Subjetividade e objetividade em Lukács – apontamentos

 
Fabiano Vale
Universidade de Brasília – UnB)
fabianocostavale@gmail.com
 
Este artigo procura tratar da relação entre subjetividade e objetividade em Lukács. Para este autor, os dois termos relacionam-se com um projeto ético-político de homem, que põe em evidência questões como categorias filosóficas, realismo e história.
O ponto de partida será as anotações realizadas durante o curso oferecido pelo professor Hermenegildo Bastos: História, ficção e mimese, na Universidade de Brasília (UnB), bem como da leitura de Estética I La peculiaridad de lo estético 2. Problemas de la mímesis,de Lukács, dentre outras obras deste mesmo autor.
Há que se reconhecer as limitações de conteúdo e de forma deste texto. Sua principal função é o de realizar breves apontamentos sobre os conceitos de subjetividade o objetividade, comentar a respeito da possibilidade de um projeto ético-político presente na obra lukacsiana e discutir as questões proposta no curso ora mencionado, bem como acerca de algumas categorias filosóficas. A forma de um artigo parece-me conveniente para tal empreendimento, mesmo sabendo-se do risco que este corre em ser entendido como uma vulgata das ideias lukacsianas e do próprio marxismo.
Tecidas estas considerações iniciais, comecemos. Lukács é considerado um dos autores centrais daquilo que se denominou marxismo ocidental. No núcleo das discussões, a crítica que se fazia aos então marxismos produzidos na União Soviética e leste europeu, bem como a influência das ciências positivas neles. Além dessas questões, e somando-se a elas, uma outra interessará muito ao autor húngaro. O tema da sensação, o que posteriormente Lukács definirá como vida cotidiana.
Boa parte dos autores marxistas ocuparam-se de tais temas e amplas foram as tentativas de respondê-los. E Lukács está na origem de todas estas discussões. Da mesma forma, os seus inúmeros escritos e obras, principalmente os do período conhecido como o de sua maturidade. São deste momento O Romance histórico (2011)e Estética (1966).
Sendo assim, Lukács (1966) pensará em uma arte que seja também uma maneira do homem relacionar-se com a vida objetiva, do mesmo modo que o é outras formas de apropriação da realidade, como a ciência e a própria vida cotidiana. Mais adiante serão melhor delineadas essas formas de objetivação da natureza.
Voltando à questão do mundo objetivo, há que se esclarecer que, para o marxismo histórico-dialético, o mundo objetivo existe independentemente da consciência do homem. Lênin faz uma reflexão a respeito:
O materialismo admite de uma maneira geral que o ser real objetivo (a matéria) é independente da consciência, das sensações, da experiência humana. O materialismo histórico admite que a existência social é independente da consciência social da humanidade. A consciência é só, aqui e ali, o reflexo do ser, no melhor dos casos um reflexo aproximadamente exato (adequado, de uma precisão ideal). Não se pode suprimir nenhum princípio fundamental, nenhuma parte essencial desta filosofia do marxismo fundida num só bloco de aço, sem se afastar da verdade objetiva, sem cair na mentira burguesa reacionária (Lénine, 1975: 294).
A independência da realidade frente à consciência humana impõe alguns conceitos de natureza ontológica. O primeiro é o de “ser-em-si”, significando o próprio mundo objetivo; é imediato. O segundo diz respeito ao “ser-para-si”, relacionado ao universo das ações, bem como das práticas humanas; é um “para-nós” que é um “em-si”, envolvendo a consciência. E o terceiro é “ser-para-nós”; é o “em-si” adequado às necessidades humanas (Lukács, Estética, Tomo III).
Portanto, colocam-se questões tanto epistemológicas bem como ontológicas. Nesta relação recíproca de formação e existência, o homem, ao constituir a natureza como objeto, constitui-se como sujeito ao mesmo tempo. Daí não ser possível, dentro das análises e reflexões de Marx, Lukács e Lênin a separação entre sujeito e objeto, entre “existência social” e “consciência social”.
