Muito além dos 90 minutos": torcidas organizadas e violência no município de Natal/RN

 
Jéssica de Morais Costa
(Centro de Referência em Direitos Humanos – CRDH)
Jessica_morais3@hotmail.com
Luana Isabelle Cabral dos Santos
(Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
luanaicsantos@gmail.com
 
Introdução
É bastante notável no município de Natal/RN a violência e a rivalidade entre as torcidas organizadas de futebol, por existir uma presença forte e bem definida de dois grupos, a Gang Alvinegra e a Máfia Vermelha que se referem respectivamente aos times ABC e América Futebol Clube.
O que se observa por meio de noticiários, jornais e redes sociais é que a violência entre as torcidas não se restringe a agressões verbais, aos conflitos existentes nos estádios, e que tampouco as manifestações de violência são restritas aos dias de jogos. A violência entre as torcidas sai do momento da partida de futebol e adentra no dia-a-dia de seus torcedores afiliados. As suas expressões variam desde palavras ofensivas até o homicídio de alguns participantes do grupo rival, com objetivo de demonstrar o poder de uma torcida sobre a outra.
Desta forma, o interesse pelo estudo de torcidas organizadas de futebol é resultado de reflexões acerca do grande número de acontecimentos registrados na mídia, envolvendo conflitos entre membros de torcidas organizadas e a presença de integrantes adolescentes neles. Assim, surgiram alguns questionamentos e inquietações: como justificar determinados comportamentos violentos que os adolescentes têm quando participam desses grupos? Esses comportamentos são consequência dos grupos nos quais estão inseridos? A violência é essencial para existência das torcidas organizadas de futebol?
Tais questionamentos são reflexo de uma realidade preocupante. O caráter violento das torcidas organizadas de futebol não atinge somente a elas, enquanto grupo, ou à polícia, enquanto agente de controle da ordem social de forma direta. Trata-se de um problema que atinge a sociedade como um todo e que, portanto, necessita de uma discussão mais ampla.
Nesse sentido, buscamos explicitar a compreensão do fenômeno da violência reproduzida nas torcidas organizadas, atentando para as diversas manifestações desta. Foram realizadas observação e entrevistas semiestruturadas com sete adolescentes participantes da Garra Alvinegra e Máfia Vermelha e com os diretores das referidas torcidas. Vale ressaltar que, para preservar a identidade dos sujeitos entrevistados, não serão citados os verdadeiros nomes e por isso utilizaremos nomes de jogadores famosos que participam ou já participaram da Seleção Brasileira de Futebol.
Para este estudo, utilizou-se a metodologia da pesquisa qualitativa por esta possibilitar uma compreensão do fenômeno a partir da subjetividade dos sujeitos pesquisados. Foram observados comportamentos, falas, gestos e experiências vivenciadas pelos participantes da pesquisa, a fim de analisarmos e interpretarmos o conjunto de opiniões (sejam elas homogêneas ou diversas) e representações sociais sobre o tema pesquisado, articulando o material coletado aos propósitos da pesquisa (Gomes, 2011).
 
1.                  PARA ALÉM DO JOGO: O PLACAR DA VIOLÊNCIA
A violência é um fenômeno cultural e social que sempre esteve presente nas sociedades. Ela surgiu concomitantemente ao aparecimento dos seres humanos e está presente nas mais variadas formas de sociabilidade, de forma independente do gênero, faixa etária, raça, cor, etnia, religião, classe social, entre outros aspectos. A formação sócio-histórica do Brasil, por exemplo, teve seu início fortemente marcado pela presença da violência: na colonização, exploração e escravização dos povos indígenas e africanos, bem como a catequização como forma de imposição religiosa. Trata-se de um aspecto que marcou a época do Brasil Colônia e continua atual, tomando diversas nuances ao longo do tempo. 
De acordo com o desenvolvimento das sociedades e do próprio indivíduo como sujeito ativo e passivo desse processo, a violência é ressignificada historicamente, adaptando-se aos aspectos sócio-históricos, culturais e econômicos de cada localidade. Assim sendo,
O fenômeno já não se manifesta como uma condição básica da sobrevivência humana diante de um mundo natural hostil, entretanto, através desse homem, sujeito da história, a violência ganhou novos contornos, evoluiu, aprimorou-se em seus artefatos tecnológicos e passa a determinar a forma pela qual algumas sociedades, ou parte delas, organizaram sua vida (Mendes, 2003: 89).
