Pressupostos da teoria da reificação nas pesquisas qualitativas educacionais

 
Elvis Francis Furquim de Melo
(Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Brasil)
elvisfurquim@gmail.com
 
Resumo
O presente estudo tem como objetivo refletir acerca da reificação[1] que acompanha a realidade social das pesquisas qualitativas em educação no Brasil. As fundamentais preocupações das análises estão relacionadas com temas estruturais da vida social como a razão instrumental. Pauta-se do peso excessivo na objetividade da película economicista, pautado na elaboração quantitativa dos procedimentos. A crítica de Lukács transitou para o acento na captação da qualidade subjetiva ou na singularidade dos indivíduos, conforme análise de Adorno da obra de Kafka. Em termos contemporâneos, a reificação da apropriação de Axel Honneth passa a ser vista no âmbito da intersubjetividade. Nesse sentido, ela acaba sendo conceituada como ausência do reconhecimento do outro. Nesse contexto, podemos inferir sobre a reflexão crítica como possibilidade equivalente à negação ou esquecimento do reconhecimento no desenvolvimento progressivo das pesquisas qualitativas em educação do Brasil? Então, é possível lutar ou resistir por novos padrões de reconhecimento das pesquisas qualitativas, estando neste sentido mais implicados com esta consciência?
 
Introdução
A polarização com a pretensa objetividade oriunda das ditas ciências duras levou as ciências humanas a adotar a “perspectiva participante” em suas pesquisas, como forma de romper com esse legado. Nesse contexto, as pesquisas ficaram por vezes à mercê dos sabores da moda, dos gostos e dos habitus próprios de cada perspectiva teórica, sem condições, portanto, de dialogar com a perspectiva do outro, o que demonstra um comportamento reificado. Propomos desvendar o “reconhecimento prévio do outro” como uma condição não-epistêmica fundamental das pesquisas qualitativas, evitando assim certos problemas ocasionados pela reificação, isto é, a atitude de não reconhecer o saber emergente das diferenças, produzindo um conhecimento não instrumentalizado e nem coisificado. Pensada a partir da perspectiva da reificação ao reconhecimento, conforme Axel Honneth, cremos que tais pesquisas não perderão de vista a capacidade de implicar-se positivamente com o outro e, desse modo, não serão mais governadas por narrativas simplesmente lineares, descritivas e de negação do reconhecimento original.
A reificação nas pesquisas qualitativas da educação
As pesquisas qualitativas surgem como alternativa ao modo de pensar objetivante oriundo das denominadas “ciências duras”. Com isso, elas buscaram resguardar o lugar ocupado pela lógica da pesquisa de corte empírico/positivista de forma absolutizada, já que suas atividades se restringiam, em grande medida, à produção de resultados mensuráveis ou comprovados estatisticamente. A alternativa aos métodos positivistas se instituiu primeiramente pela contribuição da fenomenologia, que procurou resguardar a unicidade da experiência e, portanto, a irredutibilidade do acontecer humano a fórmulas preconcebidas e abalizadas pela pesquisa empírica. Aos poucos, essa postura foi se consolidando na adoção do paradigma subjetivista/construtivista/interpretativo, com a necessidade de “ir a campo” para adotar “a perspectiva participante”, pois tal atitude se tornou sinônimo de compromisso ou de engajamento social.
Tanto Hans-Georg Gadamer quanto Jürgen Habermas, mas também autores mais recentes como Axel Honneth e Charles Taylor, assim como já acontecera com os pioneiros da Escola de Frankfurt, entre eles, Theodor Adorno e Walter Benjamin, guardam uma profunda dívida com Hegel. De alguma forma, todos são devedores do diagnóstico da (in)compreensão contemporânea do giro do pensamento do eu ao outro – da esfera da subjetividade para a intersubjetividade – presente embrionariamente no pensamento hegeliano. Não por acaso, a proposta de reconhecimento das diferenças[2] considera a metáfora do senhor e do escravo, utilizada por Hegel na Fenomenologia do Espírito, como ponto de partida da sua visada propositiva. Visto criticamente, há um componente subversivo na ideia do reconhecimento, porquanto o escravo se submete ao seu senhor, não apenas pelas relações de dominação e servilismo, mas também de estima, consideração e reverência. No sentido positivo, poderíamos pensar na possibilidade de uma relação intersubjetivamente autêntica passar pelo processo de reconhecimento mútuo, porém a sua negação pode ser sintoma de reificação?
A primeira dimensão é importante para a vigência do ideal normativo da hermenêutica, quando está em pauta estabelecer critérios de uma vida boa e digna de realização para todos, por exemplo. Essa alternativa foi incorporada por Axel Honneth, auxiliando na ampliação da virada do reconhecimento na Teoria Crítica (Holmes, 2009), já iniciada por Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel.
