O “dar a ver” estético no Mutiverso poético da obra de João Cabral de Melo Neto

 

Fernanda Rodrigues Galve[1]
 
 
Resumo:
Arte e vida são simbióticas, porém a vida histórica, no século XX, mostrou-se um acúmulo de tragédias. Tragédias que, de certa forma, afetaram o poeta João Cabral, como a fome e os retirantes do nordeste brasileiro e o franquismo na Espanha. Momentos históricos de reflexão para o exercício de sua escrita poética. Conhecer o funcionamento do fazer poético, suas estruturações possíveis, sua ação, é enriquecedora, pois é da escrita que surgem as coisas e os próprios homens. Nas relações polifônicas dos poemas com os tempos da sociedade, o que importa é revelar a resposta, muitas vezes, tensa que a poesia dá às provocações referentes à vida. Pensar dialeticamente o conceito de historicidade na obra poética é ler a obra do poeta à luz da história da consciência humana, que não é nem estática nem homogênea, pois é composta pela construção da memória e as contestações do pensamento e da análise do social.
Palavra- chave: poesia, práxis, representação.
 
 
Nadar contra o tempo. O homem descortina o espaço que o envolve, transformando-o. Mergulha em um oceano polifônico. As poesias de João Cabral trazem à superfície a reflexão sobre a realidade social, política e cultural vivenciada pelo sujeito, poeta e diplomata, em um oceano de discursos.
 A poesia de seu tempo é “multifuncional” para o poeta. Além de uma nova proposta de criação poética, João Cabral inquieta-se com uma poesia e com palavras arquitetadas preocupado em não escrever por pura inspiração. Assim, sua escrita muitas vezes dialoga com a história e a sociedade, e não constitui um imparcial espaço das palavras. Como disse o próprio em uma entrevista para o Jornal do Brasil, em 16 de agosto de 1968:
 
Inspiração não tenho nunca. Aliás, como diz Auden, a poesia procura a gente até os 25 anos. Depois, é a gente que tem de procurá-la, inspirá-la. Confesso que desde o início construí minha poesia. Rendimento é uma questão de trabalho e método. De sentar todos os dias à mesma hora. O rendimento dos primeiros dias pode ser menor, mas depois se torna regular.( ATHAYDE,1998:48)
 
O que há em sua obra, constantemente, são rotinas, trabalho de pesquisa, bem como o recurso à bagagem cultural e à experiência vivenciada do poeta. Ao ler sua poesia, o autor parece presente por inteiro e com grande aptidão técnica. Sua obra poética se destaca pelo seu caráter de percepção imediata e universal, em que o concreto da palavra é utilizado pelo poeta na construção da escrita em busca do visual da linguagem.
Em relação à arte de seu tempo, quanto à valorização do visual sobre o conceitual no momento da organização do texto, João Cabral, afirma que é preciso compreender a realidade exterior. O oceano poético de João Cabral “é, pois, construído no intuito de dar a ver uma realidade que nela mesma está contida” (HERRERA,1995: 157) remete-se às palavras de Tzvetan Todorov:
 
Não se deve ceder à ilusão representativa que, durante muito tempo, contribuiu para ocultar esta metamorfose: não há, em primeiro lugar, uma determinada realidade, e depois a sua representação pelo texto. O dado é texto literário. (TODOROV, 1986, p.42.)
             
Ao mergulhar nos depoimentos de João Cabral, desde o início da publicação de sua obra até os seus ensaios críticos, percebe-se que a compreensão de objetividade em arte do autor ultrapassa a visão apenas racionalista. É pelo tom de suas qualidades intelectuais ou plásticas, que a poesia tenta reproduzir o estado de espírito em que foi criada. Em muitos momentos, mais do que pelas palavras, é pela leitura e vivências que o autor penetra em sua história. É uma poesia em que se lê a vida contemplada pelas palavras e imagens da realidade. Tranquilamente, para o captar das palavras, sua essência e secura. É uma poesia para ser lida mais do que para ser relida. (MELO NETO, 1999: 65)
Nesse sentido, João Cabral considera que, por não se constituir como uma atividade limitada, a tendência de se trabalhar o projeto artístico é transformada em exercício estético desde a trajetória da criação. Essa seria a forma de efetivação artística: o poeta torna-se leitor de si mesmo, crítico de seu fazer poético. Por isso,
 
