Sobre aquilo que não se pode falar: a poesia depois de Auschwitz em Theodor W. Adorno

 
Wesley Carlos de Abreu
(Universidade Estadual do Ceará – UFC)
wesleyaha@yahoo.com.br
 
A poesia depois de Auschwitz
O problema referente à poesia após Auschwitz em Adorno consiste numa aporia inevitável para uma reflexão sobre a explicita impossibilidade que permeia a poesia que se articula com o real dos campos de concentração. A questão surge em seu texto Crítica cultural e sociedade escrita em 1949, na passagem do texto o filósofo escreve: “A crítica cultural encontra-se diante do último estágio da dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas” (Adorno, 1998, p. 26.).
O artigo começa com o desacordo com a crítica cultural nesse período : “O crítico da cultura não está satisfeito com a cultura, mas deve unicamente a ela esse seu mal-estar” (Adorno, 1998: 7). O crítico especialista prossegue, Adorno, se transforma em uma espécie de "testemunha" insignificante, ou, um censor que aponta os erros da cultura na sociedade que apenas orienta sobre o mercado dos produtos espirituais e sob os quais recaem julgamentos que possuem uma ilusão de competência. Adorno atribui centralidade, em sua reflexão, ao caro conceito de crítica.
É extremamente importante agora a percepção de Adorno sobre o mistério constitutivo de critica cultural. De acordo com ele, é praticada cada ação básica dentro de uma estrutura social. No momento em que um intelectual se dedica a este movimento, fundamentalmente, a qualquer título, componentes da estrutura que faz parte e sobre o qual se posiciona basicamente. O mistério é que o crítico está dentro do quadro do sistema cultural que ele precisa para repreender, pensar e apontar suas criticas, e desta forma qualquer crítica cultural é também uma crítica de si.  Como indicado por Adorno, o crítico dialético da cultura deve participar e não participar da cultura. Só assim fará justiça à coisa e a si mesmo. Assim, perto do final do mesmo ensaio, Adorno levanta a sua célebre frase:
Quanto mais totalitária for a sociedade, tanto mais reificado será também o espírito, e tanto mais paradoxal será o seu espirito, e tanto mais paradoxal será o seu intento de escapar por si mesmo da reificação. Mesmo a mais extremada consciência do perigo corre o risco de degenerar em conversa fiada. A crítica cultural encontra-se diante do último estágio da dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas. (Adorno, 1998: 26.)
Em conformidade com o estiloensaísta, a passagem não recebe elucidação pormenorizada e faz-se suscetível a recepções diversas. Não parece ser evidente poder inferir da passagem acima se o que se tornou impossível é, estritamente, a poesia, ou esta tal como era concebida no período que precedeu a catástrofe; a poiesis, a criação e, assim sendo, qualquer intento de narrativa ou de articulação seria uma barbárie; ou ainda – e em evidência – a atividade crítica, uma vez que aquele ocorrido produz seu desconhecimento ou corrói a maneira de conhecer os motivos da impossibilidade e, portanto, seus esforços deparam-se com o mesmo paradoxo.
A afirmação de Adorno sobre a poesia após Auschwitz leva, depois do fim da guerra e do estado nazista na Alemanha, e com a revelação pública dos detalhes, das características dos campos de concentração, a afirmação do filósofo pode até apontar não apenas a poesia, mas a qualquer outro forma de expressão e atividade humana como comer, dançar em fim o próprio viver. Pelo que ocorreu nesses campos, é possível viver recomeçar, após tanta barbárie?
Está é uma pergunta, mais do que pessimista, mostra um realismo que em certos momentos põe-se diante dos acontecimentos com uma simples humildade de incompreensão frente ao indizível, ao inominável e desconhecido de todos pelos critérios até o momento não revelados.
No meio do ensaio, porém não aparece nada para nos permitir atestar que Adorno fundamentalmente considera a poesia depois de Auschwitz uma continuação do mesmo, como foi recebida por seus leitores na Alemanha. A frase de Adorno depois é levada em confronto com a poesia de Paul Celan, mais especificamente com o poema “Todesfuge” (Fuga da morte). Adorno e Celan terminaram, curiosamente, por serem colocados em oposição. Assim, ora a poesia de Celan comprovaria a ineficácia da afirmação adorniana sobre a poesiapor ser, ela mesma, poesia após e sobre Auschwitz, ora a citação de Adorno seria usada como forma de desqualificar e criticar os poemas.
