Sexualidade e Revolução: novos movimentos sociais e os novos dilemas da mudança social

 

Robespierre de Oliveira
Universidade Estadual de Maringá/UNESP Pós-Fil
 
“A recusa intelectual pode encontrar apoio em outro catalisador, a recusa institucional entre a juventude em protesto. É suas vidas que estão em jogo, e se não suas vidas, sua saúde mental e sua capacidade de funcionar como humanos não mutilados. Seu protesto continuará porque é uma necessidade biológica. ‘Por natureza’, os jovens estão na frente daqueles que vivem e lutam por Eros contra a Morte, e contra uma civilização que se esforça para encurtar o ‘desvio para a morte’ enquanto controla os meios para encompridar o desvio. Mas na sociedade administrada, a necessidade biológica não resulta imediatamente em ação; a organização exige contra organização. Hoje a luta pela vida, a luta por Eros, é a luta política.” (Marcuse, Prefácio Político a Eros e Civilização, 1966, trad. minha)
 
A Praça Tharir, de 2010 a 2013, tornou-se o símbolo de uma grande revolta através do mundo, não só nos países árabes. Começou uma nova expressão de movimento que impulsionou outros movimentos como o Occupy Movement. Entre suas caracteríscas: o uso de tecnologias como Wi-Fi, celulares, redes sociais, posso enfatizar a solidariedade, A maioria dos manifestantes contra os poderes existentes são jovens, apesar de pessoas mais velhas também participarem. Estes jovens não são apenas contra o sistema político e econômico, tentando mudar leis opressivas e lutar contra a má situação econômica. Através das redes sociais, eles divulgam sua solidariedade não apenas localmente mas a pessoas em todo mundo, mostrando imagens e vídeos e notícias que a mídia não mostra na mídia tradicional: jornais, televisão.
Deste modo, uma simples manifestação contra a transformação de um parque num shopping center na Turquia teve uma influência nas manifestações brasileiras contra o preço dos transportes. Os jovens podem ver facilmente notícias de protestos em redor do mundo pela replicação de blogs, websites de impressa alternativa, e outros tipos de informação, discutindo sobre o que está acontecendo agora. Mais ainda, as pessoas vão às ruas ao invés de ficarem atrás de seus computadores na internet. Enfrentam a polícia e em alguns casos o exército. A replicação de imagens e notícias não só para discutir, mas também para autodefesa dos manifestantes, quando mostram o quão violenta a repressão pode ser. Isto incluiu o uso de bombas de gases proibidas, e prisões de pessoas que usaram vinagre nas manifestações brasileiras. Imagens de jornalistas, idosas, e jovens que foram atingidos por balas de borracha pela polícia são essenciais para denunciar a violência do Estado.
Contra estes movimentos de libertação (da economia e política atuais), a direita conservadora e grupos fascistas estão crescendo com o consentimento da mídia. Eles são claramente contra mudanças, sendo racistas, machistas, religiosos (com um falso discurso sobre a família baseado na Bíblia), homofóbicos, anticomunistas, e especialmente têm ódio, inclusive contra os pobres e a classe média em ascensão. Assim, estamos vivendo um processo no qual a revolução e a contrarrevolução são possíveis, como à véspera da Segunda Guerra Mundial, quando muitos Estados se tornaram fascistas. Entretanto, não há uma consciência clara daqueles que estão no campo de batalha, mesmo os intelectuais não entendem o que está acontecendo. Parece que muitas pessoas foram surpreendidas com as proporções de todos os acontecimentos. Por exemplo, o Occupy Movement começou em 2011, e muitos acreditaram que terminaria em breve, mas continua a existir até hoje. A Marcha das Vadias começou como um protesto local, e logo foi espalhada para diferentes países, assumida por feministas contra o machismo. Mesmo partidos de esquerda estão pasmos com os protestos e manifestações que eles não controlam. E a mídia tenta cooptá-los sem efetividade.
