Backhaus e Postone: uma leitura do valor a partir dos Grundrisse

 
Zaira Vieira
(Universidade de São Paulo)
zairavieira@uol.com.br
 
Um dos intelectuais marxistas mais importantes da segunda metade do século XX, aluno e colaborador de Adorno, Hans-Georg Backhaus, juntamente com Helmut Reichelt, influenciou, com sua obra, grande parte das novas leituras de Marx: da Wertkritik, na Alemanha, passando pelo pensamento de Moishe Postone, nos Estados Unidos, à obra de Jean-Marie Vincent, na França. Backhaus coloca em evidência o caráter crítico da teoria do valor de Marx, questionando, com isto, a leitura positivista e a interpretação economicista da mesma. Em seu ensaio mais conhecido, Dialética da forma valor[1], o autor sublinha a centralidade da análise da forma valor, propondo-se a tarefa de investigar as implicações desta análise sobre o problema da reificação, bem como a relação intrínseca entre a teoria marxiana do valor e a análise do dinheiro.
Backhaus ressalta a originalidade da teoria marxiana do dinheiro e a necessidade de se entender bem esta problemática para um completo deciframento da própria teoria do valor trabalho. Dissociar a análise do dinheiro da teoria do valor de Marx – o que resulta da interpretação da escola austro-marxista, por exemplo – seria exprimir, segundo ele, « a incapacidade de compreender a teoria do valor como análise da forma valor » (Backhaus, 2011:46).
Antes de adentrar, de forma mais específica, no tema desta comunicação, apresentemos também algumas das características do pensamento de Postone. Diferentemente do destino que coube à obra de Backhaus − cuja influência, na história do marxismo contemporâneo, embora importante e provavelmente mais consistente que aquela de Postone, se restringira a um círculo específico de autores –, o pensamento de Postone ganhou notoriedade e foi amplamente divulgado no curso dos últimos anos. Contemporânea e muito próxima das teses da corrente alemã conhecida como « crítica do valor [Wertkritik] », que surge ao final dos anos 80, a crítica de Postone desenvolve-se, contudo, de forma independente, nos Estados Unidos[2].
À partir de uma releitura dos textos de maturidade de Marx, Postone propõe um novo tipo de teoria crítica, na qual busca ressaltar a centralidade do trabalho não enquanto ponto de vista, mas enquanto modo de produção que funciona como um autômato. Como o explica Jappe, a tese de Postone é a de que« para Marx, o trabalho não constitui o ponto de vista à partir do qual criticar o capitalismo, mas é, ele próprio, o objeto da crítica » (Jappe, 2009). Postone opõe-se, assim, por exemplo, à concepção do proletariado como sujeito histórico, que constitui o cerne do pensamento de Lukács em História e consciência de classe, e pretende mostrar o capital como sendo, ele próprio, o Sujeito histórico. Coloca-se, em outros termos, em evidência a substância genérica desta formação social, « a substância social qualitativamente homogênea » (Postone, 1995: 79). A obra de Marx não se apresenta à partir de uma concepção fundada sobre o trabalho ou sobre a totalidade enquanto conceitos abstratos.
O autor propõe uma leitura crítica do que ele denomina como sendo o marxismo tradicional. Esta caracterização tem como referência uma leitura de Marx do ponto de vista do trabalho e compreende inúmeros autores, inclusive Lukács, a Escola de Frankfurt e, até mesmo, HelmutReichelt, que funda, com Backhaus, as Neue Marx-Lekture[3]. Em sua crítica do marxismo tradicional, ele pretende mostrar que, em Marx, a dominação não diz respeito exclusivamente ao mercado e à propriedade privada. O modo de produção capitalista caracterizar-se-ia por uma dominação abstrata e mais global cujo locus central encontrar-se-ia nas relações de trabalho.
