Remember The Hollow Men? Crítica da violência e da alienação em L’ouvroir de Chris Marker

 

Elaine Zeranze Bruno
Univ. Federal do Rio de Janeiro
Tatiana Maria Gandelman de Freitas
Univ. Federal do Rio de Janeiro
 
 
Possuidor de uma vasta obra, Marker, além de cineasta foi romancista, dramaturgo, poeta, crítico de cinema, de poesia e de teatro, editor, artista plástico, programador de espaços virtuais que apresentam exposições e mais uma série de ofícios que parece inesgotável. O mais espantoso não é sua capacidade de estar sempre em movimento, mas como conseguiu manter um anonimato que se estendia até em meio a cinéfilos e críticos, visto que, além de obras de sua autoria, possui também coautorias com renomados artistas e cineastas como, por exemplo, Alain Resnais e Godard, integrantes da Nouvelle Vague.
Desde sempre o que percebemos nas obras de Marker é que ele nunca lutou contra o tempo, nunca sofreu a nostalgia do passado diante do presente perecível, das constantes mudanças onde um minuto incidido já se torna ultrapassado e remoto. Vemos em Marker o justo oposto, o herdeiro das vanguardas que manteve o espírito de estar sempre à frente de seu tempo. Podemos afirmar que o Bricoleur, como gostava de ser chamado, está um passo adiante daqueles que vivem a espera do novo. Marker inventa o novo, como se percebe desde suas colagens mais toscas em Lettre de Sibérie (1957) - considerado por André Bazin como um filme “sem precedentes na produção documental”,afirmando ainda que o autor “renova profundamente a relação habitual entre texto e imagem.” (BAZIN, 1998, pág. 257)- o que o fez um artista de vanguarda no sentido estrito do termo até a sua última criação.
Marker se vale dos aparatos tecnológicos para dar vazão a sua capacidade criativa. Entretanto, não de forma repressiva e manipuladora das massas, como foi pensado por Adorno e Horkheimer no ensaio “A Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas”. No caminho oposto da tecnocracia suas obras esbarraram num público diversificado, diferente do público seleto da grande arte, incluindo aqueles que sempre ficaram à margem da grande cultura. Todavia, não notamos em Marker o intuito de realizar uma revolução dentro da arte ou da própria técnica. O cineasta brinca com os novos aparatos, e apesar da força política latente em seu trabalho se percebe logo que não é proposta do artista se fazer de porta-voz de seu tempo. O modo pelo qual suas obras falam por si e despertam a curiosidade pela proposta do jogo excêntrico é como o de quem busca atingir a atenção de uma criança e desperta o interesse do mais desavisado e distraído espectador. Marker nos pega desarmados e nos instiga, nos intriga  e nos choca, sem obedecer necessariamente esta sequência. O artista que não se deixa fechar em definições e nomenclaturas se esconde e jamais nos elucida sobre seus trabalhos e sobre si próprio; muito ao contrário, por vezes aparece com declarações que o tornam ainda mais enigmático. Cabe aqui reproduzir uma dessas manifestações inusitadas que se encontra em L’Ouvroir. Nela, Marker comenta a respeito de sua mudança do cinema para as mídias digitais e o mundo virtual.
 
Hey kid (don't forget they are eternal), you did play long enough with the toys of the XXth century, now it's time to concentrate on the XXIst". Who am I to disagree with the Angels? So let it be a farewell. Yet don't be surprised if I come back next month with a blockbuster: the right to contradict oneself was coined by Baudelaire in his project for a Constitution.[1]
 