A afirmação de Adorno se mostraram também interessados outros filósofos, como Herbert Marcuse, para ele “a questão ‘depois de Auschwitz a poesia continua possível?’ talvez possa ser respondida: sim, se ela reapresenta, em alienação intransigente, o horror que foi – e que ainda é” (Marcuse, 2009, p. 51). A resposta de Marcuse fala algo que Adorno aprova essencialmente, isto é, que a poesia em seu âmbito estético não pode significar uma saída da realidade, mas sim representa-la como é. A questão que surge com isso é: como seria possível, depois de tanto horror, reapresentar o que ocorreu em Auschwitz?
Adorno diz que, em contrapartida, o que não é falso (radicalizando ainda mais o dictum, estendendo-o para além da lírica e da crítica), é a questão menos cultural de se se pode continuar vivendo após Auschwitz, ou seja, se isso estará totalmente permitido ao que escapou casualmente quando tinha de ter sido assassinado. Adorno afirma, na continuidade, que a sobrevivência requereria já a frieza, o princípio fundamental da sociedade burguesa sem o qual Auschwitz não haveria sido possível:
se aquele que por acaso escapou quando deveria ter sido assassinado tem plenamente o direito à vida. Sua sobrevivência necessita já aquela frieza que é o principio fundamental da subjetividade burguesa e sem a qual Auschwitz não teria sido possível: culpa drástica daquele que foi poupado. Em revanche, ele é visitado por sonhos tal como o de não estar mais absolutamente vivo, mas de ter sido envenenado com gás em 1944, e de depois disso não conduzir coerentemente toda a sua existência senão a partir da pura imaginação, emanação do louco desejo de alguém há vinte anos assassinado. (Adorno, 2009: 300)
Devemos exigir a maneira que, depois do individuo sobreviver a Auschwitz deva ser guardado a ele a verbalização de sua dor, e o silêncio - que exibe Celan, é um silêncio que não é silencioso porém expressivo, em torno do que é indizível. Decisivamente, pelo fato de o trauma ser arredio ao saber, também a atividade crítica encontra-se diante da mesma aporia e, ainda, a própria vida após Auschwitz.
Levando em conta isso e se fosse preciso para um novo inicio, o filósofo em um texto responde sobre a elaboração do passado responde a questão. No texto Adorno crítica o processo de memória e esquecimento que não deixa a superação do passado, mas pelo contrário que ele continue existindo; assim a consciência é transformada em ‘boa consciência” – “um conformismo com a reprodução do que é sempre o mesmo” (Adorno, 2006, p. 126).
O crítico não está fora do ambiente, do contexto cultural, ou seja da indústria cultural. Não apenas ele vive frequentemente dessas produções: ele percebe, em grande parte, a realidade através delas, mas essa necessária reflexão dificilmente encontra ouvidos, em geral, é a realidade através dele. Isto se deixa vê no caso de Adorno que “depois de Auschwitz, escrever um poema seria bárbaro”. A parte dominante do público consumidor, e, além disso seus produtores mais amados, nunca tentaram descobrir em que contexto esta frase foi feita. considerando-se as razões de Minima Moralia e Dialética do Esclarecimento, que fazem diretamente a denuncia ao genocídio na Europa.
Em sua Dialética Negativa de 1967, retoma o tema de 1949: “Toda cultura depois de Auschwitz, inclusive sua urgente crítica, é lixo” (Adorno, 2009: 304). O comentário “inclusive sua urgente crítica” foi desconsiderado por quase todo mundo. Como nenhum outro, Adorno coloca a necessidade de, a partir de 1945, de uma hipótese social que percebe Auschwitz como uma catástrofe social, que pressione a humanidade para outra forma de norma que impeça, especificamente, para “instaurar o vosso pensamento e a vossa ação de tal modo que Auschwitz não se repita, de tal modo que nada desse gênero aconteça” (Adorno, 2009: 302). 