A partir da elevação do “outro”, do que foge dos critérios europeus, à categoria central para pensar os procedimentos pedagógicos, muda o tratamento dado inclusive à história do conhecimento, tornando mais sensíveis as experiências de não reconhecimento. Por isso há um acréscimo crítico nessa perspectiva, melhor explorado no seu outro livro intitulado Reificación: un estudio en la teoría del reconocimiento, na medida em que a sua negação, isto é, a reificação, é definida como “esquecimento do reconhecimento”.
O reconhecimento prévio do outro é condição para uma relação não alienada e de engajamento, por tomar parte existencialmente da ação ou da práxis, e não apenas participar de sua rotina diária ou do seu convívio.
Se este reconhecimento prévio não se realizar, se não tomamos mais parte existencialmente no outro, então nós o tratamos repentinamente apenas como um objeto inanimado, uma simples coisa; e o maior desafio para a tentativa de reabilitar a categoria da reificação consiste na dificuldade de explicar a condição de possibilidade desta supressão do reconhecimento elementar (2008a: 75).
O acolhimento prévio quebra pela base a reificação, porque possibilita dar um passo importante na compreensão desse fenômeno no universo da intersubjetividade. Lukács já havia admitido, segundo Honneth, que existem relações não-alienadas, solidárias e fraternas, através do conceito de “práxis de implicação”. Porém, com o predomínio do capitalismo, essas relações acabaram sendo recobertas, como dissemos anteriormente, pela segunda natureza.
Honneth consegue apresentar, a partir de Lukács, boas razões para se crer na existência de uma atitude prévia de reconhecimento ou implicação, pelo menos no que diz respeito ao mundo dos fenômenos sociais. Mas ele se depara com uma questão fundamental: - “Como puede explicar Lukács el que se llegue a una perdida de esta forma de conducta original, si éstá supuestamente tan enraizada en la forma de vida del hombre” (2007: 85)? Então, se em praticamente todos os processos sociais se impõe alguma forma de objetivação, isso já constituí reificação – nesse sentido, a sociabilidade humana teria se dissolvido.
Tal autor explica que essas questões são sequelas da estratégia conceitual desenvolvida por Lukács no momento em que equipara a reificação com a objetivação. Já que, para o desenvolvimento ulterior de suas reflexões, Honneth leva as suas investigações de maneira tangencialmente diferente das de Lukács. Assim defende que, em vez de pensar que o reconhecimento e o ato de conhecer, mediante processos objetificadores, estariam em estados de incompatibilidade constante, ele coloca a argumentação em outros termos.
De um um ponto de vista mais abrangente, “a las formas sensibles al reconocimiento, por un lado, corresponden, por otro lado, formas del conocimiento en las que se há perdido la capacidad de percibir su origen en el reconocimiento prévio” (2007: 91). Daí por que o novo conceito chave de reificação esclarecido por Honneth, ligado à ideia de esquecimento, tem a ver com o fato de que, ao lidarmos com o conhecimento, perdemos a capacidade de perceber e sentir que a sua constituição se deve à adoção de uma “postura de reconhecimento”. Por isso acabamos por desenvolver a tendência de perceber as outras pessoas como coisas ou objetos insensíveis. Honneth se pergunta, então, como é possível que o reconhecimento prévio seja esquecido tanto geneticamente como categorialmente durante nossos envolvimentos diários com operações que envolvem o conhecimento? Ele explica que o esquecimento não tem o sentido usual de subtrair da consciência ou desaprender alguma coisa, antes se trata de uma classe de diminuição da atenção que leva o reconhecimento a ser passado a um segundo plano até que o mesmo se perca de vista.
Sendo assim, a anterioridade do reconhecimento é importante para analisar as pesquisas qualitativas, vez que estas se concentraram muitas vezes simplesmente no conhecimento da realidade, mantendo relações coisificadas com o outro e o seu entorno, ao radicalizar a instância subjetiva. É por isso que o próprio Honneth se apressa em desfazer o equívoco da possível confusão da postura de reconhecimento com a “perspectiva participante”, quando afirma:
Também por isso tentei distinguir esta forma do reconhecimento elementar daquilo que na discussão filosófica hoje frequentemente é denominado ‘perspectiva participante’: a postura que eu tenho em mente antecede a esta perspectiva, pois ela representa a condição não-epistêmica para poder se orientar pelos motivos dos outros (2008b: 72-73).
A condição não-epistêmica é o fundamento prático da ação, algo pertencente à esfera pré-cognitiva, que oferece suporte para estabelecer um relacionamento que transcende a esfera da reificação, dado que essa já se apoderou da esfera cognitiva pelo seu esquecimento em implicar-se com estes fenômenos.
