A relação entre dominação e emancipação na constituição do preconceito

 

Tainã Moreira Gomes
UNIMEP/SP
 
Resumo
Este trabalho objetiva contribuir como uma reflexão sobre a possível relação entre a dominação e a emancipação na constituição do preconceito. Reflete-se especialmente a partir das situações que propiciam o desenvolvimento do preconceito, utilizando como argumento a barbárie ocorrida em Auschwitz no período nazista. Baseando-se nas considerações postuladas por Crochík sobre o preconceito, percorrem-se as instâncias: individual e coletiva, para quem sabe, atingir-se uma compreensão. Considera-se nesta busca pelo entendimento, a questão do indivíduo e como suas ações têm sido dominadas pelo preconceito de forma irrefletida. Apresenta-se também a cultura, que aparece como uma regressão, uma condução à permanência dos indivíduos em sua minoridade. A cultura tem reforçado a permanência dos indivíduos na utilização do preconceito como única possibilidade de saída dos conflitos promovidos pela realidade histórica, social e política. A cultura aparece como alternativa do indivíduo para evitar a angústia gerada por tantas situações conflituosas, as quais o responsabilizam. Para finalizar, recorre-se à educação, como uma possibilidade de retomada à humanização e interrupção da barbárie, tanto individual e coletiva, para quem sabe, contribuir para a anulação, a diminuição e/ou a eliminação do seu potencial destrutivo.
Palavras- chave: Preconceito. Dominação. Emancipação.  
 
 
Iniciamos esse trabalho mediante um diálogo, na tentativa de construirmos pensamentos e reflexões que possam propiciar o entendimento (esclarecimento) sobre a possível relação entre a dominação e a emancipação na constituição do preconceito.
Nossas questões partirão de Auschwitz, campo de concentração do período nazista, que não deve ser esquecido, para podermos refletir a partir desse momento histórico e perceber como a sociedade e seus indivíduos contribuíram ativamente para a instalação da barbárie. Auschwitz[1] representa o símbolo do Holocausto, local do genocídio de milhares de pessoas. Foi criado pelos alemães em 1940, na periferia de Oświęcim, cidade polaca que foi anexada ao Terceiro Reich pelos nazistas. A cidade recebeu o nome alemão de “Auschwitz”, que foi usado também para determinar o nome do campo: Konzentrationslager Auschwitz.
Auschwitz, segundo Adorno (1995) representa a regressão da humanidade. Milhões de pessoas assassinadas de forma planejada, com todos os requintes tecnológicos, processos sequenciados e administrados. Com a barbárie instalada, deparamo-nos com uma imensidão de situações: as condições, a permissão, a adesão, a falta de consciência, a incapacidade de resistência, a mutilação das consciências, à violência estruturada – à dominação.
            Pensar em Auschwitz, além de possibilitar um momento de reflexão, também pode nos afirmar que, ao passo que a humanidade tentaria se aproximar do esclarecimento, sendo contrária à ignorância, ao medo, às trevas, isto não se daria de modo linear e harmônico, nem muito menos indicaria superação, mas explicitaria a constante luta dialética entre a dominação e a emancipação, entre a aproximação da humanização e o retorno à barbárie. Condição inerente à civilização, segundo Adorno/Horkheimer (1985).
            A dominação segundo Zanolla (2007) é um conceito muito importante para os frankfurtianos, assim como o seu oposto, a emancipação, porque constitui elemento cultural que se desmembra em barbárie, pela ideologia, firmando o contexto político e social com o intuito de se manter. Isso é o que, segundo a autora possibilita problematizar a perspectiva de existência ou não de superação da dominação, a desmistificação da emancipação humana, ou seja, a falsa liberdade.
Adorno (1995) aponta que a ausência de compromisso das pessoas teria sido responsável pelo que aconteceu. Isto efetivamente, segundo o autor, tem a ver com a perda da autoridade, uma das condições do pavor sadomasoquista. A disponibilidade em ficar do lado do poder, tomando exteriormente como norma curvar-se ao que é mais forte, constitui aquela índole agressiva dos algozes que nunca mais deve ressurgir, afirma o autor.
Jahoda e Ackerman (1969, apud Crochík, 1997) apresentam o preconceito como um termo, em seu sentido etimológico amplo, que se aplica às generalizações categóricas que, fundamentadas numa experiência incompleta dos fatos, não levam em conta as diferenças individuais. De acordo com os autores, todos nós prejulgamos continuamente, a respeito de muitos assuntos, e essas generalizações redundam em uma economia de esforço intelectual.
Crochík (1997) apresenta três instâncias que justificam o preconceito:
 
