A presença das tecnologias de comunicação e informação no ensino público fundamental brasileiro e a sensibilidade estética

 

Nilce Maria Altenfelder Silva de Arruda Campos
Universidade Metodista de Piracicaba
 
Resumo
Nas escolas públicas brasileiras de ensino fundamental o cenário não poderia deixar de refletir as mudanças impostas pelas transformações tecnológicas. Desistimos de realizar pesquisas nos livros das bibliotecas e substituímos pelas consultas nos sites de buscas que processam e disponibilizam informações sobre múltiplos assuntos. Os trabalhos são subsidiados pelas informações na rede e trazem benefícios e riscos, mudando as tradicionais formas de compreender a realidade. Utilizamos sistemas eletrônicos e apresentações coloridas para tornar as aulas atrativas e deixar a tradicional lousa para utilizar precariamente vídeos ou o Power Point. Assim, as escolas realizam o oposto daquilo que, originalmente, se propuseram a fazer e banalizam a formação estética do indivíduo, ao invés de formar cidadãos capazes de apreender essa realidade, pensá-la e modificá-la. O presente artigo visa discutir, sob as reflexões de Theodor Adorno, a realidade brasileira quanto à qualidade da escola de ensino fundamental I e II, que sofre transformações no processo ensino aprendizagem na era das TICs analisando as consequências desse cenário na formação dos indivíduos.
Palavras chaves: formação cultural, estética , educação.
 