Podemos perceber que os homens e mulheres em nosso tempo não precisam, salvo em algumas situações específicas, da violência para sobreviver. Entretanto, os seres humanos, enquanto pertencentes ao mundo animal, possuem um caráter agressivo na sua constituição. Essa agressividade inerente, associada a sua capacidade de pensar e planejar suas ações, ou seja, sua capacidade teleológica, faz com que o homem consiga dar novos significados à violência e aprimorar os instrumentos que ajudam a difundi-la. A partir do momento em que há a imposição de vontade, desejo ou projeto de um sujeito sobre o outro, havendo também uma diferenciação de força entre as partes, em que os mais favorecidos física, econômica ou socialmente, dominam os mais fracos, a violência se constitui em uma relação de poder e dominação (Mendes, 2003: 90).
Podemos perceber, então, que existe uma relação entre força e violência, na qual, de acordo com as contribuições de Alba Zaluar,
[...] esta força torna-se violência quando ultrapassa um limite ou perturba acordos tácitos e regras que ordenam relações, adquirindo carga negativa ou maléfica. É, portanto, a percepção do limite e da perturbação (e do sofrimento que provoca) que vai caracterizar um ato como violento, percepção esta que varia cultural e historicamente. As sensibilidades mais ou menos aguçadas para o excesso no uso da força corporal ou de um instrumento de força, o conhecimento maior ou menor dos seus efeitos maléficos, seja em termos do sofrimento pessoal ou dos prejuízos à coletividade, dão o sentido e o foco para a ação violenta (Zaluar, 2003: 08).
Por isso, entender as expressões da violência significa ir além daquilo que está aparentemente visível. É compreender os aspectos culturais e históricos que estão enraizados nas suas expressões. Nesse sentido, por possuir muitos determinantes, torna-se um desafio definir ou elencar um conceito para a violência.
Atualmente, a violência atinge um universo muito maior do que o já instituído pelo senso comum, podendo ser classificada de acordo com suas manifestações, como sendo do tipo: física, sexual, política, social, psicológica, estrutural, patrimonial, simbólica, verbal e urbana. Ainda assim, essas tentativas de classificação não conseguem dar conta da totalidade desse processo, tendo em vista que ela se manifesta de diferentes formas, pelos mais variados motivos e atinge diversos indivíduos e grupos da sociedade. Segundo Pimenta (1997), ela aparece diluída nas relações subjetivas e interpessoais - no trânsito, na vida em família, nos conflitos étnico-religiosos, na criminalidade, na brutalidade das relações do trabalho, na pobreza, nas relações de gênero e sexuais, nas escolas, dentre outros.
A identificação da violência, tendo em vista as inúmeras situações em que ela se faz existente, nem sempre é óbvia. Esse fenômeno se manifesta muitas vezes de maneira extremamente sutil. Camarnado (2007) identifica como violência qualquer ação realizada por indivíduos, grupos, classes, nações, que ocasionem danos físicos, emocionais, morais e espirituais a si próprio ou a outros. Nesse contexto, os indivíduos podem desempenhar um papel ativo ou passivo em relação à violência e suas ações podem tomar proporções locais, regionais ou globais.
Camarnado (2007) também concebe a violência enquanto uma situação em que há a negação do outro de sua condição de sujeito e, a partir disso, ele admite três mecanismos sociais de violência, dentre eles:
1)                  a estrutural, em que o sujeito é destituído dos seus direitos em função do modo particular como se estrutura uma dada sociedade. Alguns dos vetores da violência estrutural são: a pobreza, a desigualdade, o racismo, o sexismo e a intolerância;
2)                  a institucional, que se explicita na reprodução, pelas instituições, dos processos de exclusão que têm por base a violência estrutural;
3)                  a intencional, em que voluntariamente um sujeito penetra a sujeição do outro. (Camarnado, 2007: 21)
Como o desenvolvimento econômico das sociedades não se dá de forma igual a todos que a ela pertencem, podemos considerar que a estratificação da sociedade em classes sociais é um dos maiores propulsores da violência estrutural. No entanto, é importante ressalvar que não é a existência da desigualdade o fator gerador da violência. Segundo Silva (2008), a violência é causada por uma ausência de comunicação entre os níveis sociais (ricos e pobres), o que leva a um distanciamento entre os estratos sociais e, muitas vezes, a superação dessa falha comunicacional se dá por meio da utilização da violência que, na realidade, acaba sendo também uma forma de comunicação.