1. Fenômeno psicológico – o preconceito advém de uma relação particular do indivíduo em sua relação com a cultura;
2. Processo de socialização – firmado mediante pelo processo de socialização perpassado pelo indivíduo ao longo de sua história, pois o indivíduo estando na cultura pode afirmá-la ou negá-la, restando assim desse processo, uma adaptação e/ou emancipação por causa de sua necessidade de lutar para sobreviver. O preconceito surge como resposta aos conflitos encontrados por este indivíduo no decorrer desta luta;
3. Manifestação individual – aparece como uma manifestação individual que não se deposita unicamente sobre um objeto determinado, mas de vários. O preconceito está ligado às necessidades do sujeito preconceituoso, podendo manifestar-se sobre qualquer objeto que suscite impossibilidade de identificação, por isso, Crochík (1997:14), pontua que quanto maior a debilidade de experimentar e de refletir, maior a necessidade de nos defendermos daqueles que nos causam estranheza.
A partir de então, podemos compreender que o indivíduo impossibilitado de diferenciar-se, de considerar a singularidade do outro e o seu extremo, a identificação irrefletida, manifesta pela reprodução do outro, coloca a cultura em risco, por conciliar o universal e o particular, o sujeito e o objeto. Isso é o agir sem reflexão, apontado por Crochík (1997), que causa no indivíduo uma paralisia, uma incapacidade de pensar antes de agir, o conduz a uma reação mimética (fingir-se de morto frente ao objeto que gera estranheza).
A reação mimética ocorre frente à impossibilidade do sujeito reconhecer-se e diferenciar-se do outro, agindo meramente por reproduzir algo que previamente foi estabelecido. Não há experiência, não há reflexão, o preconceito é um mecanismo que oferece resposta mecânica ao indivíduo frente àquilo que não ele compreende e não quer dispor-se a compreender. “A essência está na diferença” (Adorno apud Crochík, 1997: 117).
 
Crochík (1997) afirma que o preconceito funciona como um tabu, um predicado que ao ser acionado possa ir contra a angústia que o indivíduo não aprendeu a lidar. Este apresenta sempre as mesmas reações estereotipadas frente às situações conflituosas. Essas reações estereotipadas dizem muito de nossa condição de indivíduos modernos pertencentes à sociedade moderna e burguesa. Uma sociedade que exige de nós, segundo Crochík (1997), respostas e tomadas de posição rápidas, postula esquemas, impedindo a reflexão e a possibilidade de experiências.
A urgência da modernidade nos empurra. Não há tempo para adquirir conhecimento, é preciso tê-lo, ou pelos menos, comprá-lo. Como há economia intelectual, o sujeito utiliza de slogans para compor o repertório linguístico, como uma justificativa desenfreada, aguardada por todos, do nosso ativo pseudoconhecimento[2]. Na modernidade não é necessário saber verdadeiramente, pois há uma crescente inversão de valores éticos e morais que não nos obrigam a carregá-los.
Isso, de acordo com Crochík (1997), tem a função social e individual para contribuir com a manutenção do status quo, ou seja, a permanência da adaptação nos processos de perpetuação da barbárie. Mas Crochík (1997) lembra que, nem todas as experiências são dignas de serem vividas, pois a base delas também deve concordar com a autoconservação dos indivíduos e de suas sociedades.
Ao contrário do que se possa imaginar, Crochík (1997) adverte que o preconceito é algo irracional, mas a sua forma de expressá-lo nem sempre o é, há a possibilidade de utilização de um invólucro racional que permeiam as teses dos indivíduos preconceituosos. O preconceituoso não é susceptível à argumentação racional e em diversos casos, tampouco à experiência, ou seja, antecede qualquer argumentação lógica que deponha contra as suas afirmações. Ele está envolto por justificativas que lhe são peculiarmente lógicas, impedindo assim qualquer contestação. Este indivíduo é aquele esperado pela cultura, para a sua perpetuação e a manutenção de práticas que em nome da tradicionalidade podem contribuir para a mesmice, dado que, “O preconceito é uma paixão” (Adorno e Horkheimer apud Crochík, 1997: 26).
Adorno (1986 apud Crochík, 1997: 31) ressalta que
 
O preconceito se aproxima do comportamento economicamente racional, responsável pela autoconservação individual, o que significa que ele se dá em função desta, e assim, enquanto o indivíduo não se sentir seguro quanto às suas possibilidades de viver uma vida digna, precisará desenvolver mecanismos psíquicos que iludam constantemente a sua real impotência frente à atual organização social.
 