Em oposição à idéia de racionalidade instrumental e à tese segundo a qual a dominação abstrata funda-se sobre o mercado, por oposição ao Estado, Postone quer mostrar o caráter social das relações objetivas [sachlicher] de dependência de que fala Marx :
O trabalho é central na análise marxiana não porque Marx ponha a produção material como o aspecto mais importante da vida social ou como a essência da sociedade humana, mas porque ele considera o caráter particularmente abstrato e direcionalmente dinâmico da sociedade capitalista como sendo a marca distintiva desta sociedade e porque ele afirma que estes traços essenciais podem ser apreendidos e explicados à partir da natureza historicamente específica do trabalho nesta sociedade (Postone, 1995: 104).
Para Postone, trata-se de mostrar, portanto, a centralidade da categoria trabalho abstrato na obra de Marx ou, ainda, a natureza essencialmente social e dominante do trabalho nesta formação social. O caráter social é um aspecto inerente ao trabalho e não apenas às relações de distribuição e de propriedade. Com efeito, no Capital, a contradição entre o domínio social e o domínio privado é algo inerente à forma que assume o trabalho sob o capitalismo: « É o “trabalho do indivíduo isolado” que “toma a forma da generalidade abstrata”. [...] É precisamente o trabalho sob o capitalismo que possui uma dimensão diretamente social, e [...] “o trabalho diretamente social” existe apenas num quadro social marcado pela existência do “trabalho privado” (Postone, 1995: 47).
Esta leitura possui, portanto, o mérito de fundar-se, para a compreensão da sociedade moderna, sobre um aspecto fundamental. A concepção de Marx sobre o trabalho na formação social capitalista – principalmente aquela que aparece em sua Contribuição à crítica da economia política e em O Capital – é, com efeito, o que permite refutar toda uma série de elaborações teóricas que concebem o caráter social como sendo um aspecto diferente e separado das determinações do trabalho ; a posição de Habermas, criticada pelo autor, sendo justamente um exemplo deste tipo de elaboração[4]. A partir desta compreensão, Postone critica igualmente uma série de intérpretes de Marx que − como Sweezy, Mandel e Vygodski − conceberiam o trabalho, em sua forma capitalista, como apresentando um caráter social exclusivamente através da troca e como não sendo, portanto, verdadeiramente um trabalho social. Mostraremos adiante que a posição criticada por Postone nestes últimos autores corresponde, na verdade, à posição do próprio Marx nos Grundrisse.
Apesar do mérito de partir de uma concepção do trabalho como atividade que encerra, ela mesma, o caráter de sociabilidade neste modo de produção, Postone elimina os pressupostos desta temática, o que faz com que ele mesmo recaia numa definição do trabalho abstrato à partir da circulação. Com o objetivo de fundar uma leitura da obra marxiana que parta do caráter efetivamente social das determinações do trabalho no capitalismo, ele relega, entretanto, a descoberta principal da crítica da economia política, sem a qual esta última não teria sido possível: a explicação da mais-valia. Separando a problemática do trabalho e do valor, em Marx, da questão da propriedade, o autor afasta-se precisamente da essência ou da substância do trabalho abstrato e do valor. Como mostramos em outra oportunidade, a descoberta da mercadoria força de trabalho é precisamente o que torna possível e concreto, na crítica da economia política, a descoberta da categoria trabalho abstrato (Vieira, 2012 : 112). A primeira constitui um ponto de passagem decisivo rumo a esta última e representa um ponto de inflexão da investigação marxiana em direção às determinações do valor provindas do interior da produção.
Para Postone, como também para Backhaus, a obra de Marx apresenta um desenvolvimento lógico do funcionamento do modo de produção capitalista e a análise das categorias de base do capital, presente no início da obra homônima, pressupõe a existência já desenvolvida das relações entre estas categorias no mundo capitalista.   Backhaus critica, a este respeito, a leitura dos primeiros capítulos do Capital empreendida por Engels. A análise da circulação de mercadorias exposta por Marx não pertence a um momento histórico que preceda ao capitalismo. A esfera analisada por Marx, aqui, é uma componente específica do modo de produção capitalista. Como Postone, Backhaus cai, entretanto, no outro extremo que consiste em confundir, porém, determinações da circulação simples com determinações específicas à produção. Como o mostraremos mais adiante, Backhaus confunde determinações próprias ao dinheiro com determinações do valor.