O deslocamento de Marker do cinema para o mundo tecnológico não significou uma cisão, um corte brusco, visto que, como foi dito anteriormente, o artista já demonstrava seu espírito livre de preconceitos com relação aos aparatos tecnológicos. Catherine Lupton[2] nota que Marker, diante da volubilidade do cinema motivado pelo avanço tecnológico, não engrossa o coro da condenação. Vale ressaltar que esta posição muito menos o coloca no papel de entusiasta das novas mídias. Tais manifestações artísticas, contextualizadas na sociedade do imediatismo, abalam a tradição da arte como belo. Seu justo lugar é o espaço dialético, como já afirmava Walter Benjamin a respeito do cinema. Aqui, nos interessa a digressão sobre o estudo do teórico alemão acerca da mudança de paradigma nas artes, na passagem do século XIX para o XX. No ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin afirma que “com a reprodução técnica, a obra de arte se emancipa, pela primeira vez na história, de sua existência parasitária, destacando-se do ritual” (1994, pág. 171, grifo do autor). Suas reflexões nos campos da arte e da literatura nos levam a pensar nas consequências de uma nova forma de estética que nasce. De Charles Baudelaire à fotografia, passando pelas vanguardas europeias, se chega à forma inteiramente nova de percepção que é o cinema. Para Benjamin, a desvinculação da obra de arte de sua função mágico-religiosa tem caráter afirmativo, deslocando-a do seu foco de ritual para a atividade política. A lógica da produção e da linha de montagem pode ser equiparada à da recepção do filme. Ambas requerem mudanças profundas na maneira de perceber o mundo que se mostra, cada vez mais, o mundo da reprodução técnica. Na cultura do automatismo e do imediatismo, o homem é constantemente solicitado, seja na fábrica, seja na massa anônima das ruas, seja no cinema. No entanto, se por um lado a conjugação entre arte e a política pode ser libertária, por outro, corre-se o risco de tornar suscetível ao modelo do golpe de Estado, na medida em que ambos não passam por qualquer amadurecimento das ideias. Na época de Benjamin, a ideologia totalitária encontrou, nessa fórmula, o terreno ideal para produzir empatia nas massas que emergem no mundo da técnica e do falso progresso. Entretanto, em pleno século XXI Marker consegue usar a técnica a serviço da desautomatização. Como nota Herbert Marcuse no ensaio “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna”,
 
A técnica por si só pode promover tanto o autoritarismo quanto a liberdade, tanto a escassez quanto a abundância, tanto o aumento quanto a abolição do trabalho árduo. O Nacional-Socialismo é um exemplo marcante dos modos pelos quais uma economia altamente racionalizada e mecanizada, com a máxima eficiência na produção, também pode operar o interesse da opressão totalitária e da escassez continuada (MARCUSE, 1999, pág. 74).
 