E essa relação é tão decisiva para o homem, pois a consciência é reflexo exato do ser, este constituído na interação com o mundo objetivo, que acaba tornando-se fator de diferenciação entre seres humanos e animais. Estes, por exemplo, na sua relação com a natureza, apenas se adaptam a ela. Não a constituem como objeto. Já o contrário ocorre com o homem. Pois, com o seu trabalho, transforma a natureza para que ela se adeque às suas necessidades, dominando-a. Dessa forma, o homem planeja suas ações para práticas futuras (Marx, 2007).
O mundo real objetivo pressupõe não apenas ou somente a natureza. Ele pressupõe também a sociedade. Portanto, o que se denomina objetivamente como “matéria” também é uma categoria social, pois depende da divisão social do trabalho. Uma vez que trabalho é ação humana sobre o mundo e a natureza. Constituição intrínseca de sujeito (homem, social) e objeto (sociedade, natureza).
A partir desta relação podemos afirmar que, de todos os seres que existem, o homem é o único que é social. Prova disso é que, em tempos imemoriais, o que importava não era o indivíduo, como atualmente é bastante comum, mas o grupo, a coletividade. A comunidade era um meio de se apropriar e de se defender dos desafios impostos pela natureza.
Como já foi mencionado anteriormente, o mundo cotidiano e a ciência são outras maneiras de o homem se apropriar da natureza. Portanto, reflexos. Refletir quer dizer agir sobre. No entanto, este agir sobre guarda distinções. Principalmente, com relação à essência e à aparência. No reflexo cotidiano, não há indistinção entre fenômeno e a aparência, entre aquilo que é essencial e o aparente. Curioso é que o fetichismo aparece como uma relação entre coisas, mas, na verdade, é uma relação que essencialmente é entre pessoas. Já o reflexo científico caracteriza-se pelo seu aspecto desantropomorfizador. Em sua essência, depura o objeto estético de toda subjetividade.
Diferentemente desses outros dois processos é o reflexo estético. Nele, sujeito e objeto se identificam. Isso acarreta uma amplificação da subjetividade. Nesse sentido, ao pôr a subjetividade no centro essencial de seu processo, o reflexo estético é tido como antropomorfizador. Sendo assim, as obras de arte vão se constituir como um tipo específico de reflexo, em que o mundo da obra é uma nova imediatez, cujo movimento é o de uma singularidade que caminha para uma universalidade.
Temos aqui um centro, definido como um movimento que vai do singular ao geral e vice-versa. Este permite que eus se comuniquem, se identifiquem. Porém, este movimento possui um certa particularidade. Nele, a subjetividade que antes era particular passa a ser, ou transforma-se, numa subjetividade estética. No entanto, essa subjetividade estética não anula a singular, conserva-a.
Para que esse processo ocorra, do singular para o geral, faz-se necessário uma transformação, uma tomada de consciência. Movimento que parte do ser-em-si para o ser-para-si. Massa, no capitalismo, por exemplo, transformam-se em trabalhadores, que passam a ter interesses comuns, tornando-se classe, para-si, agora com autoconsciência. Outro exemplo é o que acontece com a catarse, em que o leitor/receptor toma autoconsciência de sua humanidade, experimentando um momento para-si. Nesse sentido, o homem, na relação em-si de causa/efeito da natureza, irá interpor a necessidade.
É nesse sentido que a obra de arte se estabelece como ente para-si. Para-si também é particularidade. A obra de arte é autoconsciência da humanidade; é memória dela, de acordo com Lukács (1966). Por isso, segundo o autor húngaro, a obra de arte é perfeita. Nela percebe-se o todo, tem-se uma sensação de completude; percebe-se na aparência a essência; a coincidência entre o interno com o externo. Algo que conduz às categorias estéticas.
Por ser a obra de arte memória e perfeição, aqui se coloca o conceito de totalidade e a perspectiva particular do realismo na teoria estética lukacsiana.  Ser realista é captar o mundo em sua totalidade, perceber a relação entre sujeito e objeto, distinguir entre o essencial e o aparencial. Em suma, é desfetichizar as relações humanas. E, em função disso, na obra lukasciana há alguma coisa que subjaz o problema da totalidade e da narração. E daí o conceito de realismo.