O preconceito é um modus operandi[3] instituído e transmitido ao longo das gerações, o que acontece segundo Crochík (1997), para a manutenção da tão defendida tradicionalidade. Seu único sentido se configura como a perpetuação de práticas humanas, que são transmitidas de modo irrefletido. A educação em muitos casos utiliza-se desta continuidade para apresentar seus valores e métodos, com uma justificativa, voltada à emancipação. Sabemos e concordamos que a mimese é necessária para que as práticas humanas sejam transmitidas pelas gerações passadas às futuras, mas teriam um caráter mais educativo se fossem transpostas pelos indivíduos em busca de sua possibilidade de ser/estar singular. Uma educação que, muitas vezes se diz emancipatória, abriga em sua essência a adaptação do indivíduo, impedindo-o desse modo, como postulado por Kant, citado por Horkheimer e Adorno (1985), a saída do homem de seu estado de minoridade social e consequentemente mantendo o preconceito, adaptando-o ao indivíduo e à cultura. Essa escolha não permite a possibilidade de emancipação.
            A cultura dominante colabora para a permanência e perpetuação de preconceitos, quando cria mecanismos adaptativos aos indivíduos fazendo com que eles possam introjetá-los. Crochík (1997: 38) afirma que “os preconceitos são incutidos nos homens os quais são impedidos e se impedem de pensar por si próprios”. Por isso,novos preconceitos justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.
            A ideologia da raça pura presente no nazismo, como uma justificativa de evolução biológica do ser humano, convenceu muitos e permitiu a exclusão, a discriminação de todas as raças que não se enquadravam no ideal eugênico. Raças consideradas como inferiores, foram dizimadas sob a justificativa de uma pretensa evolução da raça humana. Um propósito racionalizado, buscado de forma irracional. O entendimento de pertencer a uma raça superior à outra, segundo Crochík (1997), simboliza a estrutura cultural de uma sociedade que não oferece um lugar fixo a ninguém. Dessa maneira, os indivíduos necessitariam lutar contra a insegurança em que são dispostos e instintivamente, lutam uns contra os outros e todos contra todos. Esse sintoma é a violência, sutil ou revelada, recurso social, segundo Crochík (1997), utilizado como forma de avaliar a gênese dos indivíduos.
Em Kant (1992, apud Crochík, 1997) o preconceito pode ser compreendido como uma maneira de permanência, de estagnação, de imobilidade, e isso impede o homem de sair de seu estado de minoridade. Freud citado por Crochík (1997) define o preconceito como o momento de predomínio do desejo sobre a razão. Nestes autores, o que fica perceptível é que, a opção por essa atitude é individual e culturalmente regressiva.
Há em todos os autores citados neste trabalho, o entendimento de que a dominação do humano, da sociedade e de suas relações fortalecem práticas que impedem a constituição de experiências que conduzam o humano à sua possibilidade de verdadeira humanidade. O retorno à Auschwitz é tanto necessário quanto pertinente. Até agora, subestimamos as sucessivas e diversas barbáries consciente e inconscientemente para nos adaptarmos àquilo que é exigido pela cultura. “É a própria reflexão sobre os propósitos da cultura e de seus indivíduos em confronto com as suas reais necessidades que poderia criar um freio à violência, e dentro desta, ao preconceito” (CROCHÍK, 1997: 50). Entendemos que tudo que impeça o indivíduo de se voltar para a realidade, evitando quer a percepção de sofrimento que esta contém, quer a necessidade da vinculação com a cultura como uma instância que aponta para a universalidade humana, auxilia na formação de preconceitos” (CROCHÍK, 1997: 50).
Crochík (1997) pontua que toda atitude que promove o confronto de uns contra outros, para que a sobrevivência seja garantida, contribui para a permanência da regressão tanto individual quanto social, que segundo o autor, são componentes básicos do preconceito. As garantias para uma sobrevivência digna deveriam ser dadas pela cultura, sem a necessidade de confrontos, pois os avanços tecnológicos, a racionalidade técnica e o domínio da natureza são aquisições que a civilização adquiriu e que deveria ser partilhada entre os indivíduos. Mas a cultura, ao invés de promover a individuação dos indivíduos, protegê-los dos perigos da natureza, se faz tão ameaçadora quanto, por não permitir o acesso dos indivíduos aos avanços da civilização. Contribuindo e fortalecendo os preconceitos como mecanismo para exclusão daqueles que serão os destinados a estarem à margem de seus contextos.