O êxito em Marker é justamente produzir efeitos de “estranhamento” ou de “desfamiliarização” – o que já havia sido problematizado pelo Formalismo Russo -  do mundo cotidiano nos espectadores. A especificidade de suas obras passava ao largo da linguagem cinematográfica comum e rompia o embotamento das percepções, exigindo mais esforço do espectador, e portanto, revigorando constantemente sua autorreflexão. Assim, não detectamos em Marker a técnica como algo por si só nocivo, mas o bom uso que se possa fazer dela.
Lupton menciona a questão do cinema em vias de extinção no século XXI, em seu texto Chris Marker: In Memory of New Technology. De fato, Marker cria no MMO (Massive Multiplayer Online) Second Life uma ilha virtual chamada L’Ouvroir, em que um de seus espaços é ocupado pelo Museum Gestaltung Zurich e neste se localiza um cinema. Considerando que tanto objetos quanto textos e espaços simbólicos encontrados em L’Ouvroir nos remetem ao passado, podemos considerar a hipótese de que Marker já anteveja o desgaste do Cinema que começa a perder espaço para as mídias interativas. Não é por acaso que o cineasta, em uma afirmação irônica, diz ter recebido uma mensagem dos anjos para que brinque agora com os brinquedos do século XXI.
Para uma análise de L’Ouvroir é preciso entrar no jogo. Nos cantos, nos cômodos, nos museus, na sala de cinema e até na réplica da máquina de Morel, produzidos por Marker na ilha do Second Life, se torna possível descobrir o seu caráter crítico e tentar uma interpretação das pistas que são dadas pelo caminho, mesmo correndo o risco de que se contradigam, nos fazendo retornar ao ponto inicial. O caráter aberto que não se fecha em nenhuma explicação fugindo sempre da lógica racional que marca de forma única cada obra, quando se acredita ter chegado a alguma conclusão, logo em seguida é desfeita. A imagem remete à Penélope, esposa do herói grego Odisseu, perdido nos mares gregos. Para se livrar dos pretendentes que davam o guerreiro como morto, Penélope aceitou ser cortejada, com a condição de que só se casaria quando o manto que se propôs a tecer estivesse pronto. Astuciosa como Odisseu, Penélope entrelaçava a linha durante o dia, mas o desfiava durante à noite, livrando-se assim, dos pretendentes.
Não é gratuito o modo como Marker faz uso das tecnologias, contrário à lógica utilitária do mundo moderno, que descarta o que não é útil. Neste ponto Marker une as duas pontas do processo. Ao mesmo tempo em que lança mão das tecnologias mais avançadas, apresenta nelas o passado, evocado para chocar o espectador pego de surpresa. Assim, o que era pra ser mero entretenimento passa a ser crítica da própria cultura. É de dentro pra fora que Marker age.
L’Ouvroir e Immemory, entre outras façanhas de Chris Marker, não são de modo algum vazias e rasas. A indústria cultural do entretenimento serve a Marker para atualizar a relação entre estética, política e crítica da sociedade. E o faz de modo inesperado. Assim se dá uma das imagens mais marcantes de L’Ouvroir. Em um dos andares do estranho museu na ilha do Second Life o que vemos são paredes, chão e tetos brancos. Nas paredes, fotos dos diretores de cinema Elem Klimov, Joris Ivens, Costa-Gavras, Wim Wenders, Andrei Tarkovsky, Francis Ford Coppola, Artavazd Pelechian e Terry Gilliam. A cada imagem acompanha uma miniatura do gato Guillaume-en-Égypte, seu alterego, que é uma ferramenta interativa. Logo nos vemos clicando no simpático felino para obter informações que oscilam de dados sobre as imagens a mensagens sarcásticas, provocando estranhamento no jogador. Sobre Klimov, por exemplo, a informação é de que a fotografia foi tirada em Moscou e acrescenta “fed up with revolution”[3]. Marker usa os aparatos tecnológicos na contramão dos artistas consagrados, deixando sempre a sua marca. Nos seus documentários prodigiosas colagens confirmam a influência do Formalismo Russo, e as inserções de imagens de jogos em L’Ovroir apresentam o espaço que prima pelo jogo, pelas montagens e pelas criações livres.