Por isso, na compreensão contemporânea, a ideia do reconhecimento se tornou um elemento importante para a redefinição crítica de políticas sociais e culturais, passando também a inspirar algumas reviravoltas na compreensão do legado da educação[3] e, por conseguinte, no universo das pesquisas qualitativas, conforme estamos aqui propondo. Ela é essencial para entender a diminuição do crédito de algumas categorias ligadas ao projeto do Iluminismo ou Esclarecimento (Aufklärung) - como a emancipação ou autonomia, progresso e mesmo a ideia de consciência, posto que tais categorias estão ligadas à filosofia do sujeito. Nas lutas por essas conquistas houve, muitas vezes, o esquecimento de consultar o outro, se ele queria ou não o tipo de mudança proposto para o avanço social, tanto por projetos ditos progressistas quanto conservadores. Essa base normativa não foi posta em questão quando por vezes se deu voz e vez aos silenciados. Sob o signo da desestabilização do status quo instituído, o reconhecimento implica, portanto, entender a ausência da aceitação, respeito e acolhimento à voz e ao olhar do outro naquilo que está sendo planejado ou idealizado no plano das relações sociais.
Porém a concordância não se restringe ao aspecto cognitivo, atinente à sua posição teórica, ideológica ou epistemológica apenas, o que poderia recair novamente no universo do conhecimento. Antes, porém, essa outra perspectiva vem ao encontro das mudanças nas práticas de convivência que estão ocorrendo nos últimos tempos. Algumas transformações indicam estar em curso uma revolução silenciosa, uma verdadeira mutação dos costumes, dado que a sociedade demonstra estar mais atenta às atitudes de não reconhecimento especialmente nas interações comunicativas. Nesse contexto as políticas sociais e culturais passam por outros filtros de análise, levando em consideração, também, as diferenças de gênero, etnia, cultura, cor, deficiência, etc.
Ao apropriar-se das reflexões sobre o desenvolvimento dos estudos sobre a reificação, podemos perceber, portanto, que há de certa maneira um paralelo com o acontecer das pesquisas qualitativas, que pode servir de espelho para a sua compreensão de forma mais aguda. O desafio por ora é debater o avanço na crítica a posturas reificadas, que não permitem a consideração ao lugar do outro, da alteridade e das diferenças, em plenitude, no universo das pesquisas qualitativas em educação.
Considerações finais
Contemporaneamente, com a apropriação de Honneth, a reificação passa a ser vista no panorama da intersubjetividade e, nesse caso, ela acaba sendo conceituada como ausência ou esquecimento de reconhecimento do outro. Diante desse novo panorama, podemos enfim nos perguntar: o que pode ser pensado como equivalente à negação do reconhecimento nas pesquisas qualitativas em educação?Como poderemos, então, lutar por novos padrões de reconhecimento das pesquisas qualitativas, estando assim mais implicados com esses conteúdos?
O acento no outro, como fim prático da ação, torna-se um novo modo de compreender tais pesquisas, pois na medida em que há permanência no nível descritivo, epistemológico, ou mesmo, opinativo, não se atinge o cerne da questão. Essa é uma atitude presa à perspectiva do observador ou do mero “participante”. O que pode produzir a diferença, nesse caso, é o outro não apenas se fazer presente nos afazeres da pesquisa. Pelo contrário, seu comparecimento alarga o horizonte de compreensão ao ponto de orientar o processo de escolha, mas não somente das opções teóricas e metodológicas, das técnicas e instrumentos ali adotados. Ele sente-se implicado com os próprios fins (normativos) do trabalho a ser desenvolvido.
O equívoco se dá no acento demasiado na expectativa da apropriação e difusão do conhecimento, bem como no foco do poder ou das necessidades da produção. Por esse caminho, o conhecimento é produzido/pesquisado de modo reificado, isto é, de modo a esquecer as vivências pessoais e coletivas. Agindo assim, seremos pesquisadores autômatos, que não levam em conta os sentimentos e as experiências do outro e que só executam tarefas cognitivas previstas em projetos de pesquisa. No máximo ficaremos somente respondendo em função de apelos exteriores: agências de fomento, avaliações de programas, de projetos ou de pares, etc. Por fim, ficaremos facilmente observando com indiferença ou contemplando, de forma passiva ou mesmo participativa, a sua produção.
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 [1] O conceito Verdinglichung (reificação) é um termo alemão que na sua tradução do latim de Res (coisa) pode ser tomado como coisificação= ato de coisificar, ato de tratar como coisa, redução.
[2] A teoria do reconhecimento social ou do reconhecimento das diferenças não é simplesmente mais um modismo pedagógico ou da teoria filosófica, pois ela tem raízes na transição do século XVIII para o XIX. Foi concebida por Hegel ao longo de várias obras, porém é na Fenomenologia do espíritoque ele irá explicitar mais claramente o sentido de sua tese. Atualmente ela vem sendo recuperada por vários autores, entre eles Axel Honneth, Nancy Fraser e Charles Taylor.
[3] Uma das iniciativas pioneiras no campo da educação, no Brasil, é o texto Senhor e escravo: uma metáfora pedagógica, de Hans-Georg Flickinger, publicado no ano de 2000. Recentemente esse artigo veio a lume novamente no seu livro A caminho de uma pedagogia hermenêutica (2010).