Outro fator, também responsável pela violência, está na ineficiência de políticas públicas. Segundo Mendes (2003), a partir da década de 1980 com a intensificação da globalização, a sociedade brasileira passou por um processo de redemocratização, marcado pela promulgação da Carta Constitucional de 1988. O acesso igualitário aos direitos instituídos poderia ser uma das medidas capazes de reduzir os índices de violência relacionados à pobreza e a desigualdade. Porém, esse avanço na democracia não garantiu mudanças efetivas na inclusão e diminuição das desigualdades sociais. A debilidade do Estado em garantir os direitos sociais por meio de políticas públicas às classes menos favorecidas gerou diversos problemas de ordem estrutural na sociedade, ocasionando a tensão entre as classes e, por isso, configurando-se como outro fator de contribuição para a violência estrutural.
Dessa forma, diante da ineficiência estatal em garantir políticas públicas que sirvam como medidas preventivas para o combate a violência, o Estado faz uso, na maioria das vezes, de medidas de caráter paliativo e imediatista, como a repressão policial para a contenção da violência. “Todavia eles não questionam, ou não querem questionar, a origem dessa violência e entendem que o controle só será estabelecido pelo emprego da força” (Pimenta, 1997: 17).
Assim, órgãos, instituições e, em especial, a ação policial, que estão presentes em nossa sociedade para supostamente garantir a ordem social, proporcionando-nos segurança, quase sempre, acabam fazendo uso da própria violência para combatê-la, quando, na verdade, compreendemos que o uso de violência não gera outra coisa, senão ela própria.
Analisando a polícia como parte de uma instituição que trabalha com a violência, poderemos enquadrar suas ações repressivas como violência institucional. Esse tipo de violência pode estar presente em todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas. A violência institucional se concretiza na relações diversas, como entre servidores e usuários, funcionário e cliente, de diferentes formas: na ineficiência e negligência no atendimento, na disseminação de qualquer tipo de preconceito ou discriminação, intolerância ou no uso excessivo do poder.
A violência também pode ser classificada em intencional, à medida em que o indivíduo faz o uso premeditado da agressividade, com fins destrutivos. Esse tipo de violência se manifesta por diversos motivos que não podem ser dissociados dos aspectos culturais e históricos, tendo em vista que a sociedade já nasce marcada pela divisão entre culturas e nações (de um lado os europeus e do outro, índios e escravos).
Assim, vivemos em um mundo onde uma cultura não aceita outra ou se julga superior a ela e os apartheids[1] (sociais, econômicos, educacionais, entre outros) – segregadores sociais - são cada dia mais visíveis em nossa sociedade.  Sendo assim, as ações intencionais de violência são marcadas por uma relação desigual de poder, entre indivíduos ou grupos, por aspectos relacionados às diferenças geracionais, culturais, étnico-religiosas, de gênero e socioeconômicas.
Contudo, mesmo classificando a violência nas suas mais variadas formas, seria improvável abarcar toda sua diversidade de manifestações, pois a sociedade e os indivíduos estão em constante transformação e, por isso, a cada dia se reinventam e, consequentemente, a violência também, já que esta é um fenômeno cultural presente desde os primórdios da humanidade. 
[...] a violência, diríamos, por tudo que é possível constatar e demonstrar, é um artefato da cultura e não seu artífice. Ela é uma particularidade do viver social, um tipo de ‘negociação’ que através do emprego da força ou da agressividade visa encontrar soluções para conflitos que não se deixam resolver pelo diálogo e pela cooperação (apud Camarnado, 2007: 19-20).
Tendo em vista todos os aspectos já levantados em relação à violência, “é necessário compreender como a organização social legitima e mantém diferentes modalidades de violência e até mesmo as naturaliza” (Camarnado, 2007, p.17). A partir disso, é possível analisar a violência praticada pelas torcidas organizadas de futebol, entendendo-a como do tipo intencional. Esta afirmação decorre do fato de os indivíduos que participam desses grupos praticarem a violência de forma consciente, devido à própria lógica da sociedade, marcada pela competição e pelas diferenças. Tais aspectos são reproduzidos também no futebol, um esporte que proporciona separação e rivalidade entre os grupos, possibilitando entre os torcedores adversários a raiva e a discórdia.