No mudo burguês, a arte realista encontra cada vez mais dificuldade, uma vez que a totalidade está indisponível, pois as coisas perdem a qualidade e passam a ser quantidade. Por isso o capitalismo é hostil a arte, uma vez que ele é a metafísica da quantidade. Deixa-se de perceber a relação entre subjetividade e objetividade, ou seja, a totalidade. O romance é o meio para se chegar a ela. Disso decorrem o papel e a função da arte que é o de estabelecer a memória do trabalho livre, a qualidade em detrimento da quantidade.
E por que a totalidade não está mais imanente no mundo burguês capitalista? A razão reside justamente nas novas relações de trabalho, que separam sujeito e objeto. Mas a obra literária vai de encontro a isso, captando então a totalidade. Que, de acordo com Lukács, não pode ser entendida, apenas narrada. Este foi o fio condutor de sua obra, especialmente nas “Estéticas”, onde ele foi sistemático.
Nesse sentido, no capítulo 10, VI “Rasgo generales de la relacion sujeto-objeto”, da Estética 2 Problemas de la mímesis, vemos com força a discussão acerca da relação entre sujeito e objeto e do poder transformador e desfetichizador do reflexo estético e da obra de arte, especificamente. Como escreve Lukács: “La creación artística es a la vez descubrimiento del núcleo de la vida y crítica de la vida”.
Este “descubrimento” da criação artística leva a outros que, por sua vez, objetivam-se em questões presentes no todo da obra lukacsiana. Um deles é a derrocada ideológica de uma classe, que consiste justamente no abalo da relação sujeito-objeto. Tal perturbação, nos dizeres de Lukács, conduziria a “falso subjetivismo y un objetivismo no menos falso” (Lukács, 1966: 465).
Nesse trecho encontram-se pontos que, por assim dizer, resumem a obra de Lukács: teoria dos reflexos, realismo e história, subjetividade e objetividade. Tais temas estão presentes e discutidos com maior força em alguns livros, tais como Lênin, El assalto a la razón, Estética, Romance histórico etc. Estes livros foram escritos em um momento ímpar tanto da vida de Lukács quanto da história geral. Em cena, as revoluções (condições objetivas), transformação e consciência do homem, e também a ascensão de regimes autoritários de direita (falsos subjetivismos). Temas ora tratados diretamente ou indiretamente nos ensaios do autor.
 Então, primeiramente os reflexos. Eles surgem da necessidade de se conhecer a realidade um nível acima da cotidianidade, como já foi aqui mencionado. Esta necessidade decorre das exigências da própria vida cotidiana e do trabalho. Portanto, são objetivações humanas do mundo. Dentre os reflexos cotidiano, científico e artístico, este ganha especial atenção por ser “núcleo da vida”, uma vez que enfatiza a subjetividade humana geral, diferentemente dos outros reflexos. Ao fazer isso, privilegiar a subjetividade em detrimento da objetividade (reflexo científico), o reflexo artístico torna-se crítica da mesma vida que é núcleo.
Nesse sentido, a arte é antropomorfizadora, pois coloca a subjetividade em relevância, enquanto a ciência é desentropomorfizadora, uma vez que requer o máximo de objetivação e anulação ao máximo da presença de um sujeito. Em suma, a desentropomorfização da vida leva a sua reificação, pois separa sujeito e objeto de sua interação recíproca e constituinte.
Mas o que vem a ser “núcleo”? É aquilo capaz de refletir adequadamente o mundo. Não existe conteúdo que não seja informado, ou seja, possua uma forma objetiva. Por exemplo, quando se lê um romance, não se leva em consideração apenas a forma literária, mas também a sociedade como forma. Conformação imediata que rompe com essa outra forma. Nesse sentido, pode-se entender como realismo um conteúdo que já é informado.
Ao dar reflexo adequado ao mundo, a arte aparece como força crítica da vida. E isso acontece em momentos específicos da história. Principalmente naqueles em que uma classe está em decadência. Nesse momento, a unidade do homem não é percebida. Perturba-se, pois, a relação sujeito-objeto. É aí mesmo na vida que se dá a mudança (falsos objetivismos, falsos subjetivismos).
Um outro fator relacionado ao caráter transformador e crítico da arte reside na duplicidade do sujeito estético, constituído pelas duas categorias do ser-em-si e do ser-para-si, em que o ser-em-si refere-se ao mundo objetivo e o ser-para-si liga-se às ações e às práticas. Isso envolve aspectos da criação artísticas e da subjetividade.