Estas novas leituras de Marx têm o mérito de propor uma interpretação de sua obra madura que não se fixa apenas sobre o aspecto de classe e de exploração, sublinhando o caráter amplo da teoria marxiana do valor no que diz respeito a sua caracterização da sociedade moderna. Com o objetivo de deslocar o eixo de compreensão desta obra rumo a um entendimento mais abrangente da teoria do valor, elas terminam por se concentrar, porém, de forma unilateral e com prejuízos para a teoria do valor, sobre a esfera da circulação. Por trás desta problemática, encontra-se, além da formulação original de Adorno − cuja ênfase recai sobre a abstração das relações de troca −, o fato de que, em ambos os autores, verifica-se uma leitura das categorias do Capital que se apóia sobre os Grundrisse.
Redigidos entre 1857 e 1858, os Grundrisse apresentam análises que serão progressivamente aperfeiçoadas à medida em que Marx avança em sua pesquisa, realizando descobertas que serão fundamentais à elaboração definitiva de sua teoria do valor. Dentre tais descobertas fundamentais, estão a da categoria força de trabalho, realizada no segundo capítulo destes mesmos manuscritos, e a do par conceitual trabalho concreto/trabalho abstrato, que aparece de forma definitiva apenas na Contribuição à crítica da economia política. Até a descoberta da primeira categoria, Marx confunde, ainda, valor de troca e preço (Vieira, 2012: 41-70). Nos Grundrisse, o valor de troca é explicado à partir das relações de troca entre as mercadorias. Ele aparece como derivando do fato de que é a troca que põe os produtos como coisas iguais. Marx reconhece, neste momento, que há, por detrás destas formas, uma divisão do trabalho e, portanto, uma produção que é produção de valores de troca. Mas é, de todo modo, a troca que põe as mercadorias como mercadorias ou os «produtos» como coisas equivalentes. Por esta razão, as determinações do valor de troca são consideradas, por ele, como advindas da troca, e não exatamente da esfera da produção. As determinações que Marx apresentará, no Capital, como sendo determinações do valor que decorrem das características da forma social do trabalho, no modo de produção capitalista, são entendidas, aqui, como derivando da troca. O tempo de trabalho socialmente necessário, explicado, no Capital, como sendo a substância do valor e como característica do próprio trabalho, aparece, desta forma, nos Grundrisse, enquanto determinação da troca. À medida em que o autor avança na elaboração de sua teoria do valor, ele se concentrará mais e mais sobre o fato de que seus conceitos determinam-se à partir da produção. De maneira mais específica, à medida em que sua descoberta da categoria força de trabalho toma forma, no segundo capítulo dos Grundrisse, o sentido de determinações da mercadoria, como o valor de troca e o valor de uso, vem a ser paulatinamente enriquecido, sobretudo no que concerne ao primeiro.
Antes de atingir estes pontos nevrálgicos de suas descobertas no campo da teoria do valor – os quais começam a ganhar forma nestes manuscritos, mas são elaborados de forma definitiva apenas na Contribuição à crítica da economia política[5]e no Capital −, Marx encontra-se, em outros termos, ainda sob a influência da teoria da oferta e da procura. No primeiro capítulo dos Grundrisse, ele procura desvelar as determinações do valor partindo diretamente das relações de troca entre as mercadorias. E é da troca, e não do trabalho, que decorrem, para Marx, aqui, as determinações universais deste modo de produção. Sobre importância da troca no ponto de partida da crítica da economia política, explica Maurice Dobb:
Com efeito, Marx partiu de conceitos tais como a oferta e a procura, a competição e o mercado. Isto aparece de forma evidente nos Manuscritos de 1844 [...]. Mas, o vemos também na presente obra, a Contribuição [à crítica da economia política], escrita quinze anos mais tarde. (Ao contrário, O Capital ocupa-se do ‘nível’ do mercado na parte conclusiva, próxima do final do terceiro livro). No curso da exposição crítica destes conceitos, [...] Marx empenha-se, sempre mais a fundo, na análise da produção e das relações de produção [...] e das raízes sociais e de classe de uma sociedade dominada pela exploração e pela procura do lucro mais elevado. (Dobb, 1984: VIII)
As leituras contemporâneas da obra de Marx aqui analisadas, no que diz respeito a categorias centrais da crítica da economia política − como a de trabalho abstrato,em Postone, e a de dinheiro, em Backhaus −, fundam suas análises sobre a esfera da circulação, razão pela qual retornam aos Grundrisse. Tais leituras relegam, por consequência, a segundo plano a problemática principal da crítica marxiana, cuja ênfase recai, nas redações finais de O Capital, sobre a esfera da produção e sobre a separação entre propriedade e trabalho.