Dotado de extrema originalidade, seu ponto principal será sempre a memória do espectador em movimento, associando-a à própria História. No espaço que se insere o cinema, um filme entra em execução com a chegada de um visitante do museu, diante dos assentos dispostos para que o avatar assista à projeção com conforto - como simulação da vida real.  Nesse ponto, L’Ouvroir dialoga com a película La Jetée – montagem de fotos em preto e branco - obedecendo o princípio da forma antiilusionista na arte, sem deixar nenhum espaço para a estetização da violência ou reconciliações falsas com o mundo injusto. Pensando a forma e o sentido do filme pela via da Teoria Crítica e das influências das vanguardas, Marker mostra o avesso da indústria da cultura e da sociedade do espetáculo na montagem de fotos situada no contexto de um estado radical de exceção. Chris Marker faz o trabalho crítico de montar o reverso do otimismo cego em relação ao progresso e à técnica. Como sabemos, Benjamin apontou com precisão o moderno aparato técnico que caminhava em direção à catástrofe, e não à emancipação humana. É o “aviso de incêndio” que se lê em suas teses Sobre o conceito de História, cujo pensamento por imagens nos apresenta a “História petrificada” e percebida como um amontoado de restos e ruínas, como se lê na conhecida tese IX. O Angelus Novus, tela de Paul Klee, ganha estatuto de alegoria do sentido da História como crítica do progresso: com sensibilidade aguda e muito singular, Benjamin intui na pequena pintura o anjo da História que hesita, voltando o olhar para trás e mantendo vivo passado e memória, ao mesmo tempo em que é impelido para o futuro, por uma tempestade que Benjamin chama de “progresso”, o rolo compressor que deixa destruição por onde passa. A tempestade, motivo bíblico ligado à destruição, aparece aqui também como metáfora do Nazismo. Como o “aviso de incêndio” do crítico judeu-alemão não foi ouvido, a catástrofe veio na forma da II Guerra, da tecnologia a serviço do massacre, dos campos de concentração e extermínio, da Shoah como forma do mal absoluto. Voltando a Marker, La Jetée é um photo-roman que se passa depois da II Guerra Mundial e projeta a III Guerra Mundial, catástrofe nuclear e devastadora, como ameaça à existência de toda a humanidade.
Neste instante nos encontramos num impasse: de um lado, La Jetée, como já foi dito, é uma crítica contundente ao progresso; de outro L’Ouvroir é colocado pelo próprio autor no espaço que é primordialmente fruto deste mesmo progresso alienante e regressivo. Em um primeiro momento, as obras têm em comum a justaposição da História, coabitando presente, passado e futuro.
Ao percorrermos a rampa vermelha, referência simbólica ao sangue derramado nas guerras do século XX, somos conduzidos aos espaços do museu, e logo notamos textos nas paredes. Entretanto, apenas algumas palavras são possíveis de se reconhecer num primeiro momento, exigindo de nós um olhar muito atento. Somos forçados no mundo criado por Marker a mantermos os olhos atentos. A revelação da História e da memória se encontra nos detalhes mínimos, oposta à proposta da plataforma virtual nomeada de Second Life.
Chegando em um dos andares, uma das paredes que nos restringe conduz nossa visão para letras que vão e vêm e uma imagem com textura de madeira. Após a confusão visual inicial, ao acostumarmos a vista, notamos nas letras movediças os versos do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men. Neste momento nos damos conta de que esses versos nos acompanharam por todo corredor do museu.
The Hollow Men - crítica da violência e crítica da alienação em L'Ouvroir, é um aceno de Marker para que não nos esqueçamos da cegueira e da violência do século XX. É assim que o mais que talentoso cineasta francês atualiza a relação entre estética e política em pleno século XXI. Mestre na montagem de ponta, Marker, já octogenário, traz o tema para a internet. Recordar a violência do século XX é recordar todo seu percurso marcado por sucessivas guerras. Impossível não fazermos remissão à Tese II em que Benjamin diz: “O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso que o impele à redenção.”(BENJAMIN, 1994, pág. 223)
O vértice onde Benjamin no século XX e Marker já no XXI se tocam é a  dialética na imobilidade, o pensamento por imagens quando nos são apresentadas figuras da violência, vozes que até então estavam caladas e soterradas pela força do tempo. Contudo, é no momento extremo da tensão saturada de tempo histórico que o “continuum cego”, reificado e petrificado pela História oficial, se rompe. No caso de Walter Benjamin, a ruptura vem acompanhada de redenção e de utopia. O tempo messiânico entrando no tempo histórico, que interrompe a linearidade homogênea e vazia do progresso, é um tempo verdadeiro e forte. É o tempo da revolução no plano laico.  
            A energia represada nas imagens do passado se lança contra o presente e suas mitologias, resultando em desejo político de mudança muito profundo. É neste plano que podemos situar Marker, quando o cineasta nos traz recordações das catástrofes do século XX, em Remember the hollow men?. O poema, paráfrase de The Hollow Men,de T.S. Eliot, reflete sobre uma época de guerras, da crise de civilização, do vazio, da alienação.
 