Em 2013 no Brasil, o Movimento do Passe Livre começou em algumas cidades a protestar contra o preço do transporte, logo se espalhou para várias outras cidades do país, incluindo grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. As pessoa vão às ruas não para protestar contra o preço, mas por inúmeras outras razões. O Passe Livre deveria ser um movimento de esquerda, mas os jovens, jovens trabalhadores e estudantes, não acreditam nas credenciais da esquerda, olhando com descrença para os velhos partidos. A mídia tenta usar o movimento contra o governo com palavras de ordem contra a corrupção, que é uma palavra de ordem sem sentido, já que só com o fim do capitalismo terminará a corrupção, e a mídia e as grandes empresas e empresários estão entre os corruptores. Os manifestantes também não creem na mídia tradicional, criticam a mídia como manipuladora. Pelas redes sociais, os manifestantes divulgam sua insatisfação não só com o transporte e a mídia, mas com o modo de vida, a falta de saúde, falta de boas escolas e insatisfações com o que os governantes e o Estado fazem com os impostos, incluindo seu próprio enriquecimento.
Assim, muitos foram às ruas em solidariedade a outros, pessoas que não necessitam de transporte público, pessoas que estão muito insatisfeitas com o modo de vida. Uma diferença entre as manifestações brasileiras e outras, como as gregas, espanholas e egípcias, é que o Brasil está vivendo uma economia estável, muito diferente de outros países e de seu próprio passado. Deste modo, muitos se perguntam por que protestar numa boa situação econômica. A resposta a isto divide o povo, de um lado, a classe média que apoia os ricos, de outro os pobres e a classe média em ascensão. Os primeiros acreditam que estão perdendo seu poder enquanto o governo ajuda os últimos. Apesar disto ser um tema complexo para discutir, incluindo a ascensão do fascismo no Brasil, não quero entrar em detalhes. Quero arguir que este movimento como outros, de justiça global, não é revolucionário, mas pode projetar reivindicações de libertação e solidariedade, mesmo se estão confusos em suas ideias, com falta de estratégias políticas. A maioria da juventude não sabe o que quer para seu futuro, mas de algum modo sabe o que não quer para seu presente e futuro.
George Katsiaficas, numa entrevista de março de 2011, comentou sobre a Primavera Árabe. Após escrever um livros sobre os movimentos de libertação de 1968, ele usou o termo “efeito Eros” para explicar a solidariedade de massas naquela época. Ele diz:
“Percebi que os protestos sobre o Vietnam e a revolta—a Ofensiva Tet, de fevereiro de 1968—tinha afetado uma conferência em Berlim, Alemanha de ativistas antiguerra—muitos dos quais eram da França, que tinham ajudado a faísca do levante de maio na França. Os eventos de maio—uma situação quase revolucionária em 1968, que por sua vez levou a greves gerais na Itália e Espanha, movimentos no México, e Senegal foram afetados por aquilo, a Universidade de Columbia—e o modo que os protestos irromperam estava mais relacionado a cada um do que as condições de políticas domésticas, condições econômicas, e os modos que os movimentos sociais são normalmente conceituados.
“E como tentei lidar com um modo de entender o que estava acontecendo, a noção de Eros de Herbert Marcuse—e Eros político, que ele tinha desenvolvido—cristalizou-se como o “efeito eros”,significando que em certos momentos, repentinamente, interesses universais se tornam generalizados. O povo, ao invés de cuidarem de suas vidas quotidianas procurando serem felizes, para maximizar seu próprio ganho individual, verdadeiramente estão mais preocupados com as questões universas de paz, ou de prosperidade para todos, não apenas para si mesmos.”[1]
Esta solidariedade, ou efeito Eros, está presente nas manifestações de hoje ao redor do mundo pelas redes sociais. As pessoas não estão olhando apenas para si mesmas, para seus próprios problemas e preocupações individuais. Estão também preocupadas com os outros, por causa de sua empatia e porque estão unidos por um interesse universal humano por uma mudança da vida. Entretanto, esta mudança de vida pode ter diferentes significados, como uma perspectiva de futuro, a situação presente é recusada por aqueles que sentem que as condições atuais de vida não funcionam. É certo que há aqueles que não se importam com moradores de rua quando passam por eles, que não lutam cotidianamente por mudanças e se adaptam à estrutura existente. Como há aqueles que pensam em mudar o presente para retornar ao passado.