2.                  Sem falta, sem impedimento: características das torcidas organizadas de futebol no Brasil
Torcer, vibrar, gritar, chorar, compartilhar emoções, criar laços de amizade e até transgredir regras sociais são características de grupos como as Torcidas Organizadas de Futebol. Elas são constituídas por torcedores que se unem inicialmente motivados pela paixão pelo time, mas que nelas continuam por se identificarem com a torcida em si e com o espetáculo por elas promovido, de tal modo que a identificação pela torcida se torna superior àquela relacionada ao time. Não são torcedores organizados que se reúnem somente em dias de jogos para torcer e vibrar, mas pessoas que levam o nome da torcida no seu dia a dia como se fosse uma segunda família. 
Para compreender o fenômeno das torcidas organizadas é necessário fazermos um recorte histórico de seu surgimento no Brasil. As primeiras manifestações de torcedores no país, segundo Toledo (1994), surgem na década de 1940, em São Paulo, com a “Torcida Uniformizada do São Paulo Futebol Clube” fundada por Manoel Porfírio da Paz e Laudo Natel  e,  dois anos depois, no Rio de Janeiro com a “Charanga do Flamengo”, fundada por Jaime Rodrigues de Carvalho.
Não existia uma estrutura burocrática. Estes grupos apenas utilizavam bandeiras, faixas, camisetas dos clubes e banda musical para torcer e se divertir e se reuniam quase exclusivamente em dias de jogos, atraídos não somente pelo futebol, mas por terem em comum a paixão ou a simpatia pelo time.
As torcidas eram comandadas por um líder ou “chefe de torcida” que conseguia atrair dezenas de simpatizantes ao grupo. “[...] Geralmente essa pessoa era envolvida com a organização institucional do futebol, com a política, com a direção, ou era funcionária dos times” (Toledo apud Pimenta, 1997: 66). As torcidas dessa época, pela forma como se organizavam, tinham pouca ou nenhuma autonomia perante os clubes, pois tinham que aceitar os posicionamentos tomados pela diretoria. Entretanto, as torcidas organizadas que surgiram na década de 1940, diferem-se[2] em muito das torcidas que se formaram nas décadas seguintes. No entanto, “há de ser considerado esse movimento de torcedores o marco inicial para a existência de uma ‘Organizada’” (Pimenta, 1997: 66)
Com o decorrer dos anos, na década de 1960, mais precisamente, começa a haver a aproximação entre os torcedores, que levavam faixas, bandeiras mais vistosas aos estádios, adereços, faziam coreografias, gritos provocativos de guerra, comportamentos agressivos, aspectos que impulsionaram a formação dos grandes grupos atuais.  De acordo com os estudos de Pimenta (1997), é durante esse período em que começam a surgir “Torcidas Organizadas” já com uma estrutura organizacional burocratizada,  perdendo, aos poucos, a vinculação com o time, bem como ganhando autonomia para apoiar e criticar o clube quando necessário.
Essa nova forma de torcida, a partir da década de 1970, passa a se opor àquelas de times rivais, atendendo às necessidades do novo torcedor emergente. A partir disso, passou-se a disseminar práticas de violência, valendo-se sempre da independência em relação ao clube, já que a responsabilidade pelos atos era da torcida enquanto grupo independente. À medida que aumenta a rivalidade entre as torcidas, cresce também a necessidade entre torcedores de criar “Organizadas” fortes e poderosas, que imponha medo aos adversários.
A imposição de medo ao adversário é identificada desde a escolha dos nomes, símbolos, músicas, até aos atos de violência praticados contra a torcida rival. A exemplo disso podemos elencar o processo de escolha do nome da torcida Mancha, ligada ao time do Palmeiras. Segundo um dos dirigentes da Torcida em depoimento:
Escolhemos o nome ‘Mancha Verde’ com base no personagem ‘Mancha Negra’ do Walt Disney, que é uma figura meio bandida, meio tenebrosa. A gente precisava de uma figura ideal e de pessoas que estivessem a fim de mudar a história. Na época, a gente tinha uns 13/14 anos e já havíamos sofrido muito com as outras Torcidas, então, a gente começou com muita vontade, muita garra, e na base da violência. A gente deve ter exagerado um pouco, porém foi um mal necessário. A gente conseguiu nosso espaço e adquirimos o respeito nas demais Torcidas (Pimenta, 1997: 69).