Não é o olho crítico posterior à obra. O poema é escrito pelo olho crítico, por um crítico que elabora as experiências que antes vivera como poeta. [...] Não é de estranhar que muitas vezes esqueçam essa experiência, como tal, e que ela, ao ressuscitar, venha vestida de outra expressão, diversa completamente. (MELO NETO, 1999: 70)
 
Acredita-se que a arte cuja pretensão é se engajar nas atividades ligadas à comunicação da crítica social, além de favorecerem um processo de inter-relação com outras linguagens artísticas de forma polifônica, faz um enriquecimento complexo da existência humana. O poeta transmite o mundo em sua criação artística ou, como diz Lukács: “mas não há composição sem concepção do mundo”, (LUKÁCS, 1965: 79) ou seja, as experiências de vida do poeta, como ser social, serão suas concepções de mundo e assim ele a representará em sua obra:
 
O escritor precisa ter uma concepção do mundo inteiriça e amadurecida, precisa ver o mundo na sua contraditoriedade móvel, para selecionar como protagonista um ser humano em cujo destino se cruzem os contrários. [...] Na verdade, quanto mais uma concepção do mundo é profunda, diferenciada, nutrida de experiências concretas, tanto mais plurifacetada pode se tornar a sua expressão compositiva. (LUKÁCS,1965: 78)
             
É no caminho artístico e de percepção do mundo que é aceitável entender a proposta da poesia de João Cabral, já que o poeta “pinta” uma realidade de um modo sensível e real, privilegiando a expressividade em seu texto:
 
[...] A leitura é, para mim, a coisa mais importante. Quando me perguntam o que aconselharia a um jovem para ler, eu digo que, para ler, é preciso ter prazer. Quem tem esse prazer vai descobrindo o que quer ler. As escolas deviam ensinar aos jovens o prazer da leitura. Infelizmente, não é o estão fazendo. Noto que cada dia se lê menos. A TV está tirando das pessoas o hábito da leitura. Mas, me pergunto: como alguém pode ser um bom médico ou um bom físico sem ler? A leitura é cada dia mais necessária e cada dia se lê menos. (ATHAYDE, 1998:52)
         
A arte é formada por ilhas variadas que, juntas, formam o arquipélago atraente, histórico e estético. Uma das observações feitas pelo poeta que merece destaque tem a ver com a questão do tempo. O homem pode se defender do tempo com o uso da memória e da escrita como forma de buscar a eternidade, no sentido de não finitude, diante da destruição dos minutos passados. Para João Cabral, a memória é um dos recursos para a escrita e o começo para o oficio da representação.
A memória é o elo do tempo, é o que nos impede de vivermos em um mundo de breves e descontínuas impressões e a palavra funciona como um mundo de significações e de relações da memória com o habitar do tempo apresentado pelo poeta. O tempo resiste, reage e se reinventa. O poeta Drummond celebrou “o tempo é minha matéria” e seu amigo João Cabral festejou “o habitar o tempo”. O tempo histórico é sempre plural: “são várias as temporalidades em que vive a consciência do poeta e que atuam eficazmente na rede de conotação do seu discurso”. (BOSI, 2000:142)
A palavra poética tenta expressar a natureza do tempo que articula arranjos próprios para constituir um tempo denso, subjetivo e histórico. Então, o que é um tempo datado quando subtraído à memória (individual ou coletiva) e à consciência presente que o interroga e ilumina? (BOSI, 2000:10)
O tempo é formado pela conexão entre as diferentes dimensões sociais, políticas e intelectuais que procuram identificar a sociedade e suas experiências. A lembrança permite caracterizar procedimentos no tempo e distinguir práticas políticas e culturais. Um dos caminhos para a ligação entre tempo e memória é a possibilidade de penetrar no reino das palavras, uma vez que os acontecimentos que nos são dados nem sempre permitem interrogar a nossa experiência. E o texto escrito delimita experiências, fatos e condutas do homem em sociedade.
Sua palavra poética possui relações densas com os tempos sociais. Para o poeta, o tempo pode ser sentido em sua amplitude, ao utilizar-se da substância viva e física que possui a vida.
A vida constitui-se com o olhar ao tempo costumeiro no qual o cotidiano é permeado necessariamente pela ideia da repetição, de procedimentos padrões que compõem a tecedura social assegurando a sobrevivência, a segurança e o bem-estar. O tempo demonstra sua existência na simplicidade de seu passar, de seu percurso, de seu mergulho expressando-se em formas. Este tempo escuta, fala e se perde. O tempo é passado e igual e de tão familiar passa despercebido por nossa memória, mas é armazenado e ou depositado em nossa lembrança.
A poesia procura uma afinidade clara com o mundo da vida da experiência. As
palavras concretas e as imagens ditas por João Cabral tem por finalidade vincular o que é dito a um preciso campo de experiências que o texto vai normatizando de acordo com a dimensão que avança na vida. Como se, por meio da poesia, navegasse o poeta Cabral ao reconquistar a experiência da prática e da história. As imagens são modos que visam significar o processo dialético da existência que ancora no concreto do que é dito em palavras. Mas as palavras só têm sentido quando integradas aos significados do tempo e da história.
O tempo, mesmo simples, pode ser recapturado pela história. Tempo que passou, correu e se depositou, podendo ser comparado simbolicamente como as ondas do mar. A história e as suas formas lidam com variáveis formas de pensar o tempo e se refletem nas memórias (passado são as lembranças; o presente, as vivências e futuro, as projeções), que, enquanto temporalidades, expandem a construção do discurso que utiliza a história pela lapidação do espaço. Não é de admirar que o poeta João Cabral tenha escrito um poema intitulado, Habitar o tempo:
 