Para Postone, a categoriatrabalho abstrato de Marx teria a sua origem na circulação, sua explicação prescindindo, segundo ele, da esfera da produção e da extração de mais-valia. A explicação da mercadoria e do trabalho abstrato, no início do livro primeiro do Capital, pressuporia a explicação do capital que lhe segue. Mas, na medida em que o autor exclui de sua explicação do capital a compra e a venda da força de trabalho, para colocar em seu lugar a dinâmica determinada pela produção da mais-valia relativa, sua análise ignora o laço necessário que existe entre a extração da mais-valia no processo de produção e a descoberta do caráter duplo do trabalho contido na mercadoria. Decorre daí uma explicação da dualidade do trabalho à partir exclusivamente das determinações da mercadoria.
A fórmula do «trabalho determinado pela mercadoria» aparece, com efeito, várias vezes em seu livro (Postone, 1995: 56, 126, 150, 157, etc.). No que concerne ao Capital, se se pode dizer que o trabalho é determinado pela forma mercadoria ou encontra-se subsumido a ela, é preciso esclarecer, no entanto, que ele está subsumido, antes de mais nada, a sua determinação de valor, da qual a mercadoria é apenas uma das expressões.
Segundo Marx, o valor apresenta-se como mercadoria, dinheiro e capital (Marx, 2011: 206). Não é da forma mercadoria dos produtos do trabalho que deriva a dualidade que caracteriza o trabalho no capitalismo. Ao contrário, os produtos são mercadorias precisamente porque o trabalho reveste, ele mesmo, uma forma dupla, porque ele é trabalho concreto e abstrato ao mesmo tempo. Se se destaca a importância da forma mercadoria, por um lado, minimizando-se, por outro lado, o papel do processo de extração da mais-valia, corre-se o risco de cair numa análise de tipo proudhoniano, criticada, à época, por Marx (Marx, 2011: 205-206).
Postone cai, em outros termos, na armadilha da redução da troca entre o capital e o trabalho a uma troca simples de mercadorias. Como Proudhon, ele emprega alternativamente os termos mercadoria e valor, e entende a mercadoria como sendo «o princípio estruturante fundamental do capitalismo» (Postone, 1995: 154).
«Como toda a teoria burguesa, [Postone] e o marxista alemão Michael Heinrich, que, sob sua responsabilidade, se apropria do termo ‘crítica do valor’, [...] continua fazendo do trabalho abstrato uma categoria da circulação, cf. Kurz, R., Geld ohne Wert, Horleman, 2012» (Homs, 2014). Em A substância do valor, «Robert Kurz acusa Postone de uma certa incoerência, na medida em que afirma que é na esfera da produção que a objetividade do valor é dada imediatamente à mercadoria e que faz, ao mesmo tempo, do ‘trabalho abstrato’ uma simples categoria social, que não teria nenhuma ‘base natural’» (Homs, 2014).
