A narração como instrumento educativo: uma contribuição de Walter Benjamin

 

Ariovaldo Francisco da Silva[1]
 
 
Resumo
Este artigo objetiva discutir a respeito do resgate da figura do narrador, como um mediador no processo educativo a partir das observações de Walter Benjamin sobre a obra de Nikolai Leskov. O texto O Narrador (1983) de Walter Benjamin analisa o papel da educação como constituidora de uma identidade através da troca de experiências, um dos conceitos centrais do pensamento deste autor. Far-se-á nesse trabalho um paralelo entre a experiência e aquilo que se pode denominar de uma essência imanente na figura do narrador, apontando por isso, o caráter sociocultural do ato narrativo. A partir desta relação, analisar-se-á a força da narração em relação à mera transmissão de informação. Constata-se nessa investigação, a existência de uma teoria pedagógica, como aquela que se constrói mediante a emancipação e a autonomia humana, ressaltando-se o papel e a contribuição da teoria crítica para um fazer pedagógico mais autônomo e reflexivo.
Palavras-chave: Educação. Experiência. Identidade. Narração.
 
 
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho intenciona através do Ensaio O Narrador (1983) e, da obra Rua de Mão Única (2009) de Walter Benjamin, traçar uma reflexão sobre a educação tendo como proposta de instrumento educativo a narração. Com a utilização deste instrumento, visualizar a possibilidade da constituição de um espaço de conhecimento, que amparado pela experiência, tende a torna-lo significativo.
Ao falar de educação, há sempre a preocupação de apontar uma metodologia capaz de propiciar um determinado conhecimento. Assim considera-se que a educação tem um papel de organização do pensar, através de instrumentos que auxiliam nesse processo de obtenção do conhecimento. É justamente neste momento do conhecimento que as dificuldades são emergentes, pois o sujeito tende a fixar suas atenções para a polaridade que desde a idade moderna, permeia o ato de conhecer, ou seja, a dicotomia entre racionalismo e empirismo.
Apesar dessa dicotomia, ter sido reavaliada em Kant[2], há resquícios que ainda acompanham esse processo de esclarecimento. Em Benjamin (2011) há uma proposta diferenciada de ver no conhecimento a condição de uma autonomia do sujeito, ao propor a desmistificação da relação sujeito-objeto:
 
Benjamin não defende nem um conhecimento racional, nem um conhecimento empírico; a relação sujeito-objeto é para Benjamin uma relação mitológica; não defende como Kant que a experiência pode ser reduzida à experiência científica, pois acredita que há conhecimento em que a experiência não se reduz à consciência e nem está à experiência. Benjamin procura fundamentalmente diminuir a distância entre conhecimento científico e conhecimento filosófico, [...] (SILVA 2013 apud BENJAMIN, 2011.).
 
Portanto, esse distanciamento entre essas polaridades, conduz ao entendimento de que não há momentos para que haja conhecimento. O ir ao mercado e deparar com situações novas, considera-se como um ato de conhecer, pois são situações que podem ser constatadas no instante em que se estabelecem um ato narrativo.
O ato narrativo é a oportunidade que o sujeito utiliza para expor as experiências de uma trajetória que é significante, uma vez que a mesma é carregada de uma vivência oriunda das buscas empenhadas pelo sujeito, as quais são legitimadas pela coletividade. Estas buscas surgem através de um cotidiano, que é organizado através da existência das narrativas, “O grande narrador se enraizará sempre no povo, antes de mais nada nas suas camadas artesanais.” (BENJAMIN, 1983, p.69).
 
2 COTIDIANO E EXPERIÊNCIA
O cotidiano, visto como um espaço[3] traz consigo a possibilidade de uma invenção, ou seja, em seus procedimentos demonstra a não necessidade de regularidades para estabelecer uma identidade e, nesta ausência de regularidades tem a possibilidade de ser acrescido de experiências que possibilitarão o início de novas leituras da própria realidade.
É no cotidiano que as práticas se fazem como instrumento de emancipação, pois nesse espaço há o momento, em que os sujeitos se interagem para a leitura de mundo que se apresenta e, posteriormente tornar esse ato um referencial de conhecimento.
Esse referencial de conhecimento, segundo Benjamin (2009) revela uma determinada ideologia que subjaz nas ações do cotidiano.
 
IX.Os homens que estão encurralados no recinto deste país perderam o olhar para o contorno da pessoa humana. Todo aquele que é livre aparece-lhes como um extravagante. Imaginem-se as cadeias de montanhas dos Altos Alpes, contudo não destacadas contra o céu, mas contra as dobras de uma tela escura. Só indistintamente se desenhariam as poderosas formas. Exatamente assim uma pesada cortina cobre o céu da Alemanha e não vemos mais o perfil nem mesmo dos maiores homens. (BENJAMIN, 2009, p.24).
 