Essa adaptação do indivíduo à cultura é um mecanismo ideológico-social utilizado para estabilizar o indivíduo, através do preconceito, diminuindo-lhe o sentimento de insegurança que poderia consumir-lhe. Mas uma possibilidade de dissolução dessa insegurança seria a formação do autêntico indivíduo autônomo postulado por Kant, que disposto à reflexão, poderia eliminar tanto a repetição do comportamento preconceituoso, quanto à sua insegurança frente à civilização. Se a experiência e a razão são para Kant fundamentais para o conhecimento, o preconceito é o seu maior obstáculo (CROCHÍK, 1997: 38).
Indivíduo para Crochík (1997: 56) é um produto social criado historicamente. O preconceito aparece como algo que restringe as possibilidades deste indivíduo apresentar-se socialmente. O preconceito, de acordo com Crochík (1997: 56), é imputado pelo preconceituoso ao indivíduo, impondo a este predicados e características previsivelmente determinadas que são negadas quando superam o esperado”. O preconceituoso se imobiliza perante seus preconceitos, os quais são projetados mediante ações antecipadamente programadas.
Certamente o preconceituoso, pela sua incapacidade de adaptar-se ao novo, ou pelo menos, ao inesperado, ao desconhecido, programa as ações do outro para agir sempre de acordo com as próprias expectativas. Mas nem sempre isso simboliza a verdade. Ele, o preconceituoso, na sua incapacidade de lidar com a imprevisibilidade do outro, elabora repertórios antecipados que o outro poderá utilizar para que não lhe cause mudanças. É como se isso lhe assegurasse confiança frente ao outro. É a retirada inconsciente da ameaça que o outro pode causar diante do ordenamento repetitivo de suas ações.
Frases do imaginário popular como: “Eu já sabia!”, “Só podia ser você!”, “Isso é a sua cara!” refletem e muito a pouca ou nenhuma expectativa que permitimos que o outro exerça, pois já se desenhou sobre outrem ações e atitudes cabíveis. Todos os indivíduos são categorizáveis para o preconceituoso, e atitudes que poderiam diferenciá-los, são menosprezadas por ele.
Nessa trajetória, parece relevante apresentar alguns aspectos característicos da civilização postulados por Freud (2006), os quais podem contribuir para a compreensão da maneira pela qual ocorrem relacionamentos mútuos entre os homens. Freud (2006) indica que o elemento de civilização entra em cena como uma primeira tentativa de regular estes relacionamentos sociais. Esse elemento contribuiria para que os relacionamentos não sejam relegados, para uma vontade individual. “A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados”(FREUD, 2006: 101). A substituição da vontade individual, segundo Freud (2006), pela vontade coletiva constituiria o passo decisivo para a civilização. 
A indicação de Freud (2006) é pontual nesse quesito, porque não podemos concordar com o preconceito de que civilização seja sinônimo de aperfeiçoamento, de que se constitui como uma estrada para ela, orientada para os homens. Freud (2006) afirma que a relação existente entre o processo desenvolvimental ou educativo dos seres humanos individuais e o processo da civilização humana, apresentam uma natureza muito semelhante. Mas, a semelhança para por aí. No processo de desenvolvimento do indivíduo, o princípio do prazer[4] é o objetivo principal. Já no processo civilizatório, ainda de acordo com Freud (2006), o que mais tem importância é a criação de unidades que são constituídas a partir dos seres humanos individuais. Há uma relação contínua e permanente que é estabelecida. Ao passo que o indivíduo busca a sua felicidade individual, também participa da união com outros seres humanos, estes se disputam hostilmente, entre o objetivo que conseguirá predominar.
Uma questão que não pode deixar de ser pronunciada neste momento é: como pensar a educação diante de tudo isso?
Notoriamente a educação tem sido uma das instâncias que sempre recorremos para combater o que é característico em nossa espécie. Mesmo considerando as suas limitações, acreditamos que ainda há na educação uma possibilidade de interrupção de nossas demandas em desordem. E quando pensamos em educação, kantianamente pensamos na possibilidade de construção de autonomia frente ao que está posto, na possibilidade de indivíduos autônomos capazes de superar sua condição atual e extrapolar para além do que a civilização precariamente nos tem ofertado.
Precisamos abordar algumas contradições que se fizeram presentes e que são importantes para que possamos compreender nossas dificuldades, frente à possibilidade de constituição de indivíduos verdadeiramente emancipados. Como na Europa as condições culturais dos países de primeiro mundo não puderam interromper a maior (ou uma das maiores) barbárie cometida pelos indivíduos contra outros indivíduos? Queremos acreditar que a cultura não pode ser o único parâmetro de análise de compreensão daquilo que consideramos avanços, nem tampouco, dos seus retrocessos.
Para pensar sobre estas condições, utilizamos Crochík (1997), que nos fornece algumas questões pontuais, que de acordo com sua avaliação, puderam contribuir, naquele período histórico, para se tornar um obstáculo à própria emancipação. São eles:
 