Diante do que foi colocado, podemos perceber que, atrelado ao surgimento das novas Torcidas Organizadas em São Paulo, surge uma nova modalidade de torcedores que se instaura no Brasil. À medida em que as torcidas ganharam corpo e se desvincularam do clube, elas foram:
marcando presença não só nos estádios, mas também nas relações dos grupos com a sociedade, estabeleceram novos padrões de comportamento aos seus membros que buscavam auto-afirmação através da vestimenta, da identificação grupal [...] (Pimenta, 1997:77).
Assim, é fácil identificar esses grupos, principalmente porque procuram se vestir com camisas, calças e bonés identificados com o símbolo e o nome da torcida. Estão sempre juntos nos estádios, puxando cânticos tanto de incentivo ao seu time, como de ameaça ao adversário. Além disso, os torcedores levam a identificação com a torcida para o seu dia a dia, nos diversos espaços que frequentam.
Sobre os membros desses grupos, tratam-se de pessoas de idades e classes sociais distintas, visto que a participação em torcidas é aberta e independe da situação sócio-econômica, gênero, raça, ou orientação sexual[3]. A única condição para se ter um vínculo é contribuir financeiramente, numa frequência mensal, a fim de usufruir dos benefícios que a torcida disponibiliza, tais como: desconto nos ingressos, disponibilização de ônibus para jogos fora da cidade, participação nas festas realizadas pelo grupo, entre outros.
Diante do que foi exposto, podemos perceber que os grupos de torcidas organizadas possuem, de uma forma geral, características similares nas diferentes regiões do Brasil. No Rio Grande do Norte, por exemplo, mais especificamente em Natal, as torcidas organizadas “Garra Alvinegra” e “Máfia Vermelha”, que surgiram a partir dos anos 1990, apresentam as mesmas características e práticas descritas acima.
Tal constatação pode sugerir que alguns fenômenos acontecem em uma determinada região e conseguem tomar proporções que os tornam semelhantes em quase todo o mundo. Assim, tendo em vista que as torcidas Máfia Vermelha e Garra Alvinegra foram nosso objeto de pesquisa, iremos discutir a violência presente nesses grupos a partir do entendimento e das vivências dos adolescentes delas participantes.
 
3.                  Dos pontos corridos ao mata-mata: competição e rivalidade entre a Máfia Vermelha e a Garra Alvinegra
Diante do universo das torcidas organizadas de futebol, diversas práticas e condutas realizadas por esses grupos podem ser analisadas como violência. Dentre elas, estão a rivalidade e o conflito, a princípio são relacionadas à competição esportiva, mas que desencadeiam várias expressões de violência que vão muito além dos limites dos estádios e dos dias de jogos.
Inicialmente, a competição é algo proporcionado pelo próprio jogo de futebol, pois, a partir do instante que começa a partida entre dois times, na maioria das vezes, um sairá vencedor e outro perdedor. Segundo Toledo (2000), os jogos aparecem como eventos de caráter disjuntivo, pois começam em uma condição de igualdade para ao final promoverem uma diferenciação, ou seja, “de uma simetria pré-ordenada, em virtude da igualdade das regras entre os participantes, chega-se a uma assimetria imposta pelas contingências do acaso, talento ou circunstâncias outras, que levam alguns a vencer e outros perder.” (Toledo, 2000:133) A derrota ou a vitória pode gerar diversas emoções entre os torcedores, de um lado a raiva e a tristeza, do outro, alegria, entusiasmo e arrebatamento.