Remember "The Hollow Men"?
T. S. Eliot wrote it in 1925
 
The ashes of world war i were barely cold
And we 4 years old toddlers   barely made out
A world of strange forms
Shaped by that war the war
To end all wars they said
Which we would discover quite untrue
Less than 80 seasons later
 
"Headpieces filled with straw"
Or "dried voices" or "quiet and meaningless"
How often would these words apply
To my fellow passengers
Aboard the erratic liner
Of century xxth ?
 
"The hollow men"
"The stuffed men"
 
2
 
How often did we meet in dreams
Those eyes eliot didn't dare to meet ?
 
Swinging trees and fading stars
Were our usual visions
The wind sang for us
As it did for him
Just as distant    just as solemn
And we too tried to be no nearer
In "death's dream kingdom"
Under our disguises
Cat's coat, owlskin, and the rest
Behaving as cats behave
No nearer
 
But we would never meet again
In the dawn kingdom
 
3
 
"This is the dead land" he wrote, and
Images of trenches oozed from our childhood
For there our fathers had met for the first time
The unbearable task of being men
 
What is "cactus land" if not barbed wire?
 And what would those fading stars be
 If not the blazing trails
 Of battlestruck airplanes?
 
How often would we wake alone
"Trembling with tenderness"
And pray to broken stone?
 
4
 
The eyes we would never 
Truly recognize them
"What is it
That a blind man may choose?"
Said siegfried
"Sightless" is a better word
 
Sightless unless new eyes open 
And leave us with that cryptic epithet  
"Multifoliate rose"
 
 
"I'll be seeing you"
Was our song
Less than 80 seasons later
For every war has a song
 
Between every song
And every silence
Between every word
And every promise of a word
Falls a shadow
 
For thine is the kingdom 
 
Life is very long
 
Between the bare plains of the somme
And the sands of iwo jima
Between the dogfights over dunkirk
And the finger that triggered the bomb
Falls a shadow
For thine is the kingdom
 
For thine is 
Life is 
For thine is the
"This is the way the world ends 
This is the way the world ends 
This is the way the world ends 
Not with a bang but a whimper"[4]
 
 
Tradução:
 
LEMBRA “OS HOMENS OCOS”?
T. S. Eliot escreveu em 1925
 
As cinzas da Primeira Guerra estavam frias
E nós com apenas 4 anos apenas percebemos
Um mundo de estranhas formas
Moldadas por aquela Guerra a Guerra
Para acabar tom todas as Guerras, disseram,
E descobrimos que não era verdade
Menos de 80 estações mais tarde
 
“Cabeças cheias de palha”
Ou “vozes secas” ou “quieto e sem sentido”
Quantas vezes essas palavras se aplicariam
A meus companheiros de viagem
Na borda a linha errática
Do século XX?
 
“Os homens ocos”
“Os homens empalhados”
 
2
 
Quantas vezes nos encontramos em sonhos
Aqueles olhos que Eliot não ousou encontrar?
 
Árvores balançando e estrelas desaparecendo
Eram nossas visões usuais
O vento cantava para nós
Como fazia para ele
Tão distante tão solene
E nós tentávamos não chegar perto demais
Do “Reino de sonho da morte”
Embaixo de nossos disfarces
Casaco de gato, pele de coruja, e o resto
Se portando como os gatos se portam
Não mais perto que isso
 
Mas nunca nos encontraríamos de novo
No reino das sombras
 
3
 
“Essa é a terra morta” ele escreveu, e
Imagens de trincheiras trazidas da nossa infância
Pois lá nossos pais se encontraram pela primeira vez
A inalcançável tarefa de ser homem
 
O que é “terra do cacto” senão arame farpado?
E o que seriam aquelas estrelas desaparecendo
Senão as trilhas
Das batalhas aéreas?
 
4
 
 Os olhos nós nunca pudemos
Reconhecer de verdade
“O que um homem cego
Deve escolher?”
Disse Siegfried
“Sem visão” é uma palavra melhor
 
Sem visão a menos que novos olhos se abram
E nos deixem com aquele críptico epíteto
“Rosa multifoliada”
 
5
 
“ Nos veremos”
Era nossa canção
Menos de 80 estações mais tarde
Pois toda Guerra tem uma canção
 
Entre toda canção
E todo silêncio
Entre toda palavra
E toda promessa de uma palavra
Cai uma sombra
 
 Pois Teu é o Reino
 
A vida é muito longa
 
Entre as planícies nuas do Somme
E as areias de Iwo Jima
Entre os cães de guerra sobre Dunquerque
E o dedo que disparou a Bomba
Cai uma sombra
Pois Teu é o reino
 
Pois Tua
É a vida
“É assim que o mundo termina
É assim que o mundo termina
É assim que o mundo termina
“Não com uma explosão, mas um gemido”.[5]
 