Herbert Marcuse, em Eros and Civilization (1955), desenvolveu dois conceitos a partir da teoria metapsicológica de Freud: o princípio de desempenho e a mais-repressão.[2] O princípio de desempenho é o princípio de realidade atual, a situação capitalista que promove competição entre trabalhadores, estudantes, e assim por diante. A mais-repressão significa uma repressão adicional que os indivíduos se impõem, é uma repressão além da repressão básica necessária para viver em civilização. A mais-repressão explica como os indivíduos se sentem livres no sistema opressivo que controla a satisfação de suas necessidades pelo mercado. Alguns indivíduos devem estar acostumados com a escassez, enquanto ao mesmo tempo outros poucos vivem com uma grande quantidade de recursos. Os indivíduos são livres para conseguir um emprego, trabalhar e receber um salário. Também são livres para lutar pelo aumento de sua posição social, como o princípio de desempenho os conforma: competitividade. A religião e outros aparatos ideológicos (como escola, filosofia, ciência, e muito mais importante hoje, a mídia) promoveram esta repressão interior que constitui os indivíduos.
Marcuse mostra que a dialética da civilização é baseada na relação desproporcional entre escassez e abundância, que impulsiona o domínio do homem pelo homem. Mas aqueles que aceitam este estado de coisas o fazem porque querem e não por causa de forças externas. Assim, é necessário que os indivíduos não aceitem e não acreditem mais neste modo de vida para romper com este sistema. Porque o capitalismo é baseado na crença das pessoas, se esta crença for perdida, o sistema quebra.
Assim, é uma espécie de masoquismo ter um trabalho para ganhar dinheiro para viver. A maioria das pessoas acreditam que necessário fazer a vida, mesmo com os sacrifícios do tempo livre, saúde, e planos que alguém queira fazer, e as pessoas não se questionam por que isto é realmente necessário, se a vida não poder se qualitativamente diferente disto. O Mito de Sísifo, descrito por Albert Camus, representa muito bem a reprodução da vida, onde se repete todo dia as mesmas coisas básicas. Incluída nesta reprodução, não há apenas a adaptação para o trabalho; há a cultura com seu processo ideológico e de reificação que englobam tudo. O ideologia principal é atar os indivíduos no sistema de mercadorias, fazendo-os consumir mais e mais mercadorias, num ciclo sem fim. Assim, a vida no capitalismo é preenchida com mercadorias do início ao fim do dia.[3]Este processo reifica mais os indivíduos, ao mesmo tempo em que os educa para as necessidades do sistema, como as habilidades para trabalhar e a necessidade estar conformado aos problemas econômicos e políticos.
Para Marcuse, a grande exploração do capitalismo não está na extração de mais-valia, mas na exploração do tempo livre.[4] Os trabalhadores têm seu tempo fora do trabalho explorado por mecanismos tais como péssimas condições de transporte e trânsito, indústria cultural (um modo administrado de entretenimento), tempo gasto em comprar mercadorias nos shoppings e lojas, e o uso de tecnologias que separam os indivíduos de sua vida pessoal. O tempo gasto no trabalho e outras atividades alienadas dessexualiza o corpo dos indivíduos (reificação). Segundo Marcuse,
“Sob o princípio de desempenho, a catexis libidinal do corpo individual e relações libidinais com outros são normalmente confinadas ao lazer e direcionadas à preparação e execução do intercurso genital; só em casos excepcionais, e com um alto grau de sublimação, as relações libidinais são permitidas a entrarem na esfera do trabalho. Estas restringem, forçadas pela necessidade de sustentar um grande quantum de energia e tempo para o trabalho não gratificante, perpetua a dessexualização do corpo de modo a tornar o organismo num sujeito-objeto de desempenhos socialmente úteis.” (MARCUSE, 1955, p. 199.)
