Ideologia e emancipação: Impasses éticos

Ideologia e emancipação: Impasses éticos
Lucyane De Moraes (Universidade Federal de Minas Gerais - Brasil)
cinetoscopio@yahoo.com.br
Introdução
Abordar a totalidade das questões que abarcam os impasses éticos entre ideologia e emancipação exigiria uma análise extensa a partir da percepção filosófica e sociológica de fenômenos culturais e políticos do mundo ocidental. Porém, com intenção de analisar os antecedentes históricos que fundamentaram tais bases teóricas, e que ainda regem os tempos atuais, serão abordadas aqui, sem entrar em pormenores e sim per summa capita, questões consideradas significativas para tal entendimento.
Transfiguração da realidade social
Como se sabe o entorno do século XV se apresenta como marco generalizado do surgimento das instituições universitárias na Europa, tendo sidas criadas e mantidas por elites que sob determinados aspectos se encontravam ligadas a algum tipo de tradição cultural ou científica, culminando no estabelecimento de valores relacionados a uma ideia de alta cultura, representada por um corpo de conhecimentos hierarquizados de caráter por assim dizer erudito. Opondo-se ao saber prático do homem comum, já no século XVI este conjunto de conhecimentos estratificados, representado em termos de classe, vai tomar corpo e se desenvolver sob uma perspectiva moralizante, tendo sempre em vista o combate à ignorância das práticas socioculturais daquele outro segmento, caracterizada como manifestações primitivas e incultas mantidas por processos tradicionais determinados no âmbito da irracionalidade. Àquele conjunto de valores relacionados como alta cultura, tornado hegemônico em seus próprios termos, o outro inverso, tido como residual, passa a conotar sentido negativo considerando ideologicamente o meio social no qual foi produzido.  Mas é a partir do século XVIII que esta divisão, em termos estruturais, vai se delimitar de forma mais explícita, tendo em vista uma série de fatores condicionantes determinados, considerando novas feições de organização da sociedade caracterizada então como independente do Estado. E é no bojo do surgimento e constituição dos estados nacionais que uma ideia de cultura oficial vai se fazer presente, forjada em valores de abrangência universal no sentido ideológico, validada em termos absolutos, considerando suas formas de expressão em relação ao seu meio social originário. Assim é que o ideal de uma cultura de caráter universal irá fundamentar a invenção da categoria de homem ilustrado do intitulado período das luzes, iluminado por sua própria significação de classe, tornado esclarecido em sua sanha contra a suposta ignorância das práticas culturais do homem comum das camadas baixas, entendendo todo o conhecimento gestado de forma não hierarquizada como de tradição inculta, expressão de irracionalidade e obscurantismo, opondo saberes diferenciados de classes sociais em termos políticos. Ocorre que, tendo em vista diferentes contextos sociais de expressão, o reconhecimento de uma cultura do homem comum, manifesta pelos próprios protagonistas responsáveis por sua própria sensibilidade, considerando os diferentes contextos sociais de manifestação, encontrou resistência nas camadas médias urbanas à época na medida em que, motivadas por um próprio sentido contrário de esclarecimento, não identificaram como válidas variadas expressões de outros tipos de saber manifestos fora de sua própria esfera de classe. Com isso, percebe-se porque os meios que impulsionaram ideais progressistas no século XVIII, com o tempo, se transformaram culturalmente em expressões de caráter totalitário e excludente, considerando pressupostos identificados com o desenvolvimento de um indivíduo, de classe, liberto de sua atribuída obscuridade, opressão e ignorância, como parte de um sistema que interliga artificialmente aspectos de natureza social às organizações políticas e econômicas, objetivados, sobretudo, para a produção tecnológica e à geração de riquezas.