Quando alguém faz uma obra de arte, o que importa não é a subjetividade particular, individual, o fulano ou o ciclano que faz alguma coisa, mas a artística (estética). O autor português Fernando Pessoa, por exemplo, transformou isso em princípio de criação, ou seja, em despersonalização em seu trabalho poético. O desenvolvimento da personalidade humana acontece quando um indivíduo supera, ou transforma, sua subjetividade particular.
Estas questões envolvem, ou conduzem, ao conceito cunhado por Lukács de “retrocaptación”, significando o distanciamento e a volta à vida cotidiana. Coloca-se aqui duas dimensões da arte: uma ética e outra estética. A primeira concerne-se à vida prática, das ações. Já a segunda, à vida contemporânea, ao mundo objetivo. Portanto, há uma dimensão ética na estética.
Na relação sujeito-objeto, subjetividade-objetividade, tem-se o reflexo (algo que é aristotélico em sua base), alguém que reflete (subjetividade) e algo refletido. Quem reflete é o que importa no final das contas, pois é isso que amplifica a subjetividade. No entanto, isso não anula a individualidade do escritor. Do ponto de vista dialético, ela ainda está presente na obra. Só que de uma outra maneira, com outro objetivo. Por exemplo, para Sartre, a personalidade de Flaubert dá a ver toda a produção literária moderna.
A leitura, sendo assim, consiste na soma da substancialidade do escritor e do leitor.  Na relação entre substancialidade e núcleo, o reflexo estético realiza a mediação necessária para a transformação. O que temos na obra de arte não é mais o homem inteiro, mas inteiramente, convertido pela experiência estética. Dessa forma, voltamos a questão de ser o núcleo capaz de refletir adequadamente o mundo.
Até aqui falou-se sobre a teoria dos reflexos e, especialmente, do reflexo estético, cuja particularidade é pôr em evidência a subjetividade na reflexão adequado da natureza. Para Lukács chegar nessa teoria dos reflexos, foi necessário lançar mão de toda uma tradição filosófica, desde Aristóteles até Hegel. Principalmente aquelas relacionadas às categorias de pensamento. Cabe aqui fazer um breve apanhado de tais mudanças no cenários da filosofia, pois são essenciais para o entendimento da transformação do homem, bem como da missão desfetichizadora da arte.
Dentro da tradição filosófica observa-se uma mudança nas ditas “categorias filosóficas”. As lógicas ou gnosiológicas, ligadas a toda teoria desenvolvida por Kant, viam a existência humana no plano do pensamento. Posteriormente, estas categorias passaram a ser entendidas como categorias da existência humana ou ontológicas, em que particularidade, singularidade e generalidade existem no mundo real, não mais nas ideias. Importante salientar que essa quinada na filosofia foi inicia por Hegel e finalizada por Marx.
A vida interior é muitas vezes tida como algo que independe de fatores externos. Seu desenvolvimento tem mais a ver com questões de ordem pessoal, individual. No entanto, esta vida interior, ou melhor, subjetividade, é histórica, uma vez que é produzida. Daí ela ser sobretudo econômica. Economia, dentro da perspectiva marxista, consiste na relação homem-natureza. Indivíduo hoje também é histórico, resultado de um longo processo que durou mais ou menos 40 mil anos. Esse processo se radicalizou nos últimos seis séculos da chegada da burguesia ao poder.
Contraditoriamente, o indivíduo sempre foi posto como o projeto de realização humana plena. Inclusive, surgido no conjunto de ideais emancipatórios da revolução burguesa. No entanto, hoje o indivíduo tende cada vez mais a desaparecer ante toda a uniformização presente.
A padronização tem um significado que consiste na relação entre indivíduos está permeada por mediações, ou seja, por singularidades (determinações). Estas determinações tem de ser reconhecidas pelos indivíduos para que a relação aconteça. Trata-se de uma questão própria do conhecimento.
Segundo Hegel (1969), primeiro você reconhece para depois conhecer. São operações que implicam a própria sobrevivência da humanidade. Existiam mesmo antes que o homem pudesse estudá-las. Somente na Grécia da antiguidade é que surgem tais condições para isso.