Na medida em que o sexoé dessublimado repressivamente, ao tornar-se mercadoria na sociedade capitalista, as relações libidinais e sensuais entre os indivíduos são reificadas. As relações sexuais são reduzidas para focalizar somente as relações genitais ou fetichistas. E estas não são expressão real da dimensão de Eros, mas por outro lado a expressão do princípio de desempenho, na qual o machismo e a ordem patriarcal dominam. A dessublimação repressiva expressa tanto a divulgação de sexo pela mídia, quanto o tabu do sex, ao mesmo tempo. Horkheimer e Adorno, do mesmo modo que Marcuse, escreveram no capítulo sobre a Indústria Cultural:
“Eis aí o segredo da sublimação estética: apresentar a satisfação como uma promessa rompida. A indústria cultural não sublima, mas reprime. Expondo repetidamente o objeto do desejo, o busto no suéter e o torso nu do herói desportivo, ela apenas excita o prazer preliminar não sublimado que o hábito da renúncia há muito mutilou e reduziu ao masoquismo. Não há nenhuma situação erótica que não junte à alusão e à excitação a indicação precisa de que jamais se deve chegar a esse ponto. (. . .) As obras de arte são ascéticas e sem pudor, a indústria cultural é pornográfica e puritana.” (HORKHEIMER e ADORNO, 1985,
Assim, a indústria cultural não sublima e suprime, reduzindo o amor ao romance. Mesmo hoje, os filmes, as novelas, e a música, acreditam num verdadeiro amor onde um sexo selvagem é um momento. As mulheres nunca estão libertas; elas estão sempre esperando um bom romance. Malleus Maleficarum (O martelo das bruxas) expressou a concepção da Igreja Cristã que as mulheres são proibidas de sentir prazer e gostar de sexo, porque estes sentimentos vêm do demônio para enganar os homens. Principalmente com a cristandade, o corpo feminino, vinculado à luxúria, é proibido de ser visto, devendo ser escondido. Artistas poderiam mostrar a beleza por causa da alta sublimação de sua arte, mas mulheres reais causam tentação se usarem seu corpo como sensualidade e não para propósitos reprodutivos.
O Movimento Feminista começou por criticar o poder dos homens, exigindo o voto universal, direitos iguais (incluindo salários), e algumas especificidades do corpo das mulheres. Marcuse, em “Marxismo e Feminismo”, chama a atenção para as diferenças culturais entre homens e mulheres. Mulheres, historicamente, têm algumas características como passividade, receptividade, afetividade, ternura, beleza, e racionalidade emocional. Para Marcuse, estas se tornaram uma espécie de segunda natureza das mulheres, enquanto os homens possuem características como violência, agressividade, força. Os homens, geralmente, apenas veem beleza e sexo nas mulheres, algumas vezes eles querem algum que cuidem deles, mas é muito raro olhar para algumas características das mulheres como inteligência, racionalidade emocional, e habilidades. Marcuse conclui que as mulheres não devem competir com os homens nas mesmas condições; não devem desenvolver as características dos homens, como violência e agressividade; antes, devem transmitir suas características aos homens. Isto será importante para pacificar a existência. Observe que esta segunda natureza, construída culturalmente, não deve ser desvalorizada como no senso comum masculino, pois é impulso para a libertação.
Com a Revolução Sexual dos anos 1960, esta era a verdadeira experiência diferente daquela dos anos 1970, mulheres reivindicando por sua libertação, incluindo a libertação de seu corpo. O advento da pílula contraceptiva deu às mulheres mais liberdade para ter uma rica vida sexual, quase a mesma liberdade que os homens possuem. Isto era contra a imagem tradicional reprimida das mulheres, porque sua exposição do corpo com a nova moda, porque elas mostravam que mulheres podem gostar de sexo sem serem “filhas do demônio”, porque podem falar por si mesmas e resolver seus próprios problemas. A nudez era para ser considerada natural e não para se ter vergonha, sexo foi igualado a amor. Tudo se tratavam de instrumentos para lutar contra a moral tradicional da sociedade, principalmente a moral religiosa. Marcuse escreveu em Um Ensaio sobre a Libertação:
“A obscenidade é um conceito moral no arsenal verbal do Establishment, que abusa do termo ao aplicá-lo, não a expressões de sua própria moralidade, senão àquelas de outra. Obsceno não é a imagem de uma mulher nua que expõe seu pelo púbico, mas aquela de um general completamente fardado que expões suas medalhas premiadas numa guerra de agressão; obsceno não é o ritual dos Hippies, mas a declaração de um alto dignitário da Igreja de que a guerra é necessária para a paz.” (MARCUSE, 1969, p. 8)
Após a contrarrevolução (incluindo a contrarrevolução sexual) dos anos 1970, no começo do século XXI, as mulheres reforçaram seu movimento de libertação. A Marcha das Vadias é um exemplo que se espalha pelo mundo. Não é apenas uma Marcha, mas envolve organização e manifestação com as leis do Estado, contra a cultura do estupro e o machismo. Algumas mulheres na Marcha mostram seus seios nus, apenas como uma luta contra a reificação, como momento de libertação, dizendo que seu corpo pertence a elas mesmas. A exibição de seios nus não é um convite para o sexo, ou pior, para o estupro. As mulheres escrevem em suas barrigas palavras contra a religião e as leis morais, e pedem a liberação do aborto. Em alguns países isto pode ser visto como razoável, em outros isto pode ser criminoso. Num país como o Brasil, é tão contraditório, por causa do carnaval muitos pensam no Brasil como um país liberal (em termos sexuais), mas a influência religiosa tenta fortalecer o oposto, isto é, as leis morais conservadoras. Sobre seios nus, Marcuse escreveu:
“As mulheres foram completamente empregadas nos negócios domésticos, a família, que devia ser a esfera de realização para o indivíduo burguês. Entretanto, esta esfera estava isolada do processo produtivo e assim contribuiu para a mutilação das mulheres. E contudo, este isolamento (separação) do mundo do trabalho alienado do capitalismo permitiu as mulheres a permanecer menos brutalizadas pelo Princípio de Desempenho, a permanecer mais próximas de sua sensibilidade: mais humanas do que homens. Que esta imagem (e realidade) das mulheres foram determinadas por uma sociedade agressiva e machista não significa que esta determinação precise ser rejeitada, que a libertação das mulheres deve superar a “natureza” feminina. Esta equalização do macho e da fêmea seria regressiva: seria uma nova forma da aceitação feminina do princípio masculino. Aqui também o processo histórico é dialético, a sociedade patriarcal criou a imagem feminina, uma contra-força feminina, que poderia ainda se tornar um dos coveiros da sociedade patriarcal. Neste sentido também, a mulher mantém a promessa de libertação. É a mulher que, na pintura de Delacroix, segura a bandeira da revolução, guia o povo nas barricadas. Ela não veste uniforme; seu seios estão nus, e sua face bonita não mostra traços de violência. Mas ela tem um rifle na sua mão—pois se deve ainda para lutar pelo fim da violência. . .” (MARCUSE, 1972, p. 78)
Assim, a luta das mulheres agora incorpora a luta pela mudança de vida, por uma vida melhor. A dimensão de Eros é a dimensão da vida, e não do sexo em particular. As mulheres estão na frente desta batalha. O grande problema hoje é que muitas estão experimentando pela primeira vez a luta nas ruas contra a cultura, as leis e a moral; não sabem o que é uma vida melhor. Algumas ainda pensam que uma vida melhor e felicidade deve ser particular, são indivíduos pensando isoladamente ou contra a sociedade. Podem ser pessoas úteis ao fascismo, enquanto lutam por sua própria felicidade contra ou competindo com os outros. De um lado, há muitos que pensam coletivamente, expressando solidariedade, por exemplo, a Edward Snowden, que se tornou persona non grata para o governo dos EUA, porque revelou a espionagem do governo utilizada em seus próprios cidadãos. Pessoas, não só governos, de diferentes países expressam esta solidariedade, o “efeito Eros” para o qual Katsiaficas chamou atenção. Ao mesmo tempo em que, os partidos de esquerda parecem terem perdido suas credenciais, na medida em que olham com desconfiança para eles. Muitos intelectuais[5]tentam entender e tornarem os protestos mais eficientes para mudar a vida. Para Marcuse, a necessidade de mudar a vida é uma necessidade biológica, mas todos os indivíduos deveriam entender e ter consciência do que está em jogo.
