A arte abstrata sob a ótica de Mário Pedrosa

Lucas de Araujo Barbosa Nunes

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Câmpus Assis.
Email: lucas_historiador@hotmail.com , araujonunes82@gmail.com.
 
Resumo:
Foi somente no final da década de 40 que a arte abstrata brasileira será valorizada, principalmente pelo crítico de arte Mário Pedrosa. Podemos afirmar que, neste momento crucial para a arte moderna brasileira, as ideias levantadas por ele serão de suma importância para o desenvolvimento da arte abstrata no Brasil. Nesse sentido, procurarei nesta comunicação destacar as filiações teóricas que ele se utilizou para defender a arte abstrata no Brasil, que até então se encontrava muito presa à figuração ou mesmo às estéticas cubistas e expressionistas de temática nacionalista.
 
Título: A arte abstrata sob a ótica de Mário Pedrosa
 
Foi durante o seu exílio nos Estados Unidos (1937-1945) que o nosso crítico se converteu de fato a causa da arte abstrata. Ao entrar em contato com a obra de Calder, em 1944, Pedrosa se encantará com “a força expressiva da forma nos móbiles soltos no espaço, que evidenciavam o tema do trabalho desse artista”. Agora, a arte se tornava um objeto da vida, podendo, na visão do crítico, “operar uma transformação do mundo pela arte abstrata ao obrigar o espectador a uma “verdadeira reeducação da sensibilidade””[1]:
 
O crítico enxergava na arte abstrata uma possibilidade de reformulação contínua da sensibilidade humana. Isso um ininterrupto recondicionamento inteligente de destinos dos seres sociais modernos e urbanos enquanto indivíduos e também enquanto massa. Essas novas maneiras de apreensão sensorial da arte moderna (leia-se abstrata) abririam caminhos intelectuais em tais indivíduos despertando neles entendimentos muito maiores de suas contemporaneidades, livrando-os do ostracismo mental midiático, da alienação de uma sociedade de consumo e do entretenimento, ampliando seus horizontes sociais para muito além do universo estrito da arte.[2]
 
A obra do artista americano expressava, de forma clara, as virtudes que Pedrosa considerava serem essenciais na obra de arte: a potência sintética e universalizadora. Ao tentar dissociar as contradições entre subjetividade e objetividadee as relações entre forma e expressão, Pedrosa buscou “uma resposta materialista para a questão da percepção estética”. Nesse sentido, procurou “uma resposta para o entendimento do fenômeno artístico numa dimensão universal”, ou seja, um “fundamento objetivo para estabelecer a universalidade da experiência”[3]. É por essas filiações teóricas que Mário Pedrosa se posiciona na defesa da arte abstrata que, no Brasil, se encontrava muito presa à “figuração ou mesmo às estéticas cubistas e expressionistas de temática nacionalista”[4].
 
O crítico de arte Mário Pedrosa dedicou-se “a essa polêmica como principal teórico da arte abstrata, buscando, ao longo de sua produção como crítico de arte, estabelecer um debate dialético de análise tanto das influências externas de nossa história da arte como de seu caráter nacional”[5]. Esta defesa sistemática da arte abstrata não quer dizer que ele tenha abandonado as preocupações sociais, o que seria incompatível com sua permanente militância política que o acompanhou a vida toda. Tal como apontou Otília Arantes, Pedrosa havia passado “a acreditar na possibilidade de uma síntese (embora precária) entre atualidade máxima e arte social”, notando que “a reconciliação entre as duas províncias se daria menos no plano mais explícito dos temas do que no terreno dos procedimentos artísticos”[6].
 