Assim, o conhecimento tem como possibilidades o esclarecimento de situações que a priori apresentam-se de forma mesclada e, que através de uma certa situação de experiência tende a se estabelecer de forma elucidativa.
Portanto, no aprendizado e na troca entre as pessoas pode acontecer algum tipo de experiência significativa, que segundo Benjamin (1987), está fadada ao seu aniquilamento pelo embrutecimento das relações, advindas de um sistema que legitima o desenvolvimento da técnica sobrepondo ao ser humano, prevalecendo assim os interesses dos dominadores.
Neste caráter de dominação todas as ações tendem para um empobrecimento de um relato, pois há a ausência da experiência (Erfabrung)[4] que desamparada da memória, dificulta uma narração.
 
VII. A liberdade do diálogo está-se perdendo. Se antes, entre seres humanos em diálogo, a consideração pelo parceiro era natural, ela é agora substituída pela pergunta sobre o preço de seus sapatos ou de seu guarda-chuva. Fatalmente impõe-se, em toda a conversação em sociedades, o tema das condições de vida, do dinheiro. No caso, trata-se não tanto das preocupações e dos sofrimentos dos indivíduos, nos quais talvez pudessem ajudar um e outro, quanto da consideração do todo. É como se se estivesse aprisionado em um teatro e se fosse obrigado a seguir a peça que está no palco, queira-se ou não, obrigado a fazer dela sempre de novo, queira-se ou não, objeto do pensamento e da fala. (BENJAMIN, 2009, p.22).
 
Atualmente este é o cenário no qual algumas das relações entre as pessoas, estão associadas à uma prisão em que o momento de expor sentimentos ou ideias, não é criado. Com essa ausência espacial, dá-se também a perda de uma experiência, que possibilitaria a oportunidade do estabelecimento de uma narração.
3 EXPERIÊNCIA E NARRAÇÃO
A partir deste momento, cabe neste trabalho fazer uma relação entre Experiência e Narração, partindo das propostas efetuadas por Benjamin em torno do resgate da expeiência.
Até este momento, tem-se procurado estabelecer o espaço em que se dá a experiência; portanto com o referencial em Certeau (1998), que através da definição do cotidiano como invenção, auxiliará no entendimento das relações que se fazem neste espaço.
Assim, ao ter o cotidiano como referencial para o estabelecimento de uma experiência, é importante que haja uma análise do impacto que se dá quando não há a possibilidade de se criar a experiência neste espaço, ou seja, no cotidiano.
A ausência de uma experiência, como se apresenta em Benjamin (1987), empobrece qualquer relação que venha a ser estabelecida.
 
Barbárie? Sim. Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem pra direita e nem para a esquerda. Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir de uma tabula rasa. (BENJAMIN,1987, p.114).
 
É justamente nesta ausência de experiência, que o narrador some do cenário dando lugar à simples informação. Ao ser apontada a informação como simples, tem-se a intenção de chamar atenção para o que corrobora toda informação, o distanciar dos próprios fatos. Este distanciamento se faz a partir do momento em que, não se faz uma reflexão mais detalhada da própria informação, pois o que é relevante é o impacto imediato.
 
O mérito da informação reduz-se ao instante em que era nova. Vive apenas nesse instante, precisa entregar-se inteiramente a ele, e, sem perda de tempo, comprometer-se com ele. Com a narrativa é diferente: ela não se exaure. Conserva coesa a sua força e é capaz de desdobramento mesmo depois de passado muito tempo. (BENJAMIN, 1983, p.61).
           
Ao deixar de efetuar essa análise mais apurada das informações, estabelece-se a efemeridade da própria realidade como se apresenta em Bauman (2001), ao propor-nos uma reflexão sobre a modernidade liquida, em que todas as situações são efêmeras e devem portanto serem trocadas.
 
O que está errado com a sociedade em que vivemos, disse Cornelius Castoriadis, é que ela deixou de se questionar. É um tipo de sociedade que não mais reconhece qualquer alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dirá provar) a validade de suas suposições tácitas e declaradas. (BAUMAN, 2001, p.30).
           
É justamente por não ter clara sua efetiva participação na constituição da realidade, que surge o impasse em torno da própria experiência adquirida, se assim pode ser chamada de experiência, algo que não condiz com o modo de ser de um determinado grupo social. E quando algo não é significado, torna-se esquecido com a rapidez de um fogo oriundo da palha de milho.
Assim, o ato de se estabelecer uma narração a partir da experiência, não aquela de simples verificação, mas a da ressignificação dos atos, o compartilhar do conhecimento, torna-se algo prazeroso e que tem uma ressonância na própria realidade.
 
4 NARRAÇÃO E EDUCAÇÃO
Segundo Benjamin (1983), um dos fatores que possibilitam a perpetuação da narrativa, é a existência da experiência, que se torna legitima através da própria oralidade, que se faz de boca em boca.
Nesta transmissão de experiência, através da presença do narrador, legitima-se o caráter sociocultural de uma relação que se estabeleça entre os envolvidos nessa trama, pois há nesta narrativa a identificação participativa.
Na busca de tornar prática as ações o narrador, tem como propósito partir do que há de significação em sua trajetória de vida.
 
Tudo aponta para a relação que isso mantém com qualquer narrativa verdadeira. Clara ou oculta, ela carrega consigo sua utilidade. Esta pode consistir ora numa lição de moral, ora numa indicação prática, ora num ditado ou norma de vida – em qualquer caso o narrador é um homem que dá conselhos ao ouvinte. Mas se hoje “dar conselhos” começa a soar nos ouvidos como algo fora de moda, a culpa é da circunstância de estar diminuindo a imediatez da experiência. (BENJAMIN, 1983, p.59).
               
Diante dessa constatação, torna-se claro o papel da narração como um instrumento que tem condições de auxiliar na constituição educacional do sujeito, que chamado ao ouvir, adquiri elementos que formam suas concepções para o entendimento de mundo, que só é possível mediante a aquisição e reelaboração do conhecimento.
Está neste aspecto do entendimento do mundo, o princípio para uma emancipação e autonomia, que resulta da contribuição da teoria crítica, tornando o fazer pedagógico mais autônomo e reflexivo, pois segundo Benjamin (1983, p.62), a narrativa conserva sua força independente do tempo.
Com essa possibilidade de estar sempre atual, vê-se que a relação se estabelece com o ato de educar tendo como instrumento a narrativa, trazendo portanto condições de um fazer pedagógico fundamentado na escuta através de relatos que retratam a própria escalada humana em buscar novos pontos de vistas.
 
A tendência dos narradores é começarem sua história com uma apresentação das circunstâncias em que eles mesmos tomaram conhecimento daquilo que segue, quando não as dão pura e simplesmente como experiência pessoal. (BENJAMIN, 1983, p.63.).
           
Ao realizar a narração da própria experiência, possibilita-se que haja um ato de educar, que não está na simples transmissão de conteúdo, mas sim num desenrolar de vidas, que se tornam pertinentes nestes momentos de interação.
O papel desempenhado pelo narrador, para uma constituição da Educação percebe-se em Benjamin (1983), como fator de contestação de uma sociedade em que pautada em uma informação instantânea, suplanta a capacidade reflexiva possibilitada pela narrativa.
 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após essas trajetórias a partir do referencial teórico em Walter Benjamin percebe sua presença nas relações que se estabelecem. De forma especial ela se faz no que tange ao campo educacional.
Pode-se assim diagnosticar que uma ação educativa sem uma contextualização, que associa-se ao conceito de experiência, tende simplesmente propor um acúmulo de conhecimento, que em sua base não terá condições de ser um instrumento que auxilie para uma autonomia e uma reflexão uma vez que torna os sujeitos passivos mediante aos fenômenos que se apresentam na realidade.
Portanto, é notório que cada vez mais, urga a necessidade de reavaliar todo processo humano em que, as significações das ações estão distantes do próprio agente, pois esta situação possibilita o não comprometimento para com a constituição da própria realidade, uma vez que o mesmo não é chamado à participação.
Assim o papel proposto pela narração consiste no resgate da experiência, que através do próprio sujeito (narrador), cria novos espaços para o debate da própria existência, preocupação central de uma educação que busca amparada na teoria crítica, uma proposta de emancipação. E está emancipação somente se consolida no momento em que, os sujeitos envolvidos se libertem do peso de um passado que a todo instante se apresenta através de gemidos oriundos de Awschivtz.
 
 
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Liquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BENJAMIN, Walter. O Narrador. In. Os Pensadores. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
______. Experiência e Pobreza. In. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
______. Rua de Mão Única: Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 2009. (Vol. II)
______. Prefácio Epistemológico-crítico. In. Origem do drama trágico alemão. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
CERTEAU, Michel. Introdução Geral. In: A Invenção do Cotidiano I: as artes do fazer. Petrópolis/RJ: Vozes, 1998.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Martin Claret, 2002. (Texto Integral, Série Ouro). 
SILVA, Luzia B. de O. Apontamentos de aula. Piracicaba: UNIMEP, 2013.


[1] Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba - PPGE/UNIMEP
[2] Crítica da Razão Pura – 1-Diferença entre Conhecimento Puro e Conhecimento Empírico.
[3] Lugar praticado – Michel de Certeau.
[4] A experiência realizada de forma coletiva.