Vejamos nossa problemática no que concerne à obra de Backhaus. Para este autor, existiria, em O Capital, um movimento dialético na « ‘dedução’ do valor » (Backhaus, 2011: 43), no interior do qual haveria uma mediação cuja necessidade não teria sido explicada por Marx, qual seja a passagem da substância à forma do valor. A exposição de Marx configurar-se-ia em um movimento dialético que descreve o percurso do valor de troca (o ser imediato) ao valor (a essência) e, deste último, ao valor de troca (a existência mediatizada), mas não forneceria uma explicação suficiente do segundo trajeto ou da passagem do valor ao valor de troca[6]. Para explicar este trajeto, Backhaus toma como parâmetro, porém, análises dos Grundrisse que foram superadas posteriormente por Marx.
Como referimos acima, nestes manuscritos, a teoria marxiana do valor não se encontra acabada, o que se deve principalmente ao fato de que Marx confunde a determinação do valor de troca com o preço[7]; não distinguindo, na verdade, ainda a substância da forma do valor. O aspecto que acabamos de apresentar e que decorre de um inacabamento da elaboração marxiana nos Grundrisse, aparece, no texto de Backhaus, como sendo um traço da «dialética da forma valor» em sua forma final, ou seja, tal como ela deveria aparecer no Capital. Em sua tentativa de elucidar a problemática segundo a qual faltaria, na exposição do Capital, uma explicação da transformação do valor em valor de troca, Backhaus confunde as determinações do valor com as características do dinheiro ou forma equivalente geral. Segundo ele, « o valor de um produto é distinto do produto enquanto tal como um pensamento […] e aparece, assim, como ‘forma ideal’ de algo material » (Backhaus, 2011: 47). Para Marx, n'O Capital, o valor não é uma realidade ou forma ideal. Este é um traço exclusivo do dinheiro enquanto medida dos valores. Traço este que Marx entendia, com efeito, nos Grundrisse, como caracterizando o valor ou valor de troca. As definições que Backhaus estende ao valor correspondem, na realidade, apenas às características do preço, ou ainda, da moeda em sua função de medida dos valores:
O preço ou a forma monetária das mercadorias, como sua forma valor em geral, é distinta de sua forma corpórea real e tangível, uma forma somente ideal ou imaginária. O valor do ferro, linho, trigo, etc., embora invisível, existe nessas coisas mesmas; ele é imaginado por sua igualdade com ouro, uma relação com o ouro que, por assim dizer, só assombra suas cabeças [...] A expressão dos valores das mercadorias em ouro é ideal (Marx, 1996: 220).
Este problema aparece também, por exemplo, na explicação seguinte de Backhaus: « Ricardo parte do fato da auto-alienação econômica, do desdobramento do produto em outra coisa que ele mesmo, que é valor, coisa representada e coisa real » (Backhaus, 2011: 52). Como explica Marx na passagem acima, tudo isto são características do preço, da expressão do valor das mercadorias em dinheiro – e não do valor. O valor não corresponde a um « desdobramento do produto », como o pensava Marx nos Grundrisse. Ao contrário, ele é intrínseco ao produto à partir do momento em que este toma a forma de mercadoria.
Contrariamente ao que propõe Backhaus, a análise marxiana do dinheiro, segundo a qual o processo de troca « produz uma duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro, uma antítese externa, dentro da qual elas representam sua antítese imanente entre valor de uso e valor » (Marx, 1996: 228; MEW 23: 119), não pode ser estendida à análise da mercadoria enquanto tal. O valor de uso da mercadoria não é tão cindido de seu valor de troca a ponto de poder-se estender esta duplicação [Verdopplung] ou oposição exterior [äußeren Gegensatz], que dá origem ao dinheiro, à relação do valor de uso com o valor de troca da própria mercadoria. Diferentemente dos Grundrisse, em O Capital, o valor não tem apenas « uma existência simbólica » (Marx, 2011: 115), mas existe realmente nos produtos dos trabalhos concretos e determina a produção de cada produto particular, na medida em que tal produção deve observar a « lei natural reguladora » (Marx, 1996: 201) do tempo de trabalho socialmente necessário para a produção deste tipo específico de mercadoria. Trata-se de uma abstração real, de trabalho humano objetivado [vergegenständlichte menschliche Arbeit] (Marx, 1996: 219), e não de uma « forma ideal de algo material » ou de uma forma de pensamento que, enquanto tal, « é ‘imanente’ à consciência » (Backhaus, 2011: 47).