Em seus estudos sobre o conhecimento, Hegel trouxe a ideia de que o geral está no singular e vice-versa. Trata-se de uma questão não puramente lógica, mas política. Em cada ser humano está o homem inteiro. Para reconhecer tal dialética, faz-se necessário lançar mão das inúmeras mediações, que serão chamadas aqui de particularidades.
Retomemos a questão do realismo. O realismo é a narrativa que faz as conexões (particularidades). Para se fazer essas conexões tem de se ter uma percepção treinada. Nós não costumamos fazer conexões. A obra de arte literária não é só um meio sofisticado de técnica artística, mas um meio sofisticado de se fazer conexões.
Na vida cotidiana não se percebe facilmente a particularidade. Na relação singular-particularidade-generalidade, na estética, a particularidade é central. O movimento que parte do singular para o geral e vice-versa é mais forte na obra de arte que na vida humana.
Por isso Lukács aponta o caráter de perfeição da arte, uma vez que instaura o sentido de completude. Esta percepção, numa obra de arte é mais comum. Por exemplo, em literatura, quando um personagem reconhece-se a si mesmo. Raramente tal reconhecimento ocorre na vida cotidiana.
Em suma, o problema do conhecimento dispôs, dentro das tradições filosóficas, as questões da particularidade, singularidade e generalidade e de suas ligações com a arte. Algo que não é recente, pois o homem sempre procurou entender o movimento do singular ao geral. Isso foi realizado historicamente mediante o trabalho e a linguagem.
À medida que o trabalho e a linguagem desenvolvem-se, os sentidos também se especializam. Visto que eles igualmente têm história, na arte dispõe-se a ideia certeza sensível, significando a nuance de perceber singularidades por meio dos sentidos.
A linguagem é uma forma de generalização. O que faz o poeta com relação à linguagem? O poeta descobre as particularidades da linguagem. Nesse sentido, a poesia, por ser a conformação artística da unidade trabalho-linguagem, é capaz de revelar a humanidade do homem, desfetichizando as relações e mostrando a unidade entre sujeito e objeto.
Dessa maneira, a arte poética carrega em si aquilo que se poderia entender como totalidade intensiva. Por exemplo, um simples verso pode conter toda a totalidade e a humanidade do homem. Isto é, um corte de vida artisticamente conformado.
Em suma, a particularidade oferece um processo infinito de aproximações (mediações). Lukács comenta a questão do método em Marx, que justamente faz isso: parte do singular para o geral, e do geral para o singular. Para Marx o concreto é concreto porque ela faz parte de um conjunto de mediações. Ele não é ponto de partida, que sempre ocorre a partir de uma abstração.
Como se observou, as categorias de singularidade, particularidade e universalidade fazem parte de um logo processo de evolução. O desenvolvimento da linguagem e do trabalho (objetivações) neste processo é central.  E como a arte é linguagem e trabalho ao mesmo, as categorias ora apontadas refletem este processo.
Por conseguinte, para ilustrar a importância destes conceitos numa teoria estética e política, basta considerar as questões de tipo, estereótipo, indivíduo e gênero.  Em literatura, “tipo” é uma personagem que é singular, mas também geral. Já o estereótipo pode ser uma forma de se esconder a particularidade (singularidade). Talvez a relevância da arte seja fazer com que o leitor se sinta um indivíduo e pertença ao gênero humano.
Uma importância não só estética, mas também ética e, por sua vez política. Que passa por outras duas categorias de igual monta: aparência e essência. Para Lukács, a grande forma de filosofia seria a clássica, pois esta é capaz de diferir entre essência e aparência.
Crucial a distinção entre ambas na atualidade, uma vez que aparência se torna verdade (essência) na nossa vida cotidiana, política etc.  E aqui a arte se coloca como paradigma do trabalho livre, visto que, por meio dela, pode-se chegar a essência, pois dá uma outra perspectiva de ver o mundo.
Ainda mais que o mundo do homem cotidiano é o mundo do homem escravizado. Algo situado historicamente. O capitalismo inaugura uma nova relação de trabalho, com forte conexão com o trabalho estranhado, alheio. Pela arte, o homem toma conhecimento de que ele é livre. A arte é o tipo de trabalho que não é alienado.
