Transitoriedade como resistência em Proust

 

Flavia Trocoli
Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
Em "A imagem de Proust", Walter Benjamin dirá de um modo muito bonito das inscrições deixadas pelo tempo - das rugas e dobras do rosto - sem que nós, os proprietários, estivéssemos em casa. “Tudo totalmente diferente” eis a máxima que, em “Pequenos Comentários de Proust”, Adorno propõe para Àlarecherche, dutempsperdu, e que funciona também como síntese para aquilo que resiste à opinião. Proponho que essas duas formulações sobre Proust sejam reunidas sob a lógica da desapropriação como resistência sintetizada por Adorno em sua “Palestra sobre lírica e sociedade”: “para que o sujeito seja capaz de, em sua solidão, resistir verdadeiramente à reificação, ele não pode nunca mais se refugiar no que lhe é próprio, como se fosse sua propriedade.” (Adorno, 2003: 87) Na leitura dos fragmentos de À larecherche, dutempsperdu, destaca-se o movimento quase imperceptível das orações que, ao se inscreverem e se apagarem, impedem a cristalização e a totalização. É na leitura cerrada da colisão entre fragmentos que se vê operar a noção lacaniana de rasura, movimento em que o dito está submetido à erosão do dizer (Lacan 2003). A transitoriedade da leitura, a imersão provisória em fragmentos, é prova tanto da resistência e da singularidade do objeto, quanto do desamparo do escritor e da crítica.
Depois de rugas e rasuras sulcadas em 2400 páginas, o narrador diz ainda
 
Pelo menos, se me fosse concedido tempo suficiente para terminar a minha obra, não deixaria eu, primeiro, de nela descrever os homens, o que os faria se assemelharem a criaturas monstruosas, como se ocupassem um lugar tão considerável, ao lado daquele tão restrito que lhes é reservado no espaço, um lugar, ao contrário, prolongado sem medida – visto que atingem simultaneamente, como gigantes mergulhados nos anos, épocas tão distantes vividas por eles, entre as quais dias vieram se colocar – no Tempo. (Proust, 2004: 796)
 
O livro reduzido a não-livro seria o objeto redescoberto através do tempo e da arte, arte da erosão e da transitoriedade. Forçados pela dor, pelo acaso e pelo enigma a ser decifrado através da obra de arte, aquele-que-deseja-escrever e não-pode-escrever-ainda, no plano do enunciado, e aquele que escreve, lugar de produção da enunciação, formam essa fratura desestruturante(Benjamin dirá de uma “construção impossível) em que a instância narrativa está privada de todos os recursos, destituída, não lhe serve o que foi dito antes, o sentido, a teoria, a própria inteligência como vontade voluntária. E para ser fiel a essa iminência do que ainda não existe – a obra e o luto – a escrita proustiana nada fixa, nada estabelece, nada deixa em repouso, tudo desloca, tudo rasura, todo dito está submetido à erosão do dizer. Cada entrada, cada corte, cada formalização suporta um umbigo. Se aquele-que-deseja-escrever e não-pode-escrever-ainda não é livre diante da obra de arte, tampouco o leitor de Proust o é. Como ler, então? Eis o apelo que essa obra exemplar, e não modelar, parece fazer ao leitor. Não sem dor, não sem luto, não sem ato. Afinal, é o próprio narrador quem afirma: “O que não precisamos decifrar, deslindar a nossa custa, o que já antes de nós era claro, não nos pertence.” Jamais pertencimento e perda estiveram tão entrelaçados, a não ser no luto e na melancolia.
É por uma perspectiva vazia que se inicia a Recherche. Se um Balzac começa os seus romances nos situando no tempo histórico e no espaço geográfico, e apresenta os seus personagens que são, para dizer com Erich Auerbach, implicações bem acabadas de tal tempo e de tal espaço, Proust lança o seu narrador na indeterminação, nas primeiras linhas, ele é aquele que, por muito tempo, não se sabe por quanto tempo nem quando, dormiu cedo. Quem dorme, quem sonha, está livre dos protocolos da identidade, do eu, da cronologia, da geografia, ao despertar, os retoma, mas essa ordem pode se confundir e romper. O que confunde? O que rompe? Na cena do drama do deitar, uma concessão inesperada do pai que autoriza a mãe a dormir com o pequeno que fora privado não somente do beijo de boa noite mas de resposta a fazer um apelo a mãe. Na cena da madeleine, a própria irrupção da memória involuntária. Na cena amorosa, a partida e depois a morte de Albertine.
Gérard Genette (1972) associa a estrutura da Recherche ao palimpsesto, mas não faz nenhuma menção à rasura. Assim, a partir dessa lacuna, venho pensando a rasura como componente estrutural desse palimpsesto (Trocoli 2012). No tempo do ciúme, Proust rasura o tempo da ausência e faz da passante a sua prisioneira, retirada das sombras, ela se chamará Albertine. E a despedida desde sempre contida no encontro amoroso será rasurada pelo ciúme. O ciumento está lá, na cena como o terceiro excluído, o ausente, atualizando a cena primordial da Recherche, em que, em Combray, o pequeno Marcel é privado do beijo da mãe, devido à visita de Swann. A relação entre a cena da madeleine e a cena do drama do deitar, contíguas no texto, é uma relação rasurada, uma relação apagada, é a partir desta rasura entre legível e ilegível, entre metáfora e erosão, que se pode dizer Proust palimpsesto. E não há palimpsesto sem rasura.
Depois de fazer Albertine prisioneira, depois de sua partida e de sua morte, escreve o narrador:
 