Atribuída a uma revolucionária sucessão de fatos, como, por exemplo, a apropriação das ideias filosóficas e humanistas do Renascimento, o projeto da Ilustração, como se sabe, pretendeu produzir conhecimentos para além do poder monárquico e dos dogmas da Igreja, submetendo o agir humano ao conceito racional fundamentado no desenvolvimento científico e matemático. Tal projeto intentou sistematizar uma visão de mundo sob a égide de critérios próprios, tendo como objetivo libertar o homem dos dogmas religiosos e da opressão, enfatizando sua capacidade de autodeterminação. No entanto, no âmbito do desenvolvimento histórico tal ideal de emancipação, liberdade e justiça social, engendrado sob novas formas de relação, tornou-se ambíguo, objeto de uma expressão ideológica ligada a razões mercadológicas, levando a civilização a novos patamares de deterioração. E é a partir do século XVIII que a ideia de uma “cultura de abrangência universal” toma corpo, motivada por fatores determinantes como a constituição dos estados nacionais e a organização da sociedade como esfera independente do Estado, ocasionando o surgimento de um conceito estratificado entre uma cultura erudita e outra do povo, fundamentada no surgimento do “novo homem esclarecido” e tendo como característica a constante luta contra a ignorância das práticas culturais do povo. Como consequência, todo o imaginário do povo passa a conotar sentido primitivo, irracional e inculto, resíduo de uma tradição oposta ao saber hierarquizado, denominado usualmente de erudito, opondo, igualmente, saberes diferenciados.
Nos tempos atuais o projeto da Ilustração continua influenciando parte do pensamento ocidental, baseado nos “preceitos humanistas” que fundamentaram tal visão de mundo. No entanto, tem cabido à história mostrar as contradições internas existentes neste projeto, traduzido hoje em conflitos políticos e sociais, base de um modelo hegemônico de progresso econômico e tecnológico que ignora amplas camadas da sociedade, ecoando, conseqüentemente, nos ambientes culturais, significando dizer que este fato não se fundamenta em aspectos fenomenológicos, mas sim no campo das ideologias, em torno de valores éticos hegemônicos estabelecidos no âmbito da sociedade de classes. Neste contexto, a arte, também como manifestação da cultura, se resume como substrato da dominação tornada um subproduto subordinado ao valor de troca, caracterizada pela articulação estreita com os mercados, com predomínio do econômico sobre todas as formas do pensamento e da experiência vivencial. Enquanto produto pensado, criado, produzido e finalizado para os suportes físicos, a arte produzida para o mercado resume alto nível de formatação e, como decorrência, apresenta alto grau de dissociação com qualquer ambiente social e cultural, diluído num imenso mar de consumidores individuais, mantido de forma ilusória pela necessidade de novos produtos. Ainda, em termos estruturais, apresenta níveis irrisórios de conteúdo e forma, baseado em um só aspecto inerente e indissociável de sua condição: a obsolescência, estabelecida no mesmo modelo fordista do capitalismo de inícios do século XX.
A história é constitutiva: reflexões sobre fenômenos socioculturais
Como se sabe, Marx, que formula as bases críticas do desenvolvimento capitalista, em seu O Capital e Freud, que elabora os fundamentos teóricos que irão culminar na descoberta do inconsciente - apresentando a alma reprimida, a subversão da consciência humana e o homem sujeito aos seus impulsos e não à razão - foram os primeiros a identificar os fenômenos que influenciaram o pensamento contemporâneo e serviram de base para novas teorias, abrindo espaço para uma nova percepção de homem e sociedade. Assim, por meio da análise da cultura, desenvolveu-se um corpo teórico-crítico voltado para as questões éticas subjacentes ao diagnóstico de fenômenos sociais, formas da racionalidade instrumental e estruturas epistemológicas, interpretando as novas realidades surgidas com o desenvolvimento da sociedade industrial avançada. Em outras palavras, tendo como fundamento uma ideia de emancipação do homem, a crítica teórica formulada nos séculos XIX e XX é entendida hoje como uma das mais realistas e estimuladoras para a compreensão das origens da alienação das sociedades modernas e da situação de barbárie e violência que resultou em sistemas totalitários. Objetivando problematizar as questões de nosso tempo, diferentes teóricos desenvolveram um pensamento crítico sobre a especialização de saberes instrumentalizados e burocráticos, refletindo sobre as relações intrínsecas entre teoria e práxis nas sociedades contemporâneas. Ainda, se postulou sobre a incapacidade desses saberes desvinculados da práxis transformarem a sociedade, vista a impossibilidade de uma dada inter-relação entre ambos. Essa nova forma negativa de pensar o mundo teve o intuito de atuar no âmbito da formação de consciência através da crítica aos processos complexos de mercantilização da sociedade, despertando uma consciência crítica sobre as formas de subjetividade humana, incluindo a arte, que reduzida a formas de dominação se tornou dependente da ordem econômica.