Auschwitz não pode ser conhecido sem uma teoria social. O conhecimento da teoria social não promete nem redenção nem conciliação, mas ele coage, pressiona em direção à autorreflexão. O individuo perceptivo deve obter, ainda em sua aprendizagem, a frieza do homem burguês, que permitiu Auschwitz existir, porém, tampouco teria sido realizável sabermos da existência desse lugar.
A problemática que Adorno detalha sobre a composição de poemas depois de Auschwitz é válido para a reflexão depois desse momento de atrocidade. Sem essa memória, quem não foi envolvido, e quem nem nasceu na época e ter sido concebido podem assegurar ou dispor de todos os meios de culpa. Sem essa memória, a sociedade não mais saberá do que ocorreu. Para reflexão teórica posiciona o problema sobre a relação da realidade e da reprodução com uma intensidade que aparentemente torna a poesia depois de Auschwitz impossível.
Assim como a criação artística necessita do efeito estético, a reflexão teórica necessita de uma distancia do conceito, mediante e mediado, que não pode ser encontrado, no caso de extermínio em massa de pessoas de acordo com o modelo industrial, sem pressupor traços da racionalização. O uso do nome Auschwitz, que se refere a um lugar e a um contexto histórico e social de antes e depois da catástrofe nazista, já reconhece o dilema diante do qual o pensamento se encontra depois de Auschwitz. O próprio estado de coisas que deve ser conhecido torna o postulado de nem banalizar nem demonizar improvável; mas o ideal tradicional da adequação do pensamento à coisa, por meio da monstruosidade do contexto, é tornado impossível.
Auschwitz e Holocausto
A impressão imediata do universo dos campos de aniquilação faz com que o individuo perceptivo se silencie. De repente, alguém gostaria de iludir que, na medida em que ele influenciou uma desgraça com o qual está associado um sentimento desfavorável de indefesa. A expressão "Auschwitz" sucinta a verdade e o universo de sentimentos ligados a ela. Quem pode querer discutir Auschwitz sem montar as afecções ligadas com essa afirmação deve fazer a utilização de métodos que são conhecidos de psicanálise.
Como indicado por Agamben, esta é uma suposição de que nos leva a buscar Auschwitz "não como uma realidade verificável e uma irregularidade na montagem com o passado (independentemente do fato de que, talvez, até mesmo irrefutável), no entanto, de alguma forma ou outros, como a rede encoberto, os nomos do espaço político que apesar de tudo o que vivemos" (Agamben, 2002, p. 173). Isto implica que, apesar de os indivíduos que têm uma tendência a ver o campo como retiro no curso normal da história da civilização e progresso do esclarecimento, totalitarismo deve ser entendido como um fato político moderno em que a ligação próxima da ciência com as técnicas burocratizantes do Estado subiram o casamento da vida com a política ao nível máximo, a ponto de uma coincidir com a outra e o homem dos direitos transformar-se em homo sacer.
O significado de homo sacer é a figura do direito romano antigo que é melhor retratada por sua proibição dupla, tanto humana como a ala incrível. É que a vida não merece viver, extremo exemplificação do direito soberano de rejeitar ou apagar qualquer pessoa que tenha sido apurado após os pontos de quebra de leis humanas e celestes, e transformá-lo em um ser que as leis não importam e cujas pulverização não obriga a disciplina, que é despojado de qualquer centralidade moral ou religiosa.
O grande publico da indústria cultural talvez não perceba a diferença, que palavra ele escolhe: "Holocausto" ou "Auschwitz". Esta é uma analise bastante interessante de Detlev Claussen no seu artigo A banalização do mal: sobre Auschwitz, a religião do cotidiano e a teoria social. Para Claussen a maneira que o Holocausto substituiu perfeitamente Auschwitz como uma atribuição da autoria nazista leva uma lógica social. No momento em que o nome Auschwitz acontece, a ligação não é claro, no entanto, é razoável. O nome Auschwitz faz alusão a um local particular, autêntico, do que aconteceu. Auschwitz fala, como um componente de um todo, o universo de foco e de aniquilação, cuja o extermino mais forte aconteceu no território da Polônia.
Com um nome alemão para uma área na Polônia, Auschwitz faz alusão à autoria alemã do crime. O nome alemão de um lugar na Polônia simboliza a tarefa, que assumiu uma parte fundamental na constituição do fundo histórico dos estados nacionais europeus e as regras políticas e sociais judaicas conectados a esta metodologia. O último acordo do inquérito judaica, proposto pelos nazistas em Auschwitz deveria quebrar o pano de fundo histórico dos judeus europeus, em um outro pedido Europeu.
O termo holocausto não aponta ninguém, é uma palavra comumente usada para se refere à morte de pessoa na Europa na primeira metade do século XX.  .Nesse meio tempo, a palavra holocausto fora tematiza um sentido encoberto que está apenas decifrado por quem sabe. Quem precisa  interpretar Holocausto como fogo da Europa da Idade Média, com suas batalhas religiosas e opressão. Holocausto divide a demonstração da conexão semântica da experiência nisso como algo completamente fora, a partir do qual podemos nos aproximar apenas com correlações.
A atribuição continua tão obscuro que qualquer um pode imaginar ou apontar evento parecido, como ocorreu nas Américas colonizadas e o extermínio das civilizações pré-colombianas. No momento em que Auschwitz é frequentemente especificado, as pessoas fecham seus ouvidos. Ao contrário, pode-se falar o quanto se quiser de holocausto. A palavra holocausto preenche, diferentemente do que o faz o nome “Auschwitz”, as condições de comunicabilidade em termos de meios de massa. Ele codifica um segredo público, mas dificilmente suportável, num hieróglifo que é utilizado de várias maneiras.
Conclusão
Todo olhar de Adorno é voltado para a condição humana imposta após essa catástrofe que nos obriga a uma permanente crítica imanente ao existente. Para ele, Auschwitz é o próprio símbolo da consciência “coisificada”, mas é também o símbolo da modernidade e de uma civilização afetada pela racionalidade técnico-instrumental. Criado sob a mão humana, Auschwitz nasce a partir de uma exigência de ler a contrapelo o processo histórico da catástrofe racionalmente planejada.
O significado de Auschwitz constitui-se no prisma exemplar do nexo entre cultura e ideologia. Quando  Adorno afirma que: “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que se tornou impossível escrever poemas”, o filósofo propõe a necessidade de refletir sobre a tensão entre barbárie e representação.
É essa acepção da palavra catástrofe que se pode reconhecer de modo latente na frase de Adorno. O aniquilamento do homem também ecoou no aniquilamento da utopia humanista, corroendo o poder explicativo da razão e a crença no conhecimento como força de civilização. Na frase adorniana “escrever um poema após Auschwitz é bárbaro” está exposta a tensão na quebra de confiança da fluência na relação entre os seres humanos e as formas familiares de expressão.
A sociedade contemporânea ainda se apresenta como uma totalidade falsa, e o critério dessa falsidade é transcendente ao todo. O individuo que mostrasse interesse em chegar perto de Auschwitz deve querer muito no sentir de ter uma postura crítica em relação a seus próprios sentimentos daquele evento.
A existência real de Auschwitz compactua no caminho de uma teoria social que critique no instrumento enorme da indústria cultural. Ao procurar compreender os fatos daquele campo de concentração devemos nos ater ao que é oferecido pela indústria cultural ligados com o holocausto. A divulgação massificada por holocausto assegura também que Auschwitz permanece sem compreensão e portanto, algo que não se pode falar. O uso da palavra Holocausto em troca de Auschwitz permite retirar toda a dor e sofrimento que essa palavra ainda representa nas pessoas afetadas direta e indiretamente, como uma aviso do horror que o homem é capaz de realizar com seu semelhante.
Referências Bibliográficas:
Adorno, Theodor W, Dialética Negativa. Trad.: Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
-, Crítica cultural e sociedade. En: Prismas. Trad.: Augustin Wernet e Jorge Mattos Brito de Almeida. São Paulo: Ática, 1998. p. 7-26.
Agamben, G, Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Trad.: Henrique Burgo Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
Celan, Paul, Fuga da morte. En: Quatro mil anos de poesia. Trad.: J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares, São Paulo: Ed. Perspectiva, 1969.
Claussen, Datlev, “A banalização do mal: sobre Auschwitz, a religião do cotidiano e a teoria social”. Em: Cadernos de estética aplicada 12 (jul-dez de 2012), p. 1.
Marcuse, Herbert, A Dimensão Estética. Trad.: Maria Elisabete Costa. Lisboa: Edições 70, 1977