As pernas e os braços estão cheios de lembranças entorpecidas. Certa vez em que deixei Gilberte muito cedo, acordei no meio da noite, no quarto de Tansonville, e, ainda meio adormecido chamei “Albertine.” Não é que tivesse pensado nela, ou até com ela sonhado; nem que a tivesse tomado por Gilberte: é que uma reminiscência, nascida em meu braço, fizera-me procurar a sineta atrás das costas, como no meu quarto em Paris. E, não a encontrando, chamara “Albertine”, crendo que minha amiga defunta estava deitada junto a mim. (Proust 2004: 534).
 
Parte de uma caixa de ressonância, a sensação da defunta junto ao corpo do narrador, trazida por uma variação nova da memória involuntária, leia-se inconsciente, faz ressoar a lição de Antígona sobre a complexa tarefa de enterrar o cadáver e separar os vivos e os mortos, faz ressoar o sonho em que uma mulher nascia “da falsa posição de sua coxa. Oriunda do prazer” que o narrador estava prestes a experimentar. E faz ressoar também centenas de páginas em que Albertine paira como um fantasma, uma vez que o real decretou a sua morte, mas ela ainda vive na memória do Narrador. E, no entanto, foi no dia em que deixou de lhe beijar que o narrador começa a carregar o defunto de Albertine: gelada, triste, lenta, sem nunca mais sorrir.
O sexto volume da Recherche, intitulado A fugitiva, faz ressoar o drama do deitar das primeiras páginas, em que o menino vacila entre a ausência e a presença da mãe, entre o horror e a volúpia, a disforia e a euforia. Nessa disjunção, produzida pelo próprio movimento da escrita proustiana, esses estados são alheios e contíguos, “tão desprovidos de quaisquer meios de comunicação entre si, que, quando um deles domina, não posso mais compreender o que desejei, temi, o fiz no outro estado.” Eis a ambivalência delineada no drama do deitar que se atualiza no movimento de um luto melancólico que constitui o penúltimo volume da Recherche. Suas primeiras linhas:
 
A srta.Albertine foi-se embora! Como, em psicologia, o sofrimento vai mais longe que a psicologia! Ainda há pouco, ao analisar-me, julgara que essa separação sem nos termos visto outra vez era justamente o que eu desejara... Mas essas palavras: A srta.Albertine foi-se embora! Acabavam de produzir-me no coração um sofrimento tamanho que eu não podia resistir-lhe por muito tempo. Assim, o que julgara não ser nada para mim era, simplesmente, toda a minha vida. Como a gente se conhece mal! (Proust 2003: 9)
 