Cabe assinalar uma contradição. Ao mesmo tempo que, por um lado, a burguesia quebra uma série de misticismos feudais, por outro cria o maior dos fetichismos: a mercadoria. No mundo fetichizado da mercadoria não se pode perceber ao certo o que é aparente e o que é essencial. Aqui entra a arte com sua missão desfetichizadora, cuja fundamento está na catarse.
Pode-se empregar o termo catarse para indicar a passagem do momento meramente econômico (ou egoístico-passional) para o momento ético-político, ou seja, a elaboração superior da estrutura em superestrutura na consciência dos homens. Isso significa, também, a passagem do 'objetivo ao subjetivo'. A estrutura, a força exterior que esmaga o homem, que o assimila a si, que o torna passivo, transforma-se em meio de liberdade, em instrumento para criar uma nova forma ético- política, em origem de novas iniciativas (Gramsci, 2006: 314-5).
A palavra catarse aparece oito vezes nos cadernos de Gramsci. O termo é o ponto de partida de toda a filosofia da práxis. Assinala e significa a passagem do meramente econômico para o ético-político, da estrutura para a superestrutura, do objetivo para o subjetivo. No entanto, para Gramsci, essa passagem só se efetiva mediante um projeto consensual entre as classes.
O momento catártico de Gramsci e de Lukacs são bastante semelhantes sob o ponto de vista da mudança, da transformação e da questão de classe. Talvez o motivo desses dois autores serem tão análogos com relação ao pensamento decorra do fato de serem pertencentes à corrente do marxismo ocidental.
Gramsci e Lukács viam, por exemplo, a necessidade de acentuar a diferença entre classe economicamente dominante e classe dirigente. Gramsci está pensando no proletariado quando ele vir a ser classe hegemônica. Uma classe torna-se dirigente ao fazer uma revolução cultural. Daí então ela tem o poder ético-político.
Observa-se uma operação da classe em si para classe para si. Esta passagem é realizada pelos intelectuais. Segundo Gramsci, cada classe produz os seus intelectuais. Ou seja, os seus dirigentes políticos.
A afinidade entre estes dois pensadores é tanta que, para Lukács, catarse significa:
(…) la trasformación del hombre entero en un hombre enteramente orientado a la universidad de un medio homogéneo. El contenido humano de esa trasformación puede formularse diciendo que el hombre se aleja del contexto inmediato y mediado de la vida (…), se desprende de él para orientarse temporal y exclusivamente a la contemplación de un concreto aspecto vital que refigura el mundo como tatalidad intensiva de las determinaciones decisivas que se ofrecen desde una cierta perspectiva (Lukács, 1966: 501)
Um projeto ético-político figura-se da mesma forma que o gramsciniano.  Por conseguinte, a catarse é um processo que leva o leitor da sua condição de subjetividade particular para a subjetividade estética; do reflexo cotidiano ao estético; da condição de homem inteiro para inteiramente. É um tipo de leitura que coloca o homem ao nível da obra de arte.
La trasformación del hombre entero de la cotidianidad en el hombre enteramente tomado que es el receptor en cada caso, ante cada concreta obra de arte, se mueve precisamente en la dirección de una tal catarsis, extremadamente individualizada y, a la vez, de suma generalidad (Idem).
Então, o homem retorna transformado. A natureza dessa transformação é ética e política. Quando se fala em ética, fala-se em ações humanas (econômicas, políticas, sociais, culturais etc.). Portanto, também política. Nesse sentido, é possível extrapolar a estética para uma dimensão política, ou ética? Isso desde que o homem rompa o mundo da aparência e da fantasmagoria. Entenda a verdade de que as relações que se mostram no mundo fetichizado como aparentemente entre coisas, na verdade, é entre seres humanos. A arte repõe essa verdade. Daí a sua missão desfetchizadora.
Para que a arte cumpra esta missão, ela tem de ser inútil; paradigma do trabalho livre. No mundo do trabalho estranhado, a arte é nostalgia do trabalho livre e ao mesmo tempo garantia de alguma coisa que pode vir.
