de participar de momentos que são, ao mesmo tempo, de submetimento e feliz integração que abre as portas para tornar-se um deles.
Zuin (2002), ao analisar as atividades de recepção, de uma universidade do interior de São Paulo, de calouros dos cursos de Pedagogia e Física, afirma que as atividades observadas dão subsídios para compreender o trote como rito de passagem fundamentado em um processo sadomasoquista e que
 
[...] sua consequência é fortalecer a chamada educação para a disciplina por meio da dureza, ou seja, o processo “educativo” no qual o indivíduo que se integra no grupo aprende que deve reprimir o sofrimento que lhe foi imposto para que possa exercer o direito de vingança no novato do próximo ano (Zuin, 2002: 62)
 
As notícias encontradas sobre o trote universitário são boas ilustrações desta integração sadomasoquista. De acordo com alguns relatos, ter o rosto pintado, ser obrigado a fazer danças sensuais ou submeter-se a outras tarefas definidas pelos veteranos são vistas como parte do processo de ingresso na universidade e não como violência. Legitima-se, assim, que para a integração é preciso pagar um preço. As afirmações de que “não foi agressivo” justificam a humilhação como parte de um momento de integração.
O sentido da brincadeira é deturpado quando atos que possuem em seu cerne a violência são usados para entretenimento, como forma de “passar o tempo” ou de tornar o momento “descontraído”. Verifica-se que, o que é violência é naturalizado como brincadeira, como necessário para aprender as regras, como forma de ser reconhecido.
Nos tipos de violência noticiados o que se vê são indivíduos que, a despeito de todas as leis e informações, desconsideram o outro como sujeito e o submetem. Revelam-se a baixa capacidade de reflexão e a não identificação com o outro.
Ao nos depararmos com as situações aqui discutidas, parece-nos que as políticas e dispositivos legais ficam longe de serem cumpridos. Ao mesmo tempo, mais do que nunca, são necessários e precisam ser por nós defendidos.
Desvelar a contradição presente na existência de ganhos políticos, ao termos direitos assegurados, e a realidade de exclusão parece-nos a necessidade mais premente para tentarmos explicitar os mecanismos que tornam tão fácil reproduzir discursos e tão difícil efetivar a inclusão.
 
 
Considerações finais
Theodor Adorno (1995a: 129), em Educação após Auschwitz afirma: “Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa”.
Gordas, ‘bixos’, deficientes, homossexuais, loucos e tantos outros muitas vezes são tratados como massa amorfa. Também o são, em outras vezes, magros, veteranos, eficientes, heterossexuais, adaptados. Ou o outro é um absolutamente igual a todos, inclusive a mim. Ou, por qualquer atributo diferente, bom ou ruim, não merece minha consideração, não merece ser tratado como outro humano, digno de respeito e de direitos. Assim, abrem-se espaços para práticas de exclusão, para atitudes de intolerância, para a incapacidade de ver que aquele, como eu, dorme e acorda, tem dificuldades, trabalha, sonha. Seria admitir que minha igualdade com todos é um atributo que diminui, pois idêntico.
Tal incapacidade de identificação com o outro leva à coisificação, denunciada por Adorno, e gera a frieza, contra a qual temos que lutar para evitarmos as situações de barbárie manifestas na violência, na exclusão, na indiferença, na não consideração do outro.
Ao tomarmos a ideia expressa na afirmação do frankfurteano e pensarmos nas situações apresentadas neste trabalho, vemos que um quadro desalentador se evidencia. Intolerância e violência, descaso e discriminação indicam que condições para uma inclusão efetiva encontram-se travadas.
Não é pouco o incômodo de nos depararmos jovens submetendo outros jovens a humilhações sob o pretexto de serem rituais de “recepção” ou meras brincadeiras. É com incômodo que tomamos consciência das condições objetivas sob as quais a inclusão deve ocorrer. É com incômodo, também, que nos deparamos com as condições subjetivas que levam a posturas de intolerância e aniquilamento do outro. É com incômodo, mas não com espanto que nos deparamos com estas condições objetivas e subjetivas, pois
Se antes éramos pensados como indivíduos que podiam ser felizes ou infelizes, justos ou injustos, hoje somos classificados como úteis ou inúteis, produtivos ou improdutivos. Esta racionalidade, marcada pela competitividade do mercado, nos conduziu à “apatia” e à “frieza”. Num mundo regido pela competitividade, o outro passa a ser visto como uma ameaça (SILVA, 2005: 134).
Sem dúvida, as políticas são diretrizes para as ações, mas estas são dependentes de indivíduos capazes de realizá-las. Considerando que os indivíduos constituídos na sociedade administrada tendem a apenas aderir irrefletidamente ao existente, podemos nos perguntar: Que efeitos têm as políticas na prática quando os indivíduos não conseguem se identificar com o outro?
Talvez, nestes casos, os indivíduos reproduzam os discursos humanitários da mesma forma que jargões publicitários ou refrãos de jingles. Isto talvez possa explicar por que mesmo com os dispositivos externos, muitas vezes, não há o impedimento de práticas excludentes. Parece que se trata de indivíduos que, dadas as condições sociais vigentes, estão furtados da capacidade de reflexão
Exatamente por este motivo, políticas/leis se tornam cada vez mais necessárias na medida em que são a via para assegurar direitos. Porém, somente a contraposição de seus princípios às condições sob as quais devem ser efetivadas poderá nos dar subsídios para buscar efetivá-las.
Entendemos que explicitar a contradição entre as disposições necessárias à inclusão e as condições subjetivas que a obstaculizam não significa um posicionamento de derrota, mas uma forma de desvelar as contradições para poder encará-las.
A busca pela efetiva aproximação pelos desejos individuais e leis sociais deve ser baseada na constatação de que, na atual sociedade, observa-se um hiato muito grande entre os conteúdos das promessas de igualdade e suas respectivas realizações (ZUIN, 1999: 157).
Ter consciência do potencial fascista ainda presente é necessidade, se quisermos lutar por outras condições, se não quisermos ser meros reprodutores do existente. Só assim, poderemos, de fato, contribuir para a realização dos princípios da inclusão, que são os princípios de relações mais humanas e menos injustas.
 