Do mesmo modo como a dor se impõe, é imposto ao narrador negá-la com a convicção obstinada de que traria Albertine de volta. Albertine parte em consonância com a fantasia ciumenta de Marcel, suas estratégias e subterfúgios e, obviamente, morre à revelia dessa fantasia de posse e controle. Mas nem tanto, uma vez que o narrador sente sua vida manchada por um duplo assassinato, por infligir tamanho sofrimento à avó e à Albertine. Morta e ainda viva na memória, e ainda outras Albertines dispersas pelo tempo fazem a escrita atualizar o tempo da “não tem resposta da mãe”, tempo que produz e é produzido pelo próprio ato de rasurar como não-realização da perda, do luto, do esquecimento e da própria obra. Uma hora viria, mas ainda não veio. Chegada a hora, o luto e o esquecimento não salvam o leitor do risco do equívoco.
Em A prisioneira, na construção da cena do ciúme o sujeito pode jogar com a sua ausência, que, ao mesmo tempo, é encoberta pela ilusão de controle e de posse. Na cena de ciúme, os personagens são Albertine e um outro/uma outra, o narrador é o terceiro excluído, tornar-se amante é tornar-se leitor, é deixar-se interpelar pelos signos mentirosos do amor. A cena ciumenta produz saber sobre cenas que vagam soltas na memória, sobre o objeto de amor e sobre seu modo de amar, enfim tenta produzir saber sobre a sexualidade enigmática de Albertine – o que ela deseja homens ou mulheres? A resposta chega ao seu destino em A fugitiva, quando Andrée, amiga de Albertine, conta ao narrador não só passagens de seu caso com Albertine, confirmando o gosto dela pelo prazer com mulheres, mas também que Albertine esperava que ele a salvasse pelo casamento, aquilo que, para o narrador, seria da ordem do inimaginável. Tarde demais, o efeito dessas revelações é o seguinte:
 
Como certas felicidades, há certas desgraças que chegam tarde demais e não alcançam em nós toda a magnitude que teriam tido algum tempo antes. [...] havia já algum tempo, as palavras concernentes a Albertine, como um veneno evaporado, não tinham mais poder tóxico. Ela já estava demasiado longe de mim. Como o passante que exclama, vendo à tarde, um crescente nebuloso no céu, diz a si mesmo, então é isso, como? Então essa é a verdade que procurei tanto, [...] (Proust 2003:171).
 
 
Essa verdade do amor destituída pelo tempo, quando resta apenas a verdade da irrefutabilidade erosiva do próprio tempo, um erro é a prova do esquecimento, da indiferença absoluta. Em Veneza, quando Albertine já habita os cárceres quase inacessíveis do esquecimento, o narrador recebe uma carta em que lê que ela desmente sua morte, diz estar vivíssima e quer lhe falar sobre o casamento. Se a desgraça da confirmação dos ciúmes não o afeta, tampouco a alegria da ressurreição de Albertine: “Eu seria incapaz de ressuscitar Albertine, porque o era de ressuscitar a mim mesmo, de ressuscitar o meu eu de então.” (Proust 2003:209).
A carta não era de Albertine, mas de Gilberte anunciando seu casamento. O que surpreende é que tal equívoco não é interpretado. Fora da perspectiva do amor, do ciúme, do eu, a interpretação cai. Há constatação, erro e advertência:
[...] lendo, cria-se; tudo parte de um erro inicial; os erros que se seguem (e não é somente na leitura de cartas e telegramas, ou em qualquer leitura), por mais extraordinários que pareçam a quem não haja partido do mesmo ponto, são inteiramente naturais. Boa parte daquilo em que acreditamos (e assim acontece nas conclusões extremas) com igual teimosia e boa-fé resulta de um primeiro engano sobre as premissas. (Proust 2003: 217).
 
