Ideologia, educação e literatura: a indústria cultural na interface com a formação da criança

 

Simei Araujo Silva*
 
 
Introdução
O presente trabalho originou de uma pesquisa[1] realizada no curso de doutoramento da Universidade Federal de Goiás (UFG/FE). Assim, objetivamos problematizar as possibilidades de formação cultural da criança na família e na escola pela mediação da literatura em tempos de dominação tecnológica altamente sofisticada, contribuindo com a decadência da cultura humana. Para os frankfurtianos Adorno (1995; 2001; 2010), Horkheimer e Adorno (1973; 1991) e Benjamin (1989), o rompimento com a cultura burguesa, construída historicamente e sedimentada pela dominação do sistema capitalista, é um desafio aos formadores e educadores de crianças, visto que a indústria dessa cultura estendeu-se a diversos ramos da arte, como a música, as artes plásticas, a literatura e o cinema e na produção de brinquedos. Contrário a esta concepção, a cultura humana é aquela que se projeta de forma contestatória à sociedade capitalista que produz a “semiformação”. De acordo com Adorno (2010) o conceito de cultura representa a cultura da burguesia que foi construída no contexto dessa sociedade que cria a cultura “coisificada”. Assim, “No clima da semiformação, os conteúdos objetivos, coisificados e com caráter de mercadoria da formação cultural perduram à custa de seu conteúdo de verdade e de suas relações vivas com o sujeito vivo [...]” (ADORNO, 2010, p.19). Desta forma, a escola enquanto instituição social contraditória, de um lado, é um espaço de formação humana das crianças que lhe permite a criação de novas experiências, isto é, não adaptadas, por outro, caracteriza-se como um espaço também de produção da cultura burguesa.
Isto posto, passamos a ressaltar que, atualmente, vivemos em uma sociedade considerada civilizada, porque ela alcançou o ápice do desenvolvimento tecnológico. Mas, segundo Adorno e Horkheimer (1991), vivemos em uma sociedade civilizada com indivíduos cegos e ignorantes, guiados pela razão instrumental, tecnológica, enrijecida, cristalizada, enfim atrofiada. Kant (2003), no século XVIII, proclamou em seu texto “O que é esclarecimento? “que o homem tem que ter coragem de tornar-se o seu próprio guia, de agir conforme o seu pensamento e não como o de outrem. Diante dessa ideia, acreditamos que uma educação que forme, desde a infância -- leitores e escritores, mediados pela arte literária – deverá formar sujeitos indignados, encorajados e inconformados com essa racionalidade, criando consequentemente, uma geração mais humana e emancipada face à razão dominante. 
Para Adorno (1995), o sentido da educação está na luta contra essa razão instrumentalizada, bem como contra a barbárie, sobretudo, por meio do universo cultural e formativo. Assim, conforme o autor é preciso investir na formação desde a infância, no sentido de ensinar às crianças que a barbárie é um perigo imanente que se desdobra no âmbito ideológico e cultural. A partir deste pensamento adorniano, Zanolla (2010) discute a concepção de infância que, na sua perspectiva, vai além de pensar a criança como ser natural, espontânea e infantilizada. Isso leva à necessidade de se discutir com ela as contradições e os conflitos da vida real. Nas suas palavras
 
A educação, mesmo na primeira infância, deve ser crítica para que o sujeito não aceite tudo que é imposto na sociedade e reflita. Deve ser emancipatória e voltada para a autorreflexão (sic), ou seja, deve ensinar as crianças a ser educadas para refletir e ter consciência de seus atos, podendo, assim, distinguir entre o certo e o errado sem serem infantilizadas (ZANOLLA, 2010, pp 73-74).
 
Com base em tais princípios, a literatura infantil torna-se elemento fundamental de luta contra a barbárie que se reedita na sociedade atual, a exemplo da indústria cultural infantil, da miséria crescente, da indiferença à violência, dentre outras causas.
Na concepção de Adorno (2001, p. 76)): “Quem não tem pátria encontra no escrever a sua habitação”. Sendo assim, acreditamos que as atividades de contação e de leitura de histórias na interface com a educação emancipatória, autônoma -- ávida para desvelar a cegueira e o conformismo do homem atual -- possibilita a formação de leitores e escritores críticos, os quais encontrarão no livro literário impresso o seu habitat fértil de arte e criação de experiências, com vistas a guiar a construção de uma pátria diferente e desconhecida, avessa à sociedade consumista, preconceituosa, excludente e bárbara. Essa sociedade cria no indivíduo, gerado pela indústria cultural[2] e  publicidade, necessidades artificiais de consumo gerando nele a satisfação e a felicidade imediatas e, por isso, falsa e aparente. Desse modo, o ter prevalece nas relações humanas e o ser esvazia-se de sentido humano.
Em face disso, partimos do princípio de que a literatura impressa, concebida e trabalhada como arte no contexto escolar, possibilitará a formação cultural da criança. Abordar a literatura como arte, a partir do pensamento adorniano, implica compreender a sua finalidade política. Por isso, a escolha dos critérios do livro literário pelos professores é essencialmente político, porque o conteúdo da história pode ser revelado tanto como verdade absoluta, pautada na razão instrumental dominante, quanto, também, ser confrontada ao permitir que a criança manifeste a sua palavra e história de vida, bem como a sua identificação com algum personagem. Nessa perspectiva, garantir a comunicação oral de histórias é dar continuidade ao processo histórico da arte de contação e histórias populares originadas desde a Antiguidade Clássica. Além disso, é oportunizar a comunicação humana e afetiva mediante o cruzamento de vozes e olhares. Para Benjamin (1989, p. 19), “[...] quem é visto, ou acredita estar sendo visto, revida o olhar. É contudo inerente ao olhar a expectativa de ser correspondido por quem o recebe”.
No entanto, é preciso que registremos que a identificação extrema da criança com personagens de histórias deve ser discutida com ela, advertindo-a que a idealização de algum objeto (livro literário) ou de um sujeito (personagem) configura-se um impeditivo para a reflexão em torno da realidade circundante.
Temos como pressuposto que, por um lado, a arte literária é contraditória, porque é apropriada pelos professores como instrumento para o ensino da leitura e produção de textos (incluindo norma ortográfica), por outro, instiga na criança a manifestação da fantasia e imaginação e permite, ou não, a leitura da realidade social. Por compreendermos a escola como uma instituição social, ela expressa as contradições da sociedade na qual se insere. Assim, a literatura, por um prisma, poderá legitimar a realidade e reforçar a ideologia dominante e, por outro, quando mediada pela educação autônoma e emancipatória, porque incitada pela constante tensão entre o universal e particular, provocará a busca do desconhecido, ou seja, da criação de experiência voltada para a formação de gerações mais humanas e sensíveis à miséria social. Ora, enquanto houver fome na Terra, a indiferença aos problemas sociais reinará e a barbárie será reeditada pela sociedade atual que é sedimentada pela ideologia dominante. Segundo Adorno (1995, p. 143)), a ideologia capitalista, como organizadora do mundo, “[...] converteu-se a si mesma imediatamente em sua própria ideologia. Ela exerce uma pressão tão imensa sobre as pessoas, que supera a educação”. Então, na perspectiva do autor, a ideologia representa a própria sociedade e, dessa maneira, sustenta e legitima a indústria cultural, possibilitando a formação voltada ao conformismo e à adaptação a essa sociedade. Para Adorno e Horkheimer (1973), Ideologia é “mentira manifesta”, porque os indivíduos estão integrados no mundo do consumo e até percebem que fazem parte dele, mas acomodam-se e, de forma ilusória, sentem-se realizados e felizes.
Na escola o mundo literário e o virtual se entrecruzam. A vivência dessa contradição, conforme nosso ponto de vista, deve ser um indicativo para os profissionais da escola pensarem na questão que se segue: qual é o lugar do livro literário e didático na formação da criança? Posta esta questão, lembramos que
 
[...] a informática e a internet dispõem de jogos, brinquedos, músicas e histórias infantis, que são atrativos para as crianças, os quais integram atividades tanto escolares quanto familiares. Contudo cabe à escola a tarefa de tornar o livro impresso um objeto também qualitativamente atrativo [...] a escola é o espaço educativo por excelência para desenvolver a prática de leitura e escrita com a criança (SILVA, 2012, p. 111).
 
Marx (1993, p. 98), nos “Manuscritos econômico-filosóficos de 1844”, afirma que as relações de produção de mercadoria impedem o homem de expressar o seu “[...] sentido para o espetáculo mais belo”. Trazendo essa ideia para a sociedade contemporânea, percebemos que a indústria cultural, a diversão infantil por intermédio da diversão virtual (brinquedos eletrônicos, internet), facilita, na família e na escola, a prisão dos sentidos humanos, a redução da linguagem da literatura infantil e da comunicação, dificultando a criação da experiência e do desconhecido.
Desse modo, entendemos que a escola é uma instituição social que reflete contradições engendradas pela sociedade capitalista. Assim, a escola, como parte dessa totalidade, traz para o seu cotidiano a indústria cultural, legitimando-a, notadamente, pela presença de objetos escolares com logotipos de marcas, vestimentas e recursos escritos, como livros didáticos e literários, jornais, computador e internet. Para Adorno (1994), a indústria cultural conduz os indivíduos à dependência e servidão ao sistema dominante, inculcando-lhes ideias de que o mundo caminha em plena ordem, da qual ele se sente parte e com a qual ele se realiza quando consome os produtos dessa indústria (SILVA, 2012).
Benjamim (1989, p. 46), de uma forma brilhante e provocativa, na obra “Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo”, expõe que atualmente vivemos em uma sociedade constituída por uma “multidão amorfa de pessoas”, porque o indivíduo passeia vagando e perdido em meio à multidão “[...] a perder de vista, onde ninguém é para o outro nem totalmente nítido nem totalmente opaco”. Ao trazermos essa ideia para o século XXI, presenciamos esse passante anônimo, transitando pelas ruas e no shopping, seduzido pelo consumo. Face a isso, o homem moderno vai perdendo a tradição, a sua memória histórica, passando a registrar as impressões momentâneas, aparentes e automatizadas.
Nessa direção, salientamos que a pesquisa indicou que a literatura infantil trabalhada pela narração de histórias e poesias instiga a identificação das crianças com personagens e forma valores a partir de seu contexto social, de sua cultura familiar e escolar. Dentre eles, alguns revelaram aspectos da ideologia dominante, como, por exemplo, o consumo e o preconceito. Por um lado, uma aluna revelou ter o preconceito com a aparência de seu cabelo e afirmou o seu desejo de possuir o cabelo louro e liso. Nas suas palavras: “Não gosto do meu cabelo, porque é enrolado e difícil de pentear”. Por outro, dois alunos manifestaram indignação em relação aos termos pejorativos ditos aos seus colegas: “gordinho”; “lasanha”, “baleia assassina”, “gorda demais”.
Nesse sentido, Crochík (2011, p. 17) contribui para pensarmos sobre o preconceito formado desde a infância. “Se o preconceito não é inato, a criança pode, de fato, perceber que o outro é diferente dela, sem que isso impeça o seu relacionamento com ele”. Com base nesse pensamento, o preconceito pode se desenvolver, ou não, de acordo com as possibilidades (de) formativas da cultura, então é possível impedir que continue presente nesta e na mentalidade das pessoas. “O que leva o indivíduo a desenvolver preconceito, ou não, é a possibilidade de ter experiências e refletir sobre si mesmo e sobre os outros nas relações sociais”, esclarece Crochík (2011, p.19). Para o autor, agir de forma imediata diante de alguém sem reconhecimento das diferenças interpessoais e da reflexão reforça o preconceito. Portanto, a experiência requer que o indivíduo se relacione com o outro, que duvide da realidade social, modifique-se, dialogue, redirecione o sentido de sua palavra e de sua vida.
Em síntese, a escola, espaço no qual realizamos nossa pesquisa, representa parte da cultura formativa. Então, à escola cabe a tarefa de tornar o livro literário impresso um objeto também qualitativamente atrativo aos alunos. Salientamos ainda que a escola é o espaço educativo para desenvolver a prática de leitura com seus alunos, já que, fora do ambiente escolar, ela pode vir a ocupar o seu tempo, de modo indevido ou exagerado, com a realidade virtual (SILVA, 2012). Nesse sentido, ressaltamos que a cada livro lido, a possibilidade de a criança exercitar o pensamento criativo, na interface com o autor, consigo mesma e com a realidade, é lançada, criando-se outras experiências mediadas pela arte literária. Então, acreditamos que a literatura, concebida como arte, atividade criadora que manifesta cultura, possibilita à criança pensar a realidade estabelecida criando experiências contrárias à desumanização e à reedição da barbárie.
 
 
 
Bibliografia
ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação, Trad. de Wolfgang Leo Mar, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
_____. Minima morália, Trad. de Artur Mocão, Rio de Janeiro: Edições 70, 2001.
_____. Teoria da semiformação. Trad. de Newton Ramos-de-Oliveira [1972-80], In: PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA (Orgs.), Teoria crítica e inconformismo: novas perspectivas de pesquisa, Campinas, SP: Autores Associados, 2010.
ADORNO, W. Theodor & HORKHEIMER, Max. Temas básicos de sociologia, Trad. de Álvaro Cabral, São Paulo: Editora Cultrix, 2. ed. 1973.
BENJAMIM, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire. Trad. de José M. Barbosa; Hemerson A. Baptista, In: Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo, São Paulo: Brasiliense, 1989.
CROCHÍK, José Leon. Preconceito, indivíduo e cultura, 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
KANT, Immanuel [1783]. O que é esclarecimento?Revista espaço Acadêmico – n. 31, p. 1- 4, dez. de 2002. WWW.espacoacademico.com.br/031tc- Kant.htm. Acessado em 16/02/1012.
MARX, Kal. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Trad. de Maria Antônia Pacheco, Cadernos I, II, III. Lisboa: Edições Avante! 1993.
SILVA, Simei Araujo. Ideologia, educação e literatura: a indústria cultural na interface com a formação da criança, Tese de Doutorado, Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Educação, 2012, 149 p.
ZANOLLA, Sílvia R. S. Videogame: educação e cultura, Campinas, São Paulo: Editora Alínea, 2010.
 
 
 
 
 
 


*Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás.
[1] Nos anos de 2010 e 2011, realizamos uma pesquisa no curso de doutorado em educação na UFG/FE, que objetivou investigar a identificação dos alunos de 1.º e do 3.º ano da 1 Fase do Ensino Fundamental do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação (CEPAE/UFG) com personagens e conteúdos de histórias narradas na atividade “Hora do Conto” na biblioteca (e de outras histórias conhecidas por eles em seu contexto familiar). A “Hora do Conto” é uma proposta que integra as atividades culturais da biblioteca e do Cepae, desde 1993. O principal objetivo dessa proposta é o incentivo à prática de leitura e à formação de contadores de histórias. No horário oficial da escola estava previsto o dia da semana em que cada turma participaria dessa atividade. De um total de sessenta e um alunos, dos dois terceiros anos, foram realizadas vinte e uma entrevistas. Foram também entrevistados três profissionais dessa mesma fase da área de Ciências Humanas. Analisamos os dados com base nos conceitos de sociedade, educação, ideologia, indústria cultural, literatura infantil, experiência e infância. Do total de (43) histórias conhecidas pelos alunos, no contexto escolar e familiar, estes relacionaram cinco com que eles mais se identificaram. Sucessivamente: Bruxa Onilda vai à Nova Iorque; A centopeia que sonhava; Os três porquinhos; Anúncio no Jornal e Quem tem medo de monstro. Nessa escola, presenciou um ambiente literário propício para formar os contadores de histórias e leitores críticos.
 
[2] Adorno e Horkheimer (1991) utilizaram o termo indústria cultural pela primeira vez no ano de 1947, quando da publicação do livro Dialética do Esclarecimento. Substituem cultura de massa por indústria cultural para esclarecer que a cultura referida por eles não se origina espontaneamente das massas, mas sim reflete uma reestruturação do sistema capitalista. Produção das necessidades de consumo padronizado produz comportamentos padronizados.