 
Na década de 1910, a I Guerra Mundial, a “guerra para acabar com todas as guerras”, devastou a Europa. Quase um século depois, no estranho espaço do Second Life, Marker atualiza o poema de Eliot trazendo para o século XXI toda a sequência de brutalidade que estigmatizou o século XX, e caracterizado pelas catástrofes. Marker traz à tona a I Guerra da qual Eliot falara e segue com versos carregados de simbologia: a “terra do cacto” de Eliot e o “arame farpado” de Marker remetem diretamente aos campos de concentração e de extermínio da Alemanha nazista de Hitler e seus asseclas. A “rosa multifoliada” é uma analogia clara ao genocídio perpetrado pelos americanos ao lançar sobre a cidade de Hiroshima a bomba nuclear. 
Está claro o compromisso de Marker acima de tudo com a memória dos que são esquecidos, dos que ficam à margem da História dos vencedores, dos que são poeira que o tempo da História se encarrega de soprar. Mais uma vez, não podemos nos esquecer de Walter Benjamin. A Tese VIII nos mostra que a história dos vencedores está ligada ao progresso que culminou no Nazifascismo. A história vista por outro ângulo, o dos vencidos, não se surpreende com a ascensão do Totalitarismo, o lado mais bestial de um estado de exceção. Não era um “acidente de percurso”, como alguns queriam acreditar, e sim um fenômeno para o qual a História caminhava inexoravelmente. Na árdua tarefa de combater seu percurso linear também está Chris Marker, que buscava no desencadear do processo o que a História vai deixando para trás: seus fragmentos, suas ruínas, suas derrotas, montando assim uma forma de reverter o otimismo e a cegueira do progresso em favor da história dos vencidos. Antes de tudo, uma promessa ética aos que pereceram. Recordar os incontáveis crimes que o século XX perpetrou contra a humanidade é uma forma de não permitir que eles se repitam.
 
 
 
Bibliografia:
ADORNO, T. W. e HORKHEIMER, M. A Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas, in Dialética do Esclarecimento, Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
BAZIN, André. ”Le nouveau cinéma français” in /Le cinéma français de la Liberátion à la Nouvelle Vague (1945-1958)/. Paris : Cahiers du cinema, 1998.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 1 - Magia e Técnica, Arte e Política, Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.
_____. Passagens. Organização: Willi Bolle. Colaboração: Olgária Chain Féres Matos. Tradução do alemão: Irene Aron. Tradução do francês: Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2006.
LUPTON, C. Chris Marker: In Memory of New Technology. Disponível em: http://www.chrismarker.org/catherine-lupton-in-memory-of-new-technology/ Último acesso em 14 de agosto de 2013.
MARCUSE, H. Tecnologia, Guerra e Fascismo, Tradução de Maria Cristina Vidal Borba. São Paulo: UNESP, 1999.
MARKER, C. L’Ouvroir. Second Life: http://slurl.com/secondlife/Ouvroir/186/68/40. Último acesso em14 de agosto de 2013.
_____. Remember The Hollow Men?
Disponível em http://slurl.com/secondlife/Ouvroir/186/68/40. Último acesso em14 de agosto de 2013.
TODOROV, Tzvetan, org. Teoria da Literatura, textos dos formalistas russos apresentados por Tzvetan Todorov, Tradução de Isabel Pascoal. Lisboa: Edições 70, 1989.
 


[1] Ei garoto (não se esqueça que eles são eternos), você já jogou o suficiente com os brinquedos do século XX, agora é hora de se concentrar no XXI. "Quem sou eu para discordar dos Anjos? Então, que seja uma despedida . Mas não se surpreenda se eu voltar no próximo mês com uma superprodução: o direito de contradizer a si mesmo foi cunhado por Baudelaire em seu projeto de Constituição. (Tradução nossa) Diponível em: http://slurl.com/secondlife/Ouvroir/186/68/40. Último acesso em14 de agosto de 2013.
[2] LUPTON, C. Chris Marker: In Memory of New Technology. Disponível em: http://www.chrismarker.org/catherine-lupton-in-memory-of-new-technology/ Último acesso em 14 de agosto de 2013.
[3] Farto da revolução. (Tradução nossa)
[4] MARKER, C. Disponível em: http://slurl.com/secondlife/Ouvroir/186/68/40. Último acesso em14 de agosto de 2013.
[5] Tradução de André Bueno/UFRJ