Backhaus parte de citações dos Grundrisse, como : « ‘Faço cada uma das mercadorias = a um terceiro termo, i.e., desiguais a si mesmas’[Ich setze jede der Waren = einem Dritten; d.h. ||. 14| sich selbst ungleich] (Marx, 2011: 92; MEW 42: 78)» (Backhaus, 2011: 56). Esta exterioridade do valor com relação ao valor de uso da mercadoria, que decorre da compreensão que Marx tinha do problema nos Grundrisse, é, porém, completamente modificada no Capital. Ao contrário do que dizia antes, Marx explica, aqui, que a mercadoria é valor apenas porque ela é, ao mesmo tempo, valor de uso: « Elas só são mercadorias porque são duas coisas ao mesmo tempo: objetos de uso e portadoras de valor » (Marx, 1996: 176). A determinação de valor da mercadoria contradiz sua determinação de valor de uso, o que faz, aliás, com que a primeira tome a forma de dinheiro ou de equivalente geral. Mas, a generalidade que caracteriza o dinheiro não pode ser estendida ao valor enquanto tal. O dinheiro é uma forma valor particular ou, ainda, precisamente uma forma do valor.
No primeiro capítulo dos Grundrisse, Marx pretende explicar a origem do dinheiro como algo que deriva da relação entre as próprias mercadorias. Ele o faz partindo, neste momento, porém, apenas da circulação e sem ter alcançado ainda a determinação que reconcilia as contradições da troca com a produção ou do preço com o valor. O caráter de equivalência entre as mercadorias aparece, pois, como consequência de um desenvolvimento das trocas que termina por colocar os « produtos », os valores de uso, como coisas iguais ou equivalentes. Tal problema aparece de forma completamente modificada em O Capital : este caráter comum das mercadorias é sublinhado, aqui, como algo que tem origem na produção. Na obra publicada, esta característica é explicada à partir do fato de que as mercadorias são trabalho materializado, ou seja, à partir do caráter de valor que as mercadorias têm em comum. Neste sentido, não é a troca que as determina como iguais ou que torna iguais coisas diferentes, mas é a produção que põe, ela mesma, este caráter de igualdade :
Não é por meio do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo todas as mercadorias, enquanto valores, trabalho humano objetivado, e portanto sendo em si e para si comensuráveis, elas podem medir seus valores, em comum, na mesma mercadoria específica e com isso transformar esta última em sua medida comum de valor, ou seja, em dinheiro (Marx, 1996: 219).
A ênfase desloca-se, assim, para o fato de que o valor é necessariamente trabalho humano objetivado ou materializado, sendo, ao mesmo tempo, trabalho humano abstrato[8], ou, em outros termos, para o fato de que ele é valor posto sob a forma de objeto. Esta ênfase é, na verdade, o sinal de uma mudança importante que decorre das descobertas realizadas por Marx a partir do fato de que é a produção que põe o conjunto das determinações do modo de produção do capital. Assim, enquanto, no primeiro capítulo dos Grundrisse, a respeito do valor de troca, lê-se que:
A mercadoria só é valor de troca na medida em que é expressa em outra coisa, portanto, enquanto relação. Um alqueire de trigo vale tantos alqueires de centeio; nesse caso, o trigo é valor de troca apenas na medida em que é expresso em centeio, e o centeio, valor de troca, na medida em que é expresso em trigo. Na medida em que cada um dos dois esteja em relação somente consigo mesmo, não é valor de troca. (Marx, 2011 : 152)
Em O Capital, Marx explica, ao contrário, que :
O valor de troca aparece, inicialmente, como a relação quantitativa, a proporção na qual valores de uso de espécie diferente trocam-se um contra o outro, relação que muda constantemente no tempo e no espaço. O valor de troca parece ser, portanto, algo arbitrário e puramente relativo; um valor de troca intrínseco, imanente à mercadoria, parece ser, como diz a escola, uma contradictio in adjecto [...] Uma mercadoria particular, um quarter de trigo, por exemplo, troca-se nas proporções mais diversas com outros artigos. Contudo, seu valor de troca permanece imutável, qualquer que seja a maneira que o exprimemos, em x  de graxa, y de seda, z de ouro, etc. (Marx, 1971 : 52-53)[9]