Coloca-se aqui as questões pertinentes ao realismo e ao papel da obra de arte. Sendo assim, o realismo é um ideal de capitação da totalidade. E a obra é capaz de captar essa totalidade em um simples verso, frase. Em suma, isso é ser realista; realista é a obra de arte que se abre para as questões de seu tempo.
Isso ocorre por que na arte predomina a subjetividade estética. Por isso ela é capaz de falar da humanidade. A arte é consciência de si da humanidade. É o momento em que ela reflete sobre o destino da humanidade. Pelo mesmo motivo, aproximamo-nos dela. A verdade só pode ser narrada. Nesse sentido, a ontologia do ser social consiste numa dialética do humano e do gênero. Após a catarse, o leitor não se percebe mais isolado, mas conectado com os demais. Aqui entramos em ponto no qual efeito estético e relevância humana da obra literária se articulam.
Saindo da arte e voltando para a política, poderíamos entender o caráter desta mudança do singular para o universal como pertinente ao grupo ou à classe social? Classe e gênero são conceitos que, no momento revolucionário, podem se confundir. Sujeito da história é a classe, ou conjunto, lidera uma mudança na história. Em O Romance Histórico, Lukács diz que a Revolução Francesa trouxe uma nova consciência e que a história se move:
Primeiro foi a Revolução Francesa, as guerras revolucionárias, a ascensão e a queda de Napoleão que fizeram da história uma experiência das massas, e escala européia. Entre 1789 e 1814, as nações europeias viveram mais revoluções que em século inteiros. E a celeridade das mudanças confere as revoluções um caráter qualitativamente especial, apaga nas massas a impressão de “acontecimento natural”, torna o caráter histórico das revoluções muito mais visível do que costuma ocorrer em casos isolados (Lukács, 1966: 2011).
Surge uma nova situação histórica que propicia às massas consciência e percepção dos eventos históricos. Ao tomarem conhecimento de si, passam a se reconhecerem também como protagonistas da história. Opera-se a passagem do ser-em-si para o ser-para-si como classe. Noutras palavras, a Revolução Francesa cria condições objetivas para o desenvolvimento de uma certa subjetividade nas massas.
Uma classe para ser sujeito da história tem de ser hegemônica. O que é central em Gramsci e Lukács é questão da luta de classe. E questões a ela relacionadas como tese, antítese e síntese. Há momentos em que a antítese é neutralizada de tal maneira que a síntese é a vitória da tese.
Estes foram os apontamentos que tentei esboçar sobre a monumental teoria lukacsiana, centrada em temas pertinentes ao realismo, papel da obra de arte, capitação da totalidade, subjetividade estética e reflexo do mundo objetivo. Temas que necessariamente articulam teoria e práxis, estética e ética, sujeito e objeto.
Referências bibliográficas
 
Engels, Friedrich; Marx, Karl, A ideologia alemã. Prefácio: Emir Sader; Trad.: Luciano Cavini Martorano, Nélio Schneider, Rubens Enderle. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.
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Hegel, G.W.F, Ciência de la Lógica. Trad. Rodolfo Mondolfo. Buenos Aires: Solar S.A./Hachette, S.A., 1969.
Lénine, Vladimir Ilitch, Materialismo e empiriocriticismo: novas críticas sobre uma filosofia reaccionária. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1975.
Gramsci,Antonio, Cadernos do Cárcere. 4. ed. Edição e tradução: Carlos Nelson Coutinho; co-edição: Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
Lukács, Georg, El asalto a la razón: la trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. Traducción de Wenceslao Roces. México-Bueno Aires: Fondo de Cultura Económica, 1959.
–, Estética I La peculiaridad de lo estético 1. Cuestiones preliminares y de principio. Trad. Manuel Sacristán. Ediciones Griralbo S. A., Barcelona-México, D. F., 1966.
–, O romance histórico. Tradução: Rubens Enderle; apresentação de Arlenice Almeida da Silva. São Paulo: Boitempo, 2011.
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Ginzburg, Jaime, Literatura e autoritarismo em Georg Lukács. En: Revista Brasileira de Literatura Comparada, Belo Horizonte, v. 6, n. 1, p. 151-"C, 2002.