Tal lei sobre o engano das premissas bastaria para que, rasurando o dito até então, fôssemos forçados a reler sob outro ângulo a Recherche.Como diz o próprio narrador, Albertine era apenas o centro gerador de uma construção imensa, como a morte nada põe no lugar, é a partir desse nada, em que não há mais ninguém para dizer eu, objeto entre objetos, que isso escreve em busca do tempo perdido. Sobre essa pura perda, diria ainda Proust: “um livro é um vasto cemitério onde na maioria dos túmulos já não se leem as inscrições apagadas. Por vezes, ao contrário...” (Proust 2004: 689) (ênfase minha) Não apenas a indicação das inscrições apagadas, ponto de homologia entre o livro e o cemitério, mas sobretudo o “ao contrário” nos enviamà excelente síntese de GaëthanPicon para o movimento da frase proustiana: “Não é isso! Não é nada! Então é isso!” (Picon 1995: 128). O que não deixa de nos remeter ao “Tudo totalmente diferente” justamente quando Adorno afirma que,se a lógica proustiana se limitasse ao “Tudo totalmente diferente”, teríamos apenas a impotência, mas há o “assim é” como marca de uma universalidade oblíqua.
Até esse ponto preciso, não através de uma reflexão sobre as semelhanças teóricas, mas através de uma leitura do movimento entre os fragmentos do texto proustiano, aproximei o tudo totalmente diferente de Adorno à rasura de Lacan, ouço aqui o rumor das distâncias atravessadas para talvez perguntar pelo intransponível entre Adorno e Lacan justamente no que diz respeito à universalidade. Para a psicanálise lacaniana haverá um elemento que impedirá a totalização de uma lógica, quer seja o umbigo do sonho, a mulher, a morte ou o sexual (que não são jamais resposta, como quer a psicanálise tornada senso-comum e clichê, mas modalidades do não-tem-resposta), esses restos do pensamento impedem justamente uma lógica que se queira universalizante, o que torna o mal-estar na civilização irredutível, uma vez que o mal-estar só pode ser formalizado por cada um, por cada homem ou por cada obra. O mal-estar não é da ordem do Ser atemporal, mas da contingência e da finitude.Se Lacan e Adorno se encontram numa operação de leitura do não-próprio como crítica da identidade e da unidade, quanto ao universal cessaria aqui a interseção entre uma leitura adorniana e lacaniana de Proust?
É preciso destacar que Adorno, ao formular a questão da universalidade, a torna problemática a partir da palavra oblíqua e, mais, que seu próprio procedimento de leitura através da imersão em fragmentos impede de lermos a universalidade lida no “é assim” como um refúgio no conceito que estanca o pensamento, ao contrário, o “é assim” relança a leitura pela pergunta assim como? Ao modo de Proust que, ao mesmo tempo em que faz Combray sair de sua xícara de chá, reduz/rasura o gosto da madeleine na boca à/com a imagem surrealista da gota sobre a qual se ergue o edifício imenso da recordação: formalização e perda.A construção transitória desse edifício no tempo resiste à fixação, inscreve-se no impossível, entre dois tempos: o da escrita rasurada e o da leitura desamparada uma vez que ambas se fazemao modo do tudo totalmente diferente. A transitoriedade, do escrever a obra e de sua interpretação, como resistência à propriedade.Se foi Kafka quem afirmou que alguns livros funcionam como chaves para o nosso próprio castelo, é preciso lembrar que, para Proust, o castelo, se o tempo e a morte permitirem, está por construir. Contudo, nas ruínas do tempo sobre o qual ele se edificará já habitam criaturas monstruosas vistas por mil olhos espalhados pelo tempo que, ao se confrontarem com tais imagens, as iluminam e as apagam no mesmo gesto, para que nós, os proprietários, não sejamos nunca mais senhores em nossa própria casa.
 
Referências Bibliográficas:
ADORNO, T. W., “Pequenos Comentários sobre Proust.”, Tradução: Fabio Akcelrud Durão, tradução Inédita.
----------------------- “Palestra sobre Lírica e Sociedade”,in ADORNO, T.W.,Notas de Literatura I, Tradução e Apresentação: Jorge de Almeida, São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2003, pp.65-89.
AUERBACH, E. (1946)“Na mansão de La Mole”, in AUERBACH, E.,Mímesis.2. ed. rev. São Paulo: Perspectiva, 1987, pp.471-498.
BENJAMIN, W.(1929)A imagem de Proust, inBENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, Tradução: Sergio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin, 7aed, São Paulo: Brasiliense, 1994, pp.36-49.
GENETTE, G. (1966)“Proust palimpsesto”, in: Figuras,Tradução: Ivonne F. Mantoanelli,São Paulo: Perspectiva, 1972, pp.41-67.
LACAN, J.,“Lituraterra”, in LACAN, J.,Outros escritos, Tradução: Vera Ribeiro, Versão final: Angelina Harari e Marcus André Vieira, Preparação de texto: André Telles, Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.15-25.
PICON, G. Lecture de Proust,Paris: Gallimard, 1995.
PROUST, M.,(1923)No caminho de Swann. Tradução: Mario Quintana. 3ª ed. São Paulo: Globo, 2009.
------------------ (1923) A prisioneira.,Tradução: Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, 13 edição, São Paulo: Globo, 2002.
_________(1925)A fugitiva,Tradução: Carlos Drummond de Andrade, São Paulo: Globo, 2003.
_________(1927)O Tempo Recuperado,Tradução: Fernando Py,Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
TROCOLI, Flavia “Proust em dois tempos: a não resposta e as rasuras”, in MILÁN-RAMOS, José Guillermo, MORAES, Maria Rita Salzano e LEITE, Nina (orgs.),De um discurso sem palavras, Campinas: Mercado de Letras/FAPESP, 2010, pp. 117-130.