O caráter comum das mercadorias, o tempo de trabalho socialmente necessário, diz respeito à substância do valor e ao caráter do próprio trabalho. Trata-se de uma característica intrínseca à mercadoria enquanto valor de uso ou produto. Com a descoberta do par categorial trabalho concreto/trabalho abstrato, o tempo de trabalho socialmente necessário passa a ser entendido, por Marx, como sendo não mais uma determinação da troca, mas do trabalho. Ele determina, antes de tudo, a produção enquanto tal, o trabalho do indivíduo singular sendo trabalho concreto e abstrato ao mesmo tempo. Em O Capital, o trabalho abstrato, esta característica universal do trabalho, não se configura, portanto, na troca. Não é apenas no processo de troca das mercadorias que os diferentes trabalhos tornam-se homogêneos, abstratos, mensuráveis. No modo de produção capitalista, os diferentes trabalhos singulares são, eles próprios, concretos (diferentes, específicos) e abstratos (homogêneos, mensuráveis) ao mesmo tempo: « Alfaiataria e tecelagem, apesar de serem atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambas dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos etc. humanos, e nesse sentido, são ambas trabalho humano. São apenas duas formas diferentes de despender força humana de trabalho » (Marx, 1996: 173). Ou ainda: « Todo trabalho é, por um lado, dispêndio de força de trabalho do homem no sentido fisiológico e, nessa qualidade de trabalho humano igual ou trabalho humano abstrato, gera o valor da mercadoria. Todo trabalho é, por outro lado, dispêndio de força de trabalho do homem sob forma especificamente adequada a um fim e, nessa qualidade de trabalho concreto útil produz valores de uso» (Marx, 1996: 175).
Como o explica Marx, a circulação é a mediação de dois extremos pressupostos, mas não é ela que põe estes extremos (Marx, 2011: 195).
Referências Bibliográficas
Backhaus, Hans-Georg, Dialektik der Wertform: Untersuchungen zur Marxschen Ökonomiekritik, Freiburg, Ça ira, 2011.
Dobb, Maurice, “Introduzione”. En: Per la critica dell’economia politica. Trad.: Emma Cantimori Mezzomonti. Roma: Editori Riuniti, 1984.
Homs, Clément, “De quelques divergences entre Moishe Postone et la Wertkritik”, 2014. En <http://critiquedelavaleur.over-blog.com/2014/03/de-quelques-divergences-entre-moishe-postone-et-la-wertkritik-par-clement-homs.html> (26/03/2015).
Jappe, Anselm, “Avec Marx, contre le travail”, 2009. En <http://palim-psao.over-blog.fr/article-avec-marx-contre-le-travail-38186520.html> (10/04/2015).
Mandel, Ernest, A formação do pensamento econômico de Karl Marx. Trad.: Carlos Henrique de Escobar. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
Marx, Karl; Engels, Friedrich, Marx-Engels Werke (MEW). Berlin : Dietz Verlarg, vol. 42 ; 23.
Marx, Karl, Le Capital. Trad.: Joseph Roy, livre premier, tome I. Paris : Éditions Sociales, 1971.
Marx, Karl, O Capital. Trad.: Regis Barbosa e Flávio R. Kothe, livro primeiro, vol. I, tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
-, Grundrisse. Trad.: Mario Duayer e Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.
Postone, Moishe, Time, labor and social domination. Cambridge: University Press, 1995, p. 79.
Vieira, Zaira R., Perspectiva sociológica e resolubilidade política no pensamento de Jürgen Habermas e Leonardo Boff. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, monografia, 1999.
Vieira, Zaira R., Catégories et méthode dans la théorie de la valeur de Marx. Sur la dialectique. Paris : Université Paris Ouest Nanterre La Défense,tese de doutorado, 2012.