1. O nível cultural próximo entre os trabalhadores gerava insegurança na aquisição de mão de obra, qualquer trabalhador poderia ser facilmente substituído, e isso contribuía para a insegurança individual;
2. A democratização dos bens culturais nivelou por baixo a educação. É o que Adorno (1965, apud Crochík, 1997) denomina de pseudoformação[5]. Ao invés de democratizar a educação para a emancipação, optou-se por uma educação de massa, voltada a educar os trabalhadores para se tornarem “cidadãos”;
3. A mecanização crescente do trabalho não exigia que os indivíduos tivessem um alto grau de educação, mas que pudessem se adaptar aos procedimentos esperados pela máquina. O treinamento é suficiente para dar conta disso. Dessa forma, a cultura e a necessidade de aquisição da mesma, pode tornar-se uma inutilidade, uma excentricidade, como pondera Crochík (1997).
Recorro então, aos pensadores da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer (1971 apud CROCHÍK, 1997: 121), para os quais:
 
O pseudoculto se dedica à conservação de si em si mesmo; não pode permitir-se já aquilo no que, segundo toda teoria burguesa, se consumava a subjetividade – a experiência e o conceito – com o que se buscava subjetivamente a possibilidade da formação cultural, tanto como objetivamente está tudo contra ela. A experiência, a continuidade da consciência na qual perdura o não presente e na qual o exercício e a associação fundam uma tradição no indivíduo singular do caso, é substituída por um estado informativo pontual,...,intercambiável e efêmero, ao que há que ressaltar que será esquecido no próximo instante por outras informações...
 
A pseudoformação/semiformação, de acordo com os autores supracitados (1965, apud Crochík, 1997) dificulta a compreensão do indivíduo sobre a constituição complexa da relação sócio-política, tendo como único mecanismo para se livrar da insegurança gerada por estes meios, o estereótipo, o qual predispõe o indivíduo a agir de forma superficial.
Parece desesperador. Como buscar respostas na educação, sendo que a mesma, ao invés de propiciar a fonte para aliviar nossas angústias e frustrações vividas até aqui, mostra-se ainda mais competente (uso o termo de forma proposital), na consolidação e reforço da dominação, da manutenção da economia intelectual? 
Certos ou pelo menos convencidos estamos que, a educação tem um papel de extrema importância na perpetuação do preconceito, mas contrariamente, deveria ser uma fonte, um manancial para se pensar além, uma oportunidade para se correr o risco da dúvida, gerar reflexão e de acordo com Adorno (1995) interromper a barbárie. É importante considerar que não se trata aqui de generalizar ou relativizar o papel da educação, porque nem toda a educação ofertada aos indivíduos tem os mesmos propósitos, nem todas as pessoas caminham para os mesmos rumos, nem todos os indivíduos são atingidos pelos vínculos que são submetidos, e a regressão é imanente a tudo isso. Pensar a educação, sem a regressão, é condição para impedir a ambivalência do conhecimento e o uso que se faz dele. Só a teoria pode quebrar o feitiço: a teoria investigativa, reflexiva, aberta, aquela que se coloca como especulativa e implacável (ADORNO, 2011: 268).
Precisamos relembrar constantemente que a educação não deu conta de resolver o problema da desumanização. Apesar do esclarecimento, segundo Horkheimer/ Adorno (1985), ter sempre perseguido o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores, a meta de dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber ainda se mantém como uma loucura. Digo loucura, recorrendo a Freud (2006), que declara que nos tornamos loucos quando não encontramos alguém que possa nos ajudar a tornar real nosso delírio. O delírio de possibilitar a emancipação, a autonomia, a não barbárie.
O que esperamos é poder compartilhar nosso delírio com um maior número de pessoas, na tentativa de alteração desta realidade tão dura, que tem sido muitas vezes insuportável, em busca da elaboração de outra realidade. Quem sabe, contribuiremos para a nossa felicidade, pois é em busca disso que caminhamos. Não sei se minha visão está míope, mas em tempos tão difíceis, absurdos e por que não dizer: bárbaros, esperar da civilização oportunidade para se constituir autonomia, individuação, emancipação... creio que essa espera poderá ser eterna ou pelo menos remediada por um longo tempo.
Que dia é hoje?
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
______. Teoria Estética. Trad. de Artur Mourão. Lisboa: Edições 70, 2011.
AUSCHWITZ.<http://pl.auschwitz.org/m/index2.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=278&Itemid=81>. [Consulta: 17 de novembro de 2012].
CROCHÌK, J. L. Preconceito: indivíduo e cultura. 2ª. ed. São Paulo: Hobbe, 1997.
FREUD, S. (1856-1939). O Futuro de uma Ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.21).
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
JAY, M. A imaginação dialética: história da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisas Sociais, 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
MODUS OPERANDI. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_operandi>. [Consulta: 17 de novembro de 2012].
PSEUDOFORMAÇÃO.<http://revista.fct.unesp.br/index.php/Nuances/article/view/129/172>. [Consulta: 17 de novembro de 2012].                    
SEMIFORMAÇÃO. <http://www.scielo.br/pdf/es/v24n83/a08v2483.pdf>. [Consulta: 16 de julho de 2013].
ZANOLLA, S. R. S. Teoria crítica e epistemologia: o método como conhecimento preliminar. Goiânia: Ed. Da UCG, 2007.
 