Para não matar seu tempo, imaginou;
Vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
No instante finíssimo em que ocorre,
Em ponta de agulha e porém acessível;
Viver seu tempo para ir viver
Num deserto literal ou de alpendres;
Em ermos, que não distraiam de viver
A agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
Habitá-lo, na agulha de cada instante,
Em cada agulha instante: e habitar nele
Tudo o que habitar cede ao habitante.
 
E de volta de ir habitar seu tempo:
Ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
E como além de vazio, transparente,
O instante a habitar passa invisível.
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
Matar o tempo, enchendo-o de coisas;
Em vez do deserto, ir viver nas ruas
Onde o enchem e o matam as pessoas;
Pois como o tempo ocorre transparente
E só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
                                  para habitá-lo: só no passado, morto.( MELO NETO, 1986).
 
                            
O tempo nos transmite os elementos de ação, organização, domínio, ritmo. Por mediação deste tempo finíssimo, transparente, é que o poeta percorre a história e a cultura. O tempo é preenchido com a matéria viva, o homem, que deve habitá-lo. Com o olhar voltado para o futuro, quando então o tempo é projetado, porém habitado e vivo na memória. 
O poema mostra que o tempo está vivo e habita a memória. Porém, as pessoas estão com os olhos voltados para o futuro e não percebem que o tempo é precioso e necessita da observação para a sua coerência.
Para o poeta João Cabral, em alguns aspectos, as imagens do vivido permitem uma contemplação estética (BRAIT, 2005: 103)e ética do tempo na luta contra o cotidiano, muitas vezes, vazio de algumas pessoas. Para criar, escrever e pintar, torna-se necessária uma imersão no tempo vivido. Na experiência vivida encontram-se embarcações de sentidos e de história.
O contato com a arte e com artistas variados conferiu à obra de João Cabral uma qualidade temporal que pode contribuir para acentuar o sentido de permanência e continuidade da experiência vivida universalmente por seus leitores.
O modo como o poeta vê o mundo histórico e cultural que o cerca rompe o espaço, o tempo, as múltiplas manifestações da linguagem na arte. Por meio de uma leitura ampla e integrada do mundo ao seu redor, impressa na poesia, torna concreta a dialética entre a cultura e a literatura, procedimento aludido por Bakhtin em sua obra Estética da criação verbal:
 
A ciência literária deve, acima de tudo, estreitar seu vínculo com a história da cultura. A literatura é uma parte inalienável da cultura, sendo impossível compreendê-la fora do contexto global da cultura numa dada época. Não se pode separar a literatura do resto da cultura e, passando por cima da cultura, relacioná-la diretamente com os fatores socioeconômicos, como é pratica recorrente. Esses fatores influenciam a cultura e somente através desta, e junto com ela, influenciam a literatura. (BAKHTIN, 2000: 362).
           