[1] Dialektik der Wertform apareceu originalmente em 1969 e foi traduzido e publicado, em 1974, na revista Critiques de l'économie politique (Paris), n°18, out-dez. Posteriormente, o mesmo ensaio foi publicado também, pelo autor, no volume intitulado Dialektik der Wertform. Untersuchungen zur Marxschen Ökonomiekritik, Freiburg i. Br. 1997. Este e outros ensaios de Backhaus vieram a público recentemente, na Itália, sob o título: Dialettica della forma di valore. Trad.: Emilio Agazzi e Antonio Pellicori; org. : Ricardo Bellofiore e Tommaso Redolfi Riva, Roma, Editori Riuniti, 2009.
[2] Sobre as divergências que existem entre a corrente alemã e o pensamento de Postone, cf. Homs, 2014.
[3] « Por sua vez, Postone, à exceção dos comentários positivos em relação à abordagem de Backhaus, censura à Reichelt essencialmente sua concepção do trabalho sob o capitalismo, que faz, segundo ele, uma ‘crítica à partir do ponto de vista do trabalho’, cf. TTDS, op. cit., p. 78n.» (Homs, 2014).
[4] Segundo Postone, Habermas o teria, de alguma forma, precedido na tentativa de elaborar uma nova teoria social crítica « que se oponha aos impasses teóricos da Teoria crítica » ((Postone, 1995: 87). Não obstante isto, ele empregaria « vários postulados tradicionais da Teoria crítica e isto debilitou sua tentativa de reconstruir uma teoria crítica da sociedade moderna » (Ibidem). Sobre a cisão, acima mencionada, entre sociabilidade e trabalho, cf. Vieira, 1999: 9-10.
[5] « É na sua Contribuição à crítica da economia política que Marx aperfeiçoará sua teoria do valor, e ao mesmo tempo a teoria do valor-trabalho em geral, formulando sua teoria do trabalho abstrato, criador de valor de troca. Ele distingue as duas formas de trabalho, o ‘trabalho concreto’ que cria o valor de uso, e o ‘trabalho abstrato’, isto é, a fração do tempo de trabalho social globalmente disponível numa sociedade de produtores de mercadorias » (Mandel, 1968: 85).
[6] Em nossa tese de doutorado, mostramos as razões pelas quais esta tese não se sustenta (cf. Vieira, 2012: cap. 5).
[7] Segundo Mandel, a teoria que apresenta a solução deste problema começa a aparecer no capítulo sobre o capital. Neste segundo capítulo dos Grundrisse, Marx começaria à empreender o caminho necessário ao esclarecimento definitivo do segredo do valor de troca das mercadorias : « Mas se o valor de troca das mercadorias é determinado pelo trabalho que elas contêm, como conciliar essa definição com o fato empiricamente constatado de que os preços de mercado dessas mesmas mercadorias são determinados pela ‘lei da oferta e da procura’ ? Essa objeção, diz Marx, vem a ser a seguinte : como os preços de mercado diferentes dos valores de troca das mercadorias podem formar-se, ou, melhor ainda, como a lei do valor não pode realizar-se na prática senão através de sua própria negação ? Esse problema é resolvido pela teoria da concorrência dos capitais, que Marx desenvolve a fundo desde a redação dos Grundrisse, elaborando a teoria da distribuição equitativa da taxa de lucro e da formação dos preços de produção, sobre a base da concorrência entre os capitais » (Mandel, 1968: 90).
[8] « Portanto, um valor de uso ou bem possui valor, apenas porque nele está objetivado ou materializado trabalho humano abstrato » (Marx, 1996: 168).
[9] Optamos por citar esta passagem a partir da tradução francesa de Roy − que foi « inteiramente revisada pelo autor » (Marx, 1971: 9) e que « possui um valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores que têm familiaridade com a língua alemã » (MARX, 1971 : 47) − porque sua última parte aparece redigida, aqui, de forma mais clara (cf. Marx, 1996 : 166).