Os modernistas de 1922 “não tinha em seu horizonte a defesa de uma pintura nacional, mas o desejo de modernidade, de atualização estética, ou seja, de incorporar, na arte brasileira, as conquistas estéticas das vanguardas europeias”[7]. Em seu artigo “Semana de Arte Moderna”, Pedrosa afirmou que “os jovens, poetas e artistas de 1922, foram contaminados pelos espírito moderno que absorvia na Europa a sensibilidade e a inteligência dos seus artistas mais capazes e dotados”[8] Estes artistas brasileiros estavam buscando uma singularidade para a sua arte moderna.
Foi no final da década de 40 para o 50 que se dá uma nova ruptura na arte moderna brasileira, representada pelos abstracionistas. Foi “neste momento crucial para a arte moderna brasileira, as ideias levantadas por Mário Pedrosa vão incendiar o meio artístico brasileiro, tendo ele contribuído para o desenvolvimento da arte abstrata no Brasil”.[9] Ele passou a se interessar pelos aspectos relacionados à forma e os meios de expressão específicos da própria arte, independente de uma mensagem a ser transmitida. Esta tendência foi impulsionada pela I Bienal de São Paulo (1951), que proporcionou aos críticos e artistas brasileiros um contato maior com as obras abstratas estrangeiras.
 
Pedrosa acreditava que a arte abstrata poderia obrigar o espectador a uma “verdadeira reeducação da sensibilidade”. Nesse sentido, “o objeto-arte, para Pedrosa, teria a incumbência social de atingir as intuições humanas por meio da sensibilidade, que por sua vez, seria afetada por aquile objeto estético”[10]. Portanto, a arte abstrata expressava as qualidades que o nosso crítico acreditava serem essenciais: sua potência sintética e universalizadora.
No que diz respeito a questão da sensibilidade na obra de arte, Pedrosa não queria discutir qual pintor ou obra leva mais sensibilidade ao público. Mas como a arte tem o potencial de operar uma reforma interna do homem, tornando-o autônomos, munidos de ferramentas para refletirem de modo independente a sua realidade. Pedrosa acreditava que a arte abstrata abria essa possibilidade de reforma interna do homem.
 
Para os modernistas brasileiros, o primitivismo cubista e a deformação expressionista de viés social eram a maior expressão de nossa arte, ao passo que com a abstração, “seríamos obrigados a renunciar a tudo isso” e que “uma tradição articulada a duras penas seria erradicada da noite para o dia, forçado a um novo recomeço”. Entretanto, eles esqueciam que o “primeiro modernismo também fora um corpo estranho” no campo artístico brasileiro, e que também precisaram romper “com um sistema análogo de estilos quase oficiais”. A arte abstrata representava um novo ciclo de atualização, “a que nos condenava nossa sina de país periférico”[11].
 
Em um debate intitulado “Arte abstrata ou arte com temática social”, realizado no auditório do Ministério da Educação, Pedrosa defendeu que o abstracionismo promovia uma reeducação da sensibilidade. Neste momento, “é interessante destacar que a abstração dos concretos, sobretudo a dos neoconcretos, estava na contramão dos movimentos internacionais”, sendo que “o informalismo e tachismo eram as propostas estéticas predominante no circuito internacional de arte”. Pedrosa “era bastante crítico em relação a essas propostas, que ele considerava parte de um “subjetivismo individualista”, que reduzia a arte a uma catarse do artista ou numa mera construção de formas”[12].
Neste período que Pedrosa procurou aplicar a teoria das formas da Gestalt às obras de arte. Foi a partir disso que ele elaborou a tese, “Da natureza afetiva da forma na obra de arte (1949)”[13] assinala a profunda erudição de nosso crítico, baseando a sua crítica numa sólida base teórica. Pedrosa acreditava que somente seria possível apreender a arte em sua essência e significação, quando se compreendesse a percepção humana.
 
O nosso crítico via na arte abstrata a possibilidade de síntese não só entre o universal e local. Segundo Juana, “a universalidade proposta por Pedrosa não significa simplesmente acompanhar as vanguardas internacionais, como foi realizado no nosso primeiro momento moderno, mas sim a produção de uma arte de comunicação global, ou seja, universal”[14]. Para ele, “nossa tendência à abstração fazia parte de nossas origens culturais e já estava presente na arte dos índios brasileiros”[15].
 
Esta possibilidade de unir uma alternativa estética avançada a um primitivismo enriquecido por uma dimensão social estimulou Pedrosa não apenas como crítico, mas também como líder de movimento artístico. Foi por seu conselho que se fundou o grupo Frente, no Rio de Janeiro,  movimento que assumiu a arte concreta no Brasil.
Enfim, Pedrosa acreditava que a função da arte era reeducar a sensibilidade do homem, contribuindo assim para desenvolver a sua autonomia crítica em relação a realidade que o cerca. E o melhor caminho era a arte abstrata.
 
Bibliografia
ARANTES, Otília Beatriz Fiori. “Mário Pedrosa e a tradição crítica”, In. MARQUES Neto, José Castilho (org.) Mário Pedrosa e o Brasil. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2001
MUNERATTO. Bruno Gustavo. Os movimentos da sensibilidade: o diálogo entre Mário Pedrosa e Alexander Calder no projeto construtivo brasileiro. Assis, 2011 (tese de mestrado).
NAVES, Rodrigo. “Debret, O neoclassicismo e a escravidão”. In: _______. A forma difícil: ensaios sobre arte brasileira. São Paulo: Ática, 1996.
PEDROSA, Mário Forma e Percepção Estética: Textos Escolhidos II; Otília Arantes (org.). - São Paulo: EDUSP, 1996.
______________. “Da natureza afetiva da forma na obra de arte”, In. Otília Arantes (org.) Forma e Percepção Estética: Textos Escolhidos II – São Paulo:EDUSP, 1996.
_______________. Acadêmicos e Modernos: Textos Escolhidos III; Otília Arantes (org.) -  São Paulo: EDUSP, 1998.
_______________ “Semana de Arte Moderna”; in: Acadêmicos e Modernos: Textos Escolhidos III; Otília Arantes (org.). - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998, p.136.
PEREIRA, Juana Nunes. A contemporaneidade das contribuições críticas de Mário Pedrosa, 2009, tese(mestrado em Artes) – UERJ, p.20
 
 Expositor


[1]     PEREIRA, Juana Nunes. A contemporaneidade das contribuições críticas de Mário Pedrosa, 2009, tese(mestrado em Artes) – UERJ, p.20
[2]     MUNERATTO, Bruno Gustavo. Os movimentos da sensibilidade: o diálogo entre Mário Pedrosa e Alexander Calder no projeto construtivo brasileiro. 2001. 195f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2011, p.13.
[3]     PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p.20.
[4]     PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p.21.
[5]     PEREIRA, Juana Nunes. 2009, pP.16.
[6]              . PEDROSA, Mário Forma e Percepção Estética: Textos Escolhidos II; Otília Arantes (org.). - São Paulo: EDUSP, 1996, p.14.
[7]     PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p18.
[8]              . PEDROSA, Mário. “Semana de Arte Moderna”; in: Acadêmicos e Modernos: Textos Escolhidos III; Otília Arantes (org.). - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998, p.136.
[9]     PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p pp.19-20.
[10]    MUNERATTO. Bruno Gustavo. Os movimentos da sensibilidade: o diálogo entre Mário Pedrosa e Alexander Calder no projeto construtivo brasileiro. Assis, 2011 (tese de mestrado), p.13.
[11]     ARANTES, Otília Beatriz Fiori. “Mário Pedrosa e a tradição crítica”, In. MARQUES Neto, José Castilho (org.) Mário Pedrosa e o Brasil. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2001, pp.45-46.
[12]     JUANA, pp. 23-24.
[13]     PEDROSA, Mário. “Da natureza afetiva da forma na obra de arte”, In. Otília Arantes (org.) Forma e Percepção Estética: Textos Escolhidos II – São Paulo:EDUSP, 1996 p.p. 103-177.
[14]    PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p.24
[15]    PEREIRA, Juana Nunes. 2009, p.25.