O poeta João Cabral exerceu, com extrema e convincente liberdade, o diálogo crítico ao arrastar para obra poética a sua experiência de leitura da realidade, seja nas artes visuais e na própria poesia. Como ele próprio define:
 
Literatura não é só o ato de captar na obra literária uma determinada coisa: há a contraparte, que é a capacidade de comunicar a coisa captada. [...] o critério para saber se a coisa foi bem expressa é justamente a possibilidade de que ela tenha sido comunicada a outras pessoas além do artista. (ATHAYDE, 1998: 56).
 
Ao perceber tal visibilidadena poesia de João Cabral e proferir essa convergência à preocupação em tornar mais próximos da apreensão dos seus significados, percebe-se, em sua obra, que a ideia de que o poeta pernambucano deva apresentar uma proposta artística que problematize o social, ao combater o sentimentalismo e ao determinar um novo tipo de objetivo para a construção de sua poesia seja o essencial na sua escrita. Uma objetividade balizada pelo realce na pesquisa estética, ético e político-social que fuja do tradicional “mar agitado” da história.
No mergulho-poético, os textos, em muitos momentos críticos de João Cabral, revelam a necessidade de repensar a função da poesia de seu tempo e introduzir em sua obra pelo menos uma das seguintes maneiras de pensar: “captar mais completamente os matizes sutis, cambiantes, inefáveis, de sua expressão pessoal” e “apreender melhor as ressonâncias das múltiplas e complexas aparências da vida moderna”.
Estas utilizações dos documentos poéticos, muitas vezes fontes primárias, transbordam não só os limites em termos de conteúdo, mas abarcam também a forma do texto, uma vez que o efeito causado acaba aproximando o texto literário do histórico.
As artes aqui tratadas provêm do espaço entre o artista e o mundo no qual se interpõe algo necessário entre ele e o ambiente habitado: a provocação. Um mergulho-poético composto por provocações onde a arte assimila e gera a vida, quase como um complemento dos sentidos para a construção de uma inadequação de um saber tradicional, muitas vezes, imposto na realidade. A literatura provê ou oferta para o espaço de interpretação do mundo.
Ao falar de espaço, diz-se muito sobre a experiência de tempo, numa crítica à um período característico, que é o momento do intervalo, da provocação, da observação ou do mergulho na vida. Na objetivação da tese, discuti-se o sentido crítico sobre o espaço e o tempo pensados pelo poeta pernambucano, além de iluminar e visualizar na obra poética, as influências sociais e históricas e suas principais bases teóricas como polifonia, mimese e termos afins.
Sob esses pontos de vista, é possível “dar a ver”queo fato não exprime apenas uma forma de organizar o texto com algumas indicações de objetividade que precedem a produção poética de João Cabral, mas também como utiliza as palavras concretas e imagens em sua escrita. Percebe-se que a valorização da imagem na obra do poeta pernambucano, em muitos momentos, é poética.
A poesia de João Cabral é observada por ele próprio como um texto que proporciona um tempo visual da realidade. Em virtude dessas afirmações, é necessário notar que o ato de solidificar o pensamento como imagem vai além da simples preocupação com o fazer artístico, pois visa a alcançar as sensações dadas pela experiência do social. João Cabral apresenta como a sua poesia se torna mais visual ao falar da influência de seu amigo Murilo Mendes em sua obra. João Cabral em entrevista a Arnaldo Estrela em 19 de janeiro de 1976 para o Jornal Zero Hora afirma:
 
Pois bem: creio que nenhum poeta brasileiro me ensinou como ele a importância do visual sobre o conceitual, do plástico sobre o musical (a poesia dele, que tanto parecia gostar de música, é muito mais de pintor ou cineasta do que de músico). Sua poesia me ensinou que a palavra concreta, porque sensorial, é sempre mais poética do que a palavra abstrata, e que assim a função do poeta é dar a ver (a cheirar, a tocar, a provar, de certa forma a ouvir: enfim, a sentir) o que ele quer dizer, isto é, dar a pensar.
           