A política que ainda estiver seriamente interessada em tal sociedade não deveria propagar a igualdade abstrata das pessoas sequer como uma idéia. Em vez disso, ela deveria apontar a má igualdade hoje, para a identidade entre os interessados no cinema e os interessados em armamentos, pensando, contudo, a situação melhor como aquela na qual é possível ser diferente sem ter medo (ADORNO, 1993: 89)
 
Hoje, na aclamada sociedade da diversidade, ser diferente dá medo. Por isso, fazer com que este medo seja conhecido pode ser a via para resistir e buscar as condições para que ele não seja mais necessário. Desta forma, podemos tentar fazer com que a inclusão não se converta em seu contrário, servindo para disseminar discursos politicamente corretos, mas camuflando práticas excludentes. 
Consideramos que é na explicitação das contradições presentes entre discursos e práticas que podemos encontrar elementos para se contrapor à frieza que perpassa as relações e torna possível "brincar" com o outro o transformando em objeto; tratá-lo como bicho e aniquilar a capacidade de encontro entre iguais/diferentes. Adorno afirma:
 
Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. (ADORNO, 1995a: 119)
 
Não é exagero dizer que persistem as condições que geram a regressão que constitui a barbárie. Basta um olhar mais atento e se mostram as mais diversas situações que revelam o potencial de irracionalidade. Infelizmente, afirmar a presença das condições que geraram Auschwitz não se trata de um olhar apocalíptico para o mundo, mas de não nos deixar enganar pela promessa de realização da felicidade, impossibilitada em uma sociedade calcada na dominação. Trata-se de sermos realistas.
O autor discute como a condição fundada na sociedade da dominação tem sua repercussão nos indivíduos, que se constituem como pseudoindivíduos e se caracterizam pela capacidade de se identificar mais com os objetos do que com os homens; pela frieza. Considerando este estado de coisas, o autor aponta a necessidade de nos contrapormos à frieza, mas não acredita que o simples apelo para o potencial humanitário seja o suficiente. A este respeito afirma:
 
O incentivo ao amor – provavelmente na forma mais imperativa, de um dever – constitui ele próprio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que é impositivo, opressor, que atua contrariamente a capacidade de amar. Por isto o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consciência de si própria, das razões pelas quais foi gerada(ADORNO, 1995a: 135-36).
 
Concordamos com o autor, não basta apelar para o potencial de solidariedade, tolerância e aceitação. É necessário, antes de tudo, revelar a frieza que caracteriza as relações e suas causas para, então, resistir e buscar alternativas.
 
Referências
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________. Educação contra a barbárie. In: ________. Educação e Emancipação. Tradução Wolfgang Leo Maar. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. pp. 155-168.
________. Minima Moralia: Reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Editora Ática, 1993.
ANTUNES, D. C.; ZUIN, A. Á. S. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Psicol. Soc.,  Porto Alegre,  v. 20,  n. 1, abr.  2008 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822008000100004&lng=pt&nrm=iso>. Consulta em  28  fev.  2011. 
BRASIL. MEC. INEP. FIPE. Relatório Analítico Final. Estudo Sobre Ações Discriminatórias No Âmbito Escolar. Brasília: MEC, 2009. Disponível em http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/relatoriofinal.pdf. Acesso em 15 de fevereiro de 2011.
CROCHICK, J. L. Preconceito, indivíduo e cultura. São Paulo: Robe editorial, 1997.
HORKHEIMER, M. e ADORNO, T.. W. Preconceito. In:      . Temas básicos da Sociologia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, Ed. da Universidade de São Paulo, 1973. pp. 172-183.
NOGUEIRA, R.M.C.D.P. de A. Violências nas escolas e juventude: um estudo sobre bullying escolar. São Paulo: PUC/SP, 2007. Tese de doutorado em Educação.
SILVA, D. J. da. Educação, preconceito e formação de professores. In: SILVA, D. J. da. E LIBÓRIO, R.M.C. (orgs). Valores, preconceitos e práticas educativas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005. pp. 125-41.
SOUZA, M.I. de. Sociedade da diversidade e a demanda por sujetividades inclusivas: a necessidade de resistir. Piracicaba/SP: UNIMEP, 2011. Tese de doutorado.
ZUIN. A.A.S Indústria cultural e educação: o novo canto da sereia. Campinas/SP: Autores associados, 1999.
________. O trote universitário: Passagens de um rito de iniciação. São Paulo: Cortez, 2002.


[1] Alunos agridem colegas da Unesp em “rodeio de gordas”, Folha de São Paulo, 27/10/2010.
[2] Vale ressaltar que o sistema de ingresso nas universidades no Brasil se dá por processos de seleção que são muito concorridos, principalmente nas universidades públicas.
[3] Ver BRASIL. MEC. INEP. FIPE. Relatório Analítico Final. Estudo Sobre Ações Discriminatórias No Âmbito Escolar. Brasília: MEC, 2009.
[4] Algumas das notícias do trabalho.