Sobre a questão da hegemonia econômica e do domínio das leis de mercado, entende-se que através da radicalização de ideias globais a sociedade atual se beneficia com a técnica e com a tecnologia, mas perde em experiência humana. Por conseguinte, as técnicas de reprodução ao visarem à produção em série e a homogeneização, sacrificam a distinção entre o caráter da própria obra de arte e o sistema social, passando a exercer imenso poder sobre a sociedade. Em decorrência, a racionalidade da técnica identifica-se com a racionalidade da própria dominação. Como consequência, a política, a ética e, sobretudo, a arte subordina-se à economia de mercado, que passa a produzir suas próprias necessidades, produzindo para lucrar e lucrando para produzir, fechando um ciclo que não permite qualquer tipo diferente de relação com a sociedade. No campo da arte, a reprodução em massa de produtos é o exemplo mais destacado de tal relação, desvirtuando o próprio sentido de unicidade que caracteriza a obra de arte em nome de simples simulacros tecnológicos sobrevalorizados em termos quantitativos para uma sociedade igualmente quantificada. Nesse sentido, sem ignorar a importância dos recursos tecnológicos de reprodução para o atendimento das demandas da vida moderna, há que se lembrar das implicações éticas resultantes da exacerbação desse processo que se estabelece via a criação de necessidades, construindo uma concepção aparente de realidade, devidamente estetizada. Tendo em vista o quadro estabelecido no âmbito das relações sociais e culturais na contemporaneidade, os vínculos intrínsecos entre arte e mercado regidos pelos fatores econômicos e a primazia dos meios em detrimento dos fins, necessário se faz valorizar a influência que a arte e a cultura exercem sobre os grupos humanos enquanto seres coletivos, e sobre o homem, como indivíduo, entendendo que arte e cultura, diferentemente de produtos, operam somente no âmbito da busca, da tentativa de criar, no plano simbólico, novas formas de articulação da realidade. Sendo assim, é mister resistir a uma cultura vigente entendida como a responsável pela promoção de um ideal de felicidade universal, fruto da evolução e do progresso lógico que promete organizar a sociedade em novos termos, valorizando uma forma de tecnicismo que apoiada em uma razão lógica e sob o pretexto de uma neutralidade científica se distancia dos interesses humanos e das urgentes e reais necessidades da vida.
Não coincidentemente, o mundo contemporâneo, como é sabido, criou uma ideia de democracia baseada na possibilidade do acesso a uma totalidade de bens de consumo através da produção em massa, sendo esta ideia supostamente capaz de construir uma sociedade igualitária. Por sua vez, tal possibilidade de consumo se viabiliza por meio de procedimentos igualmente massivos de propaganda que abarca tudo o que respeita também à subjetividade humana, incluindo a arte, que passa a lidar com um sistema de massificação e intricados mecanismos pelos quais a publicidade atua como elemento propulsor de estetização da realidade.
Conclusão
Entende-se, pois, que as circunstâncias que determinam a implementação de mudanças culturais via sofisticação tecnológica têm dificultado a compreensão das relações entre arte e sociedade, o que significa dizer que tal discussão, hoje, assume contornos mais amplos, considerando a falência de todos os sistemas que entendem o mundo e a sociedade como uma totalidade coerente. Considerando ainda que a hegemonia do universo tecnológico nas sociedades contemporâneas determina modos diversos de apreensão da realidade, obrigatório se faz uma reflexão de sentido necessariamente social acerca da relação entre este universo e a cultura, entendendo que a tecnologia, enquanto um meio, não dá conta por si só de elaborar novas formas de subjetividade e que somente o pensamento crítico pode contribuir para o processo de emancipação dos indivíduos em uma perspectiva social realista.
Não por outra, a questão da arte hoje determina a necessidade de uma reflexão acerca do que pode resultar do encontro acrítico entre cultura e tecnologia, do poder absoluto de um “meio” em detrimento das formas tradicionais de dimensão humana, ou seja, da experiência vivida. Assim é que, para o entendimento da questão, necessária se faz a utilização de um novo instrumental teórico, objetivando ir além de simples aspectos terminológicos de classe, que tendem a resumir e igualar diferenças. Em suma, ratificando a necessária e evidente importância da tecnologia para a vida contemporânea, pensada como base para a superação do estado de alienação do homem moderno, fruto das enormes desigualdades sociais que ainda hoje persistem, necessário se faz o estabelecimento de novas relações modelares, redimensionando valores hegemônicos num plano crítico e mais amplo de natureza ética, evocando, em termos de realização plena, os antigos ideais de liberté et igualité apenas enunciados pelo projeto da Ilustração.
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