O caráter competitivo dos jogos juntamente à identificação que cada torcedor tem com o seu clube ou agremiação, além de provocarem uma cisão entre os torcedores individuais e/ou grupo de torcedores organizados, transferem esse espírito competitivo para o dia a dia de cada torcedor. “O espaço circunscrito ao jogo e à partida de futebol - o estádio  portanto, é como que ultrapassado e, no imaginário do torcedor, recriam-se a disputa e a competição pelos meandros da cidade, nos bares, no trabalho ou na escola” (Toledo, 1994: 132).  Isso se torna ainda mais presente, entre os grupos de torcidas organizadas, visto que a competição entre os dois times é transformada em rivalidade[4] entre as torcidas, fato que pudemos comprovar por meio das entrevistas realizadas com adolescentes participantes das torcidas em questão.
Todos, direta ou indiretamente, quando perguntados sobre a opinião a respeito da rivalidade entre as torcidas, trouxeram em suas falas elementos que nos permitiram analisar a rivalidade como algo intrínseco ao grupo. Desse modo, escolhemos duas falas que, a nosso ver, são bastante representativas desse aspecto.
Vixe é muita rivalidade viu meu irmão, tu é doido é? Faz parte da torcida. Nós que somos envolvidos com esse negócio de torcida organizada, a gente, eles lá também, do mesmo jeito que a gente não pode sair pros canto, eles também num pode né? Se bater, olhar, rola muito estresse, nesses canto, assim, de a pessoa ir com a mãe da pessoa e a pessoa vir bater com os inimigo e os inimigo vir pra cima da pessoa, jogando esse negócio de pedra, pega na mãe da pessoa, assim. É muito ruim a pessoa ser malhado nesse negócio de torcida. Pelo um jeito é bom, quando a pessoa sabe curtir, mas pelo oto jeito, a pessoa não pode sair nem de casa. Num canto que a pessoa quer ir, a pessoa não pode, né? Porque tem inimigo. (Robinho[5], 18 anos, Máfia Vermelha)
Rapaz, eu acho que essa rivalidade era pra ter só dia de jogo, sabe? Assim, nas ruas assim, eu acho muito errado. Mas faz parte, se não tiver isso, não é torcida. (Neymar, 19 anos, Máfia Vermelha).
Podemos identificar como elemento central nas duas falas a naturalização da rivalidade dentro das torcidas, vista como intrínseca ou essencial para a existência destas. Além disso, também é mostrado de forma clara em seus depoimentos, e ainda de maneira mais detalhada na fala de Robinho, que a violência ultrapassa os limites dos estádios e dos dias de jogos. Suas manifestações se dão através de atos violentos, chegando a ferir o próprio direito básico dos indivíduos, o Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente e na Constituição Federal de 1988.
Assim, andar pelas ruas tranquilamente já não faz parte da rotina de alguns dos participantes das torcidas[6], uma vez que podemos perceber que eles se sentem ameaçados ao sair de casa, pelo receio de encontrar o “inimigo”. Esse fenômeno acaba atingindo a todos indefinidamente e se espraia como uma teia, tornando-se uma questão de segurança pública. No entanto, precisamos ressaltar que eles se sentem ameaçados, mas não são somente vítimas, ambas as Torcidas praticam atos violentos uma contra a outra.
Na fala de Robinho são representadas duas formas de estar envolvido com a torcida: o lado bom, quando a pessoa sabe “curtir” e o lado ruim, segundo ele, quando a pessoa é “malhado”. Assim, podemos analisar, a partir da própria fala e do contato que tivemos com os grupos, que quando ele se refere a ser “malhado” dentro da torcida, quer dizer que ele também já realizou algum ato de violência e, por isso, tornou-se “conhecido” pelos rivais, sentindo-se ameaçado, devido à possibilidade de revanche. O “saber curtir”, a que Robinho refere-se, pode ser representado pelos torcedores que participam de todos os eventos em que a torcida está presente, porém não se envolvem em briga.
Tudo que existe na sociedade é, segundo nossa visão dualista, formado por opostos e contradições: o bem e o mal, o certo e o errado. A incoerência entre o ser e o dever ser é um elemento presente na fala de Neymar, quando ele compreende como negativa a existência da rivalidade para além dos dias de jogos e, no entanto, conforma-se com a presença dela por acreditar que as torcidas organizadas só têm sentido por sua existência (da rivalidade). Embora saibamos que inicialmente a intenção das torcidas organizadas era outra, que tinham um caráter reivindicatório, criticando o time quando necessário, percebemos que atualmente os propósitos sofreram mudança.O próprio sujeito, Neymar, menciona que não há torcida sem rivalidade, levando-nos às seguintes reflexões:o que representa uma torcida organizada? Como essa rivalidade se transforma em violência?   