As manifestações do século XXI colocam a exigência de novos formatos de luta e novas questões para a revolução, como a sexualidade, a ecologia, a educação, os sistemas de governo, novas formas de sociabilidade. Junto com a luta pela libertação cresce a contrarrevolução que se tem tornado cada vez mais brutal devido a governos covardes, temerosos da perda do poder. Os sentimentos mais retrógrados da organização social humana também crescem, como fascismo, racismo, sexismo, machismo, homofobia, fobias de gênero, xenofobia, entre outros. Há quem publicamente ainda defenda que o lugar das mulheres seja em casa, submissa ao marido. A mídia faz sua parte de buscar o controle ideológico. Mas há mídias alternativas que cada vez mais servem de referência. E mesmo na internet a batalha pelas notícias verdadeiras ou falsas está em pleno vigor. As manifestações ainda são confusas quanto às palavras de ordem e aos seus objetivos. As pessoas têm consciência de que algo precisa mudar, embora ainda não saibam para o que e confundam o que querem. A esquerda também está confusa, enquanto a direita sabe muito bem o que quer, apesar de não compreender o processo de rebeldia. A luta por uma vida qualitativamente diferente está posta, esta luta deve se pôr contra qualquer forma de fascismo.
“Todo fala sobre a abolição de repressão, sobre a vida contra a morte, etc., deve se colocar no quadro verdadeiro de escravização e destruição. Dentro deste quadro, mesmo as liberdades e as gratificações dos indivíduos participam da supressão geral. Sua libertação, tanto instintual quanto intelectual, é assunto político, e uma teoria das oportunidades e precondições de tal libertação deve ser uma teoria de mudança social.” (MARCUSE, 1961, p. xi.)
 
 
Bibliografia
MARCUSE, H. Eros and civilization, Boston: Beacon, Press, 1955.
—, An Essay on Liberation. Boston, Beacon Press, 1969.
—, Preface to Eros and Civilization. New York, Vintage Books, 1961.
—, Counterrevolution and Revolt, Boston, Beacon Press, 1972.
LANGMAN, From Pathos to Panic: American Character Meets the Future” In WEXLER, Philip (ed.) Critical Theory Today. London / New York / Philadelphia, The Falmer Press, 1991, pp. 165-240. P. 177-178.
HORKHEIMER, M. e ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento – Fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. 3ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.
KATSIAFICAS, George, ZLUTNICK, David. “The Eros Effect and the Arab Uprisings – An interview with George Katsiaficas” In: http://www.zcommunications.org/the-eros-effect-and-the-arab-uprisings-by-george-katsiaficas, vistopelaúltimavezem 27/7/2013.


[1]KATSIAFICAS, George, ZLUTNICK, David. “The Eros Effect and the Arab Uprisings – An interview with George Katsiaficas” In: http://www.zcommunications.org/the-eros-effect-and-the-arab-uprisings-by-george-katsiaficas, vistopelaúltimavezem 27/7/2013.
[2]Citando Marcuse: “Terminologicamente, esta extrapolação pede uma duplicação de conceitos: os termos freudianos, que não diferenciam adequadamente entre as vicissitudes biológicas esócio-históricas dos instintos devem ser emparelhados com termos correspondentes denotando o componente sócio-histórico específico. Presentemente, apresentaremos dois de tais termos:
(a) Mais-repressão: as restrições necessitadas pela dominação social. Esta é distinta da repressão (básica): as “modificações” dos instintos para a perpetuação da raça humana em civilização.
(b) Princípio de desempenho: a forma histórica prevalecente do princípio de realidade.” (Marcuse, 1955. p. 35.)
[3] Cito Lauren Langman, que exemplica a teoria da reificação de Georg Lukács: “Notamos que pelo fim do século XIX, o processo de mercantilização expandiu-se para produzir muitos senão a maioria dos objetos empregados na vida cotidiana. Uma das mais evidentes maneiras que encontramos na vida cotidiana é o uso e/ou consumo de seus objetos. Considere apenas o dia de trabalho que começa com o despertador, cama, lençóis, banheiro, papel higiênico, sabão, pasta de dente, creme de barbear, entretenimento matinal (notícias), roupa de baixo, roupa de sair, cereal, carro . . . (Observe quantos destes associamos a nomes de marcas). O dia de folga é para comprar mercadorias e consume pessoal.” (Langman, 1991, pp. 165-240. pp. 177-178.
[4] Marcuse escreve: “se a aliança entre tempo e a ordem estabelecida for dissolvida, a infelicidade “natural” privada não apoiaria mais a infelicidade societária organizada.” (Marcuse, 1955, p. 234.)
[5]Como teóricos críticos, Noam Chomsky, SlavojZizek, e outros.