A palavra concreta, para João Cabral, é sensorial e visual e mais poética do que a palavra abstrata, pois a “palavra concreta é a palavra percebida pelos sentidos e a palavra abstrata é a palavra que se atinge pela inteligência. Eu tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem que se dirige à inteligência, mas através dos sentidos. Uma palavra concreta é muito mais sensorial que uma palavra abstrata”.(ATHAYDE 1998:66).
A obra poética decorre do espaço entre o artista e o mundo, naufrágio ou navegação, desse estar no mundo. No espaço, o poeta insere algo necessário entre si e o mundo, e que possibilita uma construção na comunicação. O espaço da escrita é vital; é o espaço da inadequação, do desequilíbrio, da provocação, do “dar a ver” das possibilidades. Na obra poética, acontece a crítica, a poesia pensa esse espaço social vivo e pulsante e a examina.
Para João Cabral, o importante para a escrita do poema está na ética do que é apreendido da realidade. Não é uma criação de mentiras e, sim, palavras ditas sobre o que o autor acredita ser a realidade. Sem enfeites, a ética deverá ser a palavra poética. Em uma entrevista, o poeta Ferreira Gullar exemplifica esse caminho navegado por João Cabral em sua escrita,
 
[...] nesse sentido, tem uma profunda fidelidade e ética na linguagem de Cabral, uma ética frente a essa realidade, no sentido de não criar uma fraude, de não enfeitá-la demais, no sentido de não fingir que ela é o que, na realidade, não é. (VASCONCELOS, 2009:110).
 
A poesia de João Cabral vai além, estabelece-se como sua verdade algo que não está no sensível da palavra, mas no gesto e na ação. Sem perder de vista a ideia que a obra de arte exprime, cria versões possíveis do que “dar a ver” da realidade. Outra preocupação é que a poesia e a arte necessitam ter um compromisso social e político, mas que isso não pode suplantar a individualidade do artista. O poeta João Cabral, nesse contexto, refere-se, sobretudo, ao realismo socialista praticado pelos espanhóis nos anos 1940, começo dos 1950, segundo Joan Brossa.(Cadernos de Literatura Brasileira, 1998, p. 16.)
O poeta pernambucano discorda do realismo socialista espanhol, como uma forma de linguagem, pois dificulta o pensamento e a ação particular. Para ele, a individualidade do artista não deve ser proibida por qualquer ideologia, mesmo que a tenha. Seu pensamento é que a poesia precisa sugerir um trajeto de crítica social, mas sem nunca se deixar dominar a uma só teoria.      
Fica, portanto, a impressão de que João Cabral tenta apresentar o fazer poético e a crítica social e política por meio de uma escrita realizada além de uma finalidade ideológica. É frequente a percepção de que, nas suas obras, João Cabral reflete sobre algo, investiga, problematiza, critica, denuncia, torna visível o tempo ou uma experiência de tempo, numa crítica há um tempo peculiar. O poeta Ledo Ivo comenta:
 
o que mais me impressionou foi a limpidez das divisas estéticas de um iniciante que haveria de ser um dos grandes poetas de nossa língua, João Cabral de Melo Neto. Tudo nele ostenta a clareza e a exatidão de uma faca. Na sua lucidez contundente de uma faca só lâmina, havia o brilho da insânia mallarmaica. (VASCONCELOS, 2009:86).
 
O espaço da escrita cabralina é formado por nexos e modos de compreender a realidade de forma clara e concisa. Seu funcionamento está posto no olhar sobre o tempo e espaço onde o homem é presença significativa na construção das relações culturais.
A arte poética tem o compromisso com a abordagem estética em busca da re-significação do real. Esse ajuste possibilita ao historiador utilizar-se do uso da palavra poética para representar a realidade. Não é a rota da história chegando a João Cabral, mas o caminho contrário, que leva João Cabral à história por ele vivida. Este procedimento aproxima-se da imagem dialética, funda-se na apreensão constante do passado histórico e no presente em que a obra poética é lida. 
A poesia presentifica temporalidades e traz transformações e identidades experimentadas pelo autor. A história e a literatura são dois discursos de possibilidades do real. A história recupera e a arte a renova e inova a percepção da vida social. Para, Antonio Candido: “só a podemos entender [a integridade da obra] fundindo texto e contexto”. (CANDIDO, 2000: 5-6).
A literatura fornece nexo ou contribui para a re-significação do mundo. A poesia é feita da estrutura de sentidos (WILLIAMS, 1979: 128) para o pensamento social não transformar o real e sim para entender, interpretar o mundo. A arte é a ação realizada no processo de engendramentos da vida – maneiras de ver a integração entre a crítica e a consciência de ser pertencente e agente na história. O homem e o seu mundo na dinâmica de formação do ser social.
O poeta, muitas vezes, encontra-se à deriva da resistência encontrada em si mesmo. Ele pode tentar esquivar-se de si, porém a sua obra o revela como a sua própria vida que se re-significa ao ser representado em sua arte que abarca discursos múltiplos. Como indivíduo, o poeta se volta ao mundo das possibilidades. Sua história e a realidade observada na sociedade, para ele, devem parecer presentes na poesia. Neste ponto de partida, os poemas muitas vezes revelam-se autobiográficos. Como exemplo, um fragmento do poema O rio, de Apipucos à Madalena:
 