Analisar a formação das torcidas organizadas, nos principais países em que elas surgiram e a presença da violência nesses grupos, significa levar em consideração os aspectos históricos, socioeconômicos e político-ideológicos de cada sociedade que parece apontar para a violência como uma constante na história humana.
É... porque, não é porque vem de mim ou da nossa torcida não. Já vem de todas as torcidas organizadas. Da época das torcidas da Inglaterra já.  (Zagallo[7], 12 anos de participação, Máfia Vermelha).
 A partir da fala de Zagallo, entende-se que há uma consciência do próprio torcedor que a violência entre as torcidas não é um fato atual, nem exclusivamente brasileiro. Entretanto, tal conhecimento leva a uma naturalização da violência, assim, não podemos esquecer que esse fenômeno é fruto de uma sociedade em que o ter superou o ser, em que valores solidários foram substituídos por uma competição desenfreada que, levada a extremos, se materializa na rivalidade e na violência.
De acordo com Mendes (2003), a violência que se manifesta nesse período é esvaziada de um conteúdo ideológico e, de certa forma, serve como unificadora e canalizadora de interesses, que dá sentido a vida e legitimidade as ações. Além disso, cada vez mais os indivíduos se tornam indiferentes em relação ao outro e, por isso, desrespeitam, ferem e até matam sem considerá-lo enquanto semelhante.
Nesse sentido, as torcidas organizadas em sua grandiosidade, promovem o espetáculo à parte e, para alguns, maior do que o próprio jogo. São elas as responsáveis pela animação do estádio, pelo incentivo ao time, pela comemoração do gol, no entanto, são também as responsáveis pela insegurança dos demais espectadores e deles próprios em dias de jogos.
São frequentes os embates entre as torcidas, principalmente em dias de clássico[8], em que a rivalidade entre os times, potencializa as tensões entre os grupos.
Ah, rivalidade. Quando tem jogo assim, América e ABC ai pronto. Ai o Rio grande do Norte para, ai pronto, só pensa nesse jogo. O torcedor do América já pensa no jogo e ele já pensa na maldade também sabe, a gente pensa maldade e eles também pensa pior que a gente. Ai, a gente vai, se bate no jogo, ai pronto, é daquele jeito. Ninguém dorme aqui não, dia de jogo ninguém dorme não. É tudo no aperreio. Quem sabe num vai pegar alguma coisa pela frente, né? (Robinho, 18 anos, Máfia Vermelha)
Nesse caso, a importância do jogo vai muito além dele próprio e a disputa, que seria entre os jogadores apenas, é transferida para os torcedores. A cada jogo, são inventadas e pensadas novas estratégias, novos caminhos para, quando chegar o momento do encontro entre as torcidas, os participantes estarem preparados para enfrentar o que vier. Não importa apenas ganhar o jogo, existe também a necessidade de dominar o adversário. Além disso, há a dimensão nessa fala que é a ideia de que o estado do Rio Grande do Norte está todo voltado para o evento da partida, tratando o jogo como um acontecimento muito esperado e que, de certa forma, assusta a população, por, comumente, nesses dias, acontecerem várias práticas de violência.
Não existem regras entre os torcedores que estão envolvidos nos embates com seus rivais. A regra é estar preparado para enfrentar o inimigo, como eles se referem, seja através de bombas, paus, pedras, enfim, armas para o embate, porque o limite é a morte. O jogo, nesse sentido, é relacionado à guerra e são traçados caminhos e estratégias, com o objetivo de derrotar o inimigo.
Se nós tiver andando, assim, a pé, assim, e os inimigos da gente ver, ele não vão pra briga não, eles vem pra matar a gente. (Robinho, 18 anos, Máfia Vermelha).
Se o cara vier contra mim, tem também do mesmo jeito. (Ganso, 16 anos, Garra Alvinegra).
Os depoimentos demonstram que as torcidas estão equiparadas em relação à violência, pois, a ideia de matar e a do adversário ser considerado inimigo se aplica a ambas, na medida em que as duas envolvidas nesse conflito. Por isso, ainda que nas duas falas esteja expressa a conjunção “se” representando uma condição a prática violência, nesse processo, tanto uma quanto a outra torcida podem ser causadoras da violência.