 
A produção bibliográfica dos últimos anos sobre os problemas da educação em vários países do mundo e, especialmente, no Brasil é extensa e denuncia de maneira contundente a baixa qualidade do ensino que vem sendo oferecido pelos sistemas escolares. Com efeito, a educação é um dos grandes desafios do século XXI em uma sociedade industrial que se torna sociedade da informação e do conhecimento. Nessa sociedade o ensino se tornou pragmático, utilitarista e passou a refletir a racionalidade instrumental solidificada por uma grande indústria da cultura e por uma educação que prioriza a informação como foco do processo formativo.
 A temática da modernização da educação brasileira tornou-se, na década de 90, um dos eixos prediletos das políticas do Banco Mundial, na sua estratégia de adequar os processos educativos a uma perspectiva neoliberal e eminentemente tecnológica. Pode-se dizer que a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais[1], em 1997, sacramentou a inserção das novas TICs no campo da Educação. A partir desses parâmetros tornou-se oficial, no país[2], a retomada dos princípios da escola nova, acrescendo-se a eles a racionalidade tecnológica, característica da tendência tecnicista.
É interessante notar que a opção brasileira pelo construtivismo, teoria pautada nas concepções de Jean Piaget, num momento de internacionalização do capital e de administração da sociedade, como o que acompanhou as últimas reformas na educação, significou a falsa ideia de um ensino de melhor qualidade. O paradoxo, trazido por essa ideia de melhoria, pôde ser constatado já na opção pedagógica das diretrizes, exatamente, devido à adoção do construtivismo. Essa tendência, para ser utilizada com sucesso, exigiria atuação individual, professor/ aluno, e foi imposta para classes com cerca de 30 a 40 crianças, impedindo a relação individualizada, fundamentalmente, necessária à prática nessa linha.
 Observa-se que essa mesma diretriz construtivista, acompanhou o movimento de globalização do mercado e tomou conta de todo o sistema educacional brasileiro, inserindo-se tanto no espaço público quanto no privado, delineando novo cenário para os problemas da Educação.O famoso “aprender a aprender”, postulado no Brasil pelo escolanovismo nos anos 30 como característica do ideário liberal clássico, foi resgatado sob novas perspectivas, uma vez que o interesse se centrou no acúmulo do maior número de informações no menor espaço de tempo possível, mediante o consumo de produtos que parecem favorecer as respostas para todas as dúvidas.
Transformar a escola passou a supor, portanto, um desafio gerencial de promover mudanças eficientes, como a flexibilização da oferta educacional (pela promoção automática), mudanças no perfil de professores (que deixaram de ter a responsabilidade de ensinar e passaram a meros organizadores do ambiente, para que a aprendizagem do educando ocorresse) e a implementação de reformas curriculares, com a padronização e a uniformização do ensino, através do “aprender a aprender”, instituído nos PCNs a partir da LDB.
Podemos dizer que hoje no Brasil deparamo-nos com uma realidade na qual as diretrizes políticas, ao atingirem o cotidiano escolar, (des)organizam-no, sob a lógica da dissimulação, segundo a qual reprovações se transformam em falsas aprovações, pedagogia construtivista em receitas metodológicas e   educação em deseducação. Observamos como, na era digital, a massificação do ensino, ao se generalizar para todos os estratos sociais, parece haver surrupiado o esforço criativo nas escolas, aniquilando, pouco a pouco, as chances de a educação possibilitar uma formação voltada ao desenvolvimento do indivíduo, decompondo ou comprometendo a fruição de subjetividades criativas e críticas, minimamente desejáveis numa sociedade realmente democrática.
Desse modo, conforme Pucci podemos dizer que os problemas existentes atualmente na Educação brasileira refletem as transformações que a cultura vem sofrendo com a expansão do capitalismo mercantil, com a globalização dos mercados, com a especulação financeira internacional e, mais recentemente, com a inserção em massa das novas tics na educação.
Atualmente no Brasil grande parte das pesquisas na educação constata que na escola publica de ensino fundamental a formação educacional apenas repõe o existente e o professor perde cada vez mais a sua autonomia e passa a estar apenas um passo à frente de seus alunos em termos de conhecimento. Por ser um mero facilitador o professor está desobrigado de conhecer com profundidade o assunto trabalhado e como consequência a exigência de formação dá lugar à mera circulação de informações superficiais sobre o assunto a ser ensinado.
Em decorrência dessas práticas pedagógicas os alunos acabam por se desinteressar de tudo aquilo que não se relaciona ou que é perpassado pela indústria do entretenimento envolvidos como estão com as novas TICs, o que reflete o fato de que a realidade extra pedagógica pode educar mais do que se supõe. Desse modo, as escolas acabam por realizar o oposto daquilo que originalmente se propuseram a fazer e passam a formar indivíduos acríticos e conformados com a realidade, ao invés de formar cidadãos capazes de pensá-la e modificá-la.
Segundo Zuim , cada vez mais em nossa sociedade ocorre a debilitação da cultura letrada, bem como a intensificação do vício pelo consumo de estímulos áudio visuais nas telas dos mais variados aparelhos. A grande indústria da cultura contemporânea que requer como condição de sua produção e reprodução o enfraquecimento da capacidade de produzir conceitos e representações duradouras sobrevive exclusivamente a partir da danificação da cultura letrada, fenômeno esse acirrado pelo desenvolvimento das novas técnicas de comunicação e informação.
Na atual sociedade de produção e reprodução espetacular de informações a capacidade de se concentrar se fragmenta e pulveriza em níveis portentosos e que estão relacionados ao consumo de imagens das telas de televisores e computadores digitais. Nesse contexto de audiovisibilidade total a intervenção do professor se torna cada vez mais determinante para o processo de desenvolvimento educacional-formativo, no entanto essa mesma intervenção foi fragilizada pelas próprias políticas educacionais e o professor passou a ser apenas mais uma imagem que disputa a atenção do aluno.
Parece que a escola brasileira tem perdido sua função educativa e deixado de ser a instituição que possibilita ao indivíduo a formação necessária ao desenvolvimento de uma consciência autônoma. Tornando-se cada vez mais dispensável à vida em sociedade a escola vai, gradualmente, sendo substituídas pelas novas linguagens tecnológicas que, como já dissemos, mais e mais delegam à máquina e à mídia as funções que antes eram exclusivas do professor. Desse modo o ensino atual parece banalizar a formação estética do indivíduo, ao invés de formar cidadãos capazes de apreender essa realidade, pensá-la e modificá-la.
 A revolução causada pelas novas tecnologias se por um lado possibilitou uma suposta diminuição de distância entre os seres humanos redimensionando os sistemas de comunicação de leitura e escrita, por outro, parece também haver causado uma diminuição da distancia entre os alunos e a realidade que os cerca.
E é exatamente o distanciar-se conscientemente que atualmente é suprimido pela grande indústria cultura na era das tics. O fato de termos consciência disto não nos protege, seus efeitos são constatados na deformação dos sentidos que cria a disposição estética – apreciativa e tendente ao universal – gerando a possibilidade de uma destruição dos processos de formação da vontade e da tomada de decisão.
Sob o efeito das novas políticas educacionais que impõem a prioridade da informação como meio pedagógico o aluno é “anestesiado”, de modo que não há mais lugar para a avaliação, para a emissão de juízos, ou melhor, estes juízos são substituídos por um entorpecimento. A percepção automatizada pela tecnologia tente a fazer com que a dialética entre o particular e o universal, indispensável na apreciação estética, fique comprometida.
O problema é que a semiformação, desencadeada por esse processo reflete um estado de coisas em que a dimensão emancipatória da racionalidade é tolhida, imperando sua dimensão instrumental. As pessoas têm a impressão de que já possuem os conhecimentos necessários quando, superficialmente, se informam sobre os mais variados assuntos. Ocorre a primazia do pensamento vazio sobre o pensamento crítico e a experiência com o objeto é dilacerada.
Desse modo podemos concluir que o cenário educacional brasileiro tende a se apresentar como um espetáculo trágico que pede apreciação, que clama sentimento, julgamento estético e postura política. A sensibilidade para apreciar os espetáculos que nos são apresentados é inerente à possibilidade do exercício de uma crítica negativa da realidade a ser apreciada. Porém, sob o domínio das políticas educacionais vigente no país parece que nossos jovens não mais conseguem se tornar espectadores, não conseguem se distanciar o suficiente para a apreciação estética necessária e, sendo assim, infelizmente sucumbem aos diferentes traçados que a realidade lhes desenha.
 
 
 
 
BIBLIOGRAFIA
CROCHIK, J.L. O computador no Ensino e a Limitação da Consciência. Psicologia e Educação. (Org. Lino de Macedo), São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.
GENTILLI, P. Adeus à Escola Pública In: GENTILLI, P. (org.). Pedagogia da exclusão: crítica   ao   neoliberalismo. Rio de Janeiro: Vozes, 1996, pp.228-270.
PUCCI, B. (Org.) Teoria crítica e Educação: a questão da formação cultural na Escola de Frankfurt. Petrópolis, RJ: Vozes; São Carlos, S.P: EDUFISCAR, 1994. (Ciências sociais da Educação).
SADER, E. e GENTILLI, P.(Orgs). Pós-neoliberalismo - As políticas sociais e o Estado Democrático. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985.
ZUIN, A. S. Violência e Tabu entre Professores e Alunos: a internet e a reconfiguração do elo pedagógico. São Paulo, Cortez Editora, 2012.
 


[1]Os parâmetros curriculares nacionais sãoreferencias de ações para o Ensino Fundamental do país. Sua função segundo os documentos oficiais é a de: ‘orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional “(1997,13)”.
[2]   Antes de 1997, apenas alguns estados do país assumiam o construtivismo como tendência pedagógica, entre eles estão São Paulo e Rio Grande do Sul.