Agora vou entrando
no Recife pitoresco,
sentimental, histórico,
de Apipucos e do Monteiro:
do Poço da Panela,
da Casa Forte e do Caldeireiro,
onde há poças de tempo
estagnadas sob as mangueiras;
de Sant'Ana de Dentro,
das muitas olarias,
rasas, se agachando do vento.
E mais sentimental,
histórico e pitoresco
vai ficando o caminho
a caminho da Madalena.
Um velho cais roído
e uma fila de oitizeiros
há na curva mais lenta
do caminho pela Jaqueira,
onde (não mais está)
um menino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
como se filme de cinema;
via-me, rio, passar
com meu variado cortejo
de coisas vivas, mortas,
coisas de lixo e de despejo;
vi o mesmo boi morto
que Manuel viu numa cheia,
viu ilhas navegando,
arrancadas das ribanceiras. (MELO NETO, 2003:137).
 
Este trecho do poema apresenta o menino-poeta que experimenta, por meio dos sentidos, a realidade do rio Capibaribe. Rio de sua infância que atravessa muitos povoados de Pernambuco, mas sem variar muito a paisagem, mudam-se apenas as memórias do que já foi experimentado lá, pelo poeta. O poema poderia vir a ser um exercício objetivo do que é narrado, nele aparecem os elementos de crítica social e histórica através da peregrinação do rio pela história apresentada nas casas-grandes de uma antiga aristocracia às suas margens.   
As diferenças estarão na ênfase da percepção da experiência, por parte do escritor João Cabral, experiência creditada à teoria da práxis marxista, que dispõe o homem como ser ontocriativo, isto é, como sujeito que, ao relacionar-se com o mundo, forma suas ideias e ações. A outra diferença virá do encurtamento da distância tendo vivenciado de forma direta e intensa o ambiente de suas representações poéticas. Ao ler os poemas, nota-se que João Cabral procura reduzir estas contestações entre seus poemas e seus dados referenciais.
 
A realidade em seus poemas representa atitudes como se ele, poeta e diplomata, dialogassem com ele próprio, migrante. O poeta não fala em termos abstratos, mas com culturas diferentes, interage e vivencia suas verdades. Suas palavras são provenientes de experiências históricas que têm singularidades e participação ativa. Logo, como João Cabral é um ser que se cria, na interação dialética com o objeto que constrói: [...] a práxis na sua essência e universalidade é a revelação do segredo do homem como ser ontocriativo, como ser que cria a realidade (humana e não-humana, a realidade na sua totalidade). A práxis do homem não é a atividade prática oposta a teoria; é a determinação da existência humana como elaboração da realidade. A práxis é ativa, é atividade que se produz historicamente – quer dizer, que se renova continuamente e se constitui praticamente. Unidade do homem e do mundo, da matéria e do espírito, do sujeito e do produto e da produtividade. (KOSIK, 1969:199-202).
 