Isso ocorre porque a ideia da violência impregnada na própria torcida está latente, esperando a oportunidade para surgir. É o que estamos chamando de cultura da violência: ela é uma condição para a própria torcida existir e se legitimar. Assim, o confronto com o outro é inevitável, porque esse outro é o inimigo e as torcidas vivem a guerra.                      
Esse fenômeno da violência vai muito além da própria torcida. Trata-se de é uma problemática do grupo, como um espaço solidário, em que o “nós” prevalece sobre o eu. Além disso, as torcidas continuam acreditando que a violência praticada por elas não atinge diretamente a sociedade, mas somente aqueles envolvidos substancialmente no processo, ou que não importa a quem essa violência atinja, desde que o seu alvo seja a torcida rival e que, portanto, ela cumpra o seu papel no grupo.
4.                  Conclusão
Pode-se considerar que, de fato, existe uma cultura da violência dentro das torcidas organizadas, expressa pela competição, pela rivalidade, pela indiferença em relação ao outro e na visualização do adversário como inimigo. São valores reproduzidos na sociedade que acabam por influenciar a interação entre as pessoas e os grupos.
Todavia, as medidas de combate à violência sempre foram ineficientes, tendo em vista que as brigas que acontecem entre as torcidas cotidianamente, nas ruas, nos bairros, nas escolas, no trabalho, no trânsito, acabam sendo tratadas como “problema de polícia”. A polícia, por sua vez, se mostra ineficaz na resolução do “problema” das torcidas, bem como na inibição de atos violentos. No máximo, ela controla a briga no momento da ação.
De acordo com os entrevistados a rivalidade nunca irá acabar, mas acredita-se que a violência pode sim ser prevenida e que é necessário para isso trabalhar sua motivação: a cultura da violência que está na base das torcidas.
Referências
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 -, “Transgressão e violência entre torcedores de futebol” En: Revista USP. São Paulo: USP, (junho/julho/agosto 1994) Disponível em: <http://www.acervodanet.com.br/icontrole/images/produtos/8faeffc60e.pdf.> (6 de abril de 2011).
Zaluar, Alba, “Crime organizado e crime institucional” En: Violência e sociedade. São Paulo: Letras e Letras (2003).


[1] “O apartheid (significa em africâner: separação) foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 (46 anos) pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram cerceados pelo governo formado pela minoria branca.” Disponível no site: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Apartheid.>
[2] Segundo Pimenta, “o que caracteriza a existência de uma ‘Torcida Organizada’, tomando por base a história do futebol brasileiro, não é apenas a identificação com o clube, mas sim a estrutura organizativa que cerca esse grupo de pessoas” (1997, pág. 65).
[3] Apesar da aparente democracia, o que nota-se é que essas torcidas são essencialmente masculinas e majoritariamente jovens. O fato de ser um espaço essencialmente masculino, se expressa pelas próprias raízes históricas do futebol, um esporte inicialmente de homens e para homens.
[4] Embora as palavras rivalidade, competição e disputa pareçam sinônimas, existem particularidades entre elas. Assim, de acordo com Amora (1999), rivalidade significa “Qualidade de quem é rival, ou quem rivaliza. Ciúme” . Competição, por sua vez, refere-se ao Ato ou efeito de competir e a Disputa está ligada a Luta, contenda, discussão.
 
[5] Não serão citados os verdadeiros nomes dos entrevistados para preservar a identidade destes e por isso utilizaremos nomes de jogadores famosos que jogam ou já jogaram na seleção Brasileira de Futebol.
[6] Vale ressaltar que, atualmente, andar tranquilamente pelas ruas, é um privilégio de pouquíssimas pessoas em nossa sociedade, devido a disseminação irrestrita da violência, mas nesse caso, assume um outro matiz que está sendo discutido nesse artigo, por estar relacionado a sua inserção nas torcidas.
[7] Não tivemos acesso à idade desse entrevistado, somente ao tempo de participação na torcida.
[8] Neste caso quando nos referimos a “clássico”, queremos dizer que os times de maior representatividade da cidade de Natal-RN, ABC futebol Clube e América Futebol Clube, competirão.