 


[1] Para saber mais sobre Auschwitz veja no site:, disponível em: <http://pl.auschwitz.org/m/index2.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=278&Itemid=81>. Acesso em 10/07/2013.
 
[2] De acordo com A Dialética do Esclarecimento (1985) Kant define a Aufklärung como um processo de emancipação intelectual resultando, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro lado, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectuais menores por seus maiores (superiores hierárquicos, padres, governantes etc.). Dessa forma o pseudoconhecimento reflete ser a falsa clareza que contém no mito, pois ele sempre foi obscuro e iluminante ao mesmo tempo.
[3]Modus operandi é uma expressão em latim que significa "modo de operação". Utilizada para designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo sempre os mesmos procedimentos. Conceito extraído disponível em:  <http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_operandi>. Acesso em 17nov.2012
 
[4] Princípio do Prazer: (Resumo retirado do Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis, 2001) O objetivo da atividade psíquica é evitar o desprazer e proporcionar o prazer. Opõe-se ao princípio de realidade. O principio do prazer é o princípio que nos faz querer imediatamente algo satisfatório e querer cada vez mais. O sujeito busca alcançar prazer, a sensação de prazer é a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significa descarga de excitações enquanto o desprazer aumenta. Disponível em: <http://monitoriapsicanalisebarueri.blogspot.com.br/2012/11/freud-ii-verbetes-principio-do-prazer.html>. Acesso em 18nov.2012
 
[5]Os conceitos de pseudoformação e semiformação são traduções das obras de Adorno e Horkheimer realizadas por diferentes autores. Leon Crochík aponta como Pseudoformação: “Os problemas atuais da formação do indivíduo através da educação que guardam relação com a contradição própria ao desenvolvimento de nossa civilização. A tendência à destruição, encontrada nos atos mais visíveis e nos mais requintados, segue inerente a marcha do progresso que tem como meta uma sociedade plenamente administrada, uma administração que não distingue pessoas e coisas, a não ser para tornar as primeiras em meio e as últimas em fim. Se a vida individual só ganha sentido na preservação da sociedade, o sacrifício diário da vida se legitima. E o sacrifício é, segundo Horkheimer & Adorno (1985), a base da subjetividade burguesa. (Leon Crochík).
Semiformação (Halbbildung) é a determinação social da formação na sociedade contemporânea capitalista. Na perspectiva de Adorno, a sociedade deve ser apreendida em seu processo de reprodução material como reificação, mediação socialmente invertida. Cabe à teoria ir além do momento subjetivo da coisificação, ao decifrar as determinações objetivas da subjetividade. Não basta só revelar o sujeito por trás da reificação: ele é também socialmente determinado na adequação ao vigente, como sujeito que se sujeita e não experiencia as contradições sociais da produção efetiva da sociedade, ocultas ideologicamente na ordem social imposta pela indústria cultural. A educação não é idealista, para a emancipação, mas dialeticamente baseada na crítica à semiformação real e se orienta por possibilidades presentes, embora não concretizadas, na experiência das contradições da formação social efetiva. (Wolfgang Leo Maar).