A práxis utiliza a mediação da capacidade criativa do ser humano na produção-ação da criação artística e favorece esta identificação de forma mais clara, na percepção da universalidade presente na linguagem, no grau de liberdade presente na ação. O texto poético é penetrado por marcas sociais e históricas. A ponto de beneficiar a associação de olhares e entender o mundo. Ao criar, o poeta expressa sua forma estética de olhar o mundo.
A dialética, na obra poética, representa o conhecimento da realidade mais a práxis humana que examina a realidade objetivamente. O sujeito histórico desempenha a sua ação prática no tratamento com a natureza e com os outros homens e cujas preocupações se revelam dentro de um conjunto de relações sociais. A criação humana, como realidade ontológica realizada pelo poeta, só existe na práxis, na sua origem e universalidade ontocriativa. O poeta, como ser que entende a realidade humana e social, compreende, portanto, o que é vivenciado. “A práxis do homem não é atividade prática contraposta à teórica é determinação de existência humana como elaboração da realidade – processo ontocriativo é que se manifesta a realidade e de certo modo se realiza o acesso à realidade”. (KOSIK, 2002: 222.) O homem que existe na totalidade do mundo.
Arquitetada com base nesta teoria, a arte é apanhada, como objetivação humana que se satisfaz com o entendimento de estética determinada da ontologia aqui analisada, por não abarcar imparcialidade diante dos fenômenos sociais. Ou seja, a subjetividade do poeta na experiência com a arte, manifesta-se exprimindo suas formas particulares de sentir o mundo. Esse exemplo debate a dialética, analisando uma das dificuldades essenciais da percepção estética marxista, apresentada com o conhecimento “de que ambos são igualmente momentos da realidade objetiva, produzidos pela realidade e não pela consciência humana”.(LUKÁCS, 2009:104).
 
Considera-se, que na essência da dialética está o fundamento de toda a realidade social e a prática criadora do homem em sua principal forma de exposição: o trabalho, esclarecendo que é aplicado pelo marxismo à força criativa e à atuação do ser no desenvolvimento da história: nenhum modo de produção e portanto nenhuma ordem social dominante e portanto nenhuma cultura dominante, nunca, na realidade, inclui ou esgota toda a prática humana, toda a energia humana e toda a intenção humana. (WILLIAMS, 1979: 128).
 
A escrita, modelada pela práxis social, desempenha uma função cumulativa, pois traz em sua forma, o saber composto pela vida em sua construção histórica. Ao que parece, a obra de João Cabral pode ser lida como um esforço para a desmistificação da situação dialógica do poeta na sociedade, tanto brasileira, quanto espanhola, o que é analisado com mais profundidade nos próximos capítulos dessa tese. Em uma entrevista ao poeta Paulo Moreira da Fonseca, o poeta João Cabral explica o valor dado à palavra poética:
 
A palavra não existe sem o que ela significa. Não existe no vácuo. E a realidade precisa da linguagem para o que existe nela. E como a poesia é a mais avançada das linguagens, sua importância está provada.
 
Diante disso, torna-se fundamental o mergulho diretamente no mundo do trabalho com as palavras poéticas. Nesse processo, a leitura histórica e poética tem possibilidades valiosas para a reciprocidade e de possibilidade com o real. O que se pode extrair desse mergulho é que a poesia de João Cabral canta pouco, é menos melódica e conta mais de forma rígida, ritmada e elaborada; narra e dramatiza no empenho didático de ''dar a ver'' o que é e o que há na possibilidade de análise social como ferramenta para uma aceitável vida.
Enfim, sua poesia, como nos lembra João Cabral, é aquela que vive em luta consigo mesma e com o mundo que a cerca. Morrendo e vivendo, apresentando ao seu leitor a experiência de um perpétuo recomeço, já que se refaz em cada imagem, reorganiza-se em cada verso, na continuidade de um trabalho árduo de análise, crítica e pesquisa com o uso de uma mesma linguagem restaurada.
 
 
 
Bibliografia:
ATHAYDE, Félix de. Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/FBN; Mogi das Cruzes, SP: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BRAIT, Beth. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 8ª.ed. São Paulo: T. A. Queiroz; Publifolha, 2000.
HERRERA, A. T. A ética da construção literária em O Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto. Quinto Império - Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa, Salvador, v. 5, 1995, p. 149-164.
KOSIK, Karel.Dialética do concreto. Ed. Paz e Terra. R.J, 2002.
LUKÁCS, Georg. Ensaios sobre literatura. Tradução Leandro Konder, Giseh Vianna Konder et alli. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. (Coleção Biblioteca do Leitor Moderno, v. 58).
LUKÁCS, György. Arte e sociedade: Escritos estéticos 1932-1967. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009.
MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2003.
TODOROV, Tzvetan. Poética. Lisboa, Teorema, 1986.
VASCONCELOS, Selma. João Cabral de Melo Neto - Retrato Falado do Poeta. Pernambuco: Editora do autor, 2009.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.


[1] Doutora pela PUC- SP em História Social